O que se nomeia
1 Capítulo Único
'Você me odiava.' Ela diz naturalmente, como se não se ressentisse. Sua mente divaga para a primeira vez que vocês se encontraram. Emma — você tinha aprendido o nome dela. O primeiro olhar foi eletrizante, carregado de ódio. A raiva era um sentimento constante que você carregava dentro do peito. Qualquer pessoa parecia uma ameaça ao seu castelo construído de mentiras, inseguranças, rebocado pela patética inautenticidade de felicidade — aquela uma que lhe fora comprada, implorada para que chegasse aos seus braços, simplesmente porque você não aguentava mais o buraco vazio que havia em seu peito.
Lá, onde deveria bater seu coração.
Lá, onde não havia mais nada.
Ódio foi tudo o que você sentiu porque era inadmissível que ela tocasse no teu filho. E não lhe importava nenhum pouco que aquela mulher também fosse a mãe dele. Não. Você era egoísta demais para compartilhar — você já tinha perdido tanto, afinal, não poderia tanto perder o único filho, a única pessoa que tinha ao seu lado.
'Você não sabe se eu já não te odeio mais.' Você responde levantando uma sobrancelha, em desafio. Você não tem medo de provocá-la assim, simplesmente porque se ela não tinha ido embora antes, ela já não iria mais. Você tentara espantá-la de todas as formas possíveis. Nos golpes mais baixos, nas mentiras mais sujas. E nenhuma outra pessoa lhe irritava tanto quanto ela, porque ela sabia se reerguer, e ela te enfrentava — e ela conseguia, apesar de todas suas más ações contra ela, ser boa com você. Era o que mais te tirava do sério. A arrogância dela em achar que poderia se igualar a você, tomar decisões referentes ao seu filho. Erguer o queixo, te desafiar.
O que tinha começado com ódio tinha se transformado numa maligna perseguição, um jogo sujo e perigoso, excitante, aquele um que você ultrapassaria todo e qualquer limite para desarma-la, feri-la. E você a feriu tanto. Tão profundamente. E embora você nunca tenha visto as lágrimas, você sabia que elas tinham sido derramadas. E com imensa satisfação você a viu oscilar sobre os pés, e chorar desesperadamente pelo filho dela... O seu filho, da vez em que ele parecia estar morto. E você sentiu a dor dela — porque era exatamente a dor que você sentia: a mãe chorando pelo filho perdido. Você e ela. E então ela trouxe Henry de volta a vida, e mais uma vez o sentimento de alegria foi compartilhado. E talvez tenha sido isso o que começou a mudar sua percepção... ou o fato de ela passar a te defender apenas porque era o que Henry queria. Ela estava sendo condescendente? Ela estava tentando te salvar por amor ao menino? Claro, ela não deveria ter mais nenhuma simpatia por você nesse ponto.
'Acontece de eu ter aprendido uma coisa ou outra sobre você.' Ela retruca e abre um sorriso maroto, brincando distraidamente com os polegares das mãos cruzadas. Você aperta os olhos para ela, e depois de suspirar rispidamente olha para as estrelas cintilando no céu.
'Não vá achando que você me conhece tão bem.' Você resmunga ao lado dela, e ela dá uma pequena risada de volta em provocação, como se você estivesse tão errada no que acabara de dizer que ela achou de fato engraçado. Isso te deixa irritada — mas quando é que ela não te irrita? E quando é que você não a irrita? Desde Henry você abaixara suas armas, mas nunca deixou de cutucá-la realmente. Era quase uma ofensa ser ignorada por ela estando no mesmo lugar. Sua insolência chegava a pinicar tua pele, e toda vez que ela se dirigia para você, apenas para lhe dizer algo que deveria ser feito, você sentia necessidade de afrontá-la.
Porque você queria ser notada. Porque ter a atenção dela lhe satisfazia de uma forma que você demorara a notar. Porque você a odiava, mas passara a ser diferente, e não era um sentimento perverso para lhe causar mal. Você a odiava apenas quando ela lhe dava as costas, ou quando não te incluía em algo. Quando ela te defendia, quando ela se oferecia se sacrificar para te poupar, era então que você sentia um frio na barriga. Era ali que você conseguia sorrir. Mas quando ela ia embora, seu sorriso logo morria numa linha reta. E você queria que ela percebesse de alguma forma, sem precisar dizer, que você precisava dela. E ela soube — ela sempre fora boa em captar mensagens.
'Eu sei ler as pessoas muito bem. Nunca falho nisso.' Ela triplica e você abre um sorriso carregado de sarcasmo — apenas para não lhe dar o imediato prazer da tua aprovação.
