O segredo de Esti
2 O retorno de Lune
Notas iniciais
Esti tinha quinze anos quando descobriu que jamais amaria um homem. Observava o jeito que Ronit fechava os botões da camisa, ainda sem as vestes de baixo, o formato atraente de suas coxas despidas era bonito demais, a forma que ela se movia enquanto escolhia o que usar e sorria para o espelho, tudo a encantava. Sabia que a amava para além do fraternal, pois as mãos formigavam contendo o desejo de correr e tocá-la, matando o que a deixava tão curiosa sobre aquele estranho desejo de sentir uma mulher. Durante anos, repreendeu-se por sua real natureza, a judia tinha uma família que seguia rigidamente à doutrina. Dando-se conta de que nada reduziria a essência que a dava vida, desistiu de viver sob autonegação. O resultado fora destrutivo, pois a moça acabou sendo levada para longe, estudou durante seis anos em um Colégio Judeu e ao retornar, Ronit havia partido. Foi assim que ela acabou se tornando a Gemóloga mais reconhecida da Região, o seu toque era ímpar, geniosamente excêntrico, não existia nada comparado àquela pequena estrela. Ninguém modelava um cristal com aquela delicadeza, tornando-o impossível de deixá-lo apenas como uma mera lembrança da visão. Suas coleções eram feitas através da conexão particular que a jovem possuía com o infinito estelar, desde menina Esti amava o céu e as suas infinitudes inalcançáveis. Sua coleção mais recente e, atraente, chamou de Lune; gargantilhas miúdas, com toques de esmeraldas e pontos cristalinos.
***
— Veja só — Lou estendeu a revista. —, esta é a tal da Kuperman, Esti Kuperman... bonita, não? E um só talento! Essa garota só tem 25 anos e já está enricando as duas próximas gerações de Kuperman’s com uma baita coleção de diamantes e cristais.
— Uau, ela é linda! — Debbie comentou admirada. — Mas...
— Dê uma chance! — aproximou-se da esposa, tentando tocar os seus ombros. — Hoje haverá uma festa de divulgação, estão lançando a coleção Lune, por favor, a Daphne já conseguiu os nossos convites!
Debbie soltou-se de seus braços.
— Já a envolveu nisso sem sequer ouvir a minha decisão? — fechou a cara e saiu irritadiça.
Lou bufou, já estava prestes a correr atrás da amada quando o punho de Debbie acenou-lhe um baita não.
— Cuide das garotas, vou escolher os nossos vestidos. — disse a morena, sorrindo de soslaio. — Nos encontramos às oito.
Sorrindo vitoriosa, Lou a respondeu:
— É por isso que eu a pedi em casamento! — animada, saiu dando pulinhos e largos sorrisos.
***
— Eu não sei o que você espera que eu faça, honestamente! — dizia a Sra. Kuperman, entre cochichos. O marido parecia exaltar-se, pedindo a esposa que desse um jeito naquilo.
— Como farei isso, homem? — insistiu. — Não posso dizer a menina que não venha visitar a amiga! Não posso impedi-la!
— Claro que pode! — aproximou o rosto da mais velha, que penteava os fios rebeldes da peruca ruiva. — Ou será que já se esqueceu das “brincadeiras” que elas inventavam naquele porão?
— Oh, por Deus, fale baixo, se a Esti o ouve-
— Eu? — a voz suave da filha ressoou no espaço tenso entre os pais. — Por que discutem tanto?
— Ora, está bisbilhotando agora? — a mãe virou-se, fingindo mexer algo num bule que há muito já fervia em vapores frenéticos. — É o seu pai! Está... ora, virando um velho teimoso e não quer tomar as medicinais – ela se referia às ervas que uma curandeira havia receitado para a insônia do marido. –, insiste em chamá-la de bruxa e... Ah, você sabe! — a voz era tempestuosa, porém tênue. — Está pronta para hoje? — mudou sorrateiramente o assunto e, também, a feição. — O seu vestido já está lá em cima, só falta escolhermos a joia ideal!
Esti sabia que aquilo não passava de um grande disfarce, mas aprendeu a não confrontar os pais e, seja lá o que fosse, não dava a mínima.
— Uhum! — sorriu entre o murmúrio. — Sei, claro! Bem, eu pensei em dar uma olhada em como a loja está antes disso e...
— Oh, querida! — alvoroçada, Lenore foi até a filha, tocando-lhe nos braços com uma intimidade maternal. — Não quero que você se preocupe com essas coisas, o seu trabalho é estar deslumbrante e descansada. Sei que mal dormiu.
Esti concordou com a cabeça, dando-se conta de que mal havia pregado os olhos de tanto que revirou a cama assombrada com os sonhos que lhe traziam a imagem da amiga de infância. Estava tão contente em finalmente estar prestes a realizar a coleção que fizera inspirada em uma de suas brincadeiras, que não contava com o tormento de não dividir aquele sentimento com Ronit.
