Retirei-me, indo realmente fazer minha prometida visita, à garota Elizabeth.

Chamei-a em seu portão e quem atendeu foi sua mãe:

— Oi Regis. Você não mudou nada mesmo! Lembra-se de mim?

— Claro que sim! Estive fora um tempinho, mas estou de volta. A Beth está?

— Claro! Entre!

Entrei em sua bonita casa. Elizabeth era filha única e sua casa estava sempre muito bem arrumada. Diferente de minha casa de antigamente, onde, embora mamãe tentasse incansavelmente, o monte de crianças, não deixava nada no lugar. Agora, portanto, como todos cresceram, as coisas já paravam um pouco mais organizadas.

Mal acabei de me sentar no confortável sofá da sala e Beth, que estava em seu quarto, entrou:

— Oi Regis! — Me beijou na face — Finalmente você veio me visitar. Resolveu sair da toca?

De fato, foi à primeira vez que saí de casa, desde meu retorno.

— Estava com saudades — aleguei. —Você não apareceu mais.

— Muito trabalho escolar. Mas senti sua falta também! — Mostrou-me um belo sorriso.

Ela era realmente a garota mais bela que conheci em toda minha vida. E agora, praticamente mulher, com um corpo modelado estava ainda mais bela do que quando criança. Acho que estava realmente apaixonado por aquela princesa, saído de algum conto de fadas.

— Vou ter que viajar novamente — insinuei triste.

— Como assim? Vai pra NASA?

— Isso mesmo! Preferia ficar.

— Aproveite pra passear. Serão poucos dias.

— Iremos à Disneylândia.

— Que legal! — Sentou-se a meu lado — Me leve com você!

— Bem que gostaria! Consegui lugar pra minha mãe e dois irmãos menores.

— E seu pai?

— Não vai.

— Divirta-se por mim — pediu ela sorrindo. — Quando estiver cara a cara com Mickey, lembre-se de mim.

— Por quê? — Ri — Você não se parece com ele!

— Lembre que eu queria estar junto!

— Darei um abraço nele por você — sorri levemente.

— Ânimo menino! — Pediu dona Joana, mãe de Beth — Qualquer garoto daria tudo por um passeio desses!

— É que estou cansado, dona Joana.

— Vá se divertir menino! Depois você descansa — aconselhou ela. — Quer tomar um suco?

Calei-me. Beth confirmou:

— Quer sim mamãe! Conheço Regis.

Dona Joana foi buscar o suco.

— Você almoçará conosco! Certo?

— Não posso Beth! Não disse nada pra mamãe. Caso eu demore muito, ela terá um troço. Tem medo de tudo. Tá me paparicando muito.

— Até eu estaria! — Brincou dona Joana, lá da cozinha.

— Iremos avisá-la — se prontificou Beth.

— Obrigado!

— Obrigado de nada! — Negou ela — Estava esperando por este dia.

A mãe dela entrou com uma jarra de suco de caju e nos serviu, perguntando:

— Você ficará mesmo para o almoço?

— Beth me convidou.

— Ouvi.

Tomamos o suco. Dona Joana quis saber mais sobre minha longa viagem. Disse ter ouvido comentário na televi-são, mas não gostou muito da ironia de alguns jornalistas, que pareciam duvidar de minha história.

Após relatar parte de minha viagem e tomarmos quase toda a jarra de suco, fui com Beth, avisar mamãe de que almoçaria com aquela princesinha.

Enquanto caminhávamos pelas quase quatro quadras de distância, ela me disse:

— Sabe Regis, sempre me senti culpada por você ter sido sequestrado?

— Por quê?

— Lembra-se que você queria que eu o acompanhasse por aquele caminho do aeroporto?

— Lembro!

— Eu me recusei! Se eu tivesse ido, talvez você não tivesse sido sequestrado.

— É! Estaríamos em dois — confirmei.

— Ou nós dois poderíamos ter sido sequestrados.

— Seria bom! — Disse alegre — Pelo menos eu teria companhia agradável.

— E hoje eu também estaria como há oito anos.