'Emma.' Você vira o rosto na direção dela antes de chamá-la, e ela vira o dela para te encarar. 'Emma.' Você tenta de novo. Você tem algo para dizer e parece tão simples, as palavras estão ali, mas elas significam tanto que você tem medo de dizê-las. Elas pensam em sua língua. Você tem medo de admiti-las em voz alta. Você tem medo do que aquilo pode significar, do que implica, mas você sente que aquilo merece ser dito. Ela mexeu tanto com você, te destruiu em milhões de pedaços apenas para te reconstruir e embora você não tenha ficado perfeita, ainda tinha ficado melhor do que tua versão anterior. É claro, ela não poderia ser a responsável por tua completa mudança — o que vier a ser adicionado depende exclusivamente de você; depende de você reconhecer e escolher a pessoa que quer ser agora. E isso te assusta muito porque durante toda uma vida você nunca soube ser outro alguém além do que se é. Durante toda sua vida, tudo o que você conheceu foi rancor, desejo de vingança, dor, abandono, e o pouco amor que brilhava no meio de tanta escuridão no tinha sido o suficiente para afastá-la das trevas.
'Aqui.' Ela diz pacientemente, mesmo depois de você hesitar tanto. Aqui, você repete a palavra na tua cabeça para se focar no presente, deixando para trás o vaguear no passado. Aqui é o que importa agora. Aqui, onde ela está. Porque ela brilha uma luz infinita vezes mais forte do que aquela do passado. Ela serve como guia, e se não fosse por ela, por sua insistência, você não estaria sentindo isso agora.
É algo que te desarma. Era isso que supostamente deveria parecer? Você reconsidera e decide pelo não. Falar pode não ser sábio. Falar pode te expor. 'Eu...' Você limpa a garganta enquanto pensa numa desculpa. Enquanto respira fundo para desacelerar o coração, limpar a mente e inventar um pretexto qualquer. E os olhos azuis piscam pacientemente para você, embora no fundo eles estejam implorando por aquilo que você hesita em dizer. E você reconsidera mais uma vez, sabendo que aquele olhar nunca vai mudar, e que tão pouco o que sente irá se desfazer.
'Regina?' Ela chama por você, talvez porque seus olhos tenham se perdido em outro ponto agora.
É fraqueza demais? Talvez infantil? Você se sente uma tola apenas diante da perspectiva de se abrir. Você nunca abriu seu coração para ninguém antes — até mesmo porque não tinha um.
Oh... E não é justamente esse o ponto? Agora você tem um coração, e esse é o seu mais novo ponto de partida. Para quê recuar então?
Você se vira completamente para ela e por algum modo não consegue encará-la nos olhos. Era tão mais fácil quando se tratava de ameaçar alguém encarando a pessoa — ameaçar te colocava num lugar de poder. Mas isso? Isso te deixa sem chão. A falta de controle faz tremer suas mãos, porque há algo que não se pode comprar de alguém, que não se pode forçar em alguém — que é puro justamente porque vem do desconhecido. Como replicá-lo então? Você sempre soube que fazê-lo era — é — impossível. E você se lembra de quem você foi uma vez, e de como tinha confiança, e tenta imitá-la só para dar a falsa sensação de segurança, o mínimo que você precisa para que as palavras saiam. 'Eu...' você diz de novo, ainda sem olhar para ela. O olhar dela, você sente, está sobre você. O que você tem a dizer, é sobre tudo, para deixá-la saber de que você não a odeia mais. Então você diz. Mais ou menos. 'Eu aprendi a amar.' É um murmúrio. Você se sente ridícula. Completamente idiota. Você nem entende porque as pessoas valorizam isso, se importam tanto com isso. Que satisfação se adquiri dessa sensação?
A risada dela, ainda que baixa, ecoa no seu peito. O que te irrita, porque como ela pode estar rindo depois de você ter exposto o que está sentindo? É algo íntimo, pertencente apenas à você.
'Eu sei, Regina.' Ela diz então e seus olhos abrem um tanto mais, surpresos, mas continuam no chão. Para sua surpresa, para seu entendimento da superestimação sobre esse sentimento, para sentir a desejada satisfação correndo por suas veias, ela segura seu rosto, se inclina para frente e beija demoradamente seus lábios. Seus olhos não precisam mais se encontrarem com o dela, porque eles estão fechados perdidos na sensação. Parece infinita, e mesmo quando ela se afasta você ainda consegue sentir. 'Agora você também vai conhecer a força mais poderosa de todas.' Ela diz a apenas alguns milímetros de distância.
E você entende. Você compreende nesse exato momento porque o amor é consagrado. Você experimentou sua força e entende o porquê dele não poder ser criado e manipulado, nem mesmo pelo mais forte dos feiticeiros. E porque ele é único de cada pessoa, e que você não sabe de onde vem, mas ele está ali. E que deve refletir em você, porque até mesmo ela sabe dizer que o ódio já sumiu no passado. É claro que sumiu, porque é ela. E você não a odeia mais. O que você sente por ela é muito mais amplo, extenso, complexo. O amor, você entende, não é o contrário do ódio, é a aniquilação dele.
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