O que o destino aprontou dessa vez?
62 Capítulo 62 - Aquela alegre manhã de sol
Notas iniciais
Aquele era o dia em que Daniel voltaria a trabalhar, já que durante tanto tempo passou em repouso. As nuvens caminhavam lentamente em direção a cidade vizinha e o belo céu parecia estar a seu favor. O trânsito estava o horror de sempre, porém nada tiraria sua alegria.
Em certo ponto, os carros praticamente pararam de andar. Em meio ao engarrafamento ele teve que se contentar com sua única distração: o celular. Sua página no facebook estava a mesma, sem recentes atualizações. Porém nas poucas vezes em que havia anunciado os novos vídeos do canal, ele notou uma evidente preocupação das pessoas para consigo. Nos comentários elas manifestavam sua inquietude, perguntando sobre sua prolongada ausência nos espetáculos e até mesmo geravam boatos como “Ele não faz mais parte dos Barbixas” ou coisas desse gênero.
Ninguém além de seus familiares, amigos ou pessoas próximas sabiam o real motivo de seu afastamento, mas logicamente seu sumiço era motivo de preocupação por parte dos fãs e admiradores. Ele mesmo fez questão que não ficassem sabendo. Não precisariam ficar mais preocupados do que já estavam. Contudo, em questão de minutos tudo voltaria a ser como antes. O barbixa mal podia esperar para voltar a sua insana rotina de trabalho, pois definitivamente, ficar parado não era de sua natureza.
Estacionou o carro em frente ao prédio e logo que saiu de dentro do veículo pôde sentir uma certa harmonia consigo mesmo. Era como se voltar a rotina lhe trouxesse mais tranquilidade, mais equilíbrio. Subiu os andares que lhe eram disponibilizados e em um pouco mais de tempo já estava no corredor que dava acesso a sala principal. Chegando em frente a porta, abriu-a sem pressa, como se curtisse o momento. Logo avistou os amigos de trabalho, que já começavam a executar suas respectivas tarefas diárias.
– Bom dia, patrão! – Stella, assistente de produção, cumprimentou-o sorridente.
– Bom dia, Ster. – Ele respondeu em tom suave, tão doce e delicado.
– Vou te dizer uma coisa: essa empresa fica um caos sem você. – Daniel riu.
– Quer dizer que eu não sei dar conta do recado? Certo. – Elídio disse fingindo estar indignado.
– Claro que sabe. – Jefferson disse, entrando na sala. – Mas a questão é que o dono de quase toda a ordem e disciplina aqui dentro é o Dani.
– Viu aí, Elídio? – Daniel disse desta vez. – Ser chato de vez em quanto é até bom.
– Só que você é chato sempre. – Respondeu Sanna, cômico como sempre.
– Por falar em chato, cadê o Andy? – Perguntou Daniel enquanto punha um pouco de café em sua xícara.
– Opa! Ouvi meu nome? – Respondeu o outro barbixa ao chegar do outro cômodo. – E vejam só quem voltou ao trabalho. Daniel Nascimento, senhoras e senhores!
Após Anderson exclamar alto e puxar uma salva de palmas de todos os integrantes da equipe, Daniel não teve como conter um sorriso tímido. O motivo da recepção calorosa era evidente. Afinal passar mais de meio mês longe de tudo isso era como estar longe de casa.
– Queremos discurso! – Jefferson gritou do fundo da sala.
– Nada disso. – O barbixa retrucou. – Sou pior que prego na bota pra falar em público. Ainda mais proclamar discursos.
– Chatoooooo. – O produtor exclamou novamente em seu tom mais cômico, fazendo todos rirem.
– Me diz uma coisa que eu ainda não sei.
– Eu digo por ele: – Elídio se manifestou. – Estamos aqui perdendo tempo por um cara que não tem nem compaixão em nos discursar palavras amoráveis. – O coro de risos veio a tona novamente.
O tempo se passou bem depressa. Quando se deram conta, já passava das onze da manhã.
