O retorno do menino do espaço
2 Uma pequena surpresa.
Alguns segundos depois ele retornou, colocando sentado a seu lado, um me…ni…no, de uns nove anos. Um menino não! Era eu… Mas como podia? Eu não estava lá! Estava na Terra! E não estava sonhando! Então seria uma montagem de cinema? Filmadora?
— Regis: — Disse ele. — Apresento-lhe, Regis!
— Co…como as…sim? Eu estou na Terra! Não pode ser eu! É um truque!
— Não Regis! — Negou o senhor Frene. — Somos muito avançados em nosso mundo! Diga oi a seu outro eu, Regis!
— Olá Regis da Terra! — Disse meu outro eu, com minha mesma voz e meu mesmo jeitinho tímido. — Sei tudo sobre você e talvez um dia possamos nos conhecer!
— Que loucura é essa, senhor Frene? — Me desesperei.
— Não se assuste Regis! Há sete anos, quando lhe trouxemos pra cá, já sabíamos que você não aceitaria ficar conosco, então nossa ideia fôra[1] de apenas trazê-lo pra colhermos seu DNA e em poucos dias lhe devolveríamos à sua família. Porém aconteceu o acidente de seu irmão Paulinho. Então conseguimos com isto, uma mudança nos planos, fazendo você permanecer conosco. Mas já tínhamos colhido seu DNA, no dia em que você chegou aqui, através de pouquíssimas células de seu organismo e os mesmos médicos que cuidaram de Paulinho no hospital, cuidaram da gestação e nascimento deste menino aqui a meu lado. No dia em que você aceitou em fazer a cirurgia cerebral e nós não achamos ético fazê-la, este Regis aqui, já tinha nascido em Merlin e permanecera protegido em ambiente esterilizado e livre de nossa radiação, por todo esse tempo, vindo a se desenvolver e crescer normalmente. Fizemos aquilo que já era planejado e apesar de você ter ficado muito mais tempo conosco, resolvemos fazer aquilo que é proibido na Terra. Você sabe! Não sabe?
— Ele é um... clone? — Perguntei, já sabendo a resposta.
— Exatamente! Ele é idêntico a você! Até mesmo a pinta que você tem na altura do tórax, é igual. Sabe aquela pelinha de porco, que você tem num lugarzinho especial? Também tem! A vantagem, é que ele não conhecendo a Terra, não sente falta daí e está muito feliz conosco!
— Então o senhor vai me esquecer!
— Um pai jamais esquece um filho! O que vou fazer sempre é acreditar que seu outro eu, é na verdade você mesmo! Com isto, todo amor que temos para com você, daremos a ele. Mas isto não quer dizer nada! Como lhe prometi, no dia em que você resolver voltar pra cá, é só pedir e irei imediatamente. Se isto acontecer um dia; apesar de eu achar que não acontecerá, teremos dois adoráveis Regis, vivendo conosco.
— Por isto que o senhor nunca me levou à Merlin, para conhecer os médicos que cuidaram de meu irmão?
— Pode ser! Era preciso precaução, para que nosso segredinho não vazasse.
— Não sei o que dizer senhor Frene! — Neguei ainda espantado. — Foi uma surpresa e tanto! Acho que neste caso, fico até muito feliz e um pouco enciumado. Creio que gostaria de conversar mais com ele! Ficar amigo dele! Creio que ele seja meu irmão!
— E é! — Confirmou o senhor Frene. — Venha trazer Luecy, fique só algumas horas conosco e conversará muito com seu outro eu!
— Não, não! Prefiro não me arriscar!
— Estou lhe garantindo!
— Uma vez falei sobre um clone com o senhor Tony e ele me disse que seria impossível criar um outro ser idêntico. Quer dizer: Poderia ser idêntico, porem ninguém nasce grande!
— Milagres da ciência avançada! — Riu o senhor Frene. — Seu outro eu, foi planejado e criado com muito carinho em Merlin! Venha conhecê-lo! Te devolvo à sua Terra! É uma promessa de pai, pra filhinho amado!
— Desculpe, mas não vou não!
— Seu outro eu, nasceu bebê, como todos os bebês! Como já disse, se desenvolveu em ambiente protegido. Hoje ele tem seis anos de idade, se medirmos pela Terra.
— Ele está de meu tamanho!
— Agilizamos seu metabolismo! — Riu o senhor Frene. — Agora, estando fora do ambiente protegido, ele não crescerá mais! Ajude Luecy a devolver nossa nave!
— Advinha se vou sair da Terra? — Ironizei. — Mas temos uma solução pra este caso!
— Solução! Que solução?
— Meu amigo Erick! Já lhe falei muito sobre ele! Ele aceita levar Luecy até o senhor!
— Verdade isso, Erick? — Perguntou o homem a meu amigo.
— Sempre quis ir até aí! — Alegou Erick.
— Não é uma viagem de duas horas e não posso lhe devolver rapidamente! Não é como viajar para Araçatuba!
— Sei de tudo isso! — Confirmou Erick.
— Como Erick pode entender o senhor? — Estranhei. Mas já sabia a resposta.
— Falo sua língua! Lembra? Estudei com você!
