O receptáculo
2 O círculo da provação
Notas iniciais
Eu vivo em um mundo onde as histórias de terror são reais, onde homens que se transformam em lobos e chupadores de sangue existem, onde o bicho papão parece mais um coelhinho assustado perto dos verdadeiros monstros. Desde o dia em que minha mãe morreu no meu parto eu moro com a minha avó Irene, já minha irmã gêmea Kyara mora com meu pai Joseph, sempre que eu perguntava ao meu pai o porquê de eu não morar com ele, a resposta era sempre a mesma, que eu era tão parecida com a minha mãe que ele não aguentava olhar pra mim sem lembrar-se da perda do seu grande amor, doía tanto no início, porque parecia que ele não gostava de mim, eu fazia de tudo para tentar agradá-lo, para ver se ele me notava, mas depois de um eu percebi o real motivo, não adiantava de nada, não importava o que eu fizesse, eu sempre seria para ele a pessoa que tirou a vida do seu grande amor, o que ele não entendia é que quando ele perdeu sua esposa, eu perdi minha mãe e o meu pai, depois de um tempo eu parei de me importar, a dor da rejeição não vai embora, mas você aprende a ignorar e tenta seguir em frente, a única coisa boa isso tudo é saber que eu me pareço com ela, com a mulher que eu nunca vou conhecer mais que sempre vou amar.
Minha irmã e eu nascemos numa poderosa e antiga linhagem de feiticeiras, eu queria muito poder dizer que pelo fato de eu ser uma feiticeira eu tinha tudo o que queria, que todos me amavam, que eu era muito feliz, mais não seria verdade. Quando uma feiticeira atinge a idade de 14 anos, é quando acontece a transição da criança para a adolescência e ela passa pelo que chamamos de “o círculo da provação”, é onde os nossos poderes se manifestam e o nosso elemento escolhido, esse acontecimento ocorre uma vez a cada ano e é uma data muito importante para o nosso povo, enquanto isso vivemos uma vida humana normal até essa idade, vamos à escola, ao cinema, alguns namoram e outros fazem tudo o que um adolescente normalmente fazem, mas quando chegamos a idade que é considerada o auge para a manifestação dos nossos “talentos”, é quando o verdadeiros desafios acontecem.
Alguém bate na minha porta, toc, toc – oi vovó – eu digo super animada quando eu a vejo entrando no meu quarto, estava tão feliz e nervosa, hoje seria o dia em que eu seria membro oficial do nosso clã – esta na hora querida – ela me diz com um sorriso bondoso no rosto, minha avó já tem seus bons 98 anos de uso, para uma mulher da sua idade ela esta bem ativa, eu tenho um grande respeito por ela, quando eu perdi a minha mãe ela foi a única pessoa que me amou de verdade, e eu lhe devo minha vida por isso – certo, já estou pronta – eu digo enquanto ela vai embora, então me levanto em um pulo da minha cama quase caindo de cara no chão porque meus pés se enrolaram nos lençóis, antes de sair eu me olho no espelho, gosto do que vejo, estou bonita com a calça preta super colada que a mãe/avó comprou pra mim, não é por nada não mais eu tenho um corpo bem bonito, estava com uma blusa branca transparente que eu tinha comprado no dia anterior, eu deixei meus longos e negros cabelos soltos, estava com uma maquiagem leve, calcei minhas botas de salto preta e segui minha avó ate a clareira, quando chegamos a uma tenda, ela diz que foi feita especialmente para os que passariam pela prova esse ano e era para eu esperar la dentro.
Desde o dia em que minha avó foi expulsa do seu clã por ter se apaixonado por um mestiço, eles com mais um grupo de quatro famílias formaram um clã no norte do Brasil, quando eu perguntei porque o Brasil, ela disse que os poderes deles eram fortalecidos pela natureza, esse ano serão cinco adolescentes a passar pelo “o circulo da provação”, eu estou tão animada, quando olho ao redor percebo que só conheço algumas pessoas, minha irmã gêmea Kyara é uma delas, não tem como não reconhecê-la, ela esta com um vestido rosa claro e de sapato alto dourado, ela esta linda, olhando pra ela você diz que ela esta super confiante, uma confiança que causa inveja na maioria das pessoas, menos em mim é claro, ela esta conversando com um garoto que eu não conheço, como ele esta de costa para mim eu só consigo ver que ele é alto, um pouco musculoso e tem os cabelos pretos, não temos uma convivência muito normal, fora o fato de morar bem longe uma da outra, não temos tanta afinidade assim, mas por sermos gêmeas nos permite saber quando uma esta com problemas e nesse quesito uma sempre ajuda a outra, e é por isso que eu digo que eu sei que ela não esta tão calma assim, a outra é minha única e melhor amiga Sofia, ela tem os cabelos vermelho sangue mais lindo que existe, o único defeito que eu encontro nela é o óculos enorme que ela usa, ela nasceu com um problemas nos olhos e precisa de um óculos especial, fora isso ela é bem bonita, alta, com o corpo cheio de curvas, magra, bem branquinha e com os olhos verdes bem brilhante, nem as pintinhas que ela tem no nariz faz ela parecer feia, assim que ela me ver, ela me da um sorriso nervoso e quando eu chego perto dela eu tento tranquilizá-la – vai ficar tudo bem Sof – eu digo e lhe dou um sorriso que a faz suspirar e depois parecer mais calma, ela sempre teve um temperamento um tanto instável, ela parece ser tão delicada mais você precisa ver quando ela tem um surto de raiva, parece que o corpo dela foi possuído, isso acontecia com freqüência na escola e todos me chamam quando ela esta passando por uma de suas “crises”, não consigo entender o porque mais sempre que eu estou por perto ela se acalma.
Eu conheci Sofia quando tinha 12 anos, estávamos na escola, ela ficou com tanta raiva de um garoto que começou a bater nele, ela sempre foi pequena, então era engraçado vê um menino todo musculoso que se achava o tal apanhar para uma garotinha, Ela quebrou a boca e o nariz dele e só saiu descabelada da luta, ele até tentou se defender, mais não tinha como pará-la, três garotos tentaram tirar ela de cima do menino e os todos apanharam, ela tem uma força surpreendente e causa medo na maioria dos alunos, não sei o que deu em mim na hora, eu simplesmente andei para perto dela e toquei no seu braço, nesse momento ela virou com uma cara de assustar qualquer um – para com isso – eu disse a ela com um pouco de raiva e foi tão instantâneo, na mesma hora ela deixou o garoto cair no chão e abaixou a cabeça completamente constrangida – ele mereceu — foi a única coisa que ela disse naquela hora, eu acho graça quando lembro desse dia, a partir desse momento nos tornamos inseparáveis.
Sua pergunta me tira dos meus devaneios — Porque você esta rindo – ela me pergunta curiosa, tirando os cabelos do seu rosto e eu olho para ela – estou lembrando do dia em que nos conhecemos — e com isso ela começa a rir junto comigo. Enquanto estamos rindo a senhora Maya Yong mãe da Sofia chega na tenda – vamos começar – ela diz, e com isso todos ficam super agitados, ate eu mesma não consigo me segurar de ansiedade, Sofia segura meu braço e dar o aperto tão forte que eu sei que vai ficar marca, então o primeiro nome é chamado.
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