Chegando à nossa saudosa casa, papai e os demais já estavam acordados nos esperando. Eles sabiam que deveríamos chegar neste horário, portanto, fomos recebidos com verdadeira festa de abraços e perguntas. Nossa família, apesar de pobre, era e principalmente depois de tal drama vivido, ainda é muito unida.

Fomos todos juntos tomar café, preparado por minha irmã Letícia e papai. Um verdadeiro banquete em nossa homenagem.

Percebi no jeitão de papai ouvir nossas façanhas, um pouco de ciúmes, em não ter aproveitado o passeio que fizera comigo há sete anos, onde visitou muitos lugares em Orlando, mas não estivera em nenhum dos parques Disney. Na época, como eu não pude ir, ele achava que aquilo era apenas para crianças.

Pouco depois, mesmo sem concluirmos os infindáveis assuntos, Letícia seguira para a escola, papai, com meus irmãos Luis e Leandro seguiram para o trabalho. Henrique e Paulinho, embora cansados, resolveram também ir para a escola, pois, alem de já terem perdidos seis dias de aulas, estavam ansiosos para contar suas aventuras na terra de tio Sam, aos amigos. Com isto, como sempre, em casa só ficamos eu e mamãe.

— Vá dormir um pouco Regis — pediu-me ela.

— Pra que? — Insinuei admirado — Já dormi a noite toda!

— No ônibus a gente não dorme direito.

— Com certeza eu dormi muito! Vou ajudá-la um pouco.

— Não precisa! A turma deixou a casa em ordem. Só vou fazer um almoço pra nós... mais tarde. Agora, até eu vou deitar um pouco.

— Vá sim mamãe! Eu fico de plantão.

Sorte que durante muito tempo não apareceu ninguém em nossa casa. Mamãe realmente estava cansada e acabou adormecendo logo. Eu fiquei na sala, brincando, principalmente com a miniatura da Challenger.

Eram quase nove horas, quando alguém bateu palmas no portão e eu corri a atender. Tive uma agradável surpresa: era Elizabeth.

— Oi Beth! Você não foi à escola?

— Faltei, pois estava ansiosa pra ver você.

Abri o portão e a abracei com carinho. Ela deu-me um beijo na face e perguntou:

— Chegaram agora de manhã?

— Às seis horas! Você sabia?

— Sua irmã me falou ontem, que se vocês não perdessem o ônibus, chegariam nesse horário.

— Realmente foi muito corrido. Chegamos à rodoviária apenas dez minutos antes do ônibus sair. Entre!

— Só está você aqui?

— Eu e mamãe! Mas ela está descansando.

— Paulinho e Carlos foram pra escola?

— Preferiram ir, pois já perderam muitos dias de aulas.

Sentamos juntos no sofá da sala.

— Como foi seu passeio à NASA?

— Não passeei muito na NASA! Mas em compensação, o que divertimos na Disney, você nem acredita!

— É bom lá?

— É o melhor lugar do mundo! Eu ficaria por lá mais uma semana! Ou até um mês!

— Nem se lembrou de mim?

— Não esquecia você nem um pouco. Pena que não pode ir com a gente.

— Da próxima vez, darei um jeitinho de ir. Nem que for dentro das malas.

— O duro, é o peso pra gente levar! — Brinquei.

— Que isso Regis? Ta me chamando de gorda?

— Acha! — Assustei-me — Você é grande, pra que eu a carregue!

— E quando nos casarmos? Não vai me levar no colo pro quarto, na lua de mel?

Entristeci-me um pouco.

— As notícias não são muito boas pra nós — justifiquei.

— Por que não?

— A doutora Wendell, acha que não terei barba tão logo.

— A gente se casa sem barba mesmo! — Brincou ela.

— Não é só a barba.

— Seja o que for Regis. Mesmo que você seja criança, gosto é de você!

— Daqui uns dois ou três anos, você será maior de idade e se continuarmos namorando, não dará certo.

— Por que não?

— Você será realmente acusada de pedofilia.

— Oficialmente nós temos a mesma idade.

— Mas você vai querer um homem adulto. Nem filho a gente poderá ter.

Colocou o dedo indicador direito em minha boca, dizendo:

— Só quero você! Vamos mudar de assunto, pois este papo está lhe deixando triste.

— É que eu tenho medo de perder você.

— Não vai me perder! Pensa que eu não tenho medo de perder você também?

— Como assim?

— Se você realmente continuar jovem por muitos anos, eu irei me envelhecer e aí sim, você vai acabar não me querendo mais.

— Isso jamais Beth! Sempre amarei você.

— Está bem — Deu-me um leve beijo nos lábios, fazendo meu coraçãozinho gelar de felicidade. — Conte mais de suas aventuras na Disney.

— Espere aqui! — Disse-lhe, me levantando — Vou lhe mostrar algo.

Saí correndo até meu quarto, apanhei o álbum de fotos e voltei, sentando-me a seu lado, coloquei o álbum em seu colo e disse:

— Veja que maravilha!

Ela começou a folhear aquele álbum. Na primeira página, eu disse:

— Veja! Sou eu e Mickey.

— Que lindo!

— Me lembrei de você quando estava com ele.

Virou a página e eu lhe narrei, apontando o dedo nas fotos:

— Aqui é Paulinho e Clarabela. Esse outro é Henrique e Minie.

Na próxima página:

— Veja! Eu e Peter Pan! Esta é Judith, mamãe e Margarida.

Até parece que precisava ficar comentando, sendo que as fotos mostravam quem era e com exceção de Judith, Beth conhecia todos os demais.

