O que o destino aprontou dessa vez?
74 Capítulo 74 - Terça
Notas iniciais
Havia se passado um mês. Um longo mês. Era uma tarde de segunda-feira, e Luana estava sentada sobre as próprias pernas em sua cama. Com a porta do quarto trancada, ela olhava fixamente para aquela folha de papel. Desenhava algo que a princípio apelidou de “Anja má”. Uma mulher que surgia em seus sonhos quase todas as noites. Alva, despida e com asas negras pelas costas. Podia lembrar-se claramente de como era seu olhar: violeta, que sempre a fitava com aquele ar intimidador. E foi ali, aos poucos, que enfim finalizou o desenho de tal ser que a perturbava tanto.
Para muitos, desenhar o que lhe punha medo era como uma tortura, mas para Luana era como uma prova de fogo. Fitou-a observando cada detalhe feito, enquanto lembrava-se das respectivas noites mal dormidas em razão de tantos pesadelos. Parou por um segundo. Largou o papel sobre a cama e jogou-se de costas contra a mesma. Depois de tanto trabalhar em sua “arte”, ela se pôs a pensar.
Era amanhã. Amanhã que enfim partiria até a Bélgica. Pensava nos planos futuros, nas pessoas que, em teoria, deixaria para trás. Entre elas, Daniel. Se algo havia mudado entre ambos no último mês? Nada. Ele não veio atrás dela, e ela tão pouco fez o mesmo.
Durante esse meio tempo, Luana havia mudado parcialmente. Agora, suas longas e lisas madeixas davam lugar a um corte repicado, que não passava da altura dos ombros. Porém permanecia ruiva, afinal, essa era sua marca registrada. Além dessa, outra marca agora também estava registrada em si, e para sempre: uma tatuagem, localizada próxima ao lado esquerdo de seu quadril. No desenho, uma coruja, em tons fortes e escuros, e repleta de detalhes.
E por que uma coruja? A primeira coisa lembrada ao se falar de tatuagens como essa, é a sabedoria e experiência. Corujas são conhecidos também como “Anjos da Morte”, ou “Deusas da Noite”, e por mais que sejam ligadas a negatividade pelo senso comum, para Luana era a simbologia perfeita. Além de ser um animal tão raro e belo, Lua via personalidades similares entre o ser e ela mesma: a obscuridade.
Depois de minutos, senão horas naquele quarto silencioso, a ruiva lembrou-se que tinha que fazer algo muito importante antes do dia seguinte. Afinal, amanhã a essa hora ela não teria mais essa chance. Levantou-se da cama, arrumou seus cabelos que provavelmente estariam bagunçados, pegou o celular sobre o criado mudo e digitou algo.
Luana Bell: Pode me encontrar no Raízes daqui a uma hora?
Em pouco tempo, ela obteve resposta.
Anderson Bizzocchi: Claro! Só vou resolver algumas coisas antes de sair.
Luana Bell: Certo. E me faz um favor?
Anderson Bizzocchi: O que a senhorita deseja?
Luana Bell: Que leve o Elizeu.
Anderson Bizzocchi: Quem?
Luana Bell: ELÍDIO. Foi o corretor!
Anderson Bizzocchi: Pobre corretor. É culpado por tanta coisa...
Luana Bell: Foi o corretor mesmo. Eu juro.
Anderson Bizzocchi: Haha. Certo. Até daqui a pouco.
Luana Bell: Até.
Ela riu de si mesma. Vez ou outra mantinha contato com Anderson, com Elídio e até mesmo com outros membros da trupe. A amizade de ambos era impagável, e ela não poderia partir sem antes se despedir.
...
Devido ao trânsito, Luana acabou se atrasando. Quando entrou no restaurante, já os avistou de longe. Estavam sentados em uma das últimas mesas, e sendo assim ela teve que atravessar quase todo o lugar para alcançá-los. Ultimamente, os dois não a viam com tanta frequência, então assim que a viu se aproximar, Anderson não escondeu sua surpresa e ânimo.
— Lua. – Exclamou sorridente, fazendo o outro virar-se para olha-la, tendo a mesma reação.
— A própria. – Ela completou retribuindo o sorriso. Imediatamente, ambos os amigos levantaram-se para cumprimentá-la devidamente. Abraçaram-na, um por vez, com aqueles abraços gostosos e apertados, que para ela, eram os melhores do mundo. – Eu estava morta de saudade.
— Não, não morra ainda. Primeiro temos que conversar. – Elídio disse com sua comicidade habitual, fazendo os outros rirem.
— Você cortou o cabelo. – Observou o outro, sem tirar o sorriso dos lábios por nenhum segundo. Ela assentiu.
— Aprovaram?
