Notas iniciais
Caso você se identifique pessoalmente com a história aqui criada, busque ajuda profissional e repense as prioridades da sua vida. Este é um texto de ficção que não tem como função se tornar algo a ser seguido ou imitado.

O relógio mostrava que era exatamente quatro horas da manhã, enquanto a única coisa que eu conseguia escutar naquela escuridão misturada aos meus soluços era o tique-taque do relógio. Pensei comigo mesmo “Ele vai sentir minha falta. E quando a bateria acabar? Ele vai parar de bater. Mas era o meu relógio favorito.“

Escrevi no pedaço de papel, para alguém cuidar do meu relógio, eu não tinha muitos outros bens fora uma roupa nova que eu havia comprado para comparecer ao natal festivo da família e a qual eu estava usando naquele momento. Eu havia gostado dela, queria usá-la em ocasiões especiais então aquela seria a última roupa que eu iria usar.

Enquanto a água quente escorria pelo meu rosto, minha mão trêmula escrevia, surgiram no meu cérebro lembrancas que eu queria ter tido e muitas que eu já havia vivido.

Uma de quando era novo, tinha ido ao parque com meus pais e voltava caminhando quando já era bem tarde, estava escuro. Eu não sentia tanto medo enquanto os dois seguravam a minha mão, não sentia tristeza, estava extasiado daquele dia no parque com as duas pessoas mais importantes da minha vida me segurando em seus braços todos os momentos possíveis.

Os seus abraços, daquilo eu sentiria falta. Aquela era uma boa memória para se pensar naquele momento, ela me encheu de prazer novamente algo que às vezes eu parecia sentir dentro de meu peito ainda.

Com o passar dos anos enquanto eu crescia, fui aprendendo significados na minha vida que eu desejaria não aprender. Milhões de frases feitas pelo mundo repetem todos os dias as mesmas coisas, errar é humano, isso não é o fim do mundo, o sol irá voltar amanhã, mas com o passar dos anos todas elas começavam lentamente a se dissipar na frente dos meus olhos junto com o ser que eu havia sonhado em ser algum dia.

Sexta–feira passada, me sentei na frente de um sofá, lembro de ter assistido um documentário falando de moradores de rua e aquilo diante da situação que eu estava, me pareceu engraçado. Todos eles tinham uma história de vida infeliz, de erros que haviam cometido ou de vitórias que não haviam acumulado, mesmo naquela situação insalubre da qual apenas rato e insetos eram dignos, eles ainda continuavam seres humanos cheios de dores, tristezas, sentimentos, alegrias, medos. Uma raça que se arrastava todos os dias para um destino trágico que os esperava. Diante da minha reflexão, me questionei, por que não perguntavam a eles o que os fazia continuar?

Qual o motivo de um ser humano, sem esperanças de recuperação, vagar todos os dias por diferentes ruas e estradas sem qualquer perspectiva de algo novo mas que fosse capaz de se sentir tão satisfeito consigo mesmo em algum momento do dia para escolher acordar e viver. Talvez os seres que mais desprezamos no mundo, na verdade são aqueles que já descobriram o sentido em sentimentos e coisas que nós que nos que nos achamos seres superiores, iremos passar a vida inteira tentando encontrar.

Aquelas pessoas não deviam ter calendário, relógios, e deviam a muito ter perdido a noção do tempo. Lembrados já não deviam ser, nem por eles mesmos, veja lá por qualquer pessoa que um dia amou e deixou para trás.

Mas eu ponderava sobre o que os fazia sorrir em algum momento do dia, se eles se condenaram aquela situação ou se ainda vivia algum sonho batendo em seu peito e por isso se levantam todos os dias.

Quando foi a última vez que eles perguntaram as horas? Qual o momento eles decidiram que banho não era importante? Quem lhes retirou a identidade, os documentos, e pouco se importou que eles jamais voltariam a trabalhar?

A espécie humana, que se acredita acima de todos os outros seres neste mundo é a única laia que condiciona o seu dia a tarefas básicas que não dispõem de alguma das principais necessidades da nossa natureza. Durante os dois anos que eu havia passado morando completamente sozinho, sem receber sequer um telefonema, de alguém que realmente sentisse a minha falta notei que eu não era o único a ser completamente invisível no mundo em que hábito.

No ano anterior fui um dos escolhidos a trabalhar no dia de natal, comigo haviam mais outros quatro ou cinco felizardos apenas no escritório e a minha surpresa foi a de que eles estavam ali porque acreditavam que ninguém sentiria sua falta aquela noite. Talvez, não tenham sentido mesmo, mas eles saíram de lá após terem trocados algumas palavras pela primeira vez sorrindo e indo para algum bar. Eu menti, disse que ainda iria ver a minha família, mas dentre nós cinco eu havia sido o mais honesto.

