O retorno do menino do espaço
18 Avaliação escolar.
Notas iniciais
Após o almoço, ajudei mamãe a lavar a louça. Enquanto ela lavava, eu secava com pano de prato e guardava tudo no armário da copa.
Enquanto trabalhava, ela, ainda triste, tentava ficar calada, mas eu, jeito animado de moleque sapeca, tagarelava mais do que... o menino que engoliu uma vitrola.
Terminando esta pequena tarefa fui até a casa de Elizabeth, que me recebeu no portão.
— Entre! Regis! — convidou-me ela com carinho. — Estou estudando um pouco.
— Não quero atrapalhar. Volto depois.
— Imagine! — Insinuou ela. —Nenhum estudo é melhor do que sua visita!
Entrei em sua sala, onde encontrei sua mãe.
— Oi Regis — cumprimentou-me sua mãe. — Vimos você na televisão ontem.
— Gostaram? — Perguntei.
— A Beth ficou toda inchada, quando você disse que era namorado dela.
— Contei à meus pais o que disse ser segredo.
— Contou? — Perguntou-me Beth.
— Eles me obrigaram.
— Não sei seu segredo e não precisa revelar, mas sinto muito — disse Beth.
— Você pode saber. Só mamãe não poderia.
— O que há de errado com sua mãe, Regis? — Quis saber dona Joana.
— Com ela nada! — Neguei — Meu segredo é que tenho um irmão gêmeo e ela não sabia.
— Nossa! — Exclamou Beth. — Que loucura!
©©©
Quando retornei para casa, quase seis horas da tarde, mamãe me disse:
— A diretora da escola esteve aqui agora à pouco.
— Nossa mamãe! Esqueci que deveria ter ido lá.
— Foi o que ela disse.
— Como sou irresponsável!
— Não se preocupe. Ela disse que falou com a delegacia de ensino e eles falaram até com o ministro da educação.
— E o que ele disse?
— Amanhã é feriado[1], então você deverá estar na escola na quarta-feira à uma hora da tarde, onde será submetido a várias provas. Se conseguir passar em todas, será matriculado na sétima série.
— Jura? — Fiquei contente.
— É o que ela disse!
— Que bom.
— Mas são várias provas. Ela disse que não é nada fácil. Mandou você dar uma lida em matérias da sexta série.
— Sexta série é fácil. Não se preocupe. Me darei bem!
— Inglês, Matemática, História do mundo, Ciências e Geografia.
— Tudo bem mamãe — insinuei confiante. — Estudei isto! Não terá Língua Portuguesa?
— Ela não disse.
Naquele momento, papai e os demais irmãos já estavam em casa. Parecia que, por solidariedade, ninguém ousava tocar no assunto sobre o outro Regis.
Ao ir para a cama naquela noite, papai me arrastou para meu quarto, encostou a cama de Paulinho ao lado da minha e disse:
— Será que se Paulinho dormir a seu lado, você consegue ficar aqui?
Apenas balancei os ombros, como a dizer: “veremos”.
Na manhã seguinte, acordei na mesma cama, em que meu maninho, que já não era tão caçulinha assim (quase treze anos), dormia abraçado a mim.
©©©
Então, quarta-feira, vinte e seis de Outubro, às treze horas, devidamente uniformizado, estava sentado na cadeira de dona Margareth, que me disse:
— Você fará cinco avaliações. Eu procurei não dificultar muito, mas se você preferir, não será necessário fazer todas hoje.
— Creio que não haverá problemas, dona Margareth — Aleguei confiante. — Eu estudei a sexta série.
— Qual matéria você prefere fazer primeiro?
— Matemática — pedi sem hesitar.
Ela me entregou duas folhas: uma em branco, para que eu a usasse e outra com as questões, para que eu copiasse.
— Toda a avaliação deverá ser feita à tinta. Caso você erre, pode rabiscar e refazer na frente. Alguma dúvida?
— Está tudo bem!
— Prefere que eu saia da sala?
— Não se preocupe. Pode ficar!
E assim, sem muita pressa, fiz minha primeira avaliação. No exercício dois, achei interessante a coincidência nos nomes Regis, Leandro e Henrique. Esbocei leve sorriso e continuei, demorando quase trinta minutos para concluí-la.
— Está pronta, dona Margareth — afirmei, me levantando.
— Muito bem! — Pegou a prova — Foi complicado?
— Não! — neguei. — Foi bem fácil!
— Qual deseja fazer agora?
— Pode ser de Inglês! — Aleguei.
Do mesmo modo, me entregou duas folhas dizendo:
— Proceda da mesma forma. Use só caneta. Se errar, pode rabiscar e refazer. Enquanto isso eu corrijo a primeira.
É lógico que prova de Inglês não é nada fácil, mas também não foi o fim do mundo. E é bom lembrar que meu aparelhinho tradutor não ajuda nada neste caso. Se fosse avaliação oral seria uma maravilha.
Demorei também aproximadamente trinta minutos e ao final, entreguei à diretora dizendo:
— Ufa! Esta foi mais difícil.
— Quer deixar as outras pra depois do recreio?
— Ainda dá tempo de fazer mais uma. Pode ser de História.
— É História Crítica! Embora procurasse formular perguntas fáceis! Perguntas do dia-a-dia.
— Vejamos! — Disse-lhe rindo.
Entregou-me duas folhas. Eu procedi da mesma forma. Porém, como eram apenas cinco questões, consegui resolver em menos de vinte minutos.
— Está pronta dona Margareth — disse-lhe alegre. — Realmente não foi complicado.
— Quer deixar as outras duas pra depois? Você deve estar com os dedos doendo.
