“ Querido Diário, 12/10/2007

Lembraste de te dizer que o dia ia ser igual aos outros, pois não foi.

Estou aqui magicando o quão diferente está sendo estes momentos. A sério! Após conhecer um “Alguém” numa floresta, minha vida ficou mais mexida. A mãe descobriu que eu dançava às escondidas (o que me deixou envergonhada), inscreveu-me na dança com uma professora chamada Safira. Pois, mas neste momento, agora…. ‘Tou inscrita em 2 grupos de dança! Isso tudo por causa do “Alguém” de nome Daniele. Ele é esquisito, muito chato, diz coisas parvas, achasse o melhor da dança e então briga comigo e ri-se de mim. Hoje tive várias conversas esquisitas com ele, por vezes, atrás daquele sorriso incompleto, parecia perdido… Não parecia estar “aqui”. O seu olhar triste foi capaz de me gelar o coração, só me apetecia (por mais estúpido que te pareça) abraça-lo. Parecia tão sequioso de amor, parecia estar num pesadelo que não o largava. Ele contou-me o seu passado, eu nem queria mais ouvi-lo, doía-me tanto ouvir o que lhe acontecera. Até uma parte senti-me mal, pelos nomes que lhe chamara. Também não sei se é verdade, mesmo que seja verdade, ele agora está bem e continua um parvinho. Ai, meu querido amigo, muitas aventuras, ainda eu terei. O pessoal desta dança é todo muito simpático, até o professor que parece mais um amigo. O Daniele é o meu par de dança e é um dos mais esquisitos, só isso eu sei. Amanhã terei aulas de dança com outra turma com a professora Safira. Espero que seja tão “boazinha” quanto o professor Pedro. Bem, por hoje é tudo meu amigo. Beijos e boa noite.

P.S. Não deixes ninguém te ler.”

Na escola estava Luísa, estava a conversar com os seus amigos e ex-colegas do ano passado. O seu cabelo é todo desarrumado por alguém quando se vira para trás, vê era Zé como lhe chamavam. Um colega muito brincalhão que adorava, fazer-lhe muitas brincadeiras. Eles já tinham estado no mesmo grupo de Área Projecto, nesse ano o grupo de área projecto era só de rapaz e ela a única rapariga, para a irritarem mais a chamavam de boss por terem-na elegido como porta-voz. Luísa era envergonhada e não era muito de falar. Então quando era para ir falar com a Directora perdia o pio, senão fosse o Jorge, os projectos do grupo não andariam para a frente. Ele era muito social. Luísa tenta desarrumar o cabelo de Zé, mas era curto o que não lhe fazia diferença:

– Há coisas que nunca mudam. – diz ela a abanar a cabeça.

– Pois é. – diz Zé a rir da figura de Luísa.

– Acreditas que o Zé e a Ana foram as únicas pessoas da nossa turma que tiveram positiva no teste de Matemática. Aquela professora…. Não percebo nada do que ela nos diz. – diz Tatiana revoltada com isso.

– Pois, nós cá temos uma Directora de Turma e professora de matemática muito boa. Ela explica tudo e volta a explicar. –diz Jorge com pena dos seus ex-colegas.

– Ela trata-nos tipo filhos! – diz Luísa.

– Por acaso este ano os professores são melhores do que o ano passado. Só a turma…

– A turma está boa assim. Vais ver que no final do ano nem parecemos os mesmos. – diz Luísa que sempre pensava que tudo tinha solução, menos os seus problemas.

– É verdade, Luísa então é hoje que vais às aulas de dança? E as outras como vão? – diz Jorge.

– Nem te conto. Hoje começo na outra. Estou desejando de descobrir como será.

– Vai correr tudo bem. – diz Sofia.

– Tenho saudades da nossa antiga turma. – diz Tatiana suspirando. – Era mesmo fixe e toda unida.

– Vocês ainda tiveram sorte, eu nem fui da turma destes dois. Fui uma burra em ter perdido o segundo ano. E agora estou no oitavo ano com uma turma que só me irrita.

– Ah, mas isso não nos separa. Falamos sempre uns com os outros. Friends forever! – diz Luísa animada.

– Pois. – dizem em coro os outros.

Após isso dá o toque.

– Oh, não já acabou. Luísa mais uma vez, vá lá. – diz Zé já preparando as suas mãos para por em cima da cabeça de Luísa.

– Está bem.

Ela lá deixou o amigo, ela depois arranjava isso.

– Bem, Luísa beijinhos amiga. Preciso de ir, não te esqueças do teatro. – diz Sofia abraçando a amiga e lhe dando dos beijinhos na cara.

– Claro. Adoro ir ao teatro com a professora Bacana. – diz Luísa retribuindo os abraços e os beijinhos na cara.

– Anda, Luísa ou chegamos atrasados. – diz Jorge preocupado.

– Sim.