Se calou por um instante, depois perguntou:
— Quanto tempo pretende ficar conosco, Erick?
— O tempo que o senhor me aceitar!
— Não sentirá falta de casa?
— Não tenho nada por aqui! Sempre estive abandonado!
— Embora você não seja assim uma criança, é um bom adolescente e com certeza sua companhia fará muito bem pra nosso Regis! Porém é uma decisão difícil!
— Pedi muitas vezes, pra que Regis convencesse o senhor em me levar!
— Sei de tudo isso! Ele sempre me pediu isso!
O senhor Frene se virou para o meu outro eu, a oitenta e sete anos-luz de distância e perguntou:
— O que você acha de um novo amiguinho, querido Regis?
— Se é amigo de meu irmãozinho, gostarei muito! — Insinuou meu outro eu, um pouco tímido.
— Se assim desejarem: Regis, você pode ficar com seus pais e Erick venha com Luecy. Só que a permanência por aqui será muito longa! Talvez pra sempre!
Levantei-me da poltrona, ainda ouvindo o senhor Frene:
— Concorda realmente Erick?
— Sim! — Afirmou ele, entusiasmado.
— Promete não ficar choramingando pelos cantos, como fazia esse meu amado filhinho terráqueo?
— Ficarei aí com Regis dois!
— Bem vindo à bordo! — Riu o senhor Frene. — Só temos um problema!
— Qual? — Questionei-o.
— Durante a viagem, você se alimentou bem?
— Não muito! — Neguei, me lembrando de que não havia alimentos para Erick na nave.
— Posso fazer Erick dormir durante toda a viagem! — Insinuou o senhor Frene. — Assim ele não precisará de alimentos!
— Não quero dormir! — Negou meu amigo.
Quem ousaria passar todo o tempo dormindo, durante a mais espetacular viagem de toda a sua vida? Nem eu!
— Esperem só um pouco!— Resolvi, correndo para casa.
Abri a geladeira de mamãe e raptei duas bandejas de iogurte, um queijo tipo frescarine, inteiro, um pacote de salsichas, uma bola de mortadela de um kilo... E do armário, três caixas de leite longa vida, duas caixas de suco de soja, uma lata de achocolatado, dois pacotes de bolachas doces, dois de bolachas salgadas, duas latas de sardinhas em conserva e um vidro de azeitonas verdes. Enchi duas garrafas pets descartável, com água; coloquei tudo em três sacolas plásticas; segui ao quarto e mesmo no escuro, apanhei um monte de roupas que teria certeza serem de Erick e então, quase não conseguindo carregar, retornei até a espaçonave, entregando tudo a Erick e o acompanhando até a cozinha, dizendo:
— Sei que não é o suficiente! Acho que terá que fazer bastante economia, mas não vai morrer durante a viagem!
Enquanto me retirava, já no corredor entre à cabine e o grande hall de entrada, ouvi o senhor Frene, dizendo:
— Não se preocupe, em uma viagem espacial não se come muito! Regis: Até qualquer dia! Não se esqueça de que o amamos muito!
Voltei-me sorrindo e acenei dizendo:
— Eu amo muito o senhor também! Mas também amo muito minha família e a Terra!
Retornei, dei um abraço em Erick, dizendo:
— Tenho certeza de que você será muito feliz por lá!
— Agradeça seus pais por mim!
— Pode deixar que eu cuide da situação! — Voltei-me a Luecy, dizendo:
— Agora você tem um novo amigo pra perturbar e ensinar-lhe muita coisa.
— Ele nadará pelado em seu lugar!
— Boa idéia! Mas lá tem outro Regis pra você azucrinar!
Quando já ia descer pelas escadas, elas se recolheram rapidamente e a porta se fechou bruscamente, então Luecy, ainda no hall da nave, me disse:
— Garoto Regis! Surpresa!
Me apavorei. O motor na nave foi acionado, mesmo não tendo ninguém em sua cabine.
— O que há Luecy? — Gritei com o coração disparado, assustado.
— Que tal uma pequena viagem até o mundo Suster? — Alegou o robô.
— Pare com isso! — Gritei. — Quem ligou esta nave?
— Eu! — Alegou ele, até parecendo rir. — Não preciso estar na cabine para este treco funcionar!
— Não vou com vocês, robô hipócrita! — Gritei apavorado. — Eu explodo esta porcaria!
A porta tornou a se abrir, fazendo os degraus de escada, descerem até perto do chão e o robô ironizou:
— Brincadeirinha! Regis ficará na Terra!
Refazendo-me do susto, desci rapidamente da nave. A escada se recolheu e a porta se fechou. Em poucos segundos, seus motores aumentaram a potência e menos de um minuto depois, lentamente começara a tomar altura, então, em mais alguns segundos, como um raio, desapareceu no Universo.
Lentamente, ainda olhando para o Céu escuro, retornei para casa, fechei a porta, deitei em minha cama e comecei a pensar em tudo o que ocorrera.
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[1] Na Língua Portuguesa não se acentua o verbo ir no singular do Pretérito Mais-Que-Perfeito, mas para que não seja confundida com o advérbio ou preposição fóra, que também não é acentuada, neste livro, preferi adotar o tal acento circunflexo em fora.
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