O reflexo da Princesa
14 Capítulo 14
Notas iniciais
“Robert Langdon: — É um conflito entre Apolo e Dioniso, um dilema famoso da mitologia. A batalha ancestral entre mente e coração, que raras vezes desejam a mesma coisa.” (Inferno)
Eduardo fica parado na soleira da porta, tentando entender o que está acontecendo. Apesar de que eu e Felipe não estávamos fazendo nada errado (porque ele claramente prefere Joana a mim), seria difícil para qualquer um acreditar. Graças a Deus, Felipe é um ótimo mentiroso e quando Eduardo pergunta, tentando controlar a raiva na voz, que diabos estávamos fazendo, ele responde com tranquilidade que veio conferir se estava tudo bem com meu ombro que tinha sido mordido. Eduardo retruca afirmando que isso é trabalho de um médico.
“Acontece que o que mordeu foi um Cão Encantado.” Os olhos de Eduardo se arregalam quando ele escuta isso. “E feridas de Cães Encantados só são curadas com magia.”
Eduardo parece convencido e pergunta se eu estou bem o suficiente para dar uma volta com ele pelo castelo, antes que eu possa negar, uma voz atrás de Eduardo fala:
“Ninguém vai sair com a Princesa. Saiam daqui, os dois.”
Steven entra no quarto sem pedir licença e os dois saem. Apesar de suas caras de desgosto, nenhum dos dois protesta. Steven caminha se apoiando em sua bengala até minha escrivaninha e se senta na cadeira, ficando de frente para mim. Ele parece ainda mais fraco desde a última vez que o vi. Ele passa as mãos pelos poucos fios grisalhos que tem na cabeça e me analisa com um olhar inspetor.
Sua presença sempre me deixou desconfortável, ainda mais depois de saber que ele foi o responsável por me mandar para outro mundo e dessa forma, me manteve salva durante esse tempo todo.
“Diga-me, Bianca: O que exatamente aconteceu?”
Sei que mentir para ele está fora de cogitação, então conto a verdade. Cada palavra que eu dou, sua expressão fica mais preocupada. Quando chego à parte do Cão Encantado, tento escolher bem as palavras porque ele parece preste a ter um infarto. Ao fim da minha narrativa, ele me encara incrédulo.
“Você não está segura aqui. Você precisa voltar. E logo.”
“Pode ter certeza que a pessoa que mais quer que eu volte sou eu. Se você sabe uma forma, por favor me diga.”
Ele olha para o chão e solta um longo suspiro.
“Infelizmente, eu não sei. Por enquanto, temos que reforçar sua segurança. Evite sair do castelo a não ser que seja extremamente necessário. E ajudar Felipe não é uma necessidade.” Ele faz uma pausa para ver se eu compreendi. “Falando em Felipe...” Ele hesita um pouco e eu me preparo para mais um sermão sobre eu estar me apaixonando pelo irmão errado. “Acho que vocês formam um belo casal.”
Minha boca se abre em um “o” perfeito. Eu esperava tudo, menos aquilo. Minhas bochechas enrubescem e eu olho para o chão. De repente, brincar com meu cabelo virou uma tarefa muito interessante e que exige concentração, o que me obriga a não encarar Steven.
“Eu não acho. E pelo visto ele também não. Ele combina mais com italianas. E, além do mais, você não acha errado? Levando em consideração o fato que eu estou noiva do irmão dele.”
Ele solta uma risada irônica quando eu digo isso.
“Querida, até a data do casamento você provavelmente já vai ter achado uma forma de voltar para a segurança do seu mundo. Sem Eduardo, sem Felipe, sem Rei, sem Conservadores. Você provavelmente nem vai lembrar que esteve aqui, vai achar que tudo isso foi um sonho ruim.”
“E se eu não quiser voltar?”
Surpreendo-me tanto quanto ele quando as palavras saltam da minha boca. Às vezes eu penso sobre a possibilidade de não voltar, mas sempre guardo isso para mim e tento abafar esse pensamento.
“Se você não voltar provavelmente vai morrer nas mãos dos Conservadores.”
Ele deixa suas palavras fazerem efeito em mim e sai do quarto sem dizer mais nada. Fico sozinha, as palavras dele ecoando em minha mente. Estou em um conflito interno. Uma parte de mim sabe que é mais seguro fugir, sair desse mundo cheio de perigos e loucuras, mas a outra parte sente que esses perigos e loucuras fazem parte de mim. Eu pertenço a esse lugar. Essa mesma parte considera praticamente impossível viver sem Lucy, sem minha mãe e, claro, sem Felipe.
