O roubo da Tiara de Julien
1 Parte 1/4
Notas iniciais
Tuesday — 06:00 pm.
A porta da frente do bar bateu, tanto pelo vento como pela força que o Capitão impôs ao empurrar a maçaneta. O telefone tocava de algum obscuro lugar conforme ele avançava a passos largos pelo lugar que gostava de chamar de “Esconderijo”. Jogou a jaqueta de couro sobre o balcão e olhou ao redor, percebendo Glória limpando uma das mesas no fundo e Alex com seus grandes fones de ouvido e batucando os dedos sobre os copos que deveria estar guardando.
Enrugou o nariz, o bigode grosso se enrolando com o movimento e apoiou as mãos na cintura estreita. Havia poucas pessoas espalhadas pelo lugar, bebendo e conversando. Era final do expediente, logo aquilo ali estaria cheio. O cheiro de biscoitos que vinha do fundo chamou sua atenção. Empurrou as portas duplas e viu Melman limpando o balcão de preparos com uma esponjinha, as luvas de borracha indo até quase seus cotovelos magros. A mania de limpeza do homem era realmente alterada. No canto oposto estava um anão rosado usando avental cor de rosa e cheio de babados.
— Recruta!
O pequeno levantou a cabeça, os biscoitos pulando dentro de sua forma e quase caindo pelo chão. Os olhos do tom azul bebê se alargaram e tentou esconder a prova de seu crime atrás das costas.
— Ca-capitão! Voltou cedo.
— Eu vi o que está fazendo. Trate de levar alguns para a sala de reunião. — Olhou ao redor e franziu as sobrancelhas. — Onde estão os outros?
Recruta e o olhou com sobrancelhas arqueadas e apontou para a porta no fundo.
— Na sala de reunião, Capitão. Como sempre.
— Ótimo.
Ele passou pelo pequeno e roubou um biscoito para si, resmungando ao queimar os dedos. Assim que adentrou a sala, composta por uma mesa larga com seis cadeiras; uma mesa de escritório abarrotada de papeis e os vários monitores e teclados de seu parceiro gênio e amigo, bateu a mão sobre a barba curta para tirar os resquícios de biscoito. Uma mecha de seu cabelo caiu sobre a sobrancelha, o resto raspado tão rente em sua cabeça pelo corte militar.
Kowalski estava sentado de frente para uma tela, o verde fazendo seu rosto parecer doente, os números correndo diante de seus olhos castanho escuros. O cabelo liso no mesmo tom, sempre bem penteado, estava um pouco amassado do lado esquerdo, o que podia significar que havia cochilado sobre a mesa enquanto trabalhava.
Se um dia ele chegasse ali e não o encontrasse na frente de suas telas poderia pensar que o amigo havia sido abduzido e ficado uma cópia mal feita.
— Kowalski, algum relatório?
O homem esguio virou os olhos do monitor, os longos dedos pálidos se cruzando sobre o estômago enquanto as costas relaxavam no encosto da cadeira.
— O último homem que prendemos foi julgado e está sendo preso neste instante. Ainda estou tentando seguir o rastro de Guttemberg, mas o homem parece ter sido sugado para dentro da terra.
— Continue procurando. Em algum momento ele precisará levantar a cabeça para sugar um pouco de ar. — Franziu o cenho e sorriu. — Isso me fez pensar em uma tartaruga. Sabe? Tartaruga? Elas nadam até no fundo e depois precisam voltar a superfície para pegar um pouco mais de ar.
— Muito similar, senhor — Kowalski disse secamente.
Infelizmente, o homem não tinha o mesmo bom humor de seu chefe. Apertou os dedos contra a testa quando o telefone tornou a tocar em sua mesa e se dirigiu até lá resmungando.
— Porque, diabos, vocês não atendem o telefone?
— Ocupados.
O Capitão ergueu os olhos, os dedos pousando sobre o telefone, e viu a sombra silenciosa no canto oposto da sala. Nunca iria admitir, mas o mercenário lhe causava calafrios em alguns momentos mesmo o conhecendo há anos.
— Ficar parado como uma estátua não significa estar ocupado, Rico. — Atendeu o telefone antes que o outro dissesse algo e logo empurrou o fone do ouvido.
— ROUBARAM! ROUBARAM E EU QUERO DE VOLTA!
— Acalme o rabo felpudo, Julien. Sobre o que você está gritando?
— Roubaram minha tiara e eu quero saber porque vocês ainda não fizeram nada para recuperá-la!
— Porque você acabou de ligar! Ainda não somos videntes. — Cobriu o bocal e olhou para Kowalski. — Ou nós somos?
— Sinto informar, Capitão, mas ainda não.
Recruta entrou pela porta carregando uma travessa repleta de biscoitos, o sorriso doce deixando ainda mais rosadas suas bochechas.
— Estes são de chocolate. Glória me ensinou a receita e...
A porta da frente bateu com força, calando a todos dentro da sala. Passos furiosos vieram pela cozinha e então a porta da sala de reunião se abriu com uma pancada, revelando um Julien muito irritado com o telefone pendurado no ouvido. Os cabelos platinados estavam revoltados, a grande franja caindo sobre um dos olhos de mel.
— Vocês vão encontrar minha linda tiara de ouro! É para isso que eu pago vocês, agentes bocós!