Próxima página:

— Eu, Henrique, Paulinho e Pateta. Ele tem uma fazenda! Acredita?

— Nessa outra sou eu e Tio Patinhas! Acredita? Ele me deu a moedinha número um. Espere! Vou buscá-la!

Saí novamente correndo a meu quarto e trouxe em seguida uma moedinha de cobre, de um centavo de dólar, com a cara do tio Patinhas no verso. Entreguei a Beth, dizendo:

— Veja! Agora vou ser o menino mais sortudo do mundo!

— Você é o menino mais sortudo do mundo, Regis! — Riu ela.

— Veja: Minie, eu, Paulinho e Mickey.

Mamãe, que acabara de se levantar, apareceu na porta da sala e cumprimentou Beth:

— Oi Beth. É você quem está com o meu tagarelinha?

— Oi — retribuiu os cumprimentos ela.

— Desculpe mamãe. A gente acordou você?

— Você me acordou, Regis — esclareceu ela.

— Sinto muito... Acho que me esqueci.

— Não se preocupe — consolou-me ela. — Até que foi bom. Eu precisava mesmo levantar. Se não o pessoal chega pro almoço e as panelas estarão frias.

— A gente ajuda a senhora — se ofereceu Beth. — Eu e Regis.

— Não é preciso. Obrigado — agradeceu ela. — Continuem vendo as fotos. E agora já podem falar alto.

Eu já vinha falando muito alto.

Continuei comentando cada foto, conforme Beth folheava o álbum.

— Paulinho com Pato Donald; Henrique com um dos três patinhos, Huguinho, Zezinho ou Luisinho, sei lá qual!

— Este é Huguinho — riu ela.

— Como sabe? — Duvidei.

— Huguinho é o líder dos três e usa boné vermelho. Zezinho é o mais esperto e usa boné azul. Luisinho é o mais criativo e usa boné verde.

— Por que você sabe isso?

— Adoro ler suas histórias em quadrinhos!

Não acreditei muito nela, mas devia estar falando a verdade, então continuei narrando:

— Eu e Paulinho com Branca de Neve... mamãe e Maga Patológica... eu com capitão Gancho... todos nós com Pluto... Paulinho com João Bafo de Onça... eu com os irmãos metralhas... Paulinho com Gastão... eu com o Professor Pardal... Henrique com Chiquinho e Francisquinho... — virei-me a ela perguntando — Sabe quem é o Chiquinho e o Francisquinho?

Ela forçou os lábios e acenou que não.

Continuei:

— Eu e meus irmãos com Zé Carioca. Sabia que o Zé carioca é brasileiro? Ele é do Rio de Janeiro. Claro! Ele é carioca... Aqui eu e meus irmãos com vovó Donalda... eu e Mogli... todos nós na entrada do parque... eu e Paulinho na piscina com tobogã gigante e acabou.

Ela estava rindo, então perguntei sério:

— Do que você está rindo?

— De seu comentário! Até parece que eu já não os conhecia.

— Verdade — me acanhei. — É que sou bobão!

— Bobão nada! — Exclamou ela — Estou até com inveja.

Durante muito tempo Continuei contando as novidades a Beth e quando ela quis ir embora, eu e mamãe não permitimos, fazendo com que ficasse para almoçar conosco e continuei contando tudo o que se passara na América, enquanto juntos, ajudávamos mamãe na cozinha.

Assim que lhe mostrei a miniatura da Challenger, ela me perguntou:

— Seus irmãos não ficaram com ciúmes de seus presentes?

— Não! Eles também ganharam a moedinha número um do tio Patinhas. E as fotos são de nós todos!

Calei-me por um instante, depois conclui:

— Eu é que fiquei com inveja deles. Eles passearam mais do que eu.

— Como assim?

— Enquanto eu estava levando agulhada no braço e um monte de trecos grudado em mim, eles estavam se divertindo.

©©©

Ao ir para a cama naquela noite, papai foi rigoroso:

— A partir de hoje, você vai dormir em sua cama — ordenou-me ele.

— Não quero! — Neguei com manha.

— Você já é grande! Não justifica querer dormir com a gente.

Como permaneci calado, ele prosseguiu:

— Você tem ciúmes de mim e sua mãe juntos?

Acenei que não.

— Pois é — alegou ele. — Eu estou com ciúmes de você e da mamãe!

— Nããão! Eu sou só o filho da mamãe! Não vou namorar ela!

— Quanto tempo faz que não durmo com ela?

Eu não era ignorante. Era até experto demais e sabia do que ele falava.

— Tudo bem papai — concordei. — Você dorme com a mamãe.

Deitei-me em minha cama.

Duas horas depois, ainda estava rolando em minha caminha e não conseguia dormir.

Levantei-me e segui de mansinho para o quarto deles, enfiando-me no meio dos dois e permanecendo quietinho.

Mais uma hora se passou e acordei com papai sentando-se ao lado da cama e reclamando, de certa forma nervoso:

— Ah não!

Ascendeu a luz e continuou:

— O que há com você Regis? Tem medo do quê?

Nada respondi, permanecendo encolhido, igual cachorrinho novo quando está dormindo.

— Vou ter que levar você em um psicólogo. Mesmo que sua idade fosse nove anos, já seria grande demais, pra dormir debaixo da saia da mãe.

Levantou-se, apagou a luz e seguiu para meu quarto. Eu, apesar de ter ficado com o coração assustado e com certo remorso em tomar-lhe seu lugar de rei da casa, me virei na cama e continuei dormindo.

Notas finais
Ah se todos os leitores conseguissem um tempinho para um pequeno comentário! Regis eu não sei, mas o autor ficaria muito gratificado.