Acordei às duas horas da tarde, com o barulho de meus irmãos e mamãe entrando no apartamento. A televisão continuava ligada em um canal de notícias americano.

Enquanto dormia, ao longe, conseguia ouvir o noticiário, principalmente quando se referia a minha visita aos Estados Unidos.

— Faz tempo que você chegou, Regis? — Perguntou-me mamãe.

— Mais de uma hora! — Respondi — Tenho fome.

— Levante-se e vamos almoçar. O restaurante é no primeiro andar. Você tomou café de manhã?

Acenei que sim, me levantando e indo direto ao banheiro lavar o rosto.

©©©

Enquanto almoçava com meus familiares, no restaurante do hotel, recebi novamente a visita do senhor Charles:

— Bom dia turminha! — Cumprimentou-nos ele em Língua Portuguesa — Como está o passeio?

— Ainda não passeei! — Neguei.

Entregou-me uma caixa, de mais ou menos um metro de altura.

— Hoje é dia da criança, então resolvemos dar-lhe um presente especial.

Levantei-me do almoço e abri imediatamente a caixa. Era uma lindíssima miniatura em aço, de uma espaçonave da NASA. Enquanto me deslumbrava com o lindo brinquedo de coleção, o senhor Charles comentava:

—É a nave Challenger, feito na escala um/dezoito (1:18). Foi projetada em mil novecentos e setenta e cinco e voou pela primeira vez em oitenta e um, com o nome de Colúmbia. Em quatro de Abril de oitenta e três, fez seu primeiro voo com esse novo nome. Em vinte e oito de Janeiro de oitenta e seis, às onze horas e trinta e nove minutos, explodiu, setenta e três segundos após o lançamento, matando sete tripulantes, entre eles uma mulher civil. Quando você estava indo a outro planeta, nossa Challenger também estava viajando pelo espaço. Ela fez nove missões e explodiu na décima. Funcionava como lançador de foguetes e também em missão tripulada.

— O que é missão tripulada?

— O que o nome diz? — Ironizou o senhor Charles.

— Tri...pulação? — Balancei os ombros junto com pequena careta.

— Isso! Já foram construídas outras semelhantes. Espero que goste.

— Adorei senhor Charles! — Agradeci feliz. — Vou levá-la comigo!

— Outra coisa: Durante o período em que vocês estiverem aqui, a NASA lhes dará uma ajuda de custo de cem dólares diários. É para pequenas despesas.

— Isso é importante senhor Charles — lembrou mamãe. — Estamos sem um tostão nos bolsos e os meninos andam querendo alguma coisa.

— Iremos providenciar imediatamente.

©©©

Às dez horas da manhã seguinte, bateu na porta do apartamento. Quem atendeu foi mamãe. Era novamente o senhor Charles:

— Bom dia! — Cumprimentou-lhe mamãe.

— Bom dia! Regis já está pronto?

— Aonde irão levá-lo? — Insistiu mamãe.

— Não se preocupe. Não sairemos do complexo Kennedy. Regis passará apenas por uma entrevista, acompanhada por umas cinco pessoas, entre elas o doutor Marcelo.

Tirou do bolso um envelope e entregou para mamãe, dizendo:

— São mil dólares. Depois a gente faz o acerto final. Vamos Regis!

— Podemos acompanhá-los? — Insistiu mamãe.

— Preferimos que não! Mas não se preocupe. Este herói aqui estará muito bem! Não passará por nenhuma tortura, nem vexame. Como lhe disse: apenas uma entrevista.

— Falando nisso mamãe: — me lembrei — a doutora quer fazer um exame com injeção de mercúrio em minhas veias!

— Aquele exame perigoso? — Se estressou ela — Nem pensar!

— Não estou sabendo disso! — Negou Charles.

— Não deixe que apliquem nada em seu corpo — recomendou-me ela — Acho que terei que estar com você.

— Não se preocupe mamãe — pedi. — Ninguém porá as mãos em mim!

Seguimos para o edifício da NASA, acompanhado por doutor Marcelo, que nos esperava na recepção. Era a mesma sala, onde estive há sete anos. Uma espécie de consultório grande, cheia de computadores.

Outras quatro pessoas já estavam presentes. Entre elas a doutora Wendell, que me deu um beijo na face, perguntando:

— Como passou de ontem?

— Um pouco assustado — respondi sério.

— Não tenha medo, menino! — Pediu-me ela — Somos diferentes, mas somos amigos.

— Mamãe não autorizou em fazer o exame com mercúrio.

— Tudo bem — concordou ela. — Faremos apenas um eletrocardiograma.

— Pra quê? — Questionei-lhe, já que era tão jovem pra esse tipo de exame.

— Analisar este coraçãozinho.

— Ele está apaixonado! — Ironizei com sorriso maroto.

Cumprimentei os outros três: todos doutores em tecnologia espacial, entre eles o americano Jack Schmitt, um dos astronautas a ir à lua a bordo da nave Apollo dezessete, em mil novecentos e setenta e dois. Estava então com cinquenta e três anos. Muito bom e brincalhão.

Os outros dois, Louis Muller, engenheiro em assuntos astronômicos, de seus cinquenta anos aproximado e Mark, também engenheiro.

— Precisamos que você tire a camiseta e deite-se nesta cama — pediu a doutora Wendell.

— Novamente sem roupa?

— Só a camiseta! — justificou ela.

— Já estive nesta cama! — Insinuou Jack Schmitt — É tão confortável que espero que você não durma!

Tirei a camiseta e me deitei.