— Posso apenas ir ao banheiro e tomar água?
— Fique à vontade.
Enquanto caminhava até o banheiro, passei em frente à classe de dona Regina, que me chamou:
— Regis!
Parei e ela chegou até a porta.
— Como vai? — Perguntou carinhosamente.
— Muito bem, graças a Deus.
— Está fazendo as avaliações da sexta série?
— Sim! Como sabe?
— A diretora nos contou. Estou torcendo por você.
— Obrigada dona Regina! A senhora é legal.
— Já fez alguma?
— Matemática, Inglês e História Crítica.
— Foi bem?
— Creio que sim — afirmei rindo.
— Então vá com fé!
— Obrigada! Tchau!
Acabei de chegar ao banheiro. Mais para dar uma volta e esticar as pernas do que mesmo a fim de descarregar a bexiga; mas aproveitei e depois segui até o bebedouro, a fim de reencher a mesma bexiga. Em seguida, retornei à diretoria. Ao passar pela classe de dona Regina, fiz um sinal de positivo à ela e acabei de chegar para mais uma avaliação.
— Qual você fará agora? — Perguntou-me a diretora.
— Quais faltam?
— Apenas Ciências e Geografia.
— A senhora pode sortear.
Ela me entregou duas folhas e então, fiz em menos de vinte minutos a avaliação de Geografia. Depois, às quinze horas, juntamente com as outras crianças de minha idade, quer dizer: tamanho, saí para mais um recreio, no saudoso Grupo Escolar Marcos Trench, de minha infância.
Durante o recreio, a princípio, sentei-me sozinho na famosa muretinha isolada; mas não demorou muito tempo e uma menininha loira se aproximou:
— Posso me sentar aqui? — Perguntou-me ela.
— Pode — afirmei me afastando um pouco.
— Você é Regis? — Perguntou-me ela.
— Sou.
— Vi você na televisão, no domingo.
— É verdade! Eu estive lá! To ficando famoso! — Ironizei.
— Você viajou pelo espaço?
— Fui longe.
— É divertido?
— Muito lindo!
— Vai estudar conosco?
— Creio que sim! Mas de manhã.
— Por quê?
— Vou fazer a sétima série. Só tem de manhã.
Naqueles poucos segundos, já tinham outras três meninas e dois meninos conosco.
— Você é pequeno pra fazer a sétima série! Eu estou na terceira.
— Você estuda com a dona Regina?
— Sim! Ela é muito boa.
— Sei disso. Já estudei com ela.
— Ela falou de você.
— Verdade?
— Sempre fala.
As outras crianças entraram na conversa e eu acabei arranjando alguns amiguinhos; dois deles: os meninos, como estavam na quarta série, provavelmente estudariam no mesmo turno em que eu deveria estar no ano seguinte.
Quando soara o sinal, às três horas e trinta minutos da tarde, indicando o final do recreio, eu estava cercado por mais de dez crianças e estava feliz. Fazia tempo, que praticamente não conversava com outros seres inocentes, assim de meu tamanho.
Todos disseram tchau, sem inveja ou maldade, retornando as suas salas de aula e eu retornei à diretoria, onde dona Margareth me entregou a última avaliação, com as mesmas recomendações.
— Gostou de ir pro recreio? — Perguntou-me ela.
— Foi ótimo! — Exclamei alegre — Estava precisando de um contato com crianças.
— Você só voltará às aulas no ano que vem, mas caso queira nos visitar às vezes. Lembre-se: você é nosso aluno e esta é a sua escola.
— Posso mesmo vir?
— Claro! Procure vir no horário do recreio, pra conviver com as crianças.
— Agradeço muito. E vou vir mesmo!
— Vou vir? — Riu a diretora — Na prova de Língua Portuguesa seria muito complicado. Não acha?
— Desculpe-me. Acho que estou enferrujado.
— Então agora se concentre na última prova. É de Ciências.
Acho que foi a mais fácil. Corpo humano era comigo mesmo. Estava acostumado às longas conversas sobre o assunto com o senhor Frene.
Em menos de vinte minutos, entreguei a prova à dona Margareth, que a corrigiu em menos de dois minutos e feliz, me entregou todas juntas.
— De uma analisada no resultado de seu trabalho — disse-me ela.
Olhando primeiro a prova de matemática, insinuei:
— No exercício dois a senhora usou meu nome e de meus dois irmãos. Por quê?
— Ao criar o exercício, não sabia quais nomes adotar. Lembrei-me de você.
— Sabia o nome de meus irmãos?
— Descobri no dia em que fui à sua casa.
— Meu pai foi malvado comigo — ironizei. — Trinta e oito moedas pra mim, setenta e seis pro Leandro e duzentas e vinte e oito pro Henrique. To mal de herança!
— E de nota? Como está?
— Pareço um gênio! — Ironizei, examinando todos os resultados:
Avaliação de Matemática folha 2
Avaliação de Língua Estrangeira.
Avaliação de História Crítica.
— Posso considerar-me matriculado na sétima série? — Perguntei contente.
— Ainda falta Língua Portuguesa.
— Então vamos fazer!
— Não será uma avaliação comum. Quero que faça em casa uma redação de umas vinte linhas, narrando uma viagem que você fez. Pode me trazer amanhã.
— Tudo bem! Considere feita.
— Mas você já está na sétima série, pois em redação não se dá nota. Será feita apenas para arquivarmos junto com sua pasta escolar.
Agradeci à diretora, apanhei minha bicicleta e animado retornei para casa.
[1] Vinte e cinco de Outubro, é aniversário de Penápolis.
Fale com o autor