Na madrugada de segunda-feira, dia dez, passava por um terrível pesadelo: estava preso dentro de uma nave em forma de bola gigante e escura e viajava perdido pelo espaço; a nave girava a uma velocidade incalculável e eu me sentia muito mal; de repente, um monstro em forma de sapo, maior do que a própria nave surgia com uma bocarra aberta, com dentes serrilhados e babando muito ácido. Quando aquele horroroso monstro começava a engolir a nave, gritei apavorado:

— Mamãe! Mamãe!

Acordei, sendo levantado da cama por papai:

— Calma, filho, já passou… Passou… Foi só um pesadelo.

— Papai! Não deixe me levar! Estou com medo.

— Calma! Ninguém vai te levar! Está tudo bem agora.

— Não me deixe sozinho!

— Deite e durma. Ficarei aqui com você.

Deitou-se a meu lado, me confortando.

Quando acordei novamente, já estava sozinho, ainda na cama de casal; já passava das sete horas da manhã. Fui direto ao banheiro, tomei um banho demorado, escovei os dentes e me vesti com roupas leves de verão; apenas um short sem cueca e camiseta. Estávamos no mês de Outubro e fazia bastante calor. Mamãe penteou demoradamente meus cabelos, sabendo que aquele tipo de carinho me deixava muito feliz, por ter sido privado disso em minha verdadeira infância. Depois, junto com ela, papai, Paulinho e Henrique, tomamos um reforçado café da manhã.

Pouco depois das dez horas daquela manhã, um carro preto, marca Chevrolet Comodoro, com placa do poder legislativo da Prefeitura Municipal, estacionou em frente nossa casa, informando que nos levaria até Araçatuba, de onde embarcaríamos em avião para a capital.

Sabendo que aquilo iria acontecer, já estávamos todos de malas prontas. Nossos passaportes foram novamente providenciados em prazo recorde por doutor Marcelo.

A viagem até Araçatuba e depois à capital correu sem muitas novidades, exceto para meus maninhos, que desfrutaram muito das paisagens, pois nunca tinham viajado, alem da recente prainha do Salto de Avanhandava[1], na cidade de Barbosa, dista trinta quilômetros de Penápolis.

Participamos junto com doutor Marcelo, já com nossos passaportes, em um almoço caprichado, em um restaurante do próprio aeroporto internacional de Guarulhos. Mais uma vez, meus maninhos se encantaram com tantas guloseimas, principalmente doces e como estavam em fase de crescimento, comiam em exagero.

Paulinho, Henrique e mamãe estavam encantados: nunca sequer viram aviões maiores do que os famosos teco-tecos, do aeroclube de nossa cidade, que era por sinal, especialista em oficina destas pequenas aeronaves. Agora, porém, pouco antes das quinze horas, assim que passamos pelas vistorias de raios-x, das malas de viagem, embarcávamos na primeira classe, de um gigante 767-300 do Delta AirLines.

Às quinze horas e cinco minutos, o avião levantava voo, para uma viagem sem escalas. Todos nós, estávamos nos divertindo muito com aquele passeio. Era novidade para mamãe e meus maninhos; para mim, nem tanto, pois já fôra aos Estados Unidos, há sete anos no passado, embora, não em primeira classe. Agora parecia mais divertido, pois estava acompanhado por eles. Há sete anos, apenas papai fôra comigo. Era interessante, pois com a aparência de criança, era criança mesmo que eu me sentia; sendo estranho apenas, que meus maninhos, antes menores e mais jovens do que eu, agora eram mais velhos.

Às zero horas e quarenta minutos (vinte e duas horas e quarenta minutos em Nova Iorque, por ser duas horas a menos do que em São Paulo, devido ao fuso horário), o avião pousava no John F. Kennedy International Airport, em Nova Iorque. Após o demorado desembarque e mais demorado e nervoso check-in na alfândega do aeroporto, onde verificavam um a um todos os passaportes e possíveis imigrantes sem vistos, conseguimos passar pela saída do aeroporto, tomando um táxi, direto ao Roosevelt, que é um gigante hotel de três estrelas, localizado no Upper East Side, na Madison at 45th, a onze quilômetros do aeroporto, próximo a diversos museus.

