Quatro de Dezembro, logo que levantei, às seis horas da manhã, disse à mamãe:

— Hoje, há essa hora, Erick deve estar chegando à Suster.

— Só hoje! — Admirou-se ela — Desde aquele dia?

— São setenta dias de viagem.

— A gente sente tanta falta dele — lembrou-se ela triste. — Estávamos acostumados com ele aqui. É um garoto muito divertido e já fazia parte de nossa família.

— Deixe ele — pedi. — Tenho certeza que ele será muito feliz estando por lá. Acredito também, que foi a melhor escolha que o senhor Frene fez, me trocando por Erick. Agora sim, acredito que uma criança, ou mesmo que seja adolescente, leve tanta felicidade àquele mundo de adultos. Depois, a mãe dele o ama tanto, que nunca mais veio procurá-lo.

— Creio que ela nem sabe onde ele se encontra hoje — interferiu Henrique, que acabara de entrar na cozinha.

— Pelo menos, ele fará companhia à seu irmãozinho que ficou lá — se conformou mamãe. — Ainda não consigo acreditar nessa história.

— Acha que é mentira minha, mamãe? — Perguntei admirado.

— Não! — Negou ela — Você não mentiu. Eu é que não consigo acreditar.

— Os dois serão felizes juntos — tentei consolá-la.

— Eu queria tanto que ele estivesse aqui.

— Mamãe! — Chamei-lhe a atenção.

— O que me conforta, é tentar acreditar, que assim você estará seguro aqui.

— Jamais deixarei vocês mamãe. Já prometi isso.

— Não é você que me assusta.

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Seis de fevereiro de um mil novecentos e oitenta e nove, sete horas da manhã, junto com Paulinho, que faria a oitava série[1], estávamos na entrada da escola, para mais um ano de estudo. Fazia quase oito anos que não sentava em uma cadeira escolar.

Logo no início, fui assediado por diversos colegas de classe, que já me conheciam, devido minhas visitas regulares, no final do ano anterior. A diferença era eu ser o menorzinho de toda a turma, de toda a escola, no período vespertino, pois, embora próximo a completar dezoito anos de idade, tinha o corpo e a aparência de nove, enquanto que praticamente todos esses colegas de sétima série, estavam com idade entre treze e quatorze anos.

Felizmente não tive grandes problemas para a readaptação, pois, além de ser bem aceito pelos colegas, percebi que também os professores, tinham um carinho especial para comigo. Tinham alguns, que devido meu tamanho, me tratavam como se eu fosse um frágil vaso de louça.

Quanto às matérias, não tinha dificuldades, pois, além de ser considerado um menino inteligente, já havia estudado a sétima série, no primeiro semestre do ano passado.

Meus colegas de classe eram: Alex, Luis Henrique, Leandro (tinha dois), André, Gabriel, Victor, Daniel, Marcio, Evandro, Renan, Felipe, Lucas, Ronaldo, Paulo Augusto, Paulo Sergio, Junior e Mateus, que, apesar de seus treze anos de idade, era tão pequeno quanto eu. Entre as meninas, eram: Regina, Suely, Letícia, Alessandra, Márcia, Andresa, Renata, Andréia[2] e Lucia. Comigo, éramos vinte e nove pré-adolescentes.

Meus professores eram: Fernando, de Inglês; Rosa, de Matemática; Walter, de História Universal; Joana, de Língua Portuguesa; Izabel, de Ciências; Madalena, de Geografia e Rubens, de Organização Social.

No primeiro dia de aula, a professora Madalena, de Geografia, pediu:

— Como neste semestre, vamos estudar o espaço e os astros, gostaria que ainda este mês, fizéssemos um trabalho sobre o assunto. Com isso, queria pedir a você Regis, se é possível, que faça uma dissertação sobre este assunto para todos nós.

— Dissertação? — Estranhei — Como assim?

