O que o destino aprontou dessa vez?

42 Capítulo 42 - Em Flawlessland


Notas iniciais
Olá leitores, como vão? Cccccccheguei! Bom domingo a todos e boa leitura! Ps: Quando revisei e editei esse capítulo, eu estava ouvindo umas músicas meio românticas. Então no fim das contas, deu nisso.

Nunca esteve tão frio em São Paulo. Geralmente, as nuvens que cobriam o céu da cidade, eram cinzas por conta da poluição. Mas por ironia do destino, agora realmente era por conta de chuva.

Luana observava pela janela o que deveria ser o pôr do sol, isso se pudesse vê-lo. No papel, um desenho inacabado. Algo que podia se chamar de paisagem urbana. Ouvia o som das fortes gotas de água que caíam lá fora, dos trovões, e além disso, apenas o som do silêncio.

Entre riscos e rabiscos, linhas e traços, vai e vem de grafite de lápis, a cidade foi criando forma na folha de papel. Luana pegou a colher ao seu lado e tirou mais chocolate da panela. Brigadeiro era um de seus pontos fracos. Logo foi surpreendida pelo som do interfone, e levantou-se em um pulo, até mesmo pelo susto que levou. Quem seria uma hora dessas?

– Oi, senhor Gil.

– Oi, dona Luana. O Daniel está aqui em baixo. Ele quer subir.

– QUEM? – Arregalou os olhos e perguntou surpresa. Afinal, ele sequer avisou que viria.

– O Daniel.

– Ah... é... ok. Manda subir.

– Certo. Eu vou m...

– Tchau! Obrigada pelo aviso!

Desligou de imediato. “Por Deus! O que eu faço agora?”. Correu para o quarto onde olhou-se no espelho. Usava uma roupa de frio, mas não uma roupa de frio qualquer, e sim um pijama amarelo dos Simpsons. Os cabelos laranjas estavam totalmente fora do lugar, cada fio. Às pressas, tentou fazer um coque decente. Avaliou seu penteado. “Dá pro gasto”. Dentro do guarda roupa, procurou algo melhor para vestir, porém não teve tempo. Logo ouviu a campainha soar alto.

– Meu Deus! MEU DEUS! – Andava para lá e para cá feito uma barata tonta dentro do quarto sem saber aonde ir. – Tá, calma, Luana! Respire fundo e aja naturalmente.

Não queria que o barbixa a visse daquele jeito, porém não havia mais o que ser feito. Só lhe restava abrir a porta, e foi o que fez. A passos longos, voltou para a sala.

A porta enfim foi aberta, possibilitando que vissem um ao outro. Ele no entanto, a olhou de cima a baixo.

– Não ria.

– Gostei na roupa. – Ele brincou, o que fez com que ela soltasse um simpático riso e escondesse o rosto com uma das mãos. – Posso entrar?

– Por favor. – Luana só então notou que ele escondia algo atrás de si mesmo, o que despertou sua curiosidade. – E... o que é isso aí atrás de você? – Daniel, com um sorriso fechado, a mostrou um buquê de orquídeas brancas. Surpresa, ela retribuiu o sorriso. – Que lindas. São pra mim?

– Não, pra minha avó. – Quebrando totalmente o encanto e o romantismo daquele momento, ele a fez rir. – Porém, como minha avó não está mais entre nós, acho que posso dá-las a você.

– Obrigada, espertinho. Eu adorei.

– É melhor coloca-las num vaso com água, senão morrem.

– Verdade. Espera um pouquinho enquanto eu pego e já volto.

Ela adentrou mais, e sumiu por alguns instantes. Ele por sua vez, sentou-se no sofá e se pôs a aguarda-la. De relance, olhou para ver se ninguém vinha e tirou do bolso a pequena caixinha branca e aveludada. Abriu-a para ter certeza de que tal peça ainda estava lá. Sim, estava. Ficou apreciando o brilhante por poucos segundos até ouvir passos vindo em sua direção. Fechou a caixinha e guardou-a imediatamente.

– Aqui está. Ficou lindo, não? – Luana disse mostrando-lhe as orquídeas postas em um belo vaso cilíndrico de vidro, que logo foi posto sobre o rack da sala.

– Muito.

– Então, a que devo a honra da sua visita?

