O ruivo da casa 813
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Notas iniciais
– Mabel, está pálida o que houve? Está parecendo que viu um fantasma. — Cassiana me olhava com a sobrancelha arqueada.
– F-Fantasma? Não... Claro que não, eu estou bem.
– Vamos entrar e tomar chocolate quente. — Ela puxou o meu braço me arrastando para dentro.
– E o meu castigo?
– Amanhã você termina, está muito frio.
Subimos para o refeitório e então tomei o chocolate quente, que me esquentou instantaneamente.
Shelby não dividia mais o quarto comigo. Pelo menos Cassiana achou melhor assim, até o meu castigo acabar. Eu sabia que ela estava furiosa comigo, mas a culpa era dela por não acreditar em mim. Aliás, a culpa era daquele ruivo maldito. Afinal, quem era ele? E como, e porque ele sumia do nada? Eram muitas perguntas para poucas respostas. Eu estava cansada disso, só tinha certeza de uma coisa, os seus olhos mórbidos e acinzentados eram hipnotizantes.
Abri a porta do quarto, e foi estranho não encontrar as coisas de Shelby espalhadas. Sentia-me solitária naquela imensidão vazia. Tranquei a porta, tirei as botas cobertas de neve, e fui até a janela que estava entreaberta. A janela era grande, tão grande que poderia ficar sentada por horas observando as estrelas, sem medo de cair do outro lado. E bem, foi isso que fiz. Acomodei-me no parapeito, podia observar os meus pés balançando de uma altura consideravelmente amendrotadora. Mas, eu não tinha medo de altura, nunca tive. Aliás, eu nem me lembrava qual foi a última vez que eu tivera medo de algo. Meus olhos pararam na última casa da rua, a luz estava apagada. Como sempre ficava, e sempre ficaria. Eu sabia que aquele dia, era somente a imaginação fértil de Shelby, que me deixou levar. Desviei o olhar para o céu, que estava lindo. Pontinhos brancos cintilantes tomavam o lugar do que antes eram nuvens carregadas. Aquilo era no minímo, inácreditavel. Quer dizer, horas atrás caia uma tempestade de neve horrenda, como isso era possível?
– Há coisas que se explicadas, perdem á graça.
Meu coração pulou algumas batidas, e meu corpo deslizou um pouco mais no parapeito, quando aquela mesma voz doce, sublime e melodiosa ecoou em meus ouvidos. Sentia sua respiração quente em minha nuca, e um arrepio percorreu minha espinha.
– Calma, se não você vai cair. — Suas mãos enlaçaram o meu corpo o puxando para fora da janela.
Minhas pernas estavam ligeiramente bambas. Mesmo casaco preto, mesmas botas, cabelos bagunçados, olhos mórbidos... Aquele garoto, acabava com a minha sanidade mental definitivamente.
– Como entrou aqui?
Ele se aproximou e eu institivamente agarrei o objeto á minha direita em caso de ataque. Um abajur. Revirei os olhos e ele sorriu.
– Vai me bater com isso?
– Posso fazer um estrago.
Ele sorriu de canto e eu apertei firme o abajur.
– Me diz de uma vez, quem é você e porque fica me perseguindo? — Disse em uma posição defensiva, enquanto ele deitava (na minha cama) despreocupado.
– Eu não sei. — Ele fitou o teto. — Só você pode me ver, então tenho que te perseguir. É entediante ficar sozinho.
– Mas, porque eu? — Me aproximei e o ruivo rolou os olhos.
– Já disse que não sei. Está vindo alguém.
– Espe... — Mas ele já tinha desaparecido.
Ouvi batidas na porta.
– Mabel! — Era a voz de Madame Lápudia.
– O que foi?
– Quem está ai? — Ela dizia ainda do outro lado da porta.
– Ninguém. — Eu abri e ela entrou vasculhando cada canto.
Madame cruzou os braços e me olhou desconfiada.
– Pelo que eu sei, Shelby trocou de dormitório, com quem estava falando?
– Eu me sinto solitária sem a Shelby aqui...
"Menina louca". Ela murmurou antes de sair e fechar a porta. Bom, pelo menos ela havia acreditado
– Garoto ruivo, está ai? — Disse baixinho, esperando que ele aparecesse. Mas, nada.
Droga, o que eu estava fazendo conversando com o nada?
Fui até o banheiro, e fitei meu reflexo no espelho. Tudo que vi foi um par de olhos ambâr opaco e cheio de olheiras. Notei alguns fios soltos na trança longa que prendia o meu cabelo loiro-acinzentado. O casaco escorregava de meus ombros finos, e a saia preta, até os joelhos também precisava de alguns ajustes. Sempre fui bem magrinha, aliás, era como se eu fosse só o esqueleto coberto por uma camada fina de pele. Ok, acho que exagerei. Minha pele era branca, e raramente tomava um sol, o que me deixava terrivelmente pálida. As vezes me via como aquelas bonequinhas de porcelana amaldiçoadas dos filmes de terror. Bom, vai saber. Talvez eu fosse alguma parente distante da Annabelle. A única coisa com um pouco de vida em mim, eram os meus lábios. Carnudos e em um tom rosa-arvermelhado.
Desfiz a trança, abri a torneira da banheira no mais quente possível. Entrei ná agua, e afundei até o pescoço. O banheiro era velho, e os encanamentos também. Desliguei a torneira assim que encheu até o topo, ainda continuava pingando, e aquele barulho me irritava. Será que eu estava realmente imaginando esse garoto? Quer dizer, ele aparecia do nada e sumia do mesmo jeito. Nenhum ser humano normal era capaz dessas coisas. Mas, ao mesmo tempo que duvidava de sua existência tinha certeza dela. Não tinha chegado a tocar em sua pele, mas ele sim, quando me puxará para fora da janela. Ele não era do mal, era? Se fosse poderia muito bem ter me empurrado para que eu passase dessa para pior. Como eu disse eram muitas perguntas para poucas respostas.
Prendi a respiração e afundei minha cabeça.
Talvez Shelby tivesse razão e eu estivesse enlouquecendo.
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