— O que seria bom — insinuei meio triste. — Assim saberia que jamais à perderia.

— Você não vai me perder! — Negou ela. — Eu não tenho outro namorado!

— A cada dia que passar, você estará mais adulta e eu continuarei criança. Você não poderá me esperar! Nem eu posso exigir isso.

Como sempre, eu já estava chorando. Já chegávamos à frente do portão de casa. Ela me abraçou dizendo:

— Deixe de ser bobinho Regis. Não chore!

— Acho que eu te amo do fundo de meu coração. Te amo de verdade. Mas sou só uma criança.

Ela me deu um beijo de leve nos lábios. Um pequeno beijo; mas o melhor beijo de toda minha existência humana. Passou os dedos sobre minhas lágrimas e me disse:

— Você tem quase dezoito anos.

Ao entrarmos, mamãe logo perguntou:

— Você estava chorando, Regis? O que aconteceu?

— Não foi nada mamãe. Só estava recordando.

— O quê?

— Minha infância! — Brinquei.

— Não se preocupe — pediu Beth. — Eles irá almoçar em minha casa. Se a senhora permitir.

— Claro! Só queria saber…

— Nada sério. Nada a ver com o senhorrr... Freeene! — Tranquilizou-a Beth.

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Como vinha acontecendo em todos os dias, sem que nem eu mesmo soubesse por que, às dez horas da noite, mamãe foi se deitar e eu a segui, deitando-me a seu lado e sendo abraçado por ela.

— Mamãe, não precisa me abraçar — pedi. — Já sou grande!

— Engraçado como você já é grande pra um abraço de mãe, mas ainda não é grande pra dormir junto com a mãe!

— Não quero dormir naquela cama! — Neguei.

— Está bem! Escolhe outra cama e trocaremos pra você.

— Quero dormir com você!

— Seu pai já está com ciúmes.

— De mim?

— A lei natural das coisas é: O marido dorme com a esposa e o filho dorme em seu quarto com os irmãos.

— Não quero! — Neguei sério.

— O que fizeram com você naquele mundo?

— Nada mamãe — neguei convicto. — Lá eu dormia sozinho.

— O que os adultos faziam com você? — Se preocupou ela.

— Nada! Eles me veneravam como se eu fosse um ídolo. Mas me respeitavam como se eu fosse uma criança.

— Tem adultos que dizem respeitar alguém como se fosse uma criança, mas a usam como se fosse objeto — continuava assustada mamãe.

— Não tenha medo mamãe. Eu era protegido.

— Por que aqui você quer dormir conosco? Não aceita dormir sozinho, como sempre fez!

— Acho que quero carinho.

— Mas não quer um abraço.

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Todos os dias, dando um jeitinho manhoso e dormindo na cama de meus pais, se passou uma semana.

Com certeza, Erick continuava enfrentando às travessuras de Luecy e o racionamento do pouco alimento, dentro daquele enorme disco voador, ainda a apenas um décimo, da longa viagem que o levaria ao distante planeta Suster.

Domingo à noite, acompanhado por toda minha família, estava na sala, assistindo a um famoso jornal domingueiro, que anunciara falar sobre o caso Regis.

(Desculpe-me ser repetitivo).

A reportagem começou assim:

“—Existe vidas em outros planetas? Regis diz que sim! O menino Regis, atualmente com dezessete anos, desaparecido na Terra há sete anos, foi encontrado no Sábado, dia vinte e quatro e jura ter sido sequestrado por seres alienígenas, de um distante planeta por nome Suster. Segundo Regis, que continua aparentando ter nove anos de idade, esse planeta e seus habitantes são idênticos à Terra”.

“— Como é o planeta onde você esteve? Idêntico à Terra?”

“— É e não é! — Gesticulei com as mãos — Tem um clima idêntico ao nosso. Tem água, oxigênio, nitrogênio, vaporização da água, dióxido de carbono, temperatura de trinta e cinco graus… Mas não tem noites! Duas estrelas gigantes se encarregam de iluminá-lo em suas trinta e duas horas diárias. Só em determinado período do ano, que passa um pequeno espaço de tempo diário, sem iluminação, em certa parte do planeta. Não onde eu estava. Mas o período é tão pouco, que não chega a escurecê-lo. Pra se ter uma ideia, os carros lá não possuem faróis”.

