O retorno do menino do espaço
15 E essa paz que não chega.
Na tarde de quinta-feira, papai e eu fomos à escola Marcos Trench, onde, na diretoria encontramos dona Margareth, diretora desde quando eu estudava lá. Não sei como, mas ela me reconheceu de longe:
— Olá Regis — disse ela com sorriso largo. — Fugiu mesmo da escola?
— Ele pretende voltar no ano que vem — informou-a papai.
— Claro que sim! — Me abraçou ela — Sua vaga está sempre reservada. E espero que não fuja mais!
— Não fugirei nunca mais! — Me comprometi.
— Interessante como você continua sempre igual.
— Só que ele deseja se matricular na sétima série — pediu-lhe papai.
— Não há como! — Negou a diretora — Que série ele estava quando foi embora?
— Eu estava na terceira série. Mas estudei muito, mesmo estando fora. Apesar de perder alguns anos, consegui concluir a terceira, a quarta, a quinta e a sexta série. Este ano estava fazendo a sétima.
— Lá onde você se encontrava? — Perguntou-me ela.
— Sim! Tive ótimos professores! Alguns particulares.
— O estudo lá não tem valor aqui pra nós.
— Por que não?
— Com certeza o currículo escolar de lá não bate com o nosso — alegou-a.
— É o mesmo.
— História do Brasil, por exemplo — insinuou ela.
— Estudei!
— Como assim? — Admirou-se ela.
— O senhor Frene concordou que eu não ficasse analfabeto e me incentivou.
— Mas eles estão a par de nosso mundo assim, em tudo?
— Tive professores da Terra. Estudava por telepatia.
— Como assim?
— Dona Regina me deu aulas na terceira série.
— Antes de você se ir! Eu sei.
— Quando eu estava distante. Ela sabe disso. Dona Elza, me deu aulas na quarta série. Ela também sabe disso.
— Não é possível! — Não a acreditou. — Espere um momento.
Retirou-se. Eu e papai sentamos e aguardamos por uns dois minutos, até que ela retornasse acompanhada por dona Regina e dona Elza.
— Não acredito que é meu aluno predileto! — Exclamou dona Regina — Menino fujão.
— Não se esqueceu de mim?
— Como poderia? — Disse ela.
— E eu nunca vi você — negou dona Elza. — Mas te conheço muito.
Ambas me abraçaram.
É. Eu realmente era muito querido.
— Regis me contou uma história — Insinuou a diretora. — Quero saber o que é verdade. Vocês duas deram aulas pra ele, mesmo ele não estando presente?
— Era mesmo verdade Regis? — Perguntou-me dona Regina — Todo tempo era você?
— Eu não podia continuar analfabeto. O senhor Frene arranjou um jeitinho de eu frequentar suas aulas.
— Acabei me acostumando — disse dona Regina. — Mas no começo achava que estava sonhando! Devido o que aconteceu à Regis, ele acabou se tornando especial pra mim.
— Eu também não conseguia entender — insinuou dona Elza. — Não conhecia Regis! Foi Regina quem me apresentou. Nunca, com exceção de hoje, o havia visto. Só o conheci por voz e achava loucura. Durante as chamadas, tinha que ter cuidado pra não falar com ele e os demais alunos notarem e pensarem que eu estava ficando louca.
— Vocês falavam com Regis? — Duvidou a diretora — Como era possível? Ele estava muito distante.
— Acho que por isso, ele se tornou um aluno especial — se comoveu dona Elza. — Estou feliz em lhe conhecer de verdade.
— Obrigada dona Elza! Nunca esquecerei suas aulas. Nunca esquecerei o que a senhora e dona Regina fizeram por mim. O carinho que tinham por mim.
— Tinham não! — Negou dona Regina. — Temos!
— Nunca consegui esquecê-lo, menino — Insinuou dona Elza.
— Pra falar a verdade, depois que você deixou de frequentar minhas aulas, indo para a quarta série, fiquei até com ciúmes — alegou dona Regina com sinceridade.
— Acho que sou um menino especial — brinquei. — Sou muito feliz pelo carinho que me dão.
— Podem voltar à suas salas— pediu dona Margareth. — As crianças estão sozinhas.
As duas me abraçaram, despediram-se de papai e retornaram às suas classes.
— Regis. Não sei realmente o que fazer — se perdeu a diretora. — Imaginava você retornando para a terceira série. Vou ter que conversar com a delegacia regional de ensino e explicar seu caso. Veremos o que eles falam.
— Tudo bem — concordou papai. — Voltaremos outro dia?