Aquela situação veio na minha memória enquanto eu assistia o documentário justamente porque eu imaginei que talvez aqueles andarilhos fossem exatamente iguais aos meus colegas de trabalho, encontrando alguém com alguma conversa ou sorriso que ainda iria ficar nas suas boas lembranças por mais algumas semanas, como uma nova desculpa de que não é tudo tão ruim.

Quando cheguei em casa eu realmente comi junto de uma foto da minha família, e da minha namorada, lembrei os dias que eu passava juntos a todos eles, eu não me sentia mais feliz ou satisfeito.

Quando eu completei oito anos de idade, eu vi pela primeira vez decepção nos olhos do meu pai quando um tio achou engraçado me dar uma boneca de presente, eu adorava bonecas as achava coloridas, macias, lindas e cheirosas, quando abri a caixa e vi o conteúdo não pude me conter de tanta alegria eu sabia que ninguém mais me daria aquilo de presente e fiquei tão grato ao meu tio que pulei no seu colo de tanta animação. Não sei se o que senti era real, mas quando ele me abraçou ouvi um novo tom em seu sorriso e já não era mais a risada estridente de quando todos me viram abrir o presente, era alegria genuína porque a sua brincadeira havia me feito feliz.

Mas quando olhei para o meu pai, eu enxerguei uma grande tristeza e decepção enquanto ele retirava o brinquedo de minhas mãos, passando a mão na minha cabeça. Eu nunca brinquei com a boneca, e quando me lembravam do ocorrido eu ficava agressivo, chutava as bonecas que me mostravam e olhava para meu pai esperando ver aquela decepção finalmente sumir do seu olhar. Com o tempo eu me adaptei a ela, conforme ela aumentava, à medida que ela se tornava desprezo.

Diante daquela carta, eu poderia ter sido mais rebelde se soubesse que aquele desapontamento jamais iria sumir eu teria brincado feliz até aquele brinquedo virar pó.

Durante a adolescência, eu estudava buscando desesperadamente a aprovação dos meus pais que parecia se esvair todos os dias. Eu conseguia sentir sempre que chegava na sala, que havia algo que eles não gostavam, como se o maior problema de suas vidas houvesse acabado de se sentar do lado deles.

Aos dezessete anos eu ouvi um médico me falar de alterações químicas o meu corpo não produzia a vitamina correta que não levava o estimulo certo ao local exato que o meu cérebro precisava para eu sentir aquela sensação de felicidade que apenas dezessete anos depois eu descobri que era incapaz de produzir! Basicamente o meu cérebro não funcionava como o dos outros seres humanos, tudo nele estava errado e isso me impedia de enxergar a beleza que havia no mundo, mas um remédio ou dois fariam aquilo mudar. Eu fiquei feliz, ao menos eu acho que fiquei.

Com dezoito eu sai de casa para morar com a minha namorada, no começo as coisas pareciam estar indo bem, mas com o tempo ela disse não suportar mais minha tristeza, ela queria ser feliz e eu era incapaz de felicidade. Não a culpei de maneira alguma, na verdade em algumas das minhas crises de choro eu até a tentava influenciar a seguir em frente por achar injusto que alguém tão maravilhosa fosse prender a sua vida a um ser doente que nem sabia se a alegria que sentia ao lado dela era verdade ou fruto de um excitamento causado por uma pílula.

No fundo eu sabia, ela era parte dos meus remédios e eu era a mais profunda tristeza dela. Durante cerca de um ano eu pedia para ela voltar, mas com os meses eu percebi que era melhor assim, eu não queria vê–la na situação que depois de um tempo eu passei a ver a minha mãe, desolada por minha culpa.

Fui me adaptando com as regras ao meu redor, a sociedade pedia e eu obedecia. Me transformei em alguém irreconhecível diante do espelho, quando tomava uma nova pílula eu me sentia ainda menos humano do que os outros que estavam ao meu redor.

Não havia nada mais injusto do que me sentir menos do que todos os outros, graças a um pequeno defeito que habitava o meu corpo todos os dias.

Eu havia me tornado invisível, havia sido deixado antes que me deixassem, as químicas, ciência e médicos foram os primeiros a dizer que tudo em mim estava errado, só restava a mim mesmo conviver com meu próprio ser incapaz de ver provocar alegria, de sentir felicidade, de enxergar a beleza em um mundo tão torto.

Um último ruído surdo soou nos meus ouvidos, enquanto eu também me libertava da obrigação de ter que tolerar uma alma quebrada.

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