Como na maioria das vezes ao final do experiente, Daniel foi almoçar no restaurante ao lado. Desta vez ninguém o acompanhou. Foi sozinho. Pouco tempo depois de sentar à mesa e pedir seu prato, ele sentiu alguém tocar sua costas. Virou-se na mesma hora e viu uma certa mulher de cabelos negros e sorriso encantador cumprimentá-lo alegremente.
– Lembra de mim?
– Você por aqui? – Ele exclamou surpreso. Era a enfermeira que cuidara dele durante tanto tempo que passou naquele hospital. – Quem diria. O mundo é mesmo muito pequeno.
– Eu digo o mesmo. Posso sentar?
– Claro. – Ela então dirigiu-se até a cadeira do lado oposto ao dele e sentou-se em sua frente. Logo tirou o casaco que usava, o pondo sobre as pernas e deixando a mostra o decote de sua blusa alaranjada.
– Moço. – A mulher chamou um dos garçons. – Traga o mesmo que ele pediu, por favor. – O rapaz logo assentiu com a cabeça e foi para a cozinha. – Então, como está sendo sua recuperação de lá para cá?
– Bem. Inclusive voltei a trabalhar hoje.
– Isso é ótimo.
– A propósito, eu sempre tratei você como “enfermeira” e estupidamente, ainda não sei seu nome. – Disse ele com um sorriso tímido nos lábios.
– Ana. Anastácia.
– Anastácia... – Ele repetiu para que não esquecesse, já que sua memória não era lá essas coisas. – ...é um nome um pouco incomum.
– Tem razão. Não é todo dia que encontramos Anastácias nas ruas. – Seu modo de falar o fez sorrir. Ela era incrivelmente simpática.
– Sou Daniel. Você deve se lembrar.
– Sim, eu lembro.
– Então, você vem aqui sempre?
– Nem sempre. Mas muitas vezes na volta do trabalho passo aqui pra comer alguma coisa. Esse lugar tem uma comida esplêndida. Quando uma pessoa come aqui pela primeira vez, ela volta no dia seguinte. É de prender qualquer um.
– Tem toda razão. Isso aconteceu comigo.
– E com que você trabalha?
– Bem, eu faço muitas coisas.
– Tipo o que?
– Eu atuo, mas também sou diretor, produtor, roteirista, e músico e fotógrafo nas horas vagas.
– Uau! Que incrível. Eu também já trabalhei no ramo da arte.
– Sério?
– Sim. Fui modelo de uma empresa de maquiagens. Mas em pouco tempo abandonei a profissão. Embora eu ganhasse mais como modelo, minha paixão mesmo é por medicina.
– Você fez bem. Sempre é bom trabalhar com o que gostamos. – Nesse momento seus pratos chegaram à mesa.
A conversa durou um longo tempo e rendeu muitas e muitas risadas. As pessoas das mesas ao lado os observavam a gargalhar e acabavam se contagiando com a alegria de ambos. Quem não os conhecesse juraria serem amigos de longa data. Porém mal sabiam eles que aquela intimidade era de poucas semanas.
– Agora, infelizmente tenho que ir. – Disse ela levantando-se.
– Tudo bem. A propósito, quando nos vemos novamente?
– Essa é uma boa pergunta. Deixe eu anotar meu telefone. – Do bolso do casaco, ela tirou uma caneta. – Me dê sua mão. – Ele a obedeceu. Enquanto escrevia os números em sua pele, ela disfarçava e muito bem seu sorriso lateral. – Agora, posso saber o seu? – Ele nada disse. Apenas pegou a caneta e assim como ela, anotou os números em sua mão. Anastácia pagou sua parte, pondo o dinheiro sobre a mesa e despediu-se dele com um beijo no rosto. – Então... obrigada. E até breve.
– Até.
O barbixa olhou sorridente para todos aqueles números escritos à tinta azul.
Este dia rendeu muito. Risos, provas de amizade, novas amizades até. E as chances dele esquecer aquela alegre manhã de sol eram simplesmente improváveis.
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