– Não foi só eu Lu.

– Mas também foste tu.

– Era só uma brincadeira.

– Eles devem pensar que sou uma pervertida.

– Nós é que somos… — diz Joana com voz triste. – Logo agora que começava a fazer amigos, sou mesmo burra.

Joana vira-se fingindo que chorava. As outras olhavam distraídas com aquela brincadeira. Luísa comove-se com pena dela por isso diz-lhe:

– Pronto eu te desculpo, mas prometes que não voltas, a faze-lo?

Joana tira uma das mãos da cara e olha para o lado, seguidamente continua:

– E as outras também?

– Acho que sim…

– Viva!!! – gritam e saltam todas as presentes naquele balneário.

Em redor dela tinha caras sorridentes e lá começaram as perguntas difíceis:

– O que vistes lá?

– Explica como foi!?

– O quê? – grita Luísa abanando os braços como galinha.

– Dahh!... Eles estavam sem roupa e… — diz Mariana rodando o braço como manivela à caixinha de memória de Luísa

– Eu tapei os olhos, vi por segundos essa imagem e quando abri… já estavam vestidos. – Luísa ri aliviada de não ter visto muitos pormenores.

– Ah! Luísa não mintas! – bramiu Joana dobrando os braços sobre o peito. – Nem o Daniele viste como veio a este mundo?

– Ele estava vestido quando entrei. – a cara dela inflamava-se de vermelho.

– Que desilusão… Ele já deve estar crescido, sexeque me entendem. – ri-se Joana após revelar a palavra disforme.

– Tu já sabes que tá, louca. Deixa lá a Luisa em paz. – responde Mariana ao comentário feito por Joana.

Após o pedido da rapariga de cabelo de fogo, o assunto foi encerrado e Luisa pode então arrumar-se para sair do ginásio. Os rapazes permaneciam no ginásio dançando só por diversão, ondulando o corpo livremente e realizando movimentos conforme o ritmo da música. Até que Sam bateu duas palmas no ar e convidou:

– Épá tive a falar com o Miyavi e ele teve a pensar que a nossa nova caloira pervertida ainda não viu o nosso sítio especial. – esfregou as mãos e deu um sorriso rasgado.

– Pois não, ela vai adorar. Da maneira como ela é. — apoiou Rafael o seu gémeo lambendo o lábio.

– A sério, pessoal? Até isso vocês vão tirar de mim. Ela não merece. – dizendo isto olhou para o telemóvel que havia tocado após terminar a frase.

– Ela pode ir. É nossa amiga Dani e faz parte do nosso grupo. A Luisa pode ir Dani? – Roxy cercou a cintura de Luisa e fez olhinhos de gato para o seu grande amigo e Luisa olhou fixamente para o alemão.

– Não há nada que eu possa fazer, pois não? – suspirou levantando os braços rendendo-se aos seus amigos malucos.

– Pronto, está decidido. Vou falar com o meu pai. – Miyavi falava sempre os termos familiares em japonês pelo que Luisa percebeu que este tinha dito que falaria com o seu chichi, porém decidiu não questionar o rapazinho.

– Vamos festejar ao nosso sitio!! Yupi!! Camarões! Bolinhas de sabão! Yey! – ele jogava palavras pelo ar todo alegre, fornecendo poucas pistas à novata.

– Mas que raio de lugar é esse? – perguntou Luisa a Joana enquanto caminhavam para o seu ponto de chegava.

– Só um dos melhores céus da terra. – dizendo isto Joana deu-lhe um beijo na bochecha e piscou-lhe os olhos.

Quer para onde fossem Luisa já estava a tremer. Andaram durante algum tempo e à cabeça de Luisa nasciam várias questões. Eles não tinham limites, pensava ela. Seria que a levariam para lugares assim tão perigosos que nem podia saber? Seria uma praxe de iniciação? Esperava que não, não queria problemas. Até à parte que taparam a sua visão com umas mãos delicadas e grandes.

– Amigos… Não estou a gostar desta brincadeira de todo. – Luisa era puxada e empurrada pelo corpo daquela pessoa que não se revelava.

– Depois de nos ver nus não tem direito a reclamar Luisinha.- exalou o corpo uma voz arrapazada. – Agora vais sofrer.

Lá ele a libertou e finalmente ela conseguiu voltar a ver. Quando viu, o lugar, era mesmo enorme. Estava repleto de brinquedos, roupas, acessórios, invenções para o lar e até havia uma entrada dentro do mesmo sitio para o que parecia um restaurante japonês. O grupo estava todo espalhado ora experimentando roupas, tocando instrumentos e mesmo jogando agua uns para os outros com umas pistolas de água. Parecia sem sombra de dúvida, uma creche para peter pan’s. Joana agarrou-a com o braço pelo pescoço:

– Vamos lá! Anda divertir-te o que queres fazer hoje? – perguntou Joana com vários colares coloridos pendurados no seu longo pescoço.

