O que o destino aprontou dessa vez?
63 Capítulo 63 - O jogo do disfarce
Notas iniciais
Enquanto a água fria escorria por sua pele e seus cabelos eram encharcados pela mesma, Daniel tinha os pensamentos longe dali.
Ao ensaboar-se, passou os finos dedos pela cicatriz em seu peito. Foi o disparo. O maldito disparo que quase lhe tirou a vida, e até algo que consideraria mais precioso: o bem das pessoas ao seu redor. Das pessoas que de longe o admiravam e das que estavam presentes dia e noite.
Sozinho, ele agora tinha o olhar pasmo. Ao refletir, impressionou-se com a capacidade que seus próprios pensamentos tinham. E quando se deu conta, já estava atrasado. Passava das seis da tarde, sendo que deveria estar no teatro às seis e meia.
Em pouco tempo arrumou-se e saiu em seu carro numa velocidade um tanto alta, temendo que ultrapassasse o horário que lhe era estabelecido. Por sorte, ou por um milagre até, o trânsito estava bom, e pôde chegar pouco mais que seis e cinquenta da noite.
– OI, GALERA! – Ele exclamou ao invadir o palco, atrapalhando todo o treino.
– OI PRA VOCÊ TAMBÉM, DANIEL, SEU FILHO DE UMA MÃE. – Elídio respondeu no mesmo tom.
– Ai, que amor! – Como tréplica, Daniel disse comicamente.
– Precisava dessa entrada triunfal? – Desta vez, Anderson retrucou.
– Precisava. – O outro respondeu com naturalidade.
– Só que atrapalhou tudo. – Sério, mais alto deu sermão.
– Pode ir parando com essa pose de autoritário. O chato aqui sou eu e ninguém tira meu título. Agora, voltem a trabalhar, crianças.
– O que deu em você hoje? – Andrei, mestre de cerimônias da noite, disse encabulado com tamanha astúcia do amigo.
– Deu muita coisa. Agora vamos logo continuar esse treino.
Depois de todos os exercícios, todos foram para o camarim, onde Daniel percebeu ter recebido uma mensagem.
Luana Bell