Ao acordar, já passava das nove horas da manhã de domingo. Olhei para o colchão vazio ao lado de minha cama e tive a confirmação de que não fôra um sonho. Levantei-me e segui para a cozinha, onde encontrei mamãe, cuidando da louça, do jantar anterior.

— Oi mamãe! — Chamei-a.

Ela se voltou, vindo novamente me abraçar:

— Oi filhinho! Você dormiu bem? Descansou bastante?

— Não estou cansado mamãe! A viagem pelo espaço não cansa as pessoas! É bastante chata, porque não se tem muito o que fazer naquele espaço limitado, mas é confortável!

— Que bom que você está aqui! Que bom que não é apenas um sonho! — Continuava me apertando forte.

— Não é mamãe! Nem pra mim! Voltei pra ficar aqui pra sempre!

— Sonhava com você todas as noites, durante todos esses anos! Sabia que você estava vivo... — Recomeçara a chorar. — ...em uma estrelinha qualquer! Só não sabia qual era ela!

— Eu também sonhava com todos daqui! Todos os dias!

— Você viu o Erick? — Perguntou-me ela, parecendo desconfiar de algo. — Ele desapareceu!

— Mamãe… Ele foi embora…

— Embora! Como assim? Ele não tem pra onde ir!

Apontei com o dedo para o espaço, sem nada dizer.

— Onde Regis? — Assustou-se ela. — O lugar dele é aqui, conosco!

— Ele se foi em meu lugar! Mandou que agradecesse a senhora e papai.

— Regis, você está brincando comigo! Diga que está!

Acenei que não

— Aquela nave que trouxe você, foi embora na mesma hora e Erick estava aqui, até irmos dormir!

— A nave retornou durante a madrugada!

— Não pode ser verdade! — Apavorou-se ela. — Erick tem que ficar aqui!

— Ele sempre esteve abandonado aqui na Terra! Sempre quis ir em meu lugar, pro planeta do senhor Frene! Isto agora aconteceu! Não podemos fazer mais nada!

— A mãe dele vai ficar louca!

— A mãe dele, nunca o quis de verdade! Agora ela não precisará mais se preocupar.

— Regis! Você não podia ter deixado isso acontecer! Você acompanhou isso?

— Era a mim, que eles queriam levar novamente!

—Nunca mais teremos sossego com esse fulano do espaço! — Se desesperou ela.

— Garanto que eles jamais virão me buscar! O Erick sim, sempre estará com eles! Não podemos fazer nada! Somente torcer por ele! Alem de que: ele não foi sequestrado! Prontificou-se a ir! Garanto que lá, ele será muito feliz!

Ela não se conformava. Seguiu para a sala, deitando-se no sofá. Acho que sua pressão, caiu um pouco.

— E quem assaltou minha geladeira e meu armário?

Fiquei meio sem jeito:

— Foi a última vez, que Erick lhe deu gastos, mamãe! — Insinuei. — Mas não foi ele quem pegou!... Fui eu!... Acontece que a viagem é muito longa e na nave não existia mais nada! Eu passei necessidades na vinda!

— Nunca mais teremos sossego!

— Já está decidido! Jamais sairei da Terra! Aos poucos minha vida retornará ao normal. Pode acreditar!

— Você deveria estar mocinho, como o Erick e seus irmãos! Portanto é só um garotinho de nove anos!

— Acho que isto até é bom! — Insinuei. — Afinal, perdi oito anos de convívio com vocês! Estes oito anos serão compensados agora!

— O que vai ser de nós?

— A senhora não gosta de mim, assim criança?

Levantou-se, me abraçando novamente e dizendo:

— Eu o amo muito, filhinho! Do jeito que estiver! Você está muito lindo! Eu sabia que voltaria um dia! E sempre esperei você, ainda criança! Nunca o imaginei mais velho!

— Só precisarei arranjar novos amigos! Os meus já estão todos adultos!

— Você demorou muito pra retornar! Nós estávamos ficando cada dia mais desesperados! Sua ausência era uma ferida em nosso peito, que teimava em não cicatrizar.

— Sabe mamãe, eu deveria ter voltado muito antes; mas tive que prometer ficar por lá…

— Como assim?

— Lembra-se do acidente de Paulinho?

Ela se entristeceu novamente:

— Você soube? Ele quase morreu! Ficou muito mal mesmo!

— Nós acompanhamos todo o sofrimento dele, junto com a senhora e papai.

— Viu tudo?

— O senhor Frene me devolveria à Terra, mas como o estado de Paulinho era muito sério, se comprometeu em salvá-lo, desde que eu aceitasse ficar pra sempre em Suster.

— O que você está dizendo? Quer dizer que…

— Paulinho foi salvo pelos dois médicos mais experientes de Suster.

