O que é a felicidade?
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Ela era magra, alta, sardenta, de cabelos ruivos e tão escorridos que não segurava um grampo, enquanto nós todas éramos quase perfeitas, corpos robustos e rostos angelicais. Mas possuía o que qualquer adolescente queria, o pai era dono de livraria. Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa.
Fez questão de me dizer que tinha a trilogia de Desventuras em série. Era uma coleção de livros que eu era louca para ler e viver com eles, comendo, dormindo, andando nas ruas e viajar na leitura e isso era um sonho que eu tinha e que estava completamente fora da minha realidade. Disse-me ainda que era para eu passar na casa dela no dia seguinte que ela me emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei em alegria: eu não vivia a minha vida, vivia sonhando e cantando pela casa.
No dia seguinte fui à sua casa, literalmente caminhando e cantando. Ela não morava em uma casa, mas sim em uma mansão. Não me mandou entrar. Olhando bem nos meus olhos, disse-me que havia emprestado a coleção de livros a outra menina e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-la. Desencantada saí desnorteada pelas ruas, mas logo a alegria tomava conta de mim e eu começava a caminhar e cantar pelas ruas de Ouro Preto, até que tropecei saí rolando pelo morro abaixo: guiava-me a promessa da coleção de livros, o dia seguinte vivia, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, caminhei cantando pelas ruas como sempre e não rolei morro abaixo mais nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano maquiavélico da filha do dono da livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu em sua casa, com um sorriso amarelo e o coração batendo desesperado, para ouvir a resposta calma: os livros ainda não estavam com ela e que eu voltasse no dia seguinte.
Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com o meu coração batendo.
E assim continuou. Quanto tempo? Ela sabia que era tempo indeterminado, enquanto seu veneno não escorresse todo o seu corpo magro.
Eu parecia adivinhar que ela tinha me escolhido para Cristo. Mesmo assim eu não desisti. Diariamente ia até a sua casa sem faltar nenhum dia. Às vezes ouvia ela dizer que o livro esteve com ela no dia anterior a tarde, mas que eu só tinha ido de manhã e que tinha emprestado a outra menina. E eu ficava cada vez mais assustada com a cara de pau com que ela me dizia aquilo.
Até que um belo dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu seu pai. Ele devia estar estranhando a aparição diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. O senhor achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que o seu bondoso pai entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas esta coleção de livros nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler.
E o pior para esse pai era saber que a sua filha era uma pessoa horrível. Ele nos espiava em silêncio a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina magrela em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Ouro Preto. Foi então que finalmente se refazendo, disse firme e calmo para a filha: você vai emprestar os livros agora mesmo. E para mim: “E você fica com essa coleção de livros de presente.”
Entendem? Valeu a pena passar por todo aquele tormento.
Como contar o que aconteceu? Eu estava estonteada, e assim recebi os livros na mão. Acho que não disse nada, peguei os livros. Não, não saí caminhando e cantando como sempre. Saí pulando e gritando pelas ruas, segurando a caixa com a coleção completa de Sherlok Holmes, comprimindo-a contra o peito. Rapidamente cheguei em casa, meu peito estava quente e o meu coração estava quase saindo pela boca de tanta felicidade.
Quando entrei no meu quarto comecei logo a ler o primeiro livro da coleção, estava louca para ler toda a coleção. Então comecei a folhear as páginas maravilhosas do livro, depois comecei a caminhar cantando pelas ruas segurando contra o peito o primeiro livro e mostrando para todos que passavam por mim aquele livro.
Quando ia comer levava o livro, a felicidade era imensa, nunca me senti assim antes.
A felicidade me pegou de jeito, me sentia a pessoa mais feliz do mundo.
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