Já era quase meia noite, quando chegamos ao hotel. O Doutor Marcelo ficara separado, no mesmo hotel. O apartamento era de muito luxo, com ar condicionado, tevê com centenas de canais, banheira com hidromassagem, telefone, sala de estar, secador de cabelo, tábua e ferro de engomar, quatro camas de solteiro e outros apetrechos que nem reparei, pois como já havíamos jantado no avião, nem escovei os dentes e em menos de dez minutos, só de cueca e camiseta, já estava praticamente dormindo.

Acordei no meio da madrugada, me levantei de minha confortável caminha de solteiro e deitei-me ao lado de mamãe, deixando-a desconfortável. Ela me abraçou e continuou dormindo.

Acordei por volta das nove horas da manhã. Paulinho mudava os canais na televisão. Como ele não entendia nada, pois todas as emissoras transmitiam em inglês ou espanhol, ia mudando constantemente. Pedi que ele parasse de apertar o controle, ao sincronizar uma emissora espanhola, que comentava um noticiário sobre nossa chegada aos Estados Unidos:

“Ya en Nueva York, el chico Regis, que visitará el complejo del Centro Espacial Kennedy de la NASA. Llegó la noche y durante el día de hoy, viajará a Orlando, en Florida. El Centro Espacial John F. Kennedy (KSC) es el espacio del puerto de lanzamiento de naves espaciales de la NASA en Cabo Cañaveral situado en Merritt Island, Estados Unidos.. El sitio se encuentra entre Miami y Jacksonville. Tiene cincuenta ycinco kilómetro de largo y unos diez kilómetro de ancho, con una superficie de quinientos sesenta y siete kilómetro plaza. Alrededor de diecisiete mil personas trabajan en el sitio. Existe un centro para visitantes y público en giras, el KSC es uno de los principales sitios de interés turístico para los visitantes de la Florida. Debido a la mayor parte de la KSC tiene límites a su desarrollo, el sitio también sirve como un santuario ecológico, con sólo el nueve por ciento de sus tierras desarrollados. Regis, con tres familias y un investigador brasileño, se hospeda en un hotel de Nueva York y luego en avión para un viaje de unas dos horas a Orlando, un mil quinientos nueve kilómetros”.

“— Já está em Nova Iorque, o garoto Regis, que visitará o complexo do Centro Espacial Kennedy, da NASA. Regis chegou durante a madrugada e ainda hoje, deverá viajar para Orlando, na Florida. O Centro Espacial John F. Kennedy (KSC) é o porto espacial de lançamento de veículos espaciais da NASA, localizado no cabo canaveral, na Ilha Merritt, nos Estados unidos. O local se localiza entre Miami e Jacksonville. Ele possui cinquenta e cinco quilômetros de comprimento e cerca de dez quilômetros de largura, cobrindo uma área de quinhentos e sessenta e sete quilômetros quadrados. Cerca de dezessete mil pessoas trabalham no local. Existe um centro de visitantes e passeios públicos, sendo o KSC um dos principais pontos turísticos para os visitantes da Flórida. Devido ao fato de grande parte do KSC ter limites para seu desenvolvimento, o local também serve como um santuário ecológico, possuindo apenas nove por cento de seu terreno desenvolvido. Regis, com três familiares e um pesquisador brasileiro está hospedado em um hotel de Nova Iorque e seguirá de avião, em viagem de aproximadamente duas horas, para Orlando, a mil quinhentos e nove quilômetros de distância”.

— Teremos que viajar mais, Regis? — Perguntou-me Paulinho.

— Você entendeu o que o repórter falou? — Perguntei-lhe.

— Mais ou menos! Espanhol não é tão complicado!

— Teremos que ir até Orlando. Deve ser hoje de manhã.

Levantei-me, tirei meu aparelhinho tradutor, colocando-o no pescoço de Paulinho, mudei o canal de tevê para um com programação em inglês, fazendo o menino se admirar e segui direto ao banheiro. Liguei as torneiras da banheira, enquanto escovava os dentes; depois me despi, entrei na banheira, sentando-me para um delicioso banho, com a hidromassagem ligada, fazendo um turbilhão de espumas.