[Flashback on]
O céu estava desnudo entre um coral brilhante e estelar, cada ponto branco no céu parecia entrar em brasa incandescente. Os olhos da menina sonhadora cintilavam em encanto, Esti era a maior admiradora do Universo que habitava Portland, pensava ela sobre si mesma.
— Perdeu o sono? — a voz de Ronit soou rouca, parecia ter dormido por uma eternidade.
Esti não se virou, riu baixinho, afastando na sacada para que a amiga se juntasse a ela naquele passeio visual.
— Vem cá, Rô. — pediu, mostrando o espaço livre. — Escolha qualquer uma, venha!
— Qualquer uma? — a morena coçava os olhos, buscando uma melhoria na visão. — Está frio, por que está aqui fora?
— Você vem ou não?
— Vou. — Ronit foi logo pondo as duas pernas compridas para fora da enorme janela, apoiando-se no corpo de Esti. — Uau! — admirou-se assim que avistou a beleza estonteante da lua prateada no topo do negro céu. — Que lindo, Esti... É aqui onde você se esconde quando não a encontro na cama?
— Você me procura na cama? — a barriga da loira sentiu um arrepio gélido trepidá-la. Depois riu, percebendo que a outra ficara sem jeito. — Bem, nem sempre... às vezes eu vejo de lá! — apontou para a casa de árvore que ficava do lado de fora. — ‘Tá, mas me diga de uma vez... Qual deles você quer que seja sua?
— Está falando das estrelas? — o riso de Ronit transpassou a alma de Esti e a aqueceu. — Hum... Preciso pensar!
— Não pense muito, nunca se escolhe uma estrela, é ela quem te escolhe, só deixe os seus olhos correrem por elas.
O jeito que a judia falava era especialmente atraente, a carícia do seu tom ameno acalentava todos os poros abertos do corpo de Ronit.
— Você é inteira poesia, não é? — respondeu-lhe, com os olhos fixos no perfil da menor. — Não consegue evitar.
Esti se virou, encontrando de supetão o olhar admirador de Ronit e aquele momento silencioso e arrepiante fez ambas reter a aceleração normal dos corações.
— Ah, pare com isso... — Esti sentiu o rosto corar em tons de rubi, desviando o olhar para o céu novamente. — Escolha!
— São todas tão... Iguais, brilhantes. — Ronit balançou a perna, ansiosa. — Escolho a lua, pronto.
— A lua? — a loira riu. — Por quê?
— Porque é maior e mais bonita. E parece uma joia, um pingente... — imitou com os dedos o desenho da lua que via no céu. — Por que quer que eu escolha?
— Ia dar uma a você, escolher um nome... Essas coisas bobas que se faz vendo o céu.
— Quero a lua, mas ela já é um nome. — sorriu, apoiando a cabeça no ombro da amiga.
Logo, a mão meio trêmula de Esti se arrastou de fininho para os cabelos macios da outra, acarinhando bem ali.
— Claro que podemos dar outro nome, um que combine com ela.
— Ela combina com “Lua”. — Ronit ainda sorria, achando graça do jeito sonhador que diferia Esti dela. — Em latim os gregos chamavam a deusa Romana de “Lune”, porque só ela se assemelhava à tão bela lua do céu. O que acha desse nome, então?
— Como sabe disso? — achou bonito, sabia que Ronit não se interessava por assuntos como este. — Lune... Eu gosto, vamos chamá-la assim, será Lune sempre que estiver minguante. Ela virá para nos ver.
— Ouvi na aula de literatura. — disse simplesmente, brincando com os dedos nas pernas de Esti. — Ela era a personificação da lua, algo desse tipo. Uma besteira mitológica.
[Flasback off]
— Esti! — Lenore vociferou, vendo que a filha havia caído no sono. — Dormiu a tarde inteira? Oh, céus! Levante-se, vá já paro o banho!
Assustada, a loira levantou-se da cama sobressaltada. Percebeu que já escurecia através da vidraça por trás da cortina.
— Desculpe, eu... Dormi sem querer, só estava pensando e...
— Esti!
— Já vou! — correu para a ducha.
Enquanto a jovem banhava o corpo, sua mãe separou sobre a cama tudo o que ela precisaria para usar na festa. Alguém viria modelar os seus cabelos dourados medianos, penteando-a com um quê vintage, porém usual. Esti tinha a pele absurdamente pálida, suas veias azuladas contrastavam impiedosamente com o branco lunar de seu corpo. O longo vestido violeta lhe vestia com maestria, estava apertado, no entanto sem causar-lhe incômodo; o colo à mostra, priorizando o belo decote que lhe enfeitava o busto. Combinou um sombreado escuro nos grandes olhos azuis e tocou com leveza um nude coral nos lábios. Estava deslumbrante, não havia quem negasse.
