O retorno do menino do espaço
17 Aconchego familiar.
Notas iniciais
— Qual é o seu segredo Regis? — Perguntou-me mamãe.
Levantei-me seguindo rumo ao banheiro.
— Vou tomar um banho agora.
Ela me deixou ir. Mas eu sabia que ela e papai voltariam a insistir. Eu evitara falar no assunto, temendo por eles mesmo.
Ao terminar o banho o jantar estava pronto. Então, sem tocar nesse assunto, comentávamos apenas a reportagem exibida a pouco na televisão.
Jantei rápido e sendo o primeiro a terminar, me levantei pedindo:
— Dá licença. Acho que já vou dormir.
— Regis, espere! — Pediu mamãe — Você não dorme tão cedo!
— Estou cansado.
— Por favor — pediu ela. — Sente-se e espere!
Tornei a me sentar e enquanto esperava os demais terminarem o jantar tomei um copo de suco de caju, que ela mesma preparara. Enquanto isso pensava o que iria falar sobre meu segredo bobo.
Cinco minutos depois, o jantar foi recolhido e então seguimos para sentar no sofá da sala, onde Paulinho ligara a televisão.
— Desligue a televisão Paulinho — pediu ela.
Ele obedeceu sem reclamar e sentou-se a meu lado.
— Seu segredo é tão grave assim, filho? — Perguntou-me papai.
— Não! — Neguei — É só uma bobagem.
— Nós somos sua família — advertiu-me mamãe. — Não somos?
— Claro! — Exclamei — E eu os amo muito!
— Então não devemos ter segredos — cobrou-me ela.
— Mas é que… — Tive dificuldades.
— Se você não quer que outros descubram, a gente mantém segredo — prometeu papai.
— Não há problema com os outros.
— O problema diz mesmo respeito a nós? — Assustou-se mamãe — Nossa família?
— Temo que sim — aleguei cabisbaixo.
— Por isso que você tem que nos contar — pediu papai. — Se o problema é conosco, precisamos saber, pra poder ajudá-lo.
— Não preciso de ajuda. Estou bem.
— O que é que há? — Assustou-se ela — É com Paulinho?
— Claro que não! — Exclamei. — Paulinho tem saúde de ferro. Acontece que…
Papai sentou-se a meu lado, me abraçando.
— Seja o que for filho, precisamos saber.
— É que o senhor Frene…
— Eu sabia! — Reclamou mamãe — Tinha que ser!
— Ele jamais me levará de volta à seu planeta. Não precisa ter medo.
— Espero que sim — disse ela. — Temo por todos nós.
— Ele não precisa mais de mim.
— Aonde você quer chegar, filho? — Desconfiou papai.
— O senhor Frene criou uma cópia idêntica à mim — não tive coragem de olhar no rosto deles.
— O quê? — Se embaraçou papai — Como assim?
— Um boneco! — Exclamou mamãe — Um robô!
— Não! — neguei — Um ser humano perfeito! Fala, anda, come, chora, ri, ama, sente dor…
— Como assim, Regis? — Insistiu mamãe.
— É como se ele fosse outro eu. Tem coração, sangue, alma, toma banho, janta, dorme…
— Isso não é possível! — Negou ela — Ele não é Deus!
— Ele tirou algumas de minhas células, colocou uma delas em um óvulo não fecundado, de uma mulher de lá e conseguiu criar uma cópia perfeita de mim. A única diferença é que, como ele não conhece a Terra, então não sente falta daqui.
— Regis, isso é impossível! — retrucou papai.
— Papai! Até aqui na Terra isso já é possível! Sabe-se lá se já não fazem, nos países perdidos no globo! Imagine no mundo avançado do senhor Frene.
— Meu Deus! — Se entristeceu também papai — É como se você continuasse lá!
— Não papai! Eu estou aqui. É como se ele fosse meu irmão gêmeo. Gêmeo idêntico!
— Nossa! — Exclamou Paulinho — Agora somos sete irmãos?
Mamãe estava chorando. Olhei à ela e disse:
— Viu agora mamãe por que eu não queria contar? Sabia que a senhora iria sofrer de novo.
— Não tem problema filho— se confortou ela. — É melhor que a gente saiba. Assim você não sofre sozinho.
— Não sofram por ele — pedi. — Ele não conhece a Terra, nem nossa família. Então é feliz onde está.
— Vá descansar filho — pediu ela. — Você não podia carregar esse fardo sozinho.
Acho que só depois dessa conversa, é que comecei a entender de verdade, o que o outro Regis significava para mim. Era como se ele fosse realmente um eu. Como se estivesse então, faltando um pedaço de mim e que agora, nossa família estivesse incompleta de novo.
Deitei-me, como sempre na cama de meus pais e chorei de saudades daquele estranho. Pela primeira vez, papai não reclamou de eu dormir em sua cama, praticamente grudado à sua eterna namorada. Na verdade, naquela noite, acho que os dois, sequer conseguiram dormir direito. E não foi por estarem em camas separadas.
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Ao me levantar, pouco depois das seis horas da manhã seguinte, mamãe me perguntou:
— Dormiu bem?
— Bom dia mamãe — cumprimentei-a. — Consegui dormir.
— Me ajude a preparar o café!
— Posso tomar banho primeiro?
Minha família, não tinha o costume do banho pela manhã. Mesmo os irmãos que iam à escola não tinham este bom hábito. Eu, porém, devido o calor de Suster, acostumado a sempre que acordava ir direto ao banheiro, para pelo menos uma ducha, mantinha vivo aqui na Terra, o mesmo costume saudável.
Quando saí do banheiro, o café já estava preparado, então disse à mamãe:
— Desculpe não tê-la ajudado.
— Não se preocupe. Gosto de seu costume em tomar banho cedo. Alem de bonito, você fica perfumado. É mais gostoso o cheiro do banho, do que do perfume sobre o suor da noite.
— Obrigado por me mimar mamãe — disse rindo, abraçando-a. — Jamais deixarei vocês.
— Vá pro café.
Enquanto tomava café, percebi que calada, ela me olhava sem piscar os olhos. Acho que sabia o que ela estava pensando e para não deixá-la ainda mais triste, resolvi permanecer calado. Com certeza, ela estava medindo todos meus traços físicos e imaginando outro ser, idêntico a estes mesmos traços, em um mundo, perdido no espaço infinito.
— O que você acha que o outro Regis está fazendo agora? — Perguntou-me ela triste.
— Deixe-o mamãe. Tenho certeza de que ele está feliz no mundo do senhor Frene.
— Mas ele é um pedacinho da gente — ela estava chorando. — Não é justo.
— Ele praticamente não conhece a gente. Não pode sentir nossa falta.
— É como se fosse um filho distante. Assim como você.
— É só uma célula de meu corpo que ficou por lá. Se a senhora sofrer, eu sofrerei também.
Foi então que ela chorou ainda mais.
— Não tem jeito de trazermos ele pra cá?
— Ele nunca seria feliz aqui mamãe.
— Claro que será! Ele é nosso filho!
— Ele seria tão triste aqui, quanto eu era lá. Pode acreditar.
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