O que o destino aprontou dessa vez?
66 Capítulo 66 - Essa noite
Notas iniciais
— Dan.
— Hum?
— Eu quero ir pra casa.
— Mas você mal chegou.
— Eu sei.
— Então. Fica mais um pouco? – Ele afagava seus cabelos soltos sobre suas pernas. Ambos estavam na casa de Daniel, mais precisamente na sala, onde assistiam a um programa de televisão.
— N... – Provavelmente Luana pretendia dizer “não”, mas no fim das contas, sua voz travou, seguida por um gemido enquanto a mesma encolhia-se no sofá.
— Lua?
— Ham?
— Você está bem?
— Estou, eu só... quero ir pra casa.
— Não minta. O que está sentindo?
— Você não entenderia.
— Não só entenderia como também já entendi. Está com cólica, não é? – Ela não respondeu, apenas fitou-o com o olhar lacrimejante. Sim, por certo era isso. – Fica aqui comigo. Eu cuido de você.
— Eu não preciso que ninguém cuide de mim.
— Precisa sim. E eu quero que fique. Espera, deixa eu ir na cozinha um instante. – Ela então afastou-se para que ele pudesse levantar. Pouco tempo depois Daniel vinha com uma embalagem de chocolates em mãos.
— O que é isso?
— Algo que vai revolucionar sua vida: comida. – Ela riu fraco.
— Acha mesmo que esses chocolates vão resolver meu problema?
— Não, mas ao menos vão adiantar de alguma coisa. – Ele voltou a sentar-se. – Se você não sabe, o chocolate faz nosso corpo liberar os hormônios do prazer. – Disse com uma certa malícia.
— Isso foi uma tentativa de me sacanear? – Ele riu de uma forma que ela conhecia bem.
— Trata logo de comer isso, vai. Se não eu como por você. – Sem dizer mais nada, Luana tomou a caixa de suas mãos.
Ambos revezavam a vez de pegar um chocolate da caixa, e a toda vez que Daniel pegava dois seguidos, ela imediatamente dava um tapa em sua mão para que largasse. Afinal, era justo. Atentos à TV, mal perceberam quando a caixa enfim se esvaziou.
— Droga. Já acabou? – Ela indagou.
— Quer mais alguma coisa?
— Quero. Qualquer coisa que segundo você, libere os hormônios do prazer em mim. – Ele riu novamente, mas logo levantou-se e voltou para a cozinha. Voltou com meio pote de creme de avelã. – Isso! Muito bem! Me dá logo!
— Calma. Como é que se diz?
— Me dá logo esse troço senão eu dou um murro na tua fuça.
— Muito bem. Essa é minha garota. – Ele a entregou, como se de fato aquela fosse uma boa maneira de ser educado. Luana riu. Era impossível não se animar com o humor matinal daquele ser.
Entretanto, como nem tudo são flores, pouco tempo depois ela passou a se calar. Não movia um músculo sequer se não fosse para tentar aliviar a dor que sentia. Seus olhos fechavam-se hora ou outra e voltavam a abrir avermelhados. Aquilo já estava se tornando uma tortura.
— Dan.
— Oi?
— Agora, eu realmente quero ir pra casa.
— Se quiser, posso ir numa farmácia e comprar um remédio pra você.
— Não. Eu não quero. Só quero ir embora. – O outro respirou fundo.
— Tudo bem. Eu te levo até lá.– Ele a deu apoio para levantar-se e a acompanhou até o carro.
Durante o caminho, pegaram um grande e infeliz congestionamento, o que de fato só piorou tudo.
Quando Daniel enfim parou o veículo em frente ao prédio de Luana, ela dormia ao seu lado, no banco da frente. Era linda, e repousava tão profundamente que não teria coragem de acordá-la. Mas de uma maneira ou de outra, teria que despertá-la de seu sono, afinal nem ela nem ele poderiam passar a noite inteira ali.
— Lua. – Tentou amenizar seu tom de voz. – Lua? – Ela abriu os olhos aos poucos e em silêncio rondou o olhar por todo o interior do carro, possivelmente procurando se localizar. – Estamos em frente ao prédio.
— Bom... obrigada pela carona. – Disse despertando-se no pouco espaço que tinha.
— De nada. – Ele aproximou-se dela, dando-lhe um beijo suave, porém que ainda assim conseguiu desestabilizá-la.
— ...e obrigada pelo beijo.
— De nada. – Ambos sorriram.
— Boa noite, anjo. – Ela deu mais um selinho nele e saiu do carro. Mesmo estando longe, ele ainda disse em um bom tom para que Luana pudesse ouvir:
— Boa noite e sonhe com os anjos. Ou seja, comigo. – De costas, ela ainda virou-se rapidamente para trás, possibilitando-a ver seu maravilhoso sorriso.
Quando a perdeu de vista, ele partiu de volta para casa.
Praticamente no meio do caminho seu celular começou a tocar. Daniel pegou-o num gesto rápido e atendeu sem ver quem era.
— Alô?
— Daniel?
— Sou eu.
— Aqui é a Ana.
— Ana? Por que está ligando a essa hora da noite? Aconteceu alguma coisa?
— Não, não aconteceu nada. E aliás nem é tão tarde assim. São quase sete e meia da noite. – Se não acontecera nada grave, ele tinha bons e claros motivos para querer saber a causa de sua ligação inesperada.
— Então...?
— Queria saber se está livre agora.