Vinte minutos depois, após meus irmãos usarem o banheiro comigo dentro, separado apenas pelo tal box, de acrílico embaçado e devido muita insistência de mamãe, saí do banho, enrolei na toalha e fui até o quarto, para me enxugar direito e vestir roupas, enquanto os demais retornavam ao banheiro, com mais privacidade.

Pouco antes das dez horas, descemos para o primeiro andar, no restaurante, onde nos deliciamos com reforçado café da manhã, regado a chocolate, muitos frutos, sequilhos, diversos tipos de pães e bolos, sucos, leite, café, ovo mexido, presunto, mussarela, queijos e outras tantas delícias.

Para nós, inclusive para mamãe e meus maninhos, aquilo era coisa de rico, principalmente por sermos pobres e jamais terem estado em um hotel antes; exceto eu, que já estivera uma vez aqui na Terra e também, acostumado a muita mordomia em Suster, o planeta do senhor Frene.

Outra coisa que me deixava à vontade era, graças ao aparelhinho tradutor, que tornara a pegar de Paulinho e sempre trazia pendurado como adereço no pescoço, conseguir entender o que todos falavam. O que não era possível para mamãe e Paulinho, que só estudaram inglês, no ensino fundamental e Henrique, que embora, estivesse atualmente fazendo curso, ainda não era expert em tal idioma.

Na saída do café, encontramos doutor Marcelo, que nos cumprimentou:

— Bom dia pessoal! Estão prontos?

— Pra que? — Perguntou mamãe.

— Já tomaram café?

— Acabamos de sair da mesa — confirmou mamãe.

— Sairemos do hotel às doze horas e iremos para o aeroporto, pra continuarmos a viagem.

— A que horas é o avião? — Perguntei-lhe.

— Treze horas e trinta minutos.

— Estaremos prontos e desceremos na recepção — Informou-lhe mamãe.

— Então até já!

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Saímos do hotel às doze horas, indo direto ao aeroporto, aonde chegamos de táxi, quinze minutos antes das treze horas. Às treze horas e trinta minutos, em outro avião comercial, seguimos para Orlando, na Flórida, aonde chegamos pouco antes das dezesseis horas e novamente de táxi, nos dirigimos ao centro espacial John Kennedy, no Hotels Near Kennedy space Center, aonde chegamos por volta das dezessete horas e ficamos hospedados todos no mesmo hotel, ao contrário do ocorrido da outra vez, onde papai e o doutor Marcelo ficaram hospedados na cidade de Orlando e eu ficara no edifício da NASA.

A Flórida é um estado americano que fica praticamente dentro do mar, separado dos outros estados. É quase como se fosse uma ilha, com apenas uma entrada.

Acomodados em apartamento de luxo, melhor ao que estivemos em Nova Iorque, com uma cama de casal e duas de solteiro, deitei-me, tomando posse de uma das camas (adivinhem qual!) sendo imitado por meus dois irmãos, passando a assistir tevê, que fôra ligada por Paulinho, o qual, novamente não deixava em nenhum canal, pois talvez procurasse algum que transmitisse em língua portuguesa, o que não encontrou.

Quinze minutos depois, bateu em nossa porta e mamãe atendeu. Era uma mulher muito jovem (vinte anos talvez), cabelos curtos e vestida com trajes de médica:

— Good afternoon — cumprimentou ela.

Mamãe não entendeu.

The Regis is?

Mamãe continuou na mesma. Levantei-me e fui falar com ela.

— Boa tarde! Eu sou Regis!

Deu-me a mão dizendo:

— Sou a doutora Wendell. Posso entrar?

— Entre! — Apontei para a sala de estar.

Ela entrou, sentando-se no sofá.

— Gostaram de nosso hotel? — Perguntou-me ela.

— Muito bonito! Meus irmãos e mamãe também gostaram. Desculpe, mas eles não entendem o que você fala.

— Como você, tão jovem, consegue falar Inglês?

— Tenho meus truques! — Insinuei rindo.

— Muito bem! Enquanto estiver conosco, serei sua médica.

— Preciso de médica?

— Espero que não! — Riu ela — Mas amanhã cedo, faremos alguns exames.

— Pra que? Faz tempo que não fico doente.

— Por isso mesmo! — Riu ela, tirando dois frascos de sua valise, me entregando a seguir — Precisava explicar à sua mãe.

— O que a senhora falar eu posso repetir e ela me entende — aleguei.

— Morning tomorrow need to scoop urine and feces — disse ela.

— Mamãe, preciso colher urina e fezes, amanhã de manhã, em jejum — avisei para mamãe, que acenou positivamente.

— We will also test for blood. So don't take coffee.

— Também tenho que fazer exame de sangue em jejum — voltei-me para a doutora e decidido insinuei. — Não vou fazer exames radioativos.

— Claro que não! — Exclamou ela — Só os que mencionei.

— Da outra vez me injetaram mercúrio nas veias.

— Não faremos nada de anormal contigo — esclareceu ela. — Virei buscá-lo amanhã às sete horas. Tudo bem?

— E minha turma?

— Eles terão o dia livre. Aqui no centro espacial existe um parque muito especial. Eles gostarão muito. Garanto-lhe.

— Sozinhos eles estarão perdidos! — Insinuei.

— Mandarei um guia que fala Português, os acompanhar.

— Verdade?

— Deixe comigo — levantou-se, abriu a porta e ao retirar-se, disse:

— Ainda é cedo; se quiserem dar uma volta, fiquem à vontade. O jantar é a partir das dezenove horas, no restaurante do primeiro andar. Até amanhã!

Retirou-se. Esperei que ela entrasse no elevador e fechei a porta. Voltei para minha turma, dizendo:

— Se quiserem dar uma volta, existe um belo parque espacial perto daqui! E o melhor: é tudo grátis!

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Naquela noite, como já fazia todos os dias, enquanto meus irmãos deitaram nas camas de solteiro, deitei-me com mamãe.

Como prometido, às sete horas da manhã de quarta-feira, doze de Outubro, a doutora Wendell bateu à porta e eu mesmo atendi. Ela já estava acompanhada por outra moça: morena clara de lindos cabelos lisos curtos; não mais do que dezoito anos de vida.

— Bom dia Regis! — Cumprimentou-me a doutora. — Esta é Judith! Ela fala Português e estará o dia todo com sua família.

— Bom dia! Ambas são bonitas! — Afirmei.

— Você é um bom galanteador! — Riu a doutora — Está pronto?

— Sim! Assustado.

— Nada vai lhe acontecer! Colheu o material?

— Já! Mas falta o pior!

— O que?

— O sangue! Não gosto de agulhas.

— Uma picadinha de pernilongo. Vamos?

Voltei-me para mamãe, dizendo:

— Não se preocupe mamãe, não fugirei novamente. A Judith ficará com vocês e à tarde a gente se encontra.

— Nada disso! — Negou mamãe, preocupada — Aonde você for eu irei junto!

— Não se preocupe — pediu Judith. — Regis estará bem. Só fará alguns exames médicos e responderá poucas perguntas. Ele estará no prédio da NASA aqui mesmo, no complexo.

— Não importa! — Insistiu mamãe — Ele é menor e se vai fazer exames médicos, eu irei com ele!

— Mamãe! — Pedi — Me deixe. Se a senhora ir comigo, os meninos terão que ir também e não aproveitarão a viagem.

— A gente fica sem aproveitar a viagem — insistiu ela. — Não vou deixá-lo sozinho.

— Não se preocupe — implorei a ela. — Não sairei deste complexo de prédios.

Apesar de não concordar muito, ela acabou aceitando, desde que a gente se encontrasse no horário do almoço.

[1] Até o início de 1982, o local era formado por diversas quedas d’água, as quais a natureza demorou milhões de anos para construir e eu adorava passear em tal local, mas o homem as destruiu em menos de dez anos, represando tudo, para construção de barragem de hidroelétrica.

Notas finais
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