Roxy acordara, sentindo-se nauseabundo. Estava entre os lençóis de uma cama, quase nu, sentia-se enjoado, sujo, como se algo ontem tivesse entranhado na sua pele deixando mais sujo que antes. Virou a sua cabeça para o lado, estendeu também uma mão dobrando os dedos que acabaram por tocar numa rapariga deitada ao seu lado. Dormia profundamente, descansada, a sua pele era suave e seus lábios tinham um tom rosa um batom que deixavam os seus lábios mais bonitos. O cabelo era castanho como de tantas outras que ali paravam, apenas uma coisa talvez lhe fizesse mais impressão…. Era nova, mais novinha que Roxy, isso se via logo pela sua face tão redonda e limpa. Ele não sabia porque vinha uma rapariga como ela para ali, não era lugar para ela, mas isso era apenas o que ele pensava.

Todas tinham esse “direito”. Ele queria dormir para não viver mais aquilo, queria fugir para o mundo dos sonhos, mas tinha que acordar a senhora, como eles lá chamavam educadamente fosse como fosse. Levanta-se em cima das suas pernas magricelas, enrolado num dos cobertores e vai ao pé dela, que continuava dormindo tipo princesa de conto de fadas de condão. Passa-lhe a mão pelos seus cabelos e diz suavemente:

– Senhorita, tem que acordar… Já é de manhã. – ele mexia-lhe nos seus cabelos e olhava com um pouco de tristeza – Tem que ir… Alguém deve estar a espera-la em casa.

Ela acorda, ainda meia adormecida, olha para ele com os seus olhos castanhos que pareciam estar noutro lugar. Depois sorri, para ele e diz:

– Obrigada, gostava de dormir mais um pedaço.

– Mas, não pode ser. – diz ele com uma cara de chateado.

– Tu és muito bom… menino. Eu vou me embora, obrigada. – disse ela vestindo as suas roupas.

Roxy fica parado a olha-la, não tinha mesmo sentimentos em relação a ela. Ela vai-se embora com umas chinelas de criança e ele fecha a porta atrás dela. Deita-se na cama e tenta voltar a dormir.

Era sábado, logo dia de trabalho para algumas pessoas. Daniele estava sentado num sofá, todo torto sem ligar se ficaria com a coluna torta. Os seus olhos azuis olhavam para os seus amigos, Sam e Rafael que falavam com ele. Ele estava com uma t-shirt branca e umas calças de ganga largas. Olhou para um vaso pendurado naquele lugar estranho, uma planta numa cidade era sempre uma coisa que lhe impressionava porque elas não pertenciam ali. Roxy continuava deitado naquele estado que ele não conseguia por para longe. Ouve a porta a se abrir e esconde-se por entre aqueles lençóis brancos que eram o seu portal para o novo mundo, esse que não lhe doeria. Não queria saber de nada deste, queria esconder-se dele. As pontas dos dedos dessa pessoa ficam por o lado de dentro da porta, abrem devagar a porta como não a querer nada dali.

– Roxy! – diz ele da porta muito sério. – Acorda, vamos dar um passeio.

Roxy afunda-se mais nos lençóis. Queria cala-lo, ele mesmo não gostava dele porque o procurava.

– Estás a ouvir!? Não tenho paciência para aturar as tuas mariquices. Fica, ai se quiseres!

Ele deu meia volta e foi-se embora, com os seus longos cabelos negros, trancando a porta como muito ferocidade. Rafael ia zangado pelo corredor fora, ele não faria aquilo se não fosse o seu irmão a pedir-lhe. Não gostava nada do Roxy. Ele nem parecia um rapaz, de tanto choramingar e com aquela coisa no cabelo. Não conseguia tolerar, nem gostar de “gays” ou coisas desse tipo. Achava-os repugnantes, parvinhos… por ele o Roxy podia ficar para sempre lá trancado e morrer. Queria lá saber. Ele era mesmo um inconsciente dos seus actos. A única pessoa que podia tolerar assim era sem dúvida… o seu irmão. Ele não era totalmente “gay”, era dos dois lados, gostava tanto de raparigas como rapazes, embora ele nunca tivesse ido para a cama nem com rapazes, nem com raparigas. Achava estranho, isso do irmão ser bissexual e nunca ter decidido dormir pelo menos com uma mulher. Eles eram mesmo diferentes. Ele era muito frio, sério no que fazia, antipático, egoísta, só pensava em si e na sua cara sempre vinha um olhar muito sisudo e sem sorriso. Ao contrário do irmão que tinha sempre um sorriso na cara, era muito simpático, sempre pronto a ajudar os amigos e constantemente preferia dar mais do que receber.

