Notas iniciais
Pobre menino pobre. (rico de coração e amor)

— Qual é o seu segredo Regis? — Perguntou-me mamãe.

Levantei-me seguindo rumo ao banheiro.

— Vou tomar um banho agora.

Ela me deixou ir. Mas eu sabia que ela e papai voltariam a insistir. Eu evitara falar no assunto, temendo por eles mesmo.

Ao terminar o banho o jantar estava pronto. Então, sem tocar nesse assunto, comentávamos apenas a reportagem exibida a pouco na televisão.

Jantei rápido e sendo o primeiro a terminar, me levantei pedindo:

— Dá licença. Acho que já vou dormir.

— Regis, espere! — Pediu mamãe — Você não dorme tão cedo!

— Estou cansado.

— Por favor — pediu ela. — Sente-se e espere!

Tornei a me sentar e enquanto esperava os demais terminarem o jantar tomei um copo de suco de caju, que ela mesma preparara. Enquanto isso pensava o que iria falar sobre meu segredo bobo.

Cinco minutos depois, o jantar foi recolhido e então seguimos para sentar no sofá da sala, onde Paulinho ligara a televisão.

— Desligue a televisão Paulinho — pediu ela.

Ele obedeceu sem reclamar e sentou-se a meu lado.

— Seu segredo é tão grave assim, filho? — Perguntou-me papai.

— Não! — Neguei — É só uma bobagem.

— Nós somos sua família — advertiu-me mamãe. — Não somos?

— Claro! — Exclamei — E eu os amo muito!

— Então não devemos ter segredos — cobrou-me ela.

— Mas é que… — Tive dificuldades.

— Se você não quer que outros descubram, a gente mantém segredo — prometeu papai.

— Não há problema com os outros.

— O problema diz mesmo respeito a nós? — Assustou-se mamãe — Nossa família?

— Temo que sim — aleguei cabisbaixo.

— Por isso que você tem que nos contar — pediu papai. — Se o problema é conosco, precisamos saber, pra poder ajudá-lo.

— Não preciso de ajuda. Estou bem.

— O que é que há? — Assustou-se ela — É com Paulinho?

— Claro que não! — Exclamei. — Paulinho tem saúde de ferro. Acontece que…

Papai sentou-se a meu lado, me abraçando.

— Seja o que for filho, precisamos saber.

— É que o senhor Frene…

— Eu sabia! — Reclamou mamãe — Tinha que ser!

— Ele jamais me levará de volta à seu planeta. Não precisa ter medo.

— Espero que sim — disse ela. — Temo por todos nós.

— Ele não precisa mais de mim.

— Aonde você quer chegar, filho? — Desconfiou papai.

— O senhor Frene criou uma cópia idêntica à mim — não tive coragem de olhar no rosto deles.

— O quê? — Se embaraçou papai — Como assim?

— Um boneco! — Exclamou mamãe — Um robô!

— Não! — neguei — Um ser humano perfeito! Fala, anda, come, chora, ri, ama, sente dor…

— Como assim, Regis? — Insistiu mamãe.

— É como se ele fosse outro eu. Tem coração, sangue, alma, toma banho, janta, dorme…

— Isso não é possível! — Negou ela — Ele não é Deus!

— Ele tirou algumas de minhas células, colocou uma delas em um óvulo não fecundado, de uma mulher de lá e conseguiu criar uma cópia perfeita de mim. A única diferença é que, como ele não conhece a Terra, então não sente falta daqui.

— Regis, isso é impossível! — retrucou papai.

— Papai! Até aqui na Terra isso já é possível! Sabe-se lá se já não fazem, nos países perdidos no globo! Imagine no mundo avançado do senhor Frene.

— Meu Deus! — Se entristeceu também papai — É como se você continuasse lá!

— Não papai! Eu estou aqui. É como se ele fosse meu irmão gêmeo. Gêmeo idêntico!

— Nossa! — Exclamou Paulinho — Agora somos sete irmãos?

Mamãe estava chorando. Olhei à ela e disse:

— Viu agora mamãe por que eu não queria contar? Sabia que a senhora iria sofrer de novo.

— Não tem problema filho— se confortou ela. — É melhor que a gente saiba. Assim você não sofre sozinho.

— Não sofram por ele — pedi. — Ele não conhece a Terra, nem nossa família. Então é feliz onde está.

— Vá descansar filho — pediu ela. — Você não podia carregar esse fardo sozinho.

Acho que só depois dessa conversa, é que comecei a entender de verdade, o que o outro Regis significava para mim. Era como se ele fosse realmente um eu. Como se estivesse então, faltando um pedaço de mim e que agora, nossa família estivesse incompleta de novo.

Deitei-me, como sempre na cama de meus pais e chorei de saudades daquele estranho. Pela primeira vez, papai não reclamou de eu dormir em sua cama, praticamente grudado à sua eterna namorada. Na verdade, naquela noite, acho que os dois, sequer conseguiram dormir direito. E não foi por estarem em camas separadas.

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Ao me levantar, pouco depois das seis horas da manhã seguinte, mamãe me perguntou:

— Dormiu bem?

— Bom dia mamãe — cumprimentei-a. — Consegui dormir.

— Me ajude a preparar o café!

— Posso tomar banho primeiro?

Minha família, não tinha o costume do banho pela manhã. Mesmo os irmãos que iam à escola não tinham este bom hábito. Eu, porém, devido o calor de Suster, acostumado a sempre que acordava ir direto ao banheiro, para pelo menos uma ducha, mantinha vivo aqui na Terra, o mesmo costume saudável.

Quando saí do banheiro, o café já estava preparado, então disse à mamãe:

— Desculpe não tê-la ajudado.

— Não se preocupe. Gosto de seu costume em tomar banho cedo. Alem de bonito, você fica perfumado. É mais gostoso o cheiro do banho, do que do perfume sobre o suor da noite.

— Obrigado por me mimar mamãe — disse rindo, abraçando-a. — Jamais deixarei vocês.

— Vá pro café.

Enquanto tomava café, percebi que calada, ela me olhava sem piscar os olhos. Acho que sabia o que ela estava pensando e para não deixá-la ainda mais triste, resolvi permanecer calado. Com certeza, ela estava medindo todos meus traços físicos e imaginando outro ser, idêntico a estes mesmos traços, em um mundo, perdido no espaço infinito.

— O que você acha que o outro Regis está fazendo agora? — Perguntou-me ela triste.

— Deixe-o mamãe. Tenho certeza de que ele está feliz no mundo do senhor Frene.

— Mas ele é um pedacinho da gente — ela estava chorando. — Não é justo.

— Ele praticamente não conhece a gente. Não pode sentir nossa falta.

— É como se fosse um filho distante. Assim como você.

— É só uma célula de meu corpo que ficou por lá. Se a senhora sofrer, eu sofrerei também.

Foi então que ela chorou ainda mais.

— Não tem jeito de trazermos ele pra cá?

— Ele nunca seria feliz aqui mamãe.

— Claro que será! Ele é nosso filho!

— Ele seria tão triste aqui, quanto eu era lá. Pode acreditar.