Em seu quarto, de frente ao espelho, tentava frequentemente unir o feixe da gargantilha que havia escolhido.
— Mas que droga! — praguejava baixinho, ainda absorta naquela tentativa. — Por que você não fecha?
— Posso tentar? — uma voz, próxima e familiar, percorreu os seus ouvidos, ao mesmo passo em que mãos geladas tocaram o seu pescoço, caçando a abotoadura do calor. — Calma... Quase lá... Fechou!
O perfume, aquele maldito perfume, Esti conhecia aquele cheiro, aquela voz, aquele toque.
— Ronit? — virou-se, para conferir que a imagem do espelho não era só uma aparição, só mais um jogo de sua mente. — Ronit!
— Oi, pequena estrela! — a morena a encarou com profundidade, deixando que os seus olhos e sorriso falassem por ela. — Você está... Não tenho palavras, Esti!
— Ronit! — a loira reproduziu dessa vez com um tanto magoado. — O que você... Ronit!
— Esti! — tentou baixar a cabeça, pois tinha um pouco mais de altura. — Oi, sou eu!
Os olhos da judia ameaçaram lacrimejar, mas ela foi mais rápida e engoliu o torpor dos sentimentos, saindo da vista de Ronit.
— S, o que você vai fazer aí?
— Não me chame de S! — respondeu raivosa, fechando-se no closet.
— É assim que eu a chamo desde os seis anos, qual é o seu problema? Está com raiva?
— Esti! — a mãe da moça entrou abruptamente pelo quarto. — Já está pronta? Sei que você e Ronit têm muito o que conversarem, mas precisamos ir, meu bem, saia logo!
— Você e Ronit podem ir na frente, eu vou dirigindo!
— O quê? — Lenore pôs logo a mão na cabeça, agitada. — Não pode ir dirigindo, estará de saltos, vai amarrotar o vestido todo!
— Mamãe!
— Deus! Está bem! — pegou a morena pelo punho, trazendo-a junto. — Não se atrase, estamos indo!
***
— E Então? — Debbie virou para Lou, mostrando o belo vestido cintilante que escolhera. — Como estou?
Quando a esposa virou para vê-la, sentiu o coração formigar, há muito não a via vestida assim. Estava tão elegante, os lábios preenchidos por um batom precisamente escolhido.
— Você é perfeita. — equilibrou-se nos sapatos, andando até Debbie. — Está linda, meu amor. — Beijou-lhe na face, evitando borrar o rosto bem maquiado.
— E você não está nada por baixo, hein? — Lou era uma mulher daquelas a quem os olhos são roubados, era atraente e o olhar enigmático lhe tornava ainda mais bela. Estava também muito bonita com o vestido preto em toque de seda, e os cabelos envolvidos em um penteado preso, realçando a face. — Sempre tão linda!
Quando entraram no carro, olharam-se com aquela íntima sensação do velho tornando-se novo, novamente. O que alimentava os espíritos aventureiros das duas era a adrenalina acerca dos roubos; os planejamentos, as festas, o ato.
— Como faremos? — Debbie questionou, retocando o batom no mini espelho do passageiro.
— Kurpman é uma moça bem reservada, judia e ainda não se casou. Sabe o que isso significa, sim?
— Lésbica. — Occean riu.
— Lésbica! — Lou riu também. — Reprimida, trabalha muito, a garota mal aparece. Quero que você use o seu talento para fotografar toda a coleção sem ser vista, decore o tamanho da loja, o diâmetro do espaço... E eu, bem... Eu serei talentosa do meu jeito. — sorriu maliciosamente ao final.
— Vai seduzi-la? — a esposa cruzou os braços, ainda em clima de riso.
— Para saber mais sobre as joias. — Lou ria.
— Ela é uma mulher muito bonita....
— Eu sei. — virou para olhar nos olhos da morena. — É um jogo, você conhece a minha arte.
Naquele estado do casamento delas, Debbie se sentia insegura, sabia que não era mais atraente como uma moça na casa dos vinte e elas já não transavam como antes. Não havia mais a histeria jovem do início.
— Espero que ela não se apaixone por você. — brincou, tentando fugir dos devaneios.
— Querida, veja bem, aposto tudo o que lucrarmos neste roubo que a Kurpman já tem uma paixão.
— O quê? — riu, impressionada. — Como sabe disso, detetive?
— Observe. — sorriu, mostrando que tinha cartas na manga.