Ao encontrar o irmão sem o seu amigo, Sam levanta-se subitamente e corre na direcção do quarto do amigo. Ele entra no quarto, muito vazio tal como todos os outros quartos. Vê apenas a mão pequena do Roxy de fora dos lençóis, parecia que morrera ali e dava-lhe arrepios na espinha só de pensar nisso. Foi devagar para não o acordar, com passos muito leves. Senta-se à beira da cama, Roxy esconde-se porque não queria falar com Rafael. Sam percebe os seus pensamentos, tira os lençóis de cima da face dele. Olha-o paralisado, era tipo, um animal que estivesse à espera que ninguém o visse parado até ao olhar. Roxy não se mexia. Sam, estava preocupado, sabia o que ele sentia, pois já sentira o mesmo. O de acordar e sentir que não valia fazer mais nada, o de pensar na porcaria que tinha entranhado no seu corpo. Quase todos de lá sentiam isso, nos seus primeiros dias… Percebe que ele não quer sair dali, principia palavras para o acordar daquele estado que ele tão bem conhecia dele:

– Roxy, sou eu o Sam, estou aqui… — espero que ele reagisse.

Nada, nem um movimento com aqueles lábios que eram uma tentação para muita gente. Faz-lhe festas na cabeça.

– Sabes eu e o Daniele vimos uma t-shirt rosa, linda espectacular! E tinha sapatilhas, carteira tudo rosa! Era lindo eu até comprava para mim. Tinha o teu desenho animado favorito…. A Pantera Cor-de-Rosa. Depois fomos ao McDonalds e tinha coisas novas para comer. E sabes o melhor de tudo, o que vimos, foi um caniche rosa. Hoje gostava de sair contigo, víamos isso tudo e comprávamos muita coisa….

Ele para e sente intensamente o seu braço apoiado na cama a ser apertado. Olha para ele, parecia tão triste, embora sempre transportasse o maior sorriso que alguma vez vira. Não conseguia vê-lo assim, doía. Ele costumava ser o mais agitado, o que nunca parava mesmo cansado. Afagando-lhe novamente o seu cabelinho loiro com uma madeixa rosa, chega perto do seu ouvido e sussurra:

– Estás mesmo a crescer… — abaixa-se e dá um beijinho na face de Roxy.

Roxy pisca os olhos. O Sam e o Daniele muitas vezes salvaram-lhe a vida. Impedido que se matasse. Sam simplesmente tinha um carinho especial por aquele loirinho pequenito que o fazia sorrir constantemente. Era verdade que o Roxy era muito gozado na escola, por causa de ser como era e também era verdade que por vezes parecia uma rapariga, devido ao seu tamanho, aos seus gestos e amor pela cor rosa. Sam gostava muito dele embora todos os seus defeitos. Roxy sempre que encontrava os seus amigos e amigas dava-lhes muito beijinhos, o que nem todos gostavam e outros achavam piada. Sam encontra um par de calças de ganga e uma t-shirt verde clara para vestir o seu amigo. Roxy continuava sentado. Sam ergue aquele molho de ossos que era o braço do Roxy, este estava corado, calado tipo boneco de porcelana. Veste-lhe uma manga, ele cai para o lado sobre a cama, Sam cai juntamente com ele. Os seus olhos azuis enfrentam a cara morena do homem de longo cabelo, cópia do seu irmão que empatara com ele para a corrida da vida. O rapaz moreno olhava-o seriamente, com os cabelos negros como a escuridão que lhe tapavam uma parte do rosto.

Ficaram os dois assim durante algum tempo, divagando pelas suas mentes. Uma alma olha-os por uma pequena janela azul da porta e continua o seu caminho deixando arrepios até às aranhas que habitavam nos recantos daquele tecto. Gotas de água caem quebrando o silêncio descomunal naquele lugar. Finalmente erguem-se os dois ao mesmo tempo. Sam veste-lhe a t-shirt verde, que tinha uma mancha pequena de lixívia. Via-se que este pequeno não sabia lavar a sua roupa. A parte mais difícil vinha agora, pegar naquele boneco. Tinha as mãos atrás das suas costas esguias, sentia-lhe alguns dos ossos da coluna vertebral. Tinha que lhe vestir as calças, porém Roxy não erguia nada para o ajudar. Devia perder a paciência, gritar-lhe como as pessoas normais stressadas com o dia-a-dia monótono, quando eram coisas tão banais quanto respirar ar. Ninguém sabia o que se passava, por isso abandonavam a esperança de alguém os querer ajudar. Pessoas ordinárias que desconheciam, o desconhecido e tinham medo de o conhecer, nada e ninguém os compreendiam. Negavam a sua existência, mesmo sabendo que existiam, só para não verem o desconhecido. Para não o sentirem no seu corpo coberto de exterioridades. Após vesti-lo por completo, pegou-o ao colo. Parecia que Sam havia se tornado um pai responsável pelo seu filho confuso, que viajava estando ali, dentro dele próprio… Roxy. Seus passos pesados ouviam-se nos outros quartos, todos erguiam a cabeça procurando-o, incluindo Lisa a irmã de Roxy. Os rapazes comendo doces para adoçar a boca com algo muito delicioso, admiram a força do seu amigo a carregar outro que fazia sua consciência se tornar mais pesada do que o seu corpo.