— Faça uma narrativa do que você conhece sobre o espaço. Você fala o que sabe do seu jeito, nós o ouviremos e então cada um dos alunos fará um trabalho, tipo redação, sobre o assunto. Que tal?

— Não sei se consigo! — Neguei tímido.

— É claro que consegue! — Me animou ela — Vi você na televisão e gostei muito.

— Está bem — concordei, me levantando. — Vou falar apenas aquilo que sei.

— Se precisar anotar algo no quadro, fique à vontade. E não se preocupe com o tempo. Temos duas aulas seguidas.

Iniciei meu comentário um pouco tímido, mas percebendo a atenção que os colegas demonstravam, acabei por ficar à vontade e descrevia os fatos com muita naturali-dade. No princípio, como um monólogo, mas depois que Andréia, irmã de Daniel, resolveu me interromper para uma pergunta, todos os demais seguiram o mesmo caminho e sendo assim, a aula ficou até bem divertida e o tempo de cem minutos, se tornou um tanto curto, para tantos assuntos[3].

Ao final da aula, a professora disse:

— Para a próxima aula, quero que façam um trabalho em grupo de três ou quatro, baseado neste assunto. Pode ser uma redação apresentando um resumo. Vai valer dois pontos pra somar com a prova do bimestre.

— Minha equipe serei eu, Marcio, Evandro e Regis — se prontificou Daniel.

Senti problemas, pois alguns colegas já tinham comentado antes da aula, que estes três grandalhões, repetentes do ano anterior, não eram flor que se cheira e gostavam de explorar os meninos menores.

A próxima aula de Geografia seria na quarta-feira. Tínhamos tempo mais do que hábil para fazermos tal trabalho.

O dia letivo terminou às onze horas e trinta minutos. Com isto retornamos para casa, sem planejar como faríamos o trabalho. Paulinho me esperou no portão e seguimos juntos.

— Como foi seu primeiro dia de aula, Regis? — Perguntou-me ele.

— Foi bem! Só o que me preocupa é um trabalho de Geografia que devemos fazer em equipe. Minha equipe parece ser problemática.

— Como assim?

— Meus parceiros de equipe. Acho que você os conhece. Daniel, Evandro e Marcio.

— Que mal, maninho! — Se preocupou Paulinho — São três repetentes da minha classe. Eles são problemas sim! Seria melhor você os evitar.

— Já me falaram.

— Como você foi parar na equipe deles?

— Fui escolhido.

— Por eles, lógico! — Confirmou Paulinho — Eles sabem que você é inteligente e vão te explorar. Não te ajudarão no trabalho.

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No horário do recreio da terça-feira, procurei os três companheiros de equipe. Dei sorte, porque estavam juntos, sentados na mureta do grande hall de descanso, caçoando e jogando bolinhas de papel em outras crianças. Já havia percebido que eles andavam sempre juntos.

— Pessoal, precisamos combinar como e aonde iremos nos reunir pro trabalho de Geografia — cobrei-os. — Temos que fazer hoje, pois o trabalho é pra amanhã.

Daniel se levantou, colocou a mão em meus ombros, dizendo:

— Sabe o que é maninho: Hoje a gente tem um compromisso com nossa galera e não vai dar. Mas você é um garoto esperto e papo legal. Você faz o trabalho. A gente fica te devendo essa. Legal?

— O trabalho é pra ser feito em equipe — insisti um tanto arrependido por estar nesta equipe.

— Da próxima vez, a gente batalha e você se esgueira. Beleza?

— Não concordo com isso não! — Neguei.

— Que isso garoto! Uma mão lava a outra.

— E as duas lavam a bunda! — Completei o tal provérbio.

— Você é esperto e já sabe o que tem que escrever. Você nos ajuda. Nós ajudamos você. Manjou?

Fiz um sim sem vontade e me retirei.

Não era tão esperto quanto pensava. Minutos depois, senti que deveria ter dito não e que faria o trabalho sozinho, sem mencioná-los na equipe.

