O reverso do Diamante
16 O Mcdonalds
O Sam pediu tudo com uma certa vergonha, pediu muita comida e ele só iria comer um menu não muito grande, Daniele e Rafael comiam muito (mais propriamente 2 hámburgueres, com batata frita e coca-cola) enquanto Roxy e Sam comiam pouco (Roxy um menu de criança e Sam um menu normal). Daniele ajudou Sam a levar a comida para a mesa da rua. Sentaram-se a comer. Roxy debicava o seu menu de criança, enquanto Rafael comia como se nunca tivesse visto comida na sua vida. Abriu sua boca e punha tudo lá para dentro, parecia uma vaca selvagem devoram erva e palha. Daniele e Sam comiam normalmente e falavam de muitos assuntos, até de coisas tontas:
– Sabes uma coisa?.... – diz Sam depois de muito paleio.
– Não, não sei. – olha Daniele sem expressão no rosto.
– Então esquece. – diz Sam dando uma dentada no seu hambúrguer gordurento.
Roxy dá de comer aos pombos e pergunta-se:
– Como seria se eu fosse um pombo?
– Provavelmente, serias mais livre e tão tonto como és agora! Ah e não me chatearias! – exclama Rafael pondo-se como cão raivoso a proteger os seus hambúrgueres e batatas fritas.
– Tenho saudades de ser livre… — Roxy olha para os pássaros tristemente que arrolhavam por lá, depois bate o pé afastando-os e vendo-os voar alto com certa inveja diz-lhes – Vocês têm tanta sorte! Quanto vos invejo!
Os outros olham para ele e dão-lhe um pequeno sorriso triste, como dizendo: podia ser pior, meu amigo. Por mais que pensassem só isso lhes vinha à mente.
Estava ensolarado o dia, o sol cegava os olhos azuis de Daniele que quase já não viam a mesa ao seu lado e o outro lado da rua. Uma rapariga, já bem parecida com uma mulher, de corpo bem formado, cabelo encaracolado castanho lustroso, uns olhos castanhos pintados conforme aqueles reclamos para maquilhagem, sapatos de salto alto vermelhos, calças brancas, top vermelho e para realçar ainda mais a sua beleza umas unhas à francesa com algum tamanho. Debruça-se sobre Daniele e beija seus lábios, enquanto que este nem se mexe, de olhos abertos tenta ver quem o queria e agora o beijava.
Acabado o espectáculo a “mulher” abre os olhos e sorri-lhe com um batom leve nos lábios:
– Daniele, tenho saudades tuas amor. Quando nos encontramos?
– Pode ser… terça? Tu sabes tenho escola e dança… — Daniele é parado pelos dedos suaves dela.
– Tudo bem, num restaurante, logo um passeio e depois para o hotel Pérola de 5 estrelas. Eu pago tudo e às…
– Logo depois da dança. – diz ele pegando no copo de coca-cola e rodando a palhinha.
– Sim, isso. Tchau. Te adoro! — diz ela com óculos de sol na cara e partindo noutra direcção.
Ele sorri, abana a cabeça negando. Ninguém questiona nada, até que Rafael diz:
– Tens uma sorte… — suspira, arrota e continua. – Desculpem. Bem, terminei e vocês?
– Já!? Ainda me falta um bocado. – Roxy abre os olhos, procura migalhas do comer do Rafael, mas nem uma migalha ele deixara, parecia mesmo um abutre o qual até come os restos ou um cão que come os ossos.
– Shopping depois!
Dito isto Sam põe as mãos atrás da nuca entrelaçando os dedos. Daniele repara num rapazinho que pedia dinheiro, moreno e magrinho, com roupas leves no corpo e de chinelos. Pedia o dinheiro aos que estavam sentados a deliciar-se com a sua comida, naquela rua de meio mundo. Estendia a sua pequena mão, de unhas sujas de terra, fazia olhinhos de pobre e pedia com voz trémula. Muitos lhe davam o dinheiro, desfeitos em pena. Daniele sabia o que era a pobreza. Já a sentira de perto. Uma coisa ingrata, pouco libertadora, confusa talvez… Prendia as pessoas aos poucos trocos que conseguiam arrecadar. Lembra-se de….
“ — Não pai! Por favor! — dizia eu cheio das frescas marcas feitas pelo meu pai.
– Fica na rua seu cão! – dizia ele como se eu fosse o pior menino do mundo. – Tu és um menino mau, um traste deves ser tratado como tal! Morre ai na rua com os ratos! Só fazes porcaria!