– Ah sim, desculpe ter vindo sem avisar.

– Não tem problema algum, tirando a parte em que você me vê com um pijama dos Simpsons.

– Primeiro que, eu adoro os Simpsons. E segundo, que você fica até bonitinha com essa roupa.

– Vou fingir que acredito em você.

– Pois devia acreditar. E... estou vendo que estava comendo brigadeiro. – Observou ele ao perceber a pequena panela de chocolate sobre a mesa de centro.

– Sim. Quer? – Ele balançou a cabeça simultaneamente, como uma criança mimada, fazendo-a rir. Foi então até a cozinha, de onde trouxe outra colher.

– Você quem fez aquilo? – Indagou pondo uma colher de chocolate na boca enquanto pegava a folha posta sobre a mesma mesa.

– Sim. O que achou?

– Incrível. Quando fez aulas de desenho?

– Nunca fiz.

– Então com quem aprendeu?

– Com ninguém.

– Aprendeu sozinha?

– Exato.

– Uau! Você manja muito. Olha só esses traços, esse sombreamento. Dignos de um Oscar. – A outra riu novamente.

– Não exagera. Aliás, é Flawlessland.

– Que? – Indagou confuso.

– O nome que dei a ela há 19 anos.

– Continuo sem entender.

– Pois me permita explicar: quando eu era pequena, sonhava com uma cidade perfeita. Sempre planejei uma cidade que fosse ímpar, única. Foi aí que comecei a pôr as ideias no papel. Desenhava uma e outra, mas sempre descartava. Então fui crescendo e esquecendo disso tudo. Hoje, depois de 19 anos, foi que lembrei dela. E como não tinha nada de importante pra fazer, cá estou eu, talvez pela última vez, na tentativa de criar Flawlessland.

– Então é como se agora você estivesse realizando um sonho de infância.

– É. – Sorriu lindamente. – Flawlessland foi o melhor nome que pensei para dar a ela. Faz tanto tempo que criei o dito nome, que hoje mais cedo foi até difícil lembrar.

– Flawlessland... é um belo nome. Combina com ela. – Assentiu, observando atentamente a cada detalhe do desenho, com um de seus melhores sorrisos. – Mas enfim, cadê o meu cachorro predileto?

– Ellen levou ele no veterinário pra fazer uns exames de rotina. Foram já faz um tempo.

– Nessa chuva?

– De carro.

– Ah, certo.

– Por falar em chuva, fazia tempo que não chovia tanto desse jeito.

– E eu vim de longe, nessa chuva, só pra te ver.

– SÓ pra me ver? Tem certeza que não veio pra mais nada?

– Tipo o que?

– Tipo pra... você sabe o quê. – Ambos riam.

– Pra sua informação, mocinha, relacionamentos meus não são baseados em sexo. Além do mais, eu não vim exclusivamente pra isso, porque preciso falar uma coisinha com você. – Seu sorriso foi dando lugar a um expressão séria, meio turva.

– Que seria?

– É que... bem, nem sei por onde começo. E... isso. Não sei por onde começo. – “Que idiota você é, Daniel” dizia repetidas vezes em sua própria mente, depois de tamanha confusão de palavras, e querendo talvez, algum lugar para esconder o rosto e não sair jamais. Afinal, onde estava aquele improvisador nato que fez espetáculo um dia desses?

– Me parece apreensivo.

– Eu não diria apreensivo. Ansioso talvez.

– É tão sério assim?

– Depende de você.

– Então me diga. – Pediu ela em um tom suave e pleno, o tom mais confortante que ele já pudera ouvir.

– Lembra do dia em que a gente se conheceu?

– Bem, não foi exatamente aquele dia. Você me entende?

– Sim, sei que te conheci muito antes, após espetáculos, mas me refiro ao dia na praia.

– Sim. Como iria esquecer?

– Pois bem. E antes, eu não lhe considerava como hoje. Você era apenas um alguém que precisava urgentemente de ajuda. E assim eu fiz.

– Foi um dos momentos mais sufocantes que já vivi. – Seus olhos verdes brilhavam, sua boca seca dizia sem pestanejar.

– Entendo, não deve ter sido fácil. Mas não pense que foi sufocante apenas pra você. Ainda penso sobre isso, lembro que senti a mesma agonia, e medo por não conseguir fazer aquilo.