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Durante a aula de Geografia de quarta-feira, a professora pediu:

—Todas as equipes fizeram o trabalho?

Como ninguém retrucou:

—Tragam pra mim.

Enquanto todos entregavam seus trabalhos, inclusive eu, ela dizia:

— Este trabalho vale dois pontos na média do bimestre. Isto quer dizer que a prova que faremos valerá oito pontos.

Conferindo um a um os trabalhos entregues, ela chamou minha atenção:

— Regis... Seu trabalho foi feito individual?

Nada respondi.

— Só consta seu nome em seu trabalho.

Dá pra imaginar o que meus parceiros… de equipe, sentiram.

Percebi também o que meus outros colegas de classe sentiram, em solidariedade a mim.

— Devo considerá-lo individual?— Insistiu a mestra.

— Está faltando, dona Madalena — interferiu Daniel. — Eu, o Marcio e o Evandro, somos da equipe de Regis.

— Vocês fizeram o trabalho juntos? — Insistiu ela.

— É claro que sim! — Afirmou Daniel.

— Só vejo um tipo de letra! Alem de constar só um nome. Sendo assim, só posso considerar o que vejo. Quem não me entregar o trabalho hoje, terá dois pontos a menos na média.

— Fizemos o trabalho em conjunto! — Insistiu Daniel.

— Este assunto está encerrado — informou dona Madalena. — Mas se quiserem, ainda dá tempo de fazer o trabalho no recreio e me entregar na sala dos professores.

Colocou os trabalhos sobre a mesa e disse:

— Neste semestre, iremos realmente estudar o espaço e os astros; mas não avançaremos além de nosso astro principal, o Sol. Ou seja: iremos estudar o nosso Sistema Solar. A história que Regis nos trouxe na última aula é muito bonita, interessante e real. Mas está muito além do que a gente necessita pra sobrevivermos. Aqui iremos ver nossa atmosfera, a troposfera... estratosfera... mesosfera... os efeitos da ionosfera. Vamos com certeza e preferencialmente estudar nossa protetora camada de ozônio, que nos protege principalmente contra os nocivos raios ultravioletas, pelos quais somos bombardeados diariamente através de nosso astro rei, o Sol. E esta camada de ozônio, aliás, está sendo destruída por nós mesmos, através de poluição e até simples sprays de desodorantes ou pesticidas. Vamos ver também, como o venenoso dióxido de carbono, acaba sendo muito útil para nosso planeta. Quem sabe me dizer de onde surgi o dióxido de carbono?

— Erupções vulcânicas! — Exclamou Gabriel.

— Muito bem! E de onde o vulcão tira esses dióxidos de carbono?

— São gases criados por fósseis antigos — explicou ainda Gabriel.

— E por que ele acaba sendo útil ao planeta?

— Armazena calor — concluiu o mesmo menino.

— Exatamente! Graças ao dióxido de carbono, também conhecido como anidrido de carbono, presente em nossa atmosfera, lá na estratosfera, a Terra é um planeta quente. Se ele não estivesse lá, a Terra não seria azul e sim branca, totalmente coberta por grossa camada de gelo.

Acho que preocupado, nem estava prestando atenção na aula.

Quando a mestra se retirou, no intervalo de troca de professores, Daniel se aproximou de minha carteira, puxou minha camisa e gritou nervoso:

— Seu moleque cretino! Vou arrebentar sua cara lá fora. Pode me esperar.

Embora ele tivesse quatorze anos de idade, parecia ter bem mais. Sorte que o professor de Inglês, entrou rapidamente na sala, fazendo com que todos voltassem a seus respectivos lugares.

[1] (Henrique e Letícia, já não estudavam mais no Marcos Trench, pois estavam no ensino médio e foram para o Yone Dias de Aguiar).

[2] (tinha duas, uma, irmã de Daniel)

[3] Não vou descrever o assunto da aula neste espaço, para não se tornar mais uma vez repetitivo.

Notas finais
Faltam apenas cinco capítulos...