As sobrancelhas grossas do Capitão se arquearam e os outros se entreolharam. Kowalski se levantou de sua cadeira em toda a sua altura esguia de um metro e noventa e cruzou os braços. A camisa branca saía na barra por debaixo de seu pulôver preto.
— Sinto dizer, mas você nunca nos pagou.
— Nem mesmo quando pedimos aquele montante de pizza e metade era sua. — Capitão apontou, batendo o telefone no gancho.
Julien bateu a mão sobre o peito e arfou de forma dramática.
— Que calúnia! Maurice! Traga sua bunda até aqui e insulte estes agentes atrevidos!
Ele olhou por cima do ombro e franziu o cenho ao perceber que estava sozinho. Onde estava o homem? Balançou a mão com descaso e apontou para Capitão com as mãos enfiadas nos bolsos da calça cargo preta.
— Somos amigos. Não se faz mais nada pela amizade?
— Escute, nós temos outros trabalhos mais importantes na frente para deixar de lado e ir procurar uma tiara de bijuteria. — Capitão encolheu os ombros.
E isso fez com que Julien bufasse de raiva e apontasse o dedo em seu peito.
— Bijuteria? Bijuteria? Eu paguei milhões por aquela lindíssima e fina tiara! Há diamantes incrustados nela! E roubaram debaixo do meu nariz!
— Pague e terá o serviço — Rico grunhiu de onde estava, a ponta de sua faca brilhando conforme ele jogava para cima e a pegava novamente.
Percebendo que o mercenário estava no canto da sala, Julien abriu um sorriso gatuno e se aproximou, passando os dedos pelo braço cheio de músculos retesados.
— Não podemos conversar melhor sobre a forma de pagamento?
Uma negra sobrancelha de Rico se ergueu com a sugestão descarada. O som de metal ecoou pela sala quando recruta bateu a travessa contra a mesa. Quando toda a atenção pousou sobre ele, arregalou os olhos e agarrou a frente de sua blusa, forçando sua língua a funcionar.
— N-não somos garotos de aluguel. Somos agentes. Buscamos ladrões e o prendemos. E para isso precisamos de dinheiro para nossos recursos.
O Capitão coçou a barba espessa e olhou para Julien com um sorriso.
— Sim. E também acredito que Maurice não ficaria feliz se usasse outro meio para nos contratar. Mas se acha que deve, eu estou...
O rapaz ergueu a não esguia e empinou o queixo.
— Oferta retirada, obrigado. Agora, sobre minha tiara.
O Capitão riu, sabendo que sua piada alfinetaria o lugar certo no homem nervoso. Kowalski voltou a se sentar e arregaçou as mangas, os dedos pairando sobre o teclado.
— Preciso que me diga tudo sobre ela. A última vez que a viu, onde a colocou, quem entra e sai de sua casa. Se há permissão para tocar em suas coisas além de você ou...
— Blá, blá, blá, quanta asneira! Apenas olhem as câmeras de segurança! Ela estava na minha cabeça e depois não estava mais!
Recruta projetou o lábio inferior para frente em um pequeno bico.
— Se estava em sua cabeça, como ela sumiu?
— Se eu soubesse não estaria aqui! — Julien exclamou, jogando os braços para cima e fazendo as diversas pulseiras coloridas tilintarem. — Por acaso eu tenho cara de estúpido?
— Prefiro não comentar. — Capitão apontou.
— Julien, por favor, poderia vir até aqui e ser um pouco útil? — Kowalski disse sem paciência.
Revirando os olhos, se aproximou da cadeira e se debruçou sobre o alto encosto, resmungando sobre o que o homem lhe perguntara segundos atrás. Capitão deu as costas para eles, passando pela porta e acenando sobre a cabeça.
— Mantenham tudo em ordem. Vou olhar a clientela.
A sala se tornou silenciosa de repente, apenas o suaves murmúrios de Julien e Kowalski conversando sobre possibilidades e os dedos ágeis sobre o teclado. Recruta pescou um biscoito e o analisou, franzindo as sobrancelhas ao perceber que ninguém pegara para provar.
Sua espinha endureceu antes mesmo de sentir sua presença. Soltou um baixo suspiro ao sentir a ponta do indicador subindo por sua coluna até a nuca para descer outra vez e pressionar bem o meio de seu quadril
Ele chiou, pulando como um gato assustado. Quando se virou, viu os olhos quase no tom violeta encapuzados na direção dele, a cicatriz dentada sobre a sobrancelha esquerda e pelo nariz que fora quebrado algumas vezes. Isso deveria assustá-lo, entretanto apenas o puxava como um ímã. Rico se abaixou suavemente, o que era completamente estranho já que o homem era uma massa gigante construída em músculos firmes e duros. Nada parecia suave nele.
Paralisou quando sentiu o hálito quente roçar contra sua bochecha e ele murmurar contra seu ouvido.
— Seja mais discreto, Sweetie[1].
Recruta engoliu em seco e assentiu, porém Rico já havia saído em direção a porta, a faca girando entre os dedos grandes.
— E então? Isso aí é pra comer ou apenas ficar olhando?
Engoliu em seco, empurrando a travessa sobre a mesa na direção de Julien e caindo sentado sobre uma cadeira. Um dia ainda seriam flagrados se não tomassem o devido cuidado.
[1] Docinho.
Fale com o autor