O que seria a morte se n
1 Cansado
Acordei sozinho de novo, nenhuma novidade.
"13h:43.", segundo o velho relógio na parede. Não me levanto. Fico encarando o teto por um tempo. Até que sento na beira da cama, como em qualquer outro dia.
Pego o celular: "3 ligações perdidas de 'mãe'." Inspiro cansado (mas cansado do que ?). "Talvez eu não esteja cansado", penso.
Levanto da cama em direção a porta, uma fome colossal me consome. Vou para a cozinha, abro a geladeira, pego um pedaço de pão, engulo seco. "O que ta acontecendo com a minha vida?", me pergunto em silêncio observando o pássaro através da minha janela. Pego mais uma fatia de pão e continuo encarando o pássaro até que ele voa.
"Ah, que inveja desse pássaro, que pode voar pra qualquer lugar, sem preocupações, sem ninguém pra dar satisfações, que pode voar e não voltar", resmungo em voz baixa. Mas eu aprendi que nós não somos livres como os pássaros, nós somos como as árvores. Nós criamos raízes. Nós nos apegamos a pessoas, lugares, coisas.
Vou pra sala coloco uma música e sento no sofá, sem nada pra fazer (ou com muita coisa pra fazer e apenas ignorando), sem nenhum lugar pra ir, cansado. Cansado de tudo, da faculdade, das pessoas, dos professores, das provas, das notas, da vida. Cansado de me sentir tão sozinho, mesmo conhecendo uma porrada de gente. Simplesmente cansado.
Cansado e com saudade de casa, saudade de me sentir deslocadamente bem em algum lugar, acho que boa parte disso é culpa das raízes que — assim como as árvores — nós criamos. Pai, mãe, irmã, as únicas pessoas que realmente se importam comigo e as únicas que realmente importam pra mim. Mas essa não é uma história sobre família, na verdade é uma história sobre nada, mas não é o nada a única coisa que temos?
Me levanto do sofá, entediado pensando pra onde ir, as opções não são muitas, tendo em vista que essa apartamento é composto por: uma sala, uma cozinha/área de serviço, um quarto e um banheiro.
Decido ficar no sofá. Ligo a televisão e percebo que já são 18h:00, faz quatro horas que eu levantei e não fiz nada além de olhar para um pássaro. O quão inútil alguém pode ser?
Deixo a televisão ligada e não presto atenção em seja lá o que for que estivesse passando. Pego o notebook e abro o facebook dezenas de fotos da noite passada com pessoas sorrindo, rodeadas de amigos com legendas como: "#DeuBom", "#ParceriaFechada", e a mais engraçada "#CarimbaQueéTOP", quer dizer "top" não é nem um adjetivo, por favor. Por um minuto fico feliz em não participar da bolha social.
Decido tomar um banho, jogo o notebook de lado e vou para o banheiro. Para minha surpresa o chuveiro está queimado (noite passada não estava), ligo mesmo assim. Sinto a água fria batendo nas costas como um abraço da morte, suspiro em silêncio, silêncio que é quebrado pelo som dos meus dentes batendo.
Saio do banho, coloco uma "roupa-de-ficar-em-casa", vou para a cozinha, tomo um iogurte enquanto volto pra sala, olho o relógio "21h:48", desligo a televisão e me dirijo para o quarto, entro debaixo das cobertas mesmo não estando tão frio.
Decido dormir com um ultimo pensamento na cabeça:
"Eu odeio domingos".
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