(...)
Ainda estou atordoada quando saio do quarto para o jantar. Minha mente trabalha a mil por hora listando os prós e contras de ficar e de fugir. Chego à mesa e sou recebida com uma enxurrada de perguntas, todas sobre o que aconteceu hoje pela manhã. Respondo a todas com ‘sim’ ou ‘não’. Não estou com cabeça para conversa. Rapidamente as pessoas desistem de manter um diálogo comigo.
Foco meu olhar em uma janela do outro lado do cômodo. Lá fora a Lua brilha cheia, iluminando as colinas ao norte. Deixo minha mente pegar carona nesse céu estrelado e viajar para longe, muito longe. Para a minha casinha no Brasil.Lá, à uma hora dessas, eu provavelmente estaria no meu quarto, escutando música. Ou até mesmo tendo uma daquelas noites chatas de família que minha tia sempre organizava. Ela fazia pipoca e todos assistíamos à um filme. O problema é que ela achava que eu e meu primo erámos crianças e sempre colocava um filme infantil. Eu até gostava de alguns, mas eu não admitiria isso nunca. Sempre que ela acabava dormindo e meu tio fazia vista grossa e deixava que eu e Gustavo ficássemos até tarde assistindo a um filme de terror ou algo do gênero. Ou minhas amigas poderiam ter me convencido a sair e eu estaria em alguma festa paquerando Alan.
A saudade toma conta de mim e corroe cala milímetro do meu corpo, me torturando. Por um segundo, eu consigo me imaginar esquecendo tudo isso, como se nada tivesse passado de um pesadelo. Eu acordaria com meu professor gritando comigo, depois iria para a coordenação por dormir na aula mais uma vez. Então a coordenadora me passaria um sermão e eu pediria mil desculpas e diria que estava doente, por isso passei a noite em claro e dormi na aula por causa do remédio que me dá sono. Ela acreditaria em mim e me liberaria. Eu iria para a cantina, onde encontraria minhas amigas lutando para serem atendidas. Depois de elas comprarem seus salgados gordurosos, eu contaria a elas meu sonho e elas ririam, dizendo que eu viajava demais. Pronto. Nada disso teria sido verdade e eu seguiria minha vida pacata e entediante, porém segura e feliz.
Mas não, o destino resolveu zoar com a minha cara. Acho que quem quer que controle o destino pensou: “Nossa, tão vendo essa retardada aí? Então, o que vocês acham de lascar com a vida dela? Vamos mandar ela para o passado, para um reino onde ela é princesa!” E então os amiguinhos para quem ele estava mostrando meu destino retrucariam: “Não! Isso não é desgraça o suficiente. Ela vai se apaixonar pelo irmão do noivo dela que tá’ cagando pra cara dela! Ah, e não se esqueça de botar pessoas querendo matá-la! Perseguição nunca é de mais!”
Enfim, chega de me lamentar.
Termino de comer e saio meio aérea da sala de jantar. Felipe me alcança no meio do corredor.
“Você está bem? Steven fez alguma coisa?”
Ele pergunta, parecendo preocupado. Balanço a cabeça negando.
“É só... Meu Deus, por que tudo tem que ser tão complicado?! Por que eu não posso simplesmente ser uma adolescente normal?”
Inclino a cabeça para trás e encaro o teto. Fecho os olhos e respiro fundo, quando eu os abro novamente, a raiva e frustração já passou. Massageio minhas têmporas, tentando me livrar da dor de cabeça. Depois de se certificar que estou bem, Felipe sai, mas quando ele estava prestes a virar o corredor, eu o chamo.
“Eu tenho uma coisa para te dar.”
Vou ao meu quarto e ele me acompanha. Entramos e eu pego o frasquinho contendo a lágrima de Lucy na cabeceira da cama e entrego a ele. Ele me olha confuso e eu explico para ele o que é. Felipe sorri de orelha a orelha e me abraça.
“Muito obrigado.”
“Por nada. É pra isso que os amigos servem, certo?”
Falo a palavra ‘amigos’ com certa raiva.
“É.”
“E agora? Fazemos o que?”
“Vamos procurar o próximo ingrediente.”
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