O que o destino aprontou dessa vez?
38 Capítulo 38 - É guerra
Notas iniciais
Ela levanta. Não sabe bem onde está. Sua cabeça parece que vai estourar a qualquer segundo e sua vista está embaçada. Ela então olha para os lados e percebe que ainda está em seu apartamento. Leva uma das mãos à nuca e com a outra apoia-se no braço do sofá. A passos curtos, vai até a cozinha e pega um copo d’água. Faz careta. A dor que sente e o líquido gelado que desce por sua garganta não entram em uma boa sincronia.
Luana começou a rondar por todo o ap, à procura de Ellen, porém não encontrou ninguém. No quarto, ela se deparou com aquela imagem deprimente que refletia no espelho. A roupa amassada e a postura em que estava davam a clara ideia de que havia acabado de acordar. E não, seus cabelos definitivamente não estavam no lugar. Os fios ruivos pareciam ter dançado e pulado corda enquanto ela dormia. Tentou diminuir o volume daquilo com as mãos, porém quando tocava na cabeça parecia que estava levando tiros de escopeta. Definitivamente, ela não estava disposta a nada naquele momento.
Sentou-se na cama muito devagar e fazendo o mínimo de barulho possível. Olhou ao seu redor. Afinal, por que motivos havia dormido justo às 16:00 da tarde? Ela não tinha esse costume, nem nunca teve. Tão pouco sabia porque sua cabeça estava doendo tanto. Ficou um bom tempo sentada, fazendo não sabia o que. Hora olhava para o teto, hora para o chão. Depois olhava para trás, para a colcha da cama, para tudo quanto era canto. Talvez estava ali na esperança de que logo essa maldita dor passasse.
Foi então que ouviu a porta bater e passos a se aproximar. Ellen apareceu na porta do quarto, com as roupas sujas de lama, o cabelo molhado e um cheiro nada agradável.
– O que aconteceu contigo? – Luana perguntou assustada.
– Nem queira saber.
– Fala baixo, porra. – Ela pediu mal humorada e cabisbaixa.
– Mas eu estou falando baixo, ué.
– Tá, tá. Conta logo o que aconteceu.
– Fui comprar alguma coisa pra comer porque nessa casa não tem nada de útil, e daí um idiota passou no carro com tudo na lama e me sujou toda.
– E quem disse que aqui não tem nada pra comer?
– Eu estou falando de comida de gente! É pizza, salgado, sorvete, refrigerante e brigadeiro! Não é aquelas saladinhas saldáveis e aqueles pães de forma não.
– Fala baixo! – Visivelmente altera, Luana disse, estalando a língua logo em seguida.
– Pra que esse drama? Eu estou falando normalmente. Tá de TPM, é isso?
– Eu estou é com dor de cabeça, isso sim.
– E não tem remédio?
– Tem.
– E por que não usa eles pra alguma coisa além de ficarem jogados no armário?
– Porque eu não uso drogas.
– Chega de filosofia. Levanta agora e vem tomar remédio.
– Não é filosofia. É realidade mesmo. Remédio pra mim é droga e eu não vou tomar.
– Sem birra. Anda logo. – Ellen a pegou pelo braço, para que levantasse.
– Argh! Sai! Você tá toda suja! Vai tomar um banho que é o melhor que você me faz. – A morena bufou.
– Eu vou. Mas quando eu voltar, você vai tomar um remédio.
– Tá, mãe. Vai logo. – E a outra a encarou com autoridade, ironicamente, como se realmente fosse tal pessoa.
...
Já passava das seis e meia da noite. Luana havia ido até varanda do apartamento, e agora estava claramente concentrada nas folhas de papel em branco, que aos poucos iam sendo rabiscadas e ganhando desenhos.
A outra, estava no sofá, com a televisão ligada em um programa de prêmios, embora estivesse prestando mais atenção no charmoso participante do que em qualquer outra coisa. Então, da sala, ela ouviu o celular tocar em algum outro cômodo.
– Lua?
– Hã?
– Teu celular está tocando.
– Pega pra mim. – Ellen mais que depressa foi até o quarto, onde provavelmente estava o aparelho, pegou-o e foi até a varanda. Leu no visor um nome conhecido. Conhecido até demais.
– HUUUMMMM...
– Que foi?
– É o Daniel.
– Ah larga de ser besta! – Com um sorriso sarcástico, ela tomou o celular de suas mãos, e atendeu a ligação. – Alô?
– Oi, eu queria falar com a Luana.
– É a própria.
– Própria, passa pra Luana, por favor.
– Engraçado você, hein.
– Não. Está fazendo o que agora?
– Eu... – Olhou para as folhas postas sobre a mesa e tentou lembrar o que estava desenhando, visto que só haviam alguns traços no papel. – ... estou desenhando.
– Demorou a responder. Tem CERTEZA que está desenhando?
– Fique tranquilo. Não estou te traindo. – Ela ouviu risos. – É que nem lembro mais o que eu ia desenhar, mas enfim. Estou desenhando mesmo.
– Estou atrapalhando muito?
– Não... – Foi então que ela olhou para o lado e viu que Ellen ainda estava lá, prestando atenção à conversa. – Sai! Me deixa! – Sussurrou ela, contendo os risos, e empurrando a amiga para dentro da sala.
– Tem alguém aí?
– Não mais.
– Tem CERTEZA de que está desenhando mesmo, não é?
– Ah meu Deus. Tô sim, Nascimento. É que tinha uma agente do FBI aqui me espionando mas ela já foi embora.
– Posso imaginar de quem se trata. Então, agora não tenho nada pra fazer. Será que pode interromper sua arte e vir aqui em casa?
– Arte. – Sorriu. – Essa é boa. Eu... adoraria. Mas é que me deu uma puta dor de cabeça agora à tarde e eu ainda não estou lá essas coisas. – Houve um vasto silêncio por alguns segundos.
– Entendo. Mas não quer vir mesmo assim? Faço você melhorar.
– É médico? Curandeiro, por acaso?
– Não, mas posso te animar um pouco. Até a sua voz está meio...
– Estranha. Eu sei.
– Você vem então?
– Ah Dani... eu...
– Aceita. Certo. Se realmente estiver muito mal, eu posso te buscar. Caso contrário estou te esperando aqui mesmo.
– Que esperto você, não?
– Sou.
– Posso ir sozinha. A dor não está tão grande ao ponto de eu desmaiar pelo caminho.
– Está bem. Estou no aguardo.
– Beijo. – Luana desligou o telefone e o pôs sobre a mesa. Foi então que Ellen apareceu novamente. – Você gosta de me espionar, né, senhorita Ellen?
– Eu? Imagine.
– Vou até a casa dele.
– Nesse estado? Ah não vai não.
– Eu estou bem.
– Acho melhor ficar aqui até melhorar completamente.
– Ele insistiu que eu fosse. E outra, acho que vai me fazer bem sair um pouco.
– Hm... tá bom. Mas qualquer coisinha que sentir pelo caminho, é só me ligar.
– Prometo que ligo.
Luana levantou-se, pegou seus papeis e lápis, e guardou-os no criado mudo. Tomou um banho rápido e trocou de roupa. Em pouco tempo estava pronta para sair e embora o trânsito naquele horário estivesse infernal, ela chegou em um tempo razoável, por volta de 19:40 da noite.
A campainha tocou.
– Oooooi. – O barbixa lhe recebeu de braços abertos, literalmente. Ela o abraçou e aspirou o agradável perfume que emanava de sua camisa de algodão. – Bem?
– Não.
– Não?
– Eu acabo de descobrir que dor de cabeça mais trânsito de São Paulo é igual ao dobro dessa dor.
– Eu definitivamente tinha que ter te buscado. Vem, entra. – Ele lhe concedeu espaço. O clima da casa era um tanto aconchegante para ela. Logo que entrou, percebeu seu abraço novamente, dessa vez por trás. Ele afastou-lhe os cabelos e passou a dar leves beijos em sua nuca.
– Daniel... hoje não...
– Sssshii... – Deu-lhe outro beijo, ainda mais carinhoso. – Eu sei. Não vou aprontar nada hoje. Sei que você não está bem.
– Tenho que comer alguma coisa. Senão eu morro.
– Que dramática. Pior que, jantar não tem.
– Droga. – Tombou a cabeça, desanimada.
– Calminha aí. Não morra ainda. Vou pedir pizza pra gente. – Daniel foi até o rack e pegou o celular, já digitando os números da pizzaria.
Logo mais se puseram a esperar que o pedido chegasse. Ficaram ali mesmo, na sala, ambos deitados no sofá e assistindo TV. O barbixa, até então distraído com a programação, preocupou-se com o comportamento da ruiva ao seu lado. Ela estava preocupantemente quieta. Hora ou outra baixava a cabeça ou punha a mão direita na nuca. Fechava os olhos por longos segundos e logo voltava a prestar atenção na tela plana novamente.
– Lua?
– Hã? – Ela disse sem tirar os olhos da televisão.
– Olha pra mim. – Ela obedeceu rapidamente. – Ainda está doendo? – Ela balançou a cabeça em sinal afirmativo. – Vem cá. – Disse-lhe num tom quase ameno. Luana aproximou-se dele, enquanto o mesmo punha uma almofada em suas penas para que ela repousasse sua cabeça ali. – Assim está bom? – Ela assentiu mais uma vez.
Voltaram a observar atentamente a programação, enquanto Daniel acariciava seu colo, seus braços e seus cabelos, passando as gélidas pontas dos dedos sobre eles.
– Bonito esse cachorro, não?
– Qual?
– Aquele branco ali. – Ela referiu-se a um cão peludo que aparecera no programa a poucos segundos.
– Ah é. Você gosta de cachorros, não é?
– Adoro. Já tive dois.
– Faz tempo?
– Sim. O primeiro ganhei quando tinha só seis anos. Impliquei tanto com os meus pais pra ter um, que um dia eles ficaram de saco cheio e acabaram me dando. – Daniel riu.
– Você deve ter sido uma menina irritante.
– Ah eu fui.
– Qual era o nome dele?
– Tomás. Cinco anos depois, um dia, eu acabei esquecendo de fechar o portão e ele fugiu. Ainda tentei muito procurar por ele, mas depois disso, nunca mais o vi.
– Sinto muito.
– Tudo bem. Depois eu ganhei o Fix. Esse durou muito tempo comigo. Morreu de velhice.
– E não pretende ter outros mais?
– Depois do Fix, não me interessei mais. Embora agora queira muito ter outro.
– Só não tenho cachorro porque a correria da vida não deixa. – Nesse instante, a campainha tocou. Luana levantou-se para que o outro pudesse levantar também, e consequentemente abrir a porta.
Logo ele voltou com uma embalagem de pizza e uma garrafa de refrigerante em mãos. Ambos voltam a acomodar-se ali mesmo no sofá e começam a saborear as fatias de marguerita e calabresa.
– Está muito bom isso aqui, hein? – Ela observou.
– Seus olhos estão brilhando, sabia?
– Claro. Eu estava morta de fome e você me vem e compra uma belezura dessas. Isso aqui é o paraíso.
– Paraíso é você aqui na minha frente. – Ele declarou-lhe com um sorriso fechado e um olhar sereno. Ela riu e lhe sujou a ponta do nariz com o recheio da pizza.
– Ei! – Ele revidou com ketchup em sua testa, e ela bem que tentou desviar-se, mas não pôde.
– Ah é assim? – Luana lhe sujou ainda mais, dessa vez em sua barbicha. Eles riam bobamente, arremessando mostarda, ketchup e recheio na cara um do outro.
Ao verem que estavam completamente sujos e que o lugar estava um caos, eles decidiram conter-se e tentar parar de rir.
– Faz tanto tempo que eu não faço uma guerra de comida como essa! – Ela dizia, sorridente.
– Posso dizer o mesmo. – Daniel tentou limpar a própria face com as mãos, porém elas também estavam sujas, e ele acabou por se melar mais ainda. A crise de risadas veio a tona novamente.
– Deixa eu limpar isso. – Luana aproximou-se e com os dedos limpos que ainda lhe restavam, tirou o excesso de comida que havia em seu rosto. Ele a encarava enquanto isso, atento a seus olhos e a cada movimento que ela exercia.
Então, Daniel a segurou pelo queixo, obrigando-a olhar para ele, e sendo surpreendida por um selvagem e caloroso beijo. A segurou pelos braços e os levou até os próprios ombros, para que ela o abraçasse. A agarrava pela cintura, e inclinava-se para trás a medida em que ela comprimia seu corpo contra o dele. Ofegantes e sujos de comida, eles logo cessaram o momento. Ela o fitava com o mais puro dos sorrisos e com aqueles graciosos olhos verdes, ainda mais lindos de perto, enquanto ele proclamava baixo:
– Adoro quando você sorri. Mas adoro ainda mais quando eu sou o motivo.
Fale com o autor