O que o destino aprontou dessa vez?
72 Capítulo 72 - Quando for tarde
Notas iniciais
Com uma baita dor de cabeça sem motivo aparente, Daniel acordara de uma hora para a outra. Levou alguns segundos para localizar-se e saber o porquê de ter acordado justo ali. Quando viu as janelas, o volante, e todos aqueles botões em sua frente, ele pôde se lembrar.
Se deu conta que estava em seu próprio carro. Afinal, ele havia passado a noite toda ali?
Arregalou os olhos no mesmo instante, despreguiçando-se e procurando despertar. Olhou as horas em seu celular: eram 5h10 da manhã. Ou madrugada. Mas isso não importava agora.
“Que droga” era tudo o que repetia sem pausas em sua mente. Não era muito aconselhável passar a noite dormindo dentro de um carro. Sua cabeça doía e seu corpo idem. A sorte era que estava em frente a própria casa. Abriu a porta, “penteou” os cabelos e tentou tampar com a mão a luz solar que já marcava presença e incomodava sua visão.
Ao entrar na residência, tomou um banho demorado. Enquanto a água fria batia em sua cabeça e percorria todo seu corpo, ele pensava. E como pensava. Precisava de alguém que o entendesse, precisava contar o que estava acontecendo, e precisava sobretudo de um conselho. Encerrou o banho, vestiu-se com alguma roupa que considerava confortável e pegou o celular. Discou os números que já sabia de cor e salteado, e depois de alguns segundos ouviu a tão conhecida voz que precisava ouvir do outro lado da linha.
— E aí, Dani? – Era Anderson, e ele tinha a voz rouca, como se acabasse de acordar.
— E aí, bom dia?
— Bom dia é uma ova. Boa madrugada você quer dizer, não?
— Te acordei?
— Não, imagine. Ainda estou dormindo, sou sonâmbulo.
— E já acorda fazendo piadinha sem graça, né?
— O que tu quer?
— Calma.
— Tô calmo.
— Não, logicamente não está. E eu peço mil desculpas por te acordar agora, mas escuta, preciso falar contigo.
— Hm.
— Andy. – Sem resposta, ele insistiu. – Andy? Ô ANDY!
— AI! O que?!
— Por acaso estava voltando a dormir?
— Talvez.
— Tá, olha, preciso conversar, não necessariamente agora, mas preciso.
— Quando então?
— Está livre na hora o almoço?
— Estou.
— Então tudo bem. Me encontra no restaurante de sempre às 11:30. Ok? – Novamente sem ser correspondido, Daniel revirou os olhos. – ANDERSON LUÍZ!
— QUE É?! – Notavelmente emburrado, o outro perguntou no mesmo tom.
— Ouviu o que eu disse?!
— Ouvi.
— Então repete.
— Você disse que... eu... ok, eu não ouvi.
— Me encontra às 11:30 no restaurante de sempre, poxa.
— Tá, tudo bem.
— Ótimo. Agora vou te deixar dormir. Obr... – Ele mal teve tempo de dizer algo mais, pois logo o outro encerrou a ligação. Daniel sabia que ligar para ele a essa hora não tinha sido umas das melhores ideias que já teve, aliás, nem para ele nem para ninguém, pois que pessoa gosta de ser acordada dessa forma? Nenhuma, sem dúvida. Mas bons motivos não lhe faltavam para ter o feito.
...
Em uma das mesas do lugar, Nascimento esperava pelo amigo que provavelmente chegaria dali a alguns minutos. Rondando as pontas dos dedos pela borda do copo de vidro, ele o avistou a procurá-lo. Acenou com um dos braços, chamando sua atenção. Logo atrás dele surgiu outro homem, que ele conhecia tão bem quanto o próprio: Elídio. Ambos aproximam-se da mesa em que ele se encontrava e todos cumprimentam-se com rápidos apertos de mão.
— Oi, Dan. – Disse Anderson. – Ele passou lá em casa agora a pouco, então chamei pra vir também. – Referiu-se a Sanna, que agora puxava uma das cadeiras para sentar.
— Tudo bem. Seria até melhor se ele viesse.
— E “ele” está aqui, viu? – Elídio se manifestou a respeito.
— A gente sabe. Você não é transparente. – Anderson disse com comicidade. O trio então pediu seus respectivos pratos e iniciaram uma conversa. – A propósito, muitíssimo obrigado por ter me acordado aquela hora do dia. Curti pacas. – Irônico, ele observou.
— Eu já pedi desculpas.
— Eu sei. E é importante ressaltar que ficar gritando no ouvido das pessoas também não é legal.
— E o que quer que eu faça agora? Ainda não tenho a máquina do tempo pra resolver os problemas do passado. Se bem que seria bem útil. – Cabisbaixo, ele tomou um gole de sua bebida.
— Já prevejo o motivo que você teve pra ter me trago aqui. – Daniel o fitou esperançoso, com aquele olhar que para Anderson já era familiarizado. – A Lua?
— Também.
— Então a Ana? – Elídio disse desta vez, quebrando seu silêncio. Daniel apenas assentiu com a cabeça e um suspiro profundo. – O que aconteceu desta vez? – O outro passou a mão pelos cabelos que há tempos deveriam ser cortados, assanhando-os, e disse-lhes desconcertado:
— A questão não é o que aconteceu. A questão é o que está acontecendo. – Ele deu uma breve pausa. – Sabem quem estava ligando pra mim sem parar ontem a noite? A Anastácia. E o tolo aqui foi até a casa dela.
— Não vai me dizer que vocês...
— Não. Não fizemos nada.
— Então por que foi até lá? – Sanna disse em um tom suave, com inocência.
— Ela queria falar comigo, e eu, igualmente. Precisava esclarecer tudo a ela. Precisava dispensá-la. Mas a louca revidou tudo que eu disse, não queria aceitar que eu não ficaria com ela, e me seduziu da forma mais baixa. Ao menos no fim tudo deu certo. Ou quase tudo.
— Como assim, quase tudo? – Anderson indagou, aproximando-se um pouco mais.
— Mesmo que a Ana tenha saído do meu caminho, não vou ter a Lua de volta. Um simples beijo pode fazer grandes estragos, rapazes. Pode destruir um relacionamento inteiro. E eu descobri isso na pior forma.
— Daniel. – Anderson fitava-o, e não prosseguiu até que o amigo também olhasse para ele. – Uma vez eu li que a saudade é a nossa alma dizendo pra onde ela quer voltar. Então se você sente falta dela, vai atrás.
Pouco mais de meia hora depois, cada um pegou seu rumo. Mas Daniel não queria ir para casa. Preferiu ir para algum lugar mais longe, ficar sozinho.
Depois de muito andar, avistou uma praça onde haviam algumas pessoas. Umas lendo, outras conversando ou rindo. Ele parou ali, perto de um ipê, onde consigo pensava: “Mas ela sumiu, eu não a vejo demonstrar saudades, e ela não veio até mim. Então, é porque já me esqueceu e não se importa mais comigo".
...
Deitada em sua cama, abraçada ao travesseiro, Luana relia pela milésima vez todas aquelas antigas conversas em seu celular. Pouco depois, se pôs a observar o perfume sobre a cômoda, a porta trancada, as paredes brancas, a gargantilha e a caixinha aveludada, e pensava: “Ele sumiu. Não o vejo demonstrar arrependimento, e ele não veio até mim. Então é porque está com a outra, e não se importa mais comigo”.
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