— É melhor! Voltem segunda-feira, que verei o que deveremos fazer.
©©©
Ao chegarmos à minha casa de bicicleta, naquela mesma tarde, avistamos ao longe, um carro de uma emissora de televisão.
— Você tem visita, Regis — alertou-me papai.
Nada falei. Ele teve uma ideia:
— Quer ir à casa da Beth? Eu falo que você vai passar a noite fora.
— Não papai — neguei. — Ele voltaria amanhã.
Acabamos de chegar e um pouco ofegante e suado, devido às pedaladas, entramos na sala, onde encontramos sentado no sofá, André, um famoso apresentador de televisão de rede nacional, em um programa domingueiro, acompanhado de outros técnicos.
— Aqui está nosso jovem astronauta — comentou André, se levantando e me abraçando. — Me conhece?
— Um pouco! — Afirmei com sinceridade — Dá pra saber que o senhor é muito famoso.
— Primeiro, eu não sou senhor! — Negou ele — Depois: sei por que você não me conhece.
— Praticamente Regis não passou nenhum domingo aqui em casa — Alegou papai. — Nem poderia ter assistido a um programa seu.
— Verdade! — Concordou André — E este outro garoto aqui? — Chamou Paulinho — Me conhece?
— Muito! — Confirmou meu irmão — A televisão aqui, aos domingos, só fica ligada em seu programa.
— Muito bem Regis! — Alegou André — A minha proposta é a seguinte: Quero você em meu programa de domingo. Posso contar com você?
Olhei para papai, depois mamãe e meio com desânimo disse, franzindo os lábios:
— Estou cansado, papai.
— Você não vai se cansar! — Negou André — Prometo levá-lo e trazê-lo, de avião.
— Chegamos de viagem ontem! — Insinuei.
— Pois bem — concordou André. — Por isto que eu vim pessoalmente. Analisando esse fato, imaginei em fazer a reportagem aqui mesmo!
— Não preciso ir à São Paulo?
— Você escolhe! Aqui, ou lá.
— Prefiro ficar aqui.
— Em São Paulo, você ficaria em hotel de primeira classe.
— Prefiro ficar no hotel primeira classe de minha mãe.
— Êta menininho decidido! Não? — Afirmou ele rindo — Parabéns por essa frase.
— Regis é muito amoroso — Afirmou mamãe. — Os outros também são!
— Mas Já viu falar no Othon Palace?[1]
— Não! — Neguei, dando de ombros.
— Faremos a reportagem aqui. Você concorda em nos conceder uma entrevista?
— Papai é meu empresário — caçoei.
— A única coisa André — Observou papai. — É que alguns jornalistas são muito carinhosos com Regis, aí apresentam no jornal piadas e comentários de mau gosto.
— Compreendo. Fazem sarcasmo e metáforas com o que não podem acreditar. Eu tenho assistido aos telejornais.
— Com isto, meu menino fica com cara de idiota.
— Não fico não papai! — Neguei prontamente — Não estou nem aí se acreditam em mim ou não!
— Por isso eu gostaria que fossem ao programa — Aconselhou André. — Lá faremos uma reportagem ao vivo, sem podermos fazer cortes nem montagens. Mas mesmo aqui, tenho meu nome pra zelar e não trairei um menino simpático como Regis.
Forcei os lábios em sorriso um pouco duvidoso.
— Alem do mais... — continuou o apresentador. — se eu não acreditasse em você, não perderia meu tempo vindo até aqui.
E assim aconteceu mais uma longa entrevista, a um famoso programa de auditório. Primeiro tomei um banho, pois embora não envelhecesse, transpirava como qualquer garoto e o suor, principalmente após um longo percurso pedalando, apesar da televisão não mostrar, não cheirava muito bem.
À noite, ao deitar-me na cama de meus pais, ele voltou a reclamar:
— Regis, você acha certo dormir junto com a mamãe e eu dormir sozinho?
Balancei os ombros timidamente, sem nada dizer.
— Que marido e mulher somos nós? — Insistiu ele.
— Está bem papai — aceitei, embora sem concordar com ele. — Vou dormir em minha cama.
Durante várias horas fiquei em minha caminha tentando dormir, sem, contudo pregar os olhos. Como na noite anterior, levantei-me, apanhei a manta fina e segui ao quarto de meus pais, forrei o chão ao lado de mamãe e deitei-me ali.
[1] A rede de hotéis mais cara e famosa do mundo, com uma unidade na entrada do viaduto do Chá, na capital paulista.
Fale com o autor