“— O doutor Marcelo é professor e pesquisador de ufologia da Universidade Federal de Brasília e viajará com Regis, no próximo dia dez para os Estados Unidos, onde participarão de análises pelos engenheiros espaciais da NASA.”

“— Doutor Marcelo: — perguntou o repórter. — Até onde é verdade, a história contada por Regis?”

“— Tudo é verdade — afirmou doutor Marcelo, meio bravo. — Caso contrário não perderia meu tempo em viagens desnecessárias.”

“— Nossa reportagem esteve analisando as respostas de Regis, levando-as inclusive para ouvir opiniões de especialistas e eles acham impossível, por exemplo, que se faça uma viagem de oitenta e sete anos luz, em apenas setenta dias. A nave teria que estar a uma velocidade muito alem da velocidade do som ou da luz”.

“— E quem disse que estas velocidades devem ser o limite máximo? No espaço não há fronteira, não há barreira, não há limite! Nossas leias da física, não necessariamente se aplicam ao cosmos.”

“— Não existe nenhum material físico, comprovado, que suportaria tal velocidade. Ou seja: a nave se desintegraria. Pegaria fogo, ou coisa assim.”.

“— Bem que você mencionou: Material físico comprovado! Como vou comprovar material físico criado por seres de um mundo distante?”

“— A lei da física diz que todo o universo é criado com os mesmos componentes químicos.”

“— Com material feito na Terra, pode ser. Depois, o material se desintegra em contato com a atmosfera terrestre, não no vácuo do espaço sideral. Ou seja: ao adentrarem em nosso espaço, eles podem ter diminuído drasticamente a velocidade e estando no vácuo, atingirem milhões de quilômetros por segundo, como insinuou o próprio garoto”.

“— Regis alegou que a nave é feita de aço”.

“— Ele supôs: aço ou níquel! Mas ele também disse que pode ser mercúrio! Existe mais mistério entre o Céu e a Terra, do que nossa mente vã possa imaginar! Isso é uma referência bíblica.”

“— Regis não poderia ter ficado trancado em algum lugar, aqui mesmo na Terra e ter sido libertado só agora?”.

“— Muitas pessoas viram a nave pousar próximo à casa dele.”

“— Não traria contaminação espacial? Algum tipo de vírus? Algum tipo de radiação?”

“— Trouxe radiação! — Informou o doutor Marcelo. — Pelo menos no organismo do menino. Pra se ter uma ideia: os cabelos dele estão do mesmo tamanho do que era a oito anos no passado; faz oito anos que ele não apara as unhas e seus dentes de leite, continuam tão perfeitos como era há oito anos. Embora ele tenha hoje dezessete anos, carrega consigo todas as características de sua infância. Nem sua puberdade e muito menos sua adolescência, não chegou”.

“— Poderia ser uma característica física incomum?”

“— Tão incomum, que em todo planeta Terra, só existe um caso assim. Regis não é um anão! Apesar da idade, ele ainda é uma criança”.

“— Por que seres humanos, idênticos a nós, se preocupariam em sequestrar um menino da Terra? — Perguntou-me outro repórter em entrevista anterior”.

“— Em seu planeta não existem crianças. São imortais e só existem adultos. A idade média de cada um de seus mais de três bilhões de habitantes é de cinco mil anos. Ou seja, qualquer um deles, nasceu antes mesmo de Jesus ter vindo à Terra. Muitos deles, já nos visitaram a milhares de anos no passado”.

“— Mistérios do universo sempre foram pesquisados pelos seres humanos — comentou o apresentador do jornal. — E estas aventuras do garoto Regis, trazem a tona muitas novidades, que serão desvendadas pelos analistas da NASA.”

Encerrou a reportagem, com imagens de um monstro em forma de sapo gigante, tirada de um filme de ficção científica.

— Só idiotice — protestei chateado e fui me deitar... Na cama de meus pais.