O segredo do céu
3 A corrida
Notas iniciais
Completei o teste. Pousei a caneta e deu uma última olhada às minhas respostas. Tinha plena certeza de ter tudo bem. Encostei-ma á cadeira e fiquei a rodar a caneta na minha mão. Em pouco tempo tinha-me habituado com letras e números, era como se dançassem á minha volta e eu só tinha de me juntar á dança.
Estou já no terceiro ano e sou o melhor aluno da turma, embora ainda seja gozado por toda a turma. Ainda choro. Não consigo controlar. Uma coisinha que desperte os meus nervos leva-me logo a chorar. Já estive em psicólogos, mas eles não entendem. Ninguém entende…
A campainha soou anunciando o fim do teste. Havia muitos que ainda nem tinham acabado e pediram á professora para ficar mais um bocado. Ao que ela anuiu de bom grado. Eu entreguei-lhe o teste e saí da sala para lanchar.
Sempre lancho no mesmo lugar. Um lugar isolado onde ninguém me vinha chatear e podia sentir o vento a bater gentilmente na minha cara. Era o meu lugar… Um lugar onde apenas eu estava e não precisava da mais ninguém…
O toque de entrada fazia-me acordar á realidade. Eu não estava sozinho… Dirigi-me á sala e sentei-me. Alguns tinham acabado agora de fazer o teste. Quando todos estavam sentados a professora começou a dar matéria.
Quando acabou fez então o anúncio que todos esperavam:
-Não se esqueçam que amanhã é a corrida! Todos são obrigados a participar!
Era o que eu esperava. Tinha treinado desde que soube. Era a vez de mostrar do que era capaz. Todos acreditavam que seria o Mikael a ganhar, mas eu ia-lhes mostrar…
O toque de saída fez com que todos começassem a sair. Quando estava prestes a passar a soleira da porta fui parado por Mikael que me disse em tom de gozo:
-Então vais chorar na corrida para ver se consegues ganhar?
Sorri e disse-lhe com olhar sério:
-Quem vai chorar vais ser tu quando me vires na tua frente!
O sorriso dele desapareceu e o seu olhar ficou mais sério. Não tive tempo de dizer mais nada, e acabei por levar com um murro que me atirou para o chão. Olhei para Mikael e o seu olhar estava carregado de raiva:
-Ainda acreditas que és melhor do que eu? Veremos!
Virou costas e saiu. Levantei-me devagar e passei a mão no sítio onde ele me teria batido. Ele iria ver… Todos iriam ver…
#
O dia chegou. Mal consegui dormir. Todo o meu esforço iria se mostrar agora. A corrida das raparigas já tinha sido. Nenhuma da nossa turma tinha conseguido ficar nos primeiros cinco. E agora era a vez dos rapazes. Já nos encontrávamo-nos todos na partida. Todos esperavam o toque para começar. Olhei para Mikael e ele retribui o olhar. Um homem ergueu uma pistola e gritou:
-Preparar! – Todos colocámos o pé em posição de partida. – Vão! – O homem puxou o gatilho e o som do tiro levou todos a começarem a correr o máximo que podiam. Tolos! Deixei-me ficar para trás a conservar energia. Começarem a correr assim apenas os ia deixar cansados logo de início…
Estava praticamente em último. Atrás de mim estavam apenas uns rapazes mais gordos que já tinham desistido de correr. Eu apenas ia correr a sério na última metade da corrida, até lá ia conservando energia.
Á medida que avançava ia passando vários rapazes sem sequer correr a sério. Alguns começavam a cair e nem se levantavam com o cansaço. A minha teoria confirmava-se. Havia alguns que continuavam a correr, embora estivessem totalmente cansados e outros que iam a andar. Passava-os a todos. Em pouco tempo tinha passado a maioria deles.
Foi então que cheguei á última metade da corrida. Respirei fundo e desatei a correr o máximo que podia deixando para trás vários rapazes alarmados. Após passar vários rapazes deparei-me finalmente com Mikael. Continuava a correr mesmo estando cansado. Se eu o passasse poderia mostrar a todos o que valia.
Dei o máximo de mim naquele momento. Rapidamente cheguei ao pé dele. Ele olhou-me com um olhar misto de espanto e raiva e começou a correr mais rápido, ao que eu respondi correndo com a mesma velocidade. Corríamos lado a lado, numa luta desesperada para ver quem vencia. Ambos estávamos completamente cansados, mas continuávamos a correr por mais estafados que estivéssemos.
Enquanto corria um pensamento atravessou-me a cabeça: “Porque estava a correr daquela maneira?”; “Qual era afinal o meu objetivo?”. A verdade era aquela: não havia razão para estar a correr daquela maneira. Seria melhor desistir e entregar a vitória. Não significava nada aquela corrida. Era apenas uma maneira para cansar os alunos.
Decidido comecei a abrandar um bocado, mas outro pensamento atravessou a minha mente: “Então e todo o treino que tive?”; “E o meu desejo de fazê-los ver de que eu era mais que um simples chorão?”; “Iria tudo por água abaixo?”.
Estes pensamentos renovaram a minha confiança e corri ainda mais fortemente do que antes. Eu iria mostrar todos o que valia!
Foi então que avistei a linha de meta. Mikael também tinha visto já que aumentou a velocidade. Corríamos lado a lado para decidir quem ganhava. Cada vez mais nos aproximávamos da meta. O meu coração batia forte e as minha pernas pediam por um descanso, mas continuava. Havia pessoas a gritar dando iniciativa. Eu e Mikael não descolávamos. Estávamos exatamente á mesma velocidade e nenhum vencedor se mostrava. Não podia continuar assim…
Veio-me então uma ideia á cabeça e executei-a nesse momento. Quando faltava pouco para a meta, dei um impulso forte com o pé para a frente como se fosse a saltar. E esse impulso levou-me á vitória!
Quando dei conta já estavam a anunciar que tinha ficado em terceiro e Mikael tinha ficado em quarto. Terceiro?! Pensava que ficariam em primeiro… Não importava. Tinha ficado á frente de Mikael e isso era o suficiente para mostrar do que eu era feito.
Estatelei-me ao comprido no chão, sem sequer conseguir mover um músculo. Tinha dado todas as minhas forças… Senti vários outros rapazes a chegarem, mas o meu cansaço mal me deixava vê-los.
Quando o último chegou, anunciaram os resultados. Sem me dar conta estava a ser levado para um pódio com o número 3 em baixo enquanto as pessoas aplaudiam fervorosamente. Senti-me no topo do mundo! Embora estivessem a aplaudir para três eu senti como se todos os aplausos fossem para mim…
Quando tudo acabou dei por mim frente a frente com Mikael. Ele olhava-me cheio de ódio. Limitámo-nos a olhar um para o outro sem dizer nada. Não precisávamos de dizer nada. Após um tempo Mikael vira costas e vai-se embora sem dizer mais nada. Fiquei a observá-lo ao longe. Ele estava enervado. Provavelmente amanhã iria arranjar novas maneiras de gozar comigo. Mas não me importava. Eu tinha vencido. Tudo que dissesse seria apenas coisa de mau perdedor…
Olhei para o céu, cerrei o punho e disse para mim mesmo: “Viste avô? Dei o meu melhor? Estás orgulhoso?” Continuei a olhar para o céu e uma brisa passou por mim e arrepiou-me a espinha por completo. Um mau pressentimento percorreu o interior do meu corpo. Fiquei parado sem reação a olhar para o céu. Sem me aperceber acabei por
Fale com o autor