Notas iniciais
Neste capítulo foi deixado o link para conferir algumas avaliações feitas por Regis, em busca de sua admissão para a 7ª série do primeiro grau.

Após o almoço, ajudei mamãe a lavar a louça. Enquanto ela lavava, eu secava com pano de prato e guardava tudo no armário da copa.

Enquanto trabalhava, ela, ainda triste, tentava ficar calada, mas eu, jeito animado de moleque sapeca, tagarelava mais do que... o menino que engoliu uma vitrola.

Terminando esta pequena tarefa fui até a casa de Elizabeth, que me recebeu no portão.

— Entre! Regis! — convidou-me ela com carinho. — Estou estudando um pouco.

— Não quero atrapalhar. Volto depois.

— Imagine! — Insinuou ela. —Nenhum estudo é melhor do que sua visita!

Entrei em sua sala, onde encontrei sua mãe.

— Oi Regis — cumprimentou-me sua mãe. — Vimos você na televisão ontem.

— Gostaram? — Perguntei.

— A Beth ficou toda inchada, quando você disse que era namorado dela.

— Contei à meus pais o que disse ser segredo.

— Contou? — Perguntou-me Beth.

— Eles me obrigaram.

— Não sei seu segredo e não precisa revelar, mas sinto muito — disse Beth.

— Você pode saber. Só mamãe não poderia.

— O que há de errado com sua mãe, Regis? — Quis saber dona Joana.

— Com ela nada! — Neguei — Meu segredo é que tenho um irmão gêmeo e ela não sabia.

— Nossa! — Exclamou Beth. — Que loucura!

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Quando retornei para casa, quase seis horas da tarde, mamãe me disse:

— A diretora da escola esteve aqui agora à pouco.

— Nossa mamãe! Esqueci que deveria ter ido lá.

— Foi o que ela disse.

— Como sou irresponsável!

— Não se preocupe. Ela disse que falou com a delegacia de ensino e eles falaram até com o ministro da educação.

— E o que ele disse?

— Amanhã é feriado[1], então você deverá estar na escola na quarta-feira à uma hora da tarde, onde será submetido a várias provas. Se conseguir passar em todas, será matriculado na sétima série.

— Jura? — Fiquei contente.

— É o que ela disse!

— Que bom.

— Mas são várias provas. Ela disse que não é nada fácil. Mandou você dar uma lida em matérias da sexta série.

— Sexta série é fácil. Não se preocupe. Me darei bem!

— Inglês, Matemática, História do mundo, Ciências e Geografia.

— Tudo bem mamãe — insinuei confiante. — Estudei isto! Não terá Língua Portuguesa?

— Ela não disse.

Naquele momento, papai e os demais irmãos já estavam em casa. Parecia que, por solidariedade, ninguém ousava tocar no assunto sobre o outro Regis.

Ao ir para a cama naquela noite, papai me arrastou para meu quarto, encostou a cama de Paulinho ao lado da minha e disse:

— Será que se Paulinho dormir a seu lado, você consegue ficar aqui?

Apenas balancei os ombros, como a dizer: “veremos”.

Na manhã seguinte, acordei na mesma cama, em que meu maninho, que já não era tão caçulinha assim (quase treze anos), dormia abraçado a mim.

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Então, quarta-feira, vinte e seis de Outubro, às treze horas, devidamente uniformizado, estava sentado na cadeira de dona Margareth, que me disse:

— Você fará cinco avaliações. Eu procurei não dificultar muito, mas se você preferir, não será necessário fazer todas hoje.

— Creio que não haverá problemas, dona Margareth — Aleguei confiante. — Eu estudei a sexta série.

— Qual matéria você prefere fazer primeiro?

— Matemática — pedi sem hesitar.

Ela me entregou duas folhas: uma em branco, para que eu a usasse e outra com as questões, para que eu copiasse.

— Toda a avaliação deverá ser feita à tinta. Caso você erre, pode rabiscar e refazer na frente. Alguma dúvida?

— Está tudo bem!

— Prefere que eu saia da sala?

— Não se preocupe. Pode ficar!

E assim, sem muita pressa, fiz minha primeira avaliação. No exercício dois, achei interessante a coincidência nos nomes Regis, Leandro e Henrique. Esbocei leve sorriso e continuei, demorando quase trinta minutos para concluí-la.

— Está pronta, dona Margareth — afirmei, me levantando.

— Muito bem! — Pegou a prova — Foi complicado?

— Não! — neguei. — Foi bem fácil!

— Qual deseja fazer agora?

— Pode ser de Inglês! — Aleguei.

Do mesmo modo, me entregou duas folhas dizendo:

— Proceda da mesma forma. Use só caneta. Se errar, pode rabiscar e refazer. Enquanto isso eu corrijo a primeira.

É lógico que prova de Inglês não é nada fácil, mas também não foi o fim do mundo. E é bom lembrar que meu aparelhinho tradutor não ajuda nada neste caso. Se fosse avaliação oral seria uma maravilha.

Demorei também aproximadamente trinta minutos e ao final, entreguei à diretora dizendo:

— Ufa! Esta foi mais difícil.

— Quer deixar as outras pra depois do recreio?

— Ainda dá tempo de fazer mais uma. Pode ser de História.

— É História Crítica! Embora procurasse formular perguntas fáceis! Perguntas do dia-a-dia.

— Vejamos! — Disse-lhe rindo.

Entregou-me duas folhas. Eu procedi da mesma forma. Porém, como eram apenas cinco questões, consegui resolver em menos de vinte minutos.

— Está pronta dona Margareth — disse-lhe alegre. — Realmente não foi complicado.

— Quer deixar as outras duas pra depois? Você deve estar com os dedos doendo.

