O retorno do escritor decadente
1 O RETORNO DO ESCRITOR DECADENTE
Finalmente de volta a pena. Finalmente posso derramar minhas lágrimas ao papel.
Uma música instrumental, um carro varrendo o chão, fecho os olhos e deixo o vento me guiar, diante do asfalto, um homem com os olhos nos dois mundos, defronte tantos pedregulhos, vejo que a História não foi escrita por apaixonados, e nem românticos e sim pelos que estiveram dispostos a abandonar as simples distrações.
Omitir a verdade permanece na linhagem da mentira. Correto, então sou um hipócrita, não admito que certos vícios faltem.
O beijo ao acordar nunca existiu, percebo que o dia que fui plenamente feliz, não aconteceu, e quando caí do abismo... Pude crer com tamanha certeza, que eu não estava no inferno, contudo via com clareza todos que ali permaneciam.
Sempre escrevendo sobre o obscuro logradouro, pergunto-me já sabendo a resposta, “Será mesmo que esse local existe?”, esclarecendo a dúvida com certa relutância sobre o misticismo que deixo em minhas obras, digo: “O inferno só existe em um local, com todo o aspecto infame e febril, com todas as correntes e gemidos de dor, todavia não está muito distante como muitos acham, o inferno é na cabeça, onde a maior tempestade é causada por gritos da própria alma”.
Reforço essas palavras com a epígrafe inconsciente de um escritor que me ganhou por apenas um trecho: “Tudo acontece como se meu combate espiritual se passasse em uma clareira. Penetro na floresta, nada encontro, e a fraqueza logo me força a sair de lá, frequentemente, quando deixo a floresta, ouço, ou creio ouvir, os cliques de armas usadas em uma guerra” por Franz Kafka.
O que vem a seguir? Feito um sonho, os que empunham as armas trajam o meu rosto, encaram o mesmo pedaço de carne que vestem, tiram a trava, com o lendário “clik-clack”, quando os tiros ressoam, parecem verdadeiras rajadas enfeitando uma noite de ano novo, enquanto todos festejam, o cordeiro é morto para servir de alimento.
Estou com uma certa dor enrustida, entre as frestas do meu corpo, parasitas voadores e rastejantes almejam e perfuram tentando adentrar as vísceras de um homem que se sente morto em meio a decepção.
Feito Milena abrindo-se ao seu fiel confidente moral, abro-me a você, não permito-me falhar e nem gosto da palavra, quando percebo as chamas que sorrateiramente invadem o recinto, vou ao seu encontro e queimo-me antes da hora, em outras palavras, deixo a espingarda dar o tiro para então correr ao encontro, esperando que por um milagre eu não seja atingido.
Há muitas dúvidas quanto ao motivo que me levou a escrever a tanto tempo, seja pelo erro, pela via, ou por um pensamento extraviado que sussurrava perversidades aos meus ouvidos, aqui estou eu mais uma vez, lendo o meu próprio texto, acendendo um isqueiro com água, invertendo a realidade por um só momento, onde sou realmente livre para falar dos empecilhos que rasgam minha morada.
Decolo decifrando a música que me faz passear pelos campos cheio de corpos, parece que quando ouço essas melodias melancólicas e levadiças, sou levado de mãos dadas a alguém a territórios inóspitos a homens como eu, vejo corpos pelo gramado que um dia foi verde, o mundo em estado de putrefação, sou coagido a descrever o caos em forma de poemas, textos e criações que em um passado distante já havia escrito.
Quando estou em perfeita concentração, relatando minhas porções, é o momento que saio de transe por alguns minutos para enfim escrever, quando termino, volto para o âmbito vertiginoso e durmo em perpétuo trabalho e evolução.
FIM
10/09/14
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