— Isso não é possível! — Negou ela com lágrimas. — O que ocorreu na verdade, foi um milagre que os médicos não entenderam!

— Sim! Um milagre de Deus! Mas com a experiência de dois grandes médicos! Alem dos médicos aqui da Terra, que também trabalharam com muita dedicação.

— Os médicos admiraram a milagrosa recuperação sem sequelas de Paulinho. — Ela continuava chorando.

— Pois é mamãe! Com isto, tive que permanecer em Suster! Só consegui voltar agora, graças às travessuras do robô, que me trouxe sem permissão do senhor Frene!

— Sem permissão? — Assustou-se ela.

— Isso mesmo! Viemos escondidos.

— Ah não! Então esse homem virá te buscar novamente!

— Não tenha medo! — Ri. — Ele já concordou em me trocar por Erick. Alem do mais, já existe um novo garotinho de seis anos de idade em meu lugar.

— Ele sequestrou outro menino? — Se incomodou mamãe.

— Não! O único terráqueo atualmente no espaço é o Erick!

— E quem é o outro menino? Você me disse da outra vez, que lá não nascem crianças!

— Não se preocupe mãe! Milagres da tecnologia de um mundo avançado!

— Sabe filhinho, toda noite eu ficava olhando pras estrelas, imaginando em qual delas estaria você. Quando via uma muito brilhante, que até parecia piscar pra mim, imaginava vê-lo e assim, como no final do filme “O Pequeno Príncipe”, esperava ouvir seu sorriso bonito, vindo direto pra mim, mas como você nunca sorria, — Ela chorava bastante. — acreditava que você estivesse muito triste.

Eu também chorava com ela. Puxa, como sou chorão!

— Realmente mamãe, eu nunca ficava feliz!

Aquele domingo foi passando muito depressa. Nossa casa estava sempre cheia de gente, amigos e curiosos, em busca das notícias de meu retorno. Assim como era em Suster, aqui também, até parecia que eu era um ídolo, onde todos me admiravam e faziam centenas de perguntas, das mais simples até as mais esquisitas.

©©©

No final da tarde, estava brincando com Paulinho, no fundo de nosso quintal, quando percebi parar em frente de casa, um carro tipo Santana Quantum, de uma emissora de televisão regional. Seus ocupantes: um homem branco de uns vinte e cinco anos e uma linda mulher morena, de cabelos longos, aparentando uns vinte anos, apearam do veículo e antes de chamar, papai os atendeu, ficaram conversando por alguns minutos, então o homem apanhou uma câmera de tevê e a mulher, um microfone. Tendo certeza de que o assunto era eu, me aproximei. A moça educadamente cumprimentou-me:

— Olá! Você é Regis, suponho!

— Sim! Sou eu!

— Podemos saber um pouco de sua história?

— Prefiro que não! — Neguei — Podem saber minha história; mas prefiro que não divulguem!

— Por quê?

— Se você falar de mim na televisão, em poucos dias, vou acabar parando novamente na NASA.

— Isso é bom! Suponho!

— Já estive lá! Gostei! Mas prefiro ficar quietinho aqui em casa.

— Assim como ficamos sabendo de seu retorno, outros saberão! Mesmo que a gente não comente nada!

— Isso lá é verdade! — Concordei. — Papai decide o que vocês podem fazer. Eu porem prefiro não comentar nada na televisão. Pelo menos por alguns dias.

Realmente não falei nada, mas papai permitiu que eles gravassem uma longa reportagem. Afinal, minha história era muito interessante.

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Dez horas daquela noite, me aproximei da cama onde meus pais já estavam dormindo e chamei em voz baixa:

— Mamãe!

— O que foi? — Se surpreendeu ela.

— Posso dormir com você?

— Mas... Por quê? — Se admirou.

— Por favor! Só hoje!

Papai se levantou, dizendo:

— Tudo bem! Durma em meu lugar, que eu durmo na sua cama.

Na manhã de segunda-feira, às sete horas, em um jornal regional, o apresentador anunciou:

“— Após sete anos desaparecido, retornou no inicio da noite de sábado à Terra, o menino Regis Fernando de Araújo. A reportagem é de Silvia Helena.”

Em reportagem gravada em nossa casa na tarde de domingo, com imagens do local, a repórter dizia:

“— Eram sete horas da noite deste Sábado, quando um enorme disco-voador, pousou novamente em Penápolis, trazendo de volta, o garoto Regis, que estava desaparecido desde um mil novecentos e oitenta e um. É fácil acreditar que Regis fôra sequestrado por alienígenas, pois durante estes sete anos, ele não envelheceu nada, continuando com a mesma aparência de quando desapareceu. Tenho comigo uma foto de Regis, feita em mil novecentos e setenta e nove e comparando com ele aqui a meu lado, se percebe que não mudou em nada e olha que sendo criança, sete anos depois, a aparência mudaria muito. Regis prefere não dar entrevistas. Pediu que deixássemos para outro dia, mas seu pai concordou em falar”.