Vi a porta a fechar-se diante de meus olhos. Não compreendi, estava todo partido, mas mesmo assim tinha de continuar a andar. Estrelas, lua estavam turvas a princípio depois habituei-me ao frio que gelava o meu sangue, ossos e que acabara por gelar minhas lágrimas. Era a única coisa que tinha, por mais burro que fosse, que não quisesse-se aprender por ter algo mais com que me preocupar, sabia que a lua e as estrelas era uma das únicas coisas que tinha. Estava escuro, quase sem luz, andei nas calçadas descalço, via baratas e pedras duras. Traças a voar, procuravam luz. Arregalei meus olhos, não elas procuram calor. Vi-as perto de uma luz, persegui uma delas e cheguei a um sitio onde tinha cães a lutar por causa de um osso. Mostravam os dentes e davam dentadas umas nos outros cães. Uma fêmea morria perto dos machos protegendo seus filhos daquela selvajaria, ia me aproximando com passos pequenos para tocar-lhe e ver se mexeria então, seu corpo. Os cães olharam ao mesmo tempo, perseguiram-me, ladravam por mais um pedaço de carne e por vingança de alguém os ter abandonado. Corri o mais que pude, medo rodeava-me, ar entrava e saia rapidamente dos meus pulmões. Deixaram-me após um virar de esquina, estava agora numa rua com lixo. Tinha muito frio, queria fechar os olhos e desistir. A fome inundo meu estômago e decidi procurar no lixo, ri-me seguramente de loucura, ratos comiam o meu jantar naquele lugar cheio de coisas como eu… inúteis e desnecessárias, que paravam no seu último lugar o lixo. Meti minha mão naquela mistela viscosa, alface podre, não, não estava boa, baratas, ainda não pensara nisso, embalagem de plástico talvez se a partir-se bem servia. Um pedaço de pão, bem tinha um molho de tomate acastanhado pois tinha terra, mas servia. Comi-o como sabia bem, em casa mal comia, só mesmo fruta que tinha de uma árvore da rua e sandes da loja da mamã. Levantei-me e vi ao longe uma fogueira. Fui para lá como uma traça. Tinha um senhor velho, aquecendo-se e ele me perguntou:
– Queres dormir? – diz ele de bigode branco na boca.
– Mas não tenho, nada. E sou alguém horrível, meu pai me castigou, porque ele diz que eu mereço e fiz coisas más.
– O meu Pai também fez isso, eu também mereci. Gastei meu dinheiro com apostas, ele já me tinha dito que isso era muito ganância, mas não lhe dei ouvidos. Vai ali ao lixo, naquela casa rosa deve ter cartão e ajuda a tapar o frio. Vamos lá que a noite não espera.
Eu não percebi nada na altura, mas fez o que ele me disse. Fui ter com ele, com um desconhecido e que me tratava melhor que meu pai, possivelmente por também ser mau menino que nem eu, queria ajudar-me. A pedra dura gelava-me ainda mais, ai cai num sono que me levaria a um mundo de sonhos irreais, para no seguinte dia acordar num novo pesadelo.”
Mas se houvesse esperteza, alguma inteligência, uma grande determinação e humildade sairiam dela triunfantes. O comer era o que menos havia, isso e a água era o mais importante. Daniele acorda na realidade e vê o menino pedinte a pedir um cigarro a um jovem fumador. Que deprimente, ver uns que morriam por fome e outros alimentando seus vícios. Seguramente, aquele dinheiro, seria para vícios drogas, para ele ou para alguém que o obrigava a pedir. Não gostava disso achava muito incorrecto como se ele roubasse aos inocentes que morriam de pena daquele que pensavam passar muita fome. Alguns pobres eram ricos, mentiam sobre seu corpo, falando de doenças imaginárias, entrotando pés ou ganhando dinheiro para outros. O rapazito aproximando-se dele fez a mesma actuação, mão estendida, com olhos castanhos esverdeados, cabelo oleoso, pede:
– Ajude-me, necessito de dinheiro minha mãe está doente e meu pai é alcoólico. Tenho fome e ainda preciso de apanhar o autocarro para casa. Por favor, um dinheirinho.
Ele vê seus olhos, passam a correr-lhe pela mente imagens de infância perdida, de outros mendigos e crianças que estavam numa situação má.
Riposta a este pedido, olhando normalmente, irónico:
– Eu pago-te a comida que quiseres deixa-me ajudar-te. – levanta-se e segura-lhe no braço puxando na direcção da fast-food.
– Não, é preciso já tenho dinheiro para a comida. Queria era dinheiro para o autocarro. – diz o rapaz surpreendido com aquela reacção generosa.
– Oh desculpa, pensei que quisesses alimentar também tua pobre mãe. – diz ele para o provocar.
– Pois… Mas ela logo vai comer algo. – diz ele ensarilhado com aquelas palavras.
– Ela está doente com quê? – Daniele olha-o tranquilamente.
– Hm… Febre forte… Quer dizer não me lembro ao certo, porque o médico já foi lá há muito tempo. – diz ele tentando esconder a sua cara de preocupação.
– Eu compro-te os remédios.
– Não, é preciso. Só quero o dinheiro para o autocarro. – diz ele abanando as mãos para negar-lhe.
– Isso é estranho. Não amas assim tanto a tua mãe? Então que autocarro vais? Eu vou lá pôr-te e pago o bilhete. – diz Daniele sabendo já tudo por detrás daquele disfarce e atacando o menino na mosca.
– É um muito tarde e para muito longe, para… Salamanca. – diz o rapaz para desviar de vez a conversa.
– É mesmo para longe, sabes é que Salamanca é em Espanha e nós estamos numa ilha. Não sabia que agora também havia autocarros que passavam o mar. – diz ele triste por perceber que era tudo mesmo uma farsa.
O menino corre cheio de vergonha. O Daniele olha para Sam, que lhe diz ter feito a coisa correcta.
– Sabes é mau demais, eles podem sempre procurar ajuda. – diz Daniele.
– Pois…- Sam apoia-o.
– Teve até uma certa piada. – diz Sam sarcástico.
– Vamos, estou aborrecido.
Iam os quatros pela rua em direcção ao centro comercial.
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