– Mas você conseguiu. E até hoje, não te agradeci suficientemente por isso.

– Na verdade, sim. E da melhor maneira. Me deu a melhor das recompensas, a chance de te conhecer, de te dar meu afeto, de presenciar esses sorrisos que até hoje me tiram do sério. Esses seus cabelos, Lua... Esses olhos verdes, essa cor que eu nunca vi em outros olhos. Esses seus lábios maravilhosos, que quando vejo, são quase impossíveis de resistir. Tudo isso me encantou a princípio, me fascinou de um jeito... que você nem imagina. – Ela sorria hipnotizada por sua expressão, a cada palavra que proclamava. – E além de tudo eu ainda descobri essa mulher de caráter que você é. Tão inteligente, extrovertida e... e se eu fosse dizer tudo o que gosto em você, talvez levasse umas boas horas.

– Idem. Descobri um lado do Daniel que ainda não conhecia.

– Espero que esteja falando do lado bom. – Descontraiu, típico dele. – Você não sabe como eu ficava nervoso nos nossos primeiros encontros. Eu tinha medo de pagar algum mico na sua frente, de falar alguma besteira ou de lhe causar má impressão. Sobretudo tinha medo que desse errado.

– Eu também tive, sem dúvidas ainda mais.

– Um amigo meu uma vez me disse que a gente deve correr atrás do que mais deseja. E eu, bem, eu estou correndo atrás. – O barbixa tirou do bolso a caixinha branca. Abriu-a, expondo o anel de brilhante. Uma joia que valia muito, porém não mais que seus sinceros sentimentos. – Eu quero que a gente fique junto, com um propósito. E você? Quer namorar comigo, Lua? – O brilho daqueles olhos verdes nunca foi tão intenso. No fundo, lá no fundo, ela já previa do que se tratava essa declaração. O conhecia o suficiente para ter certeza disso. Com a voz um tanto embargada, Luana pouco conseguiu dizer, porém sem perder sua essência e seu belo sorriso.

– Quero. Eu quero muito. – Praticamente pulou sobre ele, o abraçando com toda força. Ah... os sentimentos. Tão límpidos, quase sempre tão difíceis de se esconder. E agora, ela realizara mais um feito, e conter lágrimas não faziam parte de seus planos presentes.

– Acho que nunca fiquei tão atordoado com a possibilidade de ouvir um "não". — Ela ria abraçada a ele. Sentia seus batimentos acelerados, seu perfume e sua pele aquecida sob a blusa.

– Te adoro, sabia?

– Te adoro ao quadrado. – Ela sorriu mais uma vez. Luana teve uma impressão diferente ao olhar novamente em seus olhos. A leve impressão de haver um brilho em especial ali. Algo que vindo dele, ainda era desconhecido por ela. Daniel tirou o anel prata da caixinha aveludada e o pôs no dedo anelar de sua namorada, finalizando o gesto com mais um de seus sorrisos únicos.

– Você tem bom gosto com joias. Ele é lindo.

– E agora, você é oficialmente minha. Agradeça ao Anderson que me encorajou a isso.

– Sempre é um deles.

– Sempre. E... Lua, não acho uma boa ideia usar aliança como você. Você provavelmente já tem o motivo em mente.

– Tenho. E entendo. Aliás, não precisamos de alianças pra demonstrar afeto, união e respeito, afinal isso tudo fica no coração, e não no dedo.

– Palavras lindas pra uma linda mulher.

A quilômetros dali, pôde-se ouvir um forte trovão, que assustou ambos. Aproximaram-se. Ele beijou-a na testa e acariciou-lhe com ambas as mãos. Logo depositou um voraz e controverso beijo em sua boca, doce como mel e macia como seda. A mulher que definitivamente o tirava do chão e mexia consigo, enfim podia ser chamada de sua.

Notas finais
Uma palavra, 7 letras: ALELUIA! Ei galera, se acharem uma pessoa romântica assim, agarrem com as duas mãos. É coisa rara ultimamente. Lamento se o capítulo não ficou do agrado de vocês, mas garanto que tentei fazer o meu melhor e espero que tenham aprovado. Obrigada por lerem e até a próxima!