– C… Celebrar?? – disse Luisa a medo das reacções espontâneas e indecifráveis da amiga extrovertida.

– Ok. Sim, é isso mesmo. Mas como? – insistia ela uma vez como se Luisa tivesse a resposta na ponta da língua.

–Tens a certeza que podemos fazer isto. É que isto tem dono sabes. – falou a voz responsável de Luisa.

– De certeza! Relaxa. – Joana abanava-a já como um sino. – Então..

Heis que com a pouca sorte que restava a Luisa, apareceu um homem asiatico simpático que interrompeu as perguntas da amiga.

– Benvindos meus amigos. O Miayvi contou-me que temos uma nova intrusa. – cumprimentou o homem dando um beijinho em cada face das duas raparigas.

– Luisa gostava de te apresentar o meu pai. Dono da Japonese Town! A peróla do oriente para muitos de nós. – respondeu Miayvi com maquilhagem sobre os seus olhos castanhos rasgados todo orgulhoso.

– Mas podemos estar a mexer nisto tudo? O teu pai não vai vender estas coisas? Não fica chateado? – perguntou Luisa preocupada com o rendimento mensal daquele pequeno homem que os tão bem recebera.

– Vai, mas ele permite-me trazer os meus amigos aqui, pelo menos uma vez ao ano para relaxarmos. É uma forma de agradecimento. – disse Miayvi dando-lhe um rebuçado para a mão.

– Isso é estranho. – reflectiu Luisa em alto.

– Normalmente nunca há grandes estragos. E todos arrumamos no final. Diverte-te miúda. – ele dirigiu as mãos para a frente como abrindo alas à sua passagem.

– Bem, se não há problema. – a pequena madeirense entregou-se então àquele mundo que ela tão pouco conhecia. Não percebia que divida tão grande teria aquele bom homem para permitir tal guerreada no seu estabelecimento. Riu-se com as raparigas a imitarem os rapazes dentro de roupas que as faziam boiar dentro delas, comeu camarão frito com Roxy, jogou agua para Sam e apanhou Rafael a ler uma revista com japonesas sem roupa interior. Esta ultima imagem não lhe era aprazível. Começou a brincar ás escondidas pela loja com os seus amigos. Viu uma estante que parecia mesmo discreta. Luisa adorava aquele jogo. Em pequena ficava em silencio até se aperceber que os seus amigos estavam longe do seu objectivo e depois atacava em pés de lã a parede dizendo o seu nome bem alto. Começou a reparar no que havia na prateleira e uma caixinha pequena chamou-lhe à atenção. Parecia uma daquelas caixinhas de musica que quando se as abria, saia uma belo melodia. Em casa tinha uma em forma de carroça do seu avô. E a música sem dúvida a acalmava e fazia querer ouvir até ao fim. Agora sabia o nome dessa musica tão leve e ao mesmo tempo tão animada. Beethoven era o seu pai e seu nome era “Fur Elise”. A verdade é que mesmo no anonimato aquela musica a tinha feito sonhar. Os seus sentidos foram então de novo desviados para outro lugar. Ouviu um ruido que a alertou, mais propriamente uma voz. Susteve a respiração e ouviu o que falavam escondida:

– Obrigada, amor. Era mesmo isto que eu queria. – disse a rapariga de caracóis rebeldes docemente a um rapaz alto diante dela.

– Eu sabia que ias adorar, podias era dar-me mais um beijinho. – Luisa começou a ficar curiosa sobre que casal seria aquele. Em principio só estava lá dentro o seu grupo de dança. De certeza que havia apaixonados que se encontravam em segredo. Devagar deitou um olho rapidamente à cena que acontecia no outro lado da prateleira. Os seus olhos arregalaram-se. Os olhos gelados e o cabelo imundo não engavam. Daniele pensou. Ainda mais surpresa ficou quando ouviu da sua boca endiabrada sair as palavras:

– Adoro-te tanto. Parece que estou sonhando. – dizia com um sorriso incompleto e beijou a sua amada à moda francesa.

Luisa com a surpresa, deixou cair a caixinha de musica deixando-o seu som expelir-se pelo ar. Daniele virou a cara procurando a presença de outra pessoa. Seguiu o som da caixinha de música, até apanha-la do chão. Depois virou-se para a amada e tranquilizou-a:

– Deve ter sido só um rato.

Luisa escondera-se de novo, agora no meio dos ursinhos de pelúcia. Será verdade que aquele insensível tinha uma namorada? Uma rapariga a gostar daquilo? Não devia ter cérebro, pensava Luisa. Depois contínuo o seu jogo, até às horas de saída sem contar nada a ninguém. Naquele dia já nada fazia sentido na sua cabeça.