— Estou no trânsito. Fora isso, sim.
— E não quer sair comigo e uns amigos meus? – Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Eu não sei, Ana...
— Vem! Vai ser divertido.
— Onde vão?
— Num bar-restaurante com música ao vivo. É bem bacana, pode apostar! Então, você vem?
— Eu nem sei se...
— Ah, vamos! Por favor! – Ela o interrompeu com um tom de voz animado, fazendo-o soltar todo o ar que havia em seus pulmões, em sinal de derrota.
— Tudo bem. Eu vou.
— Sério?! Ótimo! Quer que eu vá te buscar na sua casa?
— Seria bom. Até porque nem sei onde fica.
— Certo. Então me passa seu endereço. – Ele ficou receoso, porém ainda assim a informou. Chego daqui a meia hora.
O barbixa não curtia muito sair de sua zona de conforto, ainda mais ir para um lugar desconhecido, com pessoas desconhecidas. Porém aceitou, e nem sabia o por quê. Anastácia tinha uma capacidade incrível de o fazer topar tudo que queria, e esse era só mais um dos “porquês” que ele tinha em mente.
...
Na entrada do lugar, Ana e Daniel esperavam pelos tais amigos que ela citara durante a ligação. Em pouco tempo, surgiram Lúcia Helena e um rapaz um tanto parecido com a loira.
— Demoramos? – Perguntou Helena.
— Não, milagrosamente não. – Ana respondeu. – Então, Daniel, você já conhece Lúcia Helena, não é? Este é o irmão dela, Roberto.
— Mas pode chamar de Beto.
— Oi, prazer. – Daniel o cumprimentou com um aperto de mão.
— Você não é o Daniel dos Barbixas? – Perguntou o rapaz, de aparentemente vinte e poucos anos. Ele puxou a irmã: tinha os olhos azuis e os cabelos louros e cacheados. Simpático, e muito bonito.
— O próprio. – Daniel disse-lhe sorridente.
— Então esse é seu tal amigo, Ana? – Roberto perguntou.
— Esse mesmo.
— E por que não me disse que era o Daniel?
— E como é que eu ia saber que você conhecia ele?
— Ah, esquece. A propósito, gosto muito do seu trabalho, Dani. Não pare nunca, ok? Senão algo muito ruim pode acontecer. Assim, só uma hipótese. – Ele disse com humor, fazendo todos rirem.
— Então, vamos entrar logo? Estou morrendo de fome. – Exclamou Helena. Dito isso, os quatro entraram no estabelecimento e procuraram uma mesa para sentar.
Naquele dia, havia um rodízio de pizza ali. E claro, eles não abriram mão dessa deliciosa oportunidade. Todos provaram pizzas dos mais diversos tipos e gostos, inclusive algumas que certos deles nunca sequer tinham ouvido falar alguma vez em sua vida. Ao som de músicas de diferentes estilos e ritmos, os quatro conversavam sobre assuntos bem aleatórios. Riam de minuto em minuto, principalmente pelas graças que Daniel e Roberto faziam.
Aquela distração noturna que o barbixa pensava ser tediosa e desconfortante, na verdade estava sendo bem divertida e animada. Ao menos até agora.
— Garçom, traga uma cerveja dessa, por favor. – Roberto pediu ao apontar para uma das opções no menu. – Vocês também vão querer? – Quase simultaneamente, Daniel e Lúcia Helena confirmaram com um breve “sim”.
— Não vou tomar nenhuma hoje, Beto. Se alguém passar do ponto é bom que tenha uma pessoa sóbria. Além do mais, vou dirigir.
— Tudo bem. Então, traga só três mesmo, moço. – O loiro disse ao mesmo homem.
Só que não foram apenas uma ou duas cervejas por pessoa. Digamos que o foram o suficiente para deixá-los “alegres”.
— Daniel. – Disse Anastácia.
— Hm?
— Vem comigo ali no bar. Quero beber alguma coisa.
— Mas você disse que não ia beber. – Daniel respondeu ao tomar mais um gole em seu copo.
— Não vou beber nada que tenha álcool. Mas preciso de alguma coisa que me refresque.
— E por que não pede ao garçom? É melhor, até porque não saímos da mesa.
— Prefiro ir até lá. Então, você vem? – Por mais que não quisesse se levantar, ele aceitou acompanha-la. – Beto, Helena, vamos ali no bar. Voltamos num instante. – Os irmãos atestaram.
Daniel e Anastácia então caminharam os poucos metros que haviam para chegar até lá e sentaram-se um a frente do outro nos altos bancos, apoiados na madeira maciça do balcão. A morena pediu um coquetel sem álcool, como havia dito anteriormente ao barbixa.
Ao som de uma MPB qualquer, ambos riam ainda mais com os altos papos que tinham, especialmente Daniel. Ah... este ria como nunca. No embalo da canção, ainda com um sorriso largo e irresistível, ele aproximou seu rosto do dela. Estavam agora, face a face. Fitaram-se por poucos segundos, pois seus olhos foram fechando-se aos poucos.
Aconteceu.
Seus lábios se tocavam, e a cada movimento ela se via mais cercada por seus braços. Ele a consumia; se embebedava do gosto que ela tinha. Seus corpos eram rígidos, num clímax quase impossível de se evitar.
O que ele estava fazendo afinal? Era errado, mas isso pouco importava agora. O álcool e a explosão de sensações o proibiam de pensar naquele feliz, ou infeliz instante.
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