Virou-se para papai e perguntou:

“— O que aconteceu realmente?”

“— Na verdade, Regis foi sequestrado duas vezes. A primeira foi no dia vinte e cinco de Março de oitenta, sendo devolvido exatamente um ano depois. Naquele mesmo ano, oitenta e um, no dia vinte e seis de agosto, ele foi novamente sequestrado. Naquele dia, quando começou a escurecer e Regis não chegava da escola, começamos a nos desesperar. Quando escureceu de vez, minha mulher quase morreu. Já sabíamos que por mais um ano, estaríamos sem nosso filho. A coisa foi muito pior, pois depois de sofrermos muito, um ano se passou e Regis não retornou. Todos os dias sofríamos muito! Sabíamos que qualquer dia ele retornaria, mas só agora, depois de sete anos, este momento chegou.”

“— Como o senhor pode ter certeza, que ele esteve mesmo em outro planeta?”

“— Primeiro, porque vi a nave chegando; depois, porque meu filho continua criança, quando já deveria ter dezessete pra dezoito anos. Ele nasceu em oito de Março de Setenta e um”.

“— É isso mesmo, segundo disse Regis, ele esteve em um planeta semelhante à Terra, porém mais adiantado e seu nome é Suster. Fica na mesma Via Láctea, a oitenta e sete anos-luz de distância. Regis contou ainda, que a viagem para este planeta, demora pelo menos setenta dias em uma velocidade muito acima da velocidade da luz, que é de trezentos mil quilômetros por segundo.”

Novamente o microfone foi direcionado para papai, que concluiu, me abraçando:

“— Meu filho, agora só quer descansar, curtir sua infância na Terra e prometeu que jamais sairá daqui”.

A repórter encerrou:

“— Silvia Helena, diretamente de Penápolis, aqui na Terra. — Ironizou ela. — Para o Primeiro Jornal”.

O apresentador do jornal, ainda comentou:

“— Regis nos faz lembrar o personagem de histórias infantis, Peter Pan, o menino que não queria crescer. O interessante é que ele não é um anão que não quer crescer. Na verdade, ele não está é envelhecendo. Pelo que vimos aí na reportagem de Silvia, ele realmente continua igual sua foto de mil novecentos e setenta e nove. Nove anos atrás”.

Naquela manhã, papai e meus irmãos, Luis de vinte e um anos e Leandro de dezenove, foram trabalhar; minha irmã Letícia, de dezesseis e os irmãos Carlos Henrique de quatorze e Paulinho de treze anos, foram para a escola. Consequentemente, fiquei sozinho em casa, com mamãe.

Na realidade, não ficamos tão sozinhos assim, pois, principalmente depois do jornal da tevê, muitos curiosos apareceram. Alguns, mais tímidos, apenas passavam em frente de nossa casa, devagar... olhando; outros, até chamavam no portão e mamãe aparecia para atendê-los. Eu evitava sair na rua, só aparecendo quando se tratasse de pessoas conhecidas, mesmo porque nestes casos, mamãe às convidava para entrar.

Durante toda aquela manhã foi assim. Sentia pena de mamãe, pois seu serviço de casa estava cada vez mais atrasado. Por isso mesmo, tentando ajudá-la, como fazia no passado distante, lavei toda a louça, preparei as sete camas, varri toda a casa e passei pano molhado nos móveis da sala e da copa.

— Meu filhinho! — Me abraçou ela com lágrimas. — Você tá trabalhando tanto! Vá descansar!

— Não estou cansado mamãe! Desse jeito vou ficar mal acostumado! — Brinquei. — A senhora está me paparicando muito!

Enquanto ela tentava preparar o almoço, descasquei e piquei uma abobrinha menina e cortei alguns tomates, que ela iniciara e teve que atender a porta.

Por volta do meio dia, todo nosso batalhão familiar, retornou para o almoço, que foi servido no horário de costume, depois, deitei-me para descansar um pouco.

Acordei por volta das quatorze horas e corri ao banheiro, para lavar o rosto e tirar a preguiça. Neste horário, em casa, estava eu, mamãe e Paulinho. Minha irmã e Henrique, haviam ido ao curso de Inglês.

Alguém chamou por mamãe no portão e ela, já cansada dessa rotina, correu atender. Poucos segundos depois, retornou acompanhada por uma linda jovem (a mais bonita que já vi em minha curta existência na Terra): morena, de cabelos longos. Pensei logo se tratar de outra repórter de televisão. Porém estava sem maquiagem.

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