Era uma festa altamente social, não se notava murmúrios escandalosos, todos pareciam falar educadamente sobre assuntos transparentes e monótonos. O local perfeito para passar despercebido. Lou e Debbie entraram juntas, mas logo se infiltraram entres os demais. Lou era uma artilheira, sabia conversar, puxar bons assuntos e manter a atenção de todos sobre si, enquanto a esposa fotografava a coleção exposta.
— Oh, ela chegou! — disse Juliet, uma empresária amiga dos Kurpman’s, que demonstrava total afeição à gemóloga. — Está tão linda!
— Sim, ela está! Como sempre, escolhendo o melhor traje. — Miller tentou parecer íntima. — Vou buscar um drink antes de cumprimentá-la... Pegar o seu favorito, ah-m, o... Qual é mesmo? — sorriu, fingindo conhecê-la a fundo. — Ela nunca deixar faltar!
— Rosé! — Juliet completou. — Esti é a mulher mais apaixonada por vinho rosé que eu já conheci! Capriche na taça.
— Isso! — agradeceu sorrindo e saiu antes que a judia entrasse na sala.
Enquanto estava no bar, notou a esposa se aproximar. Foram cautelosas, não trocaram contato visual. Apenas pequenos cochichos. Àquela distância notaram os olhares fulminantes entre Kurpman e uma outra mulher com cara de choro, pareciam guardar mágoas.
— Ora, ora. Quem diria que eu havia me casado com um gênio.
— Sh! — Lou sorriu, com o canudo entre os lábios. — Não fale tão perto.
Debbie se virou, acenando para o barman.
— Ex? Hétero? O que você acha?
— É o que vamos descobrir. — disse a loira, saindo devagar. — Contudo, aposto em um romance antigo.
Deixou Debbie entre sorrisos e feições curiosas, aproveitando o passeio de Esti pela saleta, aproximando-se gentilmente.
— Droga, ela estava certa! Você é mesmo mais bonita pessoalmente. — Lou falou, fazendo-a se virar para saber de onde vinha aquela voz ao pé de seu ouvido. — Olá, sou a Miller!
Esti estendeu a mão, sorrindo timidamente, mas Lou fora mais insinuosa e a puxou para um abraço, seguido de beijos no rosto.
— Eu me apresentaria, mas presumo que já me conheça. — comentou sorridente, aceitando a taça que a mulher estranha lhe oferecia.
— Soube que gosta do rosé, acertei?
— É o meu predileto. — confirmou, ainda estranhando aquela aproximação repentina. — Perdão, senhorita Miller, já nos conhecemos?
— Oh, querida, não.... — falou docemente. — Sou apenas uma grande admiradora de suas joias, vim de Vancouver só para ouvir de você o que a levou a criar algo tão único. Preciso confessar, Lune é diferente de suas peças anteriores...
— Fico honrada, senhorita Mi-
— Por favor, me chame de Lou! — pediu, tocando-lhe antebraço gentilmente.
— Lou —, Esti remoçou. — Você é joalheira, trabalha com cristais ou... Por favor, me diga de onde vem essa admiração! — sorriu de um jeito estranhamente sensual, Lou corou.
— Uau!
— O quê?
— Nada! — riu, se recompondo. — É só que... Você é diferente do que eu pensei. Podemos conversar enquanto você me mostra as peças de perto?
— Claro!
Esti caminhou à sua frente, enquanto Lou lhe acompanhava. Procurou Debbie com os olhos e gesticulou algo com os lábios. Ela é boa.
De longe, a morena observava o movimento de terceiros. Viu que a aproximação de Lou com Esti provocou uma estranha inquietude na moça de antes.
— Veja só, a real inspiração para esta coleção é um segredo que está escondido a sete chaves em meu coração. Eu jamais falaria sobre isso para uma admiradora desconhecida, bela e... alta! — Esti dizia, rondando as vidraças que protegiam as joias. Parou, frente à maior delas. — Esse é o colar da Lune 18, foi a minha última peça, intitulamos de constelação lunar, por conta dos mínimos cristais em formato de lua que eu distribuí em seu pingente superior, se olhar bem, eles formam uma lua ainda maior.
Os olhos de Lou brilhavam, era realmente surreal.
— Incrível, senhorita Kuperman, o talento é visível.
— Esti, por favor.
Sorriram. Lou aproximou-se, apreciando com os olhos vidrados sobre a gargantilha em seu pescoço.
— E este? — perguntou.
— Esse é o coração violeta. Sairá do meu pescoço diretamente para o cofre central.
— Por que tanta cautela?
— Faz ideia de como é difícil lapidar um cristal violeta? — tocou o próprio colar com os dedos delicados. — A parte mais difícil é encontrá-lo, a segunda é moldá-lo sem estilhaçar o seu interior. É a peça mais cara, ela compraria todas as outras.
— É perfeita!
Lou estava encantada, Esti era incrivelmente talentosa e bonita. Seria um roubo difícil.
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