As aulas passaram-se em silêncio, embora por vezes riam-se de coisas parvas que aconteciam na turma. A turma de Luísa escolhera EducaçãoVisual e todos ao desenharem tinham estilos diferentes. Ela olhava para cada desenho e ficava espantada. Ela tinha um tipo de desenho diferente dos outros, adorava fazer pormenores, os seus desenhos eram todos cheios de aventuras e fariam histórias. A Dina fazia desenhos tipo anime, perfeitos nem precisava de ver uma personagem e desenhava-a como o Garfield. A Natalie, bem, ela é desenhava mesmo bem! Parecia que tinha um dom ou coisa parecida. Era mesmo talentosa. A Anita desenhava coisas simples mas que sempre tinham significado. O Octávio desenhava muito bem geometria, nada ficava imperfeito nisso. O Xavier também desenhava muito bem… Enfim, todos tinham o seu estilo e diferentes uns dos outros tal como as pessoas. A professora de E.V. era também a de Teatro e Luísa a adorava. Parecia muito sábia e era uma grande amiga.

Depois das aulas foi pelo caminho até à loja da mãe para depois irem para a nova aula de dança. Uns rapazes vinham pelo caminho e queriam “destruir-lhe por dentro” como diria Luísa sobre pessoas que não tem mais nada que façam, senão chatear os outros:

– Olha-me esta aqui à frente? – cochichava um deles para o amigo.

– É horrível! Pequena, sabias que és horrível? – dizia alto o mais baixo rindo depois em coro com os amigos.

Luísa caminhava tentando não ouvi-los. Ela tinha baixa auto-estima, os amigos por vezes diriam até que nenhuma. Luísa caminhava olhando o chão e sempre ao mesmo passo, pensando que eles parariam. Voltaram a falar alto:

– Posso pedir-te uma foto emprestada? É que a minha mãe não acredita em monstros! – ri-se o de cabelo negro quase rapado.

Ela estava quase a chegar não podia ligar-lhes. Continua andando sempre olhando para o chão, o seu refúgio. Eles começaram a adiantar o passo e então viraram a cara para ver a cara de Luísa. Um deles bem alto falou:

– IIII pá que feia. Parece filha do Camões. – disse outra vez o mais baixinho.

– Pois, é. Tenho que lhe tirar uma foto.

Luísa não ligou e eles continuaram o seu caminho. Luísa estava destroçada, mas tinha que aguentar. No seu pensamento já dizia que era horrível a muito tempo. Usava aparelho e óculos, quem quereria alguém assim. Ninguém. Tirara o aparelho a algum tempo e começara a usar lentes de contacto, mas nunca se esquecera do que alguns rapazes já lhe haviam dito. És feia! Ecoava pela sua cabeça e risos por verem um monstro a que ela chamava. O seu interior é que ainda achava ter algo de bom. Luísa sempre considerava todos iguais fossem como fossem e isso para ela era certo.

Ao chegar à loja sabia que lá existiam pessoas que mesmo a amavam:

– Mãe! – diz Luísa aliviada e alegre.

– Filha! Espera estou com um cliente. Prepara-te o pai vai-te por na dança.

– Claro, mãe. – dizia Luísa com um sorriso nos lábios.

O pai Edgar, nesse dia estava alegre. Foram até ao lugar e o pai teve que a esperar na rua. Luísa sentou-se num banco enorme e olhou para as suas novas colegas. Eram todas mais novas e mais baixas que ela, o que lhe provocou um certo tipo de vergonha. A professora Safira era muito profissional. Tinha um corpo em forma. Uns cabelos castanhos encaracolados e pele morena. Olhava para Luísa como se ela não conseguisse fazer nada. Parecia muito exigente e do alto disse:

– Você, fica aqui, só vê não faz nada. – diz ela seriamente para Luísa.

Luísa não falou, só observou. As suas novas colegas, pareciam pássaros voavam com a música. Só tinha dois rapazes um mais novo e um mais velho, mas ambos eram mais novos que ela. Elas eram tão pequenas e dançavam tão bem, com tanto rigor. Luísa ficava maravilhada quando via os seus passos lentos e bem coordenados. Ela parecia tão aprendiz, no meio de tantas pequenas talentosas. Quando uma deu um passo, na direcção da Luísa, olhou-a com uma cara… Como se dissesse vai-te embora não pertences aqui, que fazes aqui. Elas sentiam-se superiores, isso ela percebia só de olhar para a cara delas. Elas naquela matéria eram mesmo superiores a ela, e isso ela não podia nega-lo. Sentia-se como um peixe, fora de água num lugar que não era o dela. Aquele grupo, não era o grupo dela… Eram de dançarinas mesmo boas na coisa. A professora apresentou as alunas e Luísa ouviu. Algumas cochichavam enquanto olhavam para ela. Era uma coisa nova, tinha entrado em território novo, era natural aquilo tudo. A professora era mesmo rigorosa e viu-se na aula o seu rigor. Tudo tinha que estar perfeito. Depois de saírem da aula ela disse, para o pai de Luísa e para a própria:

– Nada de calças de ganga, nada de camisolas compridas, nada de sapatilhas. – dizia isto enquanto apontava para as roupas que Luísa trazia. – Calças justas de malha, uma t-shirt e umas sabrinas sem sola. Para a próxima aula não atrasa, e começa as aulas.

Luísa sorriu, era mesmo uma nova aventura. O pai também sorriu, concordou com tudo o que a professora dissera e a caminho de casa o pai perguntou-lhe as perguntas normais que ele costumava fazer.

– Gostaste?

– Sim.

– E a professora gostastes?

– Sim.

– Vai ser bom para ti.

– Eu sei.

E lá foi a Luísa sempre pensando, no que ela se tinha metido, olhando para o céu.