— Eu adorei. – Sanna apoiou, seguido pelo outro.
— Ficou ainda mais linda.
— Obrigada. Agora, podemos pedir a comida?
— Já pedimos, acho que chega em alguns minutos. Espero que não se importe. – Disse Elídio.
— Sem problema. A propósito, o que pediram?
— Três hambúrgueres e milk shakes.
— Boa escolha. – A ruiva aprovou.
— Viu só, Lico? Eu disse. – Anderson olhou para o amigo, que ria baixo. Luana entreolhou-os sem entender.
— É que eu ia pedir algo mais saudável, já que você é nutricionista. Mas o Anderson insistiu em não. – Explicou Elídio.
— Pois ele fez bem. Sempre digo: façam o que eu digo, mas não façam o que eu faço. – Ambos riram. Logo sem seguida, seus respectivos lanches chegaram à mesa.
— Então, Lua, por que nos chamou aqui? – Perguntou o mais alto. Antes de responder, Luana calou-se um pouco, pensando nas palavras certas para usar.
— Bem, eu chamei os dois aqui porque tenho uma notícia pra dar. Talvez vocês achem bom, talvez achem ruim, e enfim, depende muito.
— O que? – Sanna indagou com curiosidade, enquanto tomava um pouco de seu milk shake.
— É que amanhã mesmo, vou fazer uma viagem a trabalho até a Bélgica.
— Bélgica? – Perguntou Anderson. – Europa, não é?
— Exato, mas a viagem não é de uma ou duas semanas. Nem meses. São três anos.
— TRÊS anos? – Elídio surpreendeu-se, assim como Andy. – É muito tempo.
— Eu sei, mas acreditem, vai valer a pena. E depois que esse tempo passar, eu vou voltar. – Os dois amigos entreolharam-se. Por certo pensavam a mesma coisa: no barbixa que não estava presente. Entretanto, acharam inconveniente tocar no assunto outra vez.
— Bem, lá deve ser um lugar incrível, Lua. Além do mais, oportunidades assim não se ganha todo dia. – Anderson apoiou-a, com aquele sorriso perfeito que sempre a contagiava.
— Mas sabem, eu tenho certeza que vou sentir saudades de muitas coisas, incluindo vocês.
— Own... só não esqueça da gente quando estiver nadando em euro. – Elídio brincou novamente.
— Não se preocupe com isso. Vou manter contato sempre que possível e inclusive não vou perder nenhum vídeo do Improvável.
— E não esqueça de marcar os vídeos como “gostei”! – Sanna disse, mais uma vez com comicidade. – A propósito, quando vai ser essa viagem mesmo?
— Nessa terça. O voo sai às seis da manhã. – Ela respondeu com mais suavidade que o habitual. Já Bizzocchi, por sua vez, levantou o copo de milk shake e exclamou alegremente:
— Então, um brinde à Luana e ao sucesso!
— Espera, com milk shake? – Elídio olhou para ele com aquela expressão que ele conhecia bem.
— É o que temos. Tin tin?
— Tin tin. – Luana disse sorridente, enquanto o trio juntava seus copos no alto.
...
No carro, Anderson percorria o caminho que levaria até a casa do amigo sentado ao seu lado, no banco do carona.
— O que você acha, Anderson? – Ao ouvir, Anderson fitou-o por poucos segundos.
— Acho que alguém vai se dar mal nessa história.
— Exatamente. E você sabe quem.
— Elídio, não podemos interferir nas decisões dela. Temos que deixar ela ir, e tudo o que podemos fazer agora é apoiá-la, como fizemos minutos atrás.
— Mas Andy, isso não está certo.
— O que não está certo?
— E você ainda pergunta? Está certo de que não devemos contar isso ao Daniel?
— Até eu acho sacana não contarmos. Mas se ela não quis contar a ele, é porque com certeza tem seus motivos. Então vamos respeitar a Lua. Eu já disse uma vez, e vou dizer de novo: Não vamos nos intrometer nisso. Ok, Lico? – Elídio calou-se. Fechou a cara. – OK, Lico? – Insistiu. E não, certamente o outro não concordava, mas não adiantava teimar.
— Ok, Andy.
Se Elídio realmente decidiu deixar o assunto pra lá?
Não.
Ele tinha algo a planejar, e isso envolvia Luana e o quinto elemento do trio. Ele era a favor do casal e aliás, sempre foi, desde seu início. Foi ele quem encorajou o amigo a chamá-la para sair, que o fez dar o primeiro passo. E pensando bem, Anderson sempre fez o mesmo, porém pressentia que não podia contar com o amigo desta vez.
Agora, só não sabia se realmente o punha em prática, pois se o fizesse, teria que ser o quanto antes.
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