— Posso apenas ir ao banheiro e tomar água?

— Fique à vontade.

Enquanto caminhava até o banheiro, passei em frente à classe de dona Regina, que me chamou:

— Regis!

Parei e ela chegou até a porta.

— Como vai? — Perguntou carinhosamente.

— Muito bem, graças a Deus.

— Está fazendo as avaliações da sexta série?

— Sim! Como sabe?

— A diretora nos contou. Estou torcendo por você.

— Obrigada dona Regina! A senhora é legal.

— Já fez alguma?

— Matemática, Inglês e História Crítica.

— Foi bem?

— Creio que sim — afirmei rindo.

— Então vá com fé!

— Obrigada! Tchau!

Acabei de chegar ao banheiro. Mais para dar uma volta e esticar as pernas do que mesmo a fim de descarregar a bexiga; mas aproveitei e depois segui até o bebedouro, a fim de reencher a mesma bexiga. Em seguida, retornei à diretoria. Ao passar pela classe de dona Regina, fiz um sinal de positivo à ela e acabei de chegar para mais uma avaliação.

— Qual você fará agora? — Perguntou-me a diretora.

— Quais faltam?

— Apenas Ciências e Geografia.

— A senhora pode sortear.

Ela me entregou duas folhas e então, fiz em menos de vinte minutos a avaliação de Geografia. Depois, às quinze horas, juntamente com as outras crianças de minha idade, quer dizer: tamanho, saí para mais um recreio, no saudoso Grupo Escolar Marcos Trench, de minha infância.

Durante o recreio, a princípio, sentei-me sozinho na famosa muretinha isolada; mas não demorou muito tempo e uma menininha loira se aproximou:

— Posso me sentar aqui? — Perguntou-me ela.

— Pode — afirmei me afastando um pouco.

— Você é Regis? — Perguntou-me ela.

— Sou.

— Vi você na televisão, no domingo.

— É verdade! Eu estive lá! To ficando famoso! — Ironizei.

— Você viajou pelo espaço?

— Fui longe.

— É divertido?

— Muito lindo!

— Vai estudar conosco?

— Creio que sim! Mas de manhã.

— Por quê?

— Vou fazer a sétima série. Só tem de manhã.

Naqueles poucos segundos, já tinham outras três meninas e dois meninos conosco.

— Você é pequeno pra fazer a sétima série! Eu estou na terceira.

— Você estuda com a dona Regina?

— Sim! Ela é muito boa.

— Sei disso. Já estudei com ela.

— Ela falou de você.

— Verdade?

— Sempre fala.

As outras crianças entraram na conversa e eu acabei arranjando alguns amiguinhos; dois deles: os meninos, como estavam na quarta série, provavelmente estudariam no mesmo turno em que eu deveria estar no ano seguinte.

Quando soara o sinal, às três horas e trinta minutos da tarde, indicando o final do recreio, eu estava cercado por mais de dez crianças e estava feliz. Fazia tempo, que praticamente não conversava com outros seres inocentes, assim de meu tamanho.

Todos disseram tchau, sem inveja ou maldade, retornando as suas salas de aula e eu retornei à diretoria, onde dona Margareth me entregou a última avaliação, com as mesmas recomendações.

— Gostou de ir pro recreio? — Perguntou-me ela.

— Foi ótimo! — Exclamei alegre — Estava precisando de um contato com crianças.

— Você só voltará às aulas no ano que vem, mas caso queira nos visitar às vezes. Lembre-se: você é nosso aluno e esta é a sua escola.

— Posso mesmo vir?

— Claro! Procure vir no horário do recreio, pra conviver com as crianças.

— Agradeço muito. E vou vir mesmo!

— Vou vir? — Riu a diretora — Na prova de Língua Portuguesa seria muito complicado. Não acha?

— Desculpe-me. Acho que estou enferrujado.

— Então agora se concentre na última prova. É de Ciências.

Acho que foi a mais fácil. Corpo humano era comigo mesmo. Estava acostumado às longas conversas sobre o assunto com o senhor Frene.

Em menos de vinte minutos, entreguei a prova à dona Margareth, que a corrigiu em menos de dois minutos e feliz, me entregou todas juntas.

— De uma analisada no resultado de seu trabalho — disse-me ela.

Olhando primeiro a prova de matemática, insinuei:

— No exercício dois a senhora usou meu nome e de meus dois irmãos. Por quê?

— Ao criar o exercício, não sabia quais nomes adotar. Lembrei-me de você.

— Sabia o nome de meus irmãos?

— Descobri no dia em que fui à sua casa.

— Meu pai foi malvado comigo — ironizei. — Trinta e oito moedas pra mim, setenta e seis pro Leandro e duzentas e vinte e oito pro Henrique. To mal de herança!

— E de nota? Como está?

— Pareço um gênio! — Ironizei, examinando todos os resultados:

Avaliação de Matemática

Avaliação de Matemática folha 2

Avaliação de Língua Estrangeira.

Avaliação de História Crítica.

Avaliação de Geografia.

Avaliação de Ciências

— Posso considerar-me matriculado na sétima série? — Perguntei contente.

— Ainda falta Língua Portuguesa.

— Então vamos fazer!

— Não será uma avaliação comum. Quero que faça em casa uma redação de umas vinte linhas, narrando uma viagem que você fez. Pode me trazer amanhã.

— Tudo bem! Considere feita.

— Mas você já está na sétima série, pois em redação não se dá nota. Será feita apenas para arquivarmos junto com sua pasta escolar.

Agradeci à diretora, apanhei minha bicicleta e animado retornei para casa.

[1] Vinte e cinco de Outubro, é aniversário de Penápolis.