O que o destino aprontou dessa vez?
64 Capítulo 64 - Desejos humanos
Notas iniciais
Por volta das sete da noite, andando pelas calçadas, Daniel voltava de uma loja de bebidas, onde comprara o tão desejado vinho que Luana queria saborear: Santa Helena Carmére. Um vinho Chileno, suave e que poderia combinar com uma enorme variedade de alimentos.
Seria uma noite um tanto especial: eles jantariam juntos. Algo para dar um ar de romantismo a mais naquele dia. Com o produto embalado em mãos, faltava pouco para chegar à sua casa, onde a essa hora, Luana provavelmente preparava o jantar.
Não muito longe, avistou alguém que andava na direção contrária à sua. Mais alguns metros e notou ser Anastácia. “Mas essa mulher está em tudo quanto é lugar?” pensou ele.
— Daniel? – Notavelmente surpresa, ela o cumprimentou. Ambos pararam no meio da calçada, cada qual com um sorriso no rosto. – Mas esse homem está em tudo quanto é lugar!
— Você lê pensamentos?
— Por que a pergunta?
— Eu estava pensando exatamente a mesma coisa. – Ele riu.
— Eu venho da casa de Lúcia Helena. Lembra dela, não é?
— Sim, claro.
— Fui fazer uma visita matinal. E você?
— Venho de uma loja de bebidas. Comprei esse vinho. – Ele ergueu o embrulho que levava.
— Vinho? Eu sou loucamente apaixonada por vinhos!
— Jura?
— Sim! Muito! E pelo visto, você também gosta.
— Sim, mas comprei mais pela minha namorada. Ela pediu que eu comprasse. Lembra dela, não é?
— Claro. – Ela tentou não desfazer seu gracioso sorriso.
— Agora se me permite, eu tenho que ir. Ela está me esperando.
— Tudo bem, eu também tenho que ir.
— Então, até mais. Foi bom te ver de novo. – Ele ia virando-se, quando ela o interrompeu, segurando-o brevemente pelo braço.
— Espera.
— O que?
— Você não quer sair comigo amanhã?
— Sair? – Daniel indagou seco.
— Sim, pra um restaurante ou coisa assim.
— Olha, Ana, eu...
— Como amigos. – Ela o cortou logo que percebeu que ele recusaria o convite.
— Ah, bem... se é assim, por que não, não é?
— Então você aceita? – Anastácia exclamou animada.
— Aceito.
— Ótimo! Podemos nos encontrar no La Maison amanhã?
— Sim, sei onde fica.
— Às sete e meia?
— Combinado.
— Perfeito. Então, nos vemos lá. – Ela despediu-se dele com um beijo no rosto e enfim seguiu seu rumo.
Daniel passou a mão por seus fios castanhos e arqueou as sobrancelhas ao observa-la ir embora. Somente quando a perdeu de vista, seguiu seu caminho também. E de acordo com seus próprios conceitos, um encontro entre amigos não faria mal algum.
...
A ruiva tinha os cabelos presos num coque um tanto bagunçado e hora ou outra tinha que afastar os fios que insistiam em grudar no seu rosto suado. Frente ao fogão, e sentindo todo o vapor que vinha da panela super aquecida, ela punha mais temperos na carne que cozinhava. Logo em seguida, voltou para a pia para finalizar sua salada de verduras.
Enquanto isso, sentiu alguém abraçá-la por trás. Ele usava o melhor dos perfumes, e mesmo estando tão suado quanto ela, seu delicioso cheiro exalava de longe. Daniel envolveu-a em seus braços, apertando-a forte enquanto dava fracos beijos em seu pescoço despido. Luana sentia a respiração quente e pesada dele, que logo mordeu o canto de sua orelha, fazendo-a abrir um largo sorriso e arrepiar-se por inteira.
— Você não existe. – Ela disse baixo.
— Sim, eu existo. – Luana riu fraco. – E o nosso jantar?
— Está quase pronto. E você? Ficou de comprar esse bendito vinho e voltou só agora.
— A fila do caixa estava grande. – Mentiu. Não havia porque mentir, mas ele sentiu receio. E sendo assim, preferiu deixar tal assunto de lado.
— Tudo bem. Comprou a safra certa, não é?
— Aqui está, mademoiseille.
— Isso é francês?
— Oui.
— Ok. Agora traduz.
— “Senhorita” e “sim”. Até parece que não tem nenhuma referência dessa língua esplêndida.
— As que tenho são poucas. E por mais que você queria bancar o francesinho romântico, saiba que não rola. – Ela sujou a ponta de seu nariz com a maionese.
— Ei!
— Tudo bem, não sujo mais.
— EI!
— Calma! Já disse que não sujo mais.
— Não! A carne! Está queimando!
— Caramba! – Só então ela notou que a tão esperada carne havia passado do ponto. E muito. Apagou a boca do fogão e olhou-a com indignação. – Mas que droga! Viu o que você fez?! – Ela deu um tapa em seu ombro.
— Ai! O que foi que eu fiz?
— Me distraiu! A carne acabou queimando! Olha só pra isso. Está bem mais queimada do que cozida.
— Mas e aí?
— E aí que eu levei meio século pra fazer esse jantar e agora deu nisso.
— Eu sei, mas não estou falando disso. Quero saber o que vamos comer agora.
— Bom, tem a salada, o risoto e o vinho. Mistura não tem.
— E se...
— Nem pense que eu vou voltar a cozinhar. Veja só o meu estado. Vim aqui toda arrumada e agora estou esta lástima que você está vendo. – O outro riu. – Não ria. Não tem nada engraçado.
— Você sabe e não preciso repetir, mas já que parece que ainda não entendeu, eu vou dizer mesmo assim: você, senhorita Bell, fica bonita de todo e qualquer jeito. Não precisa colocar uma roupa bonita ou não sei mais o que. Por mim, você poderia ficar nua até. – Dessa vez, foi ela quem riu, se desfazendo de sua expressão fechada.
— Tudo bem, galã. Mas saiba que se sua próxima ideia for pedir comida em algum restaurante ou coisas do tipo, isso vai demorar demais.
— Bem, então vamos comer assim.
— Assim? Assim como?
— A salada, o risoto e o vinho.
— Mas vai faltar o principal.
— Nada disso. – Ele aproximou-se dela, abraçando sua cintura e ficando a poucos centímetros de seu rosto suado. – O principal vem mais tarde. – Disse com malícia tanto no olhar quanto em seu ameno tom de voz, a fazendo soltar um fraco riso.
Beijou-a com fervura, enquanto o desejo já tomava conta de ambos.
Afinal de contas, os desejos humanos são infindáveis. São como a sede de alguém que bebe da água salgada: quanto mais bebe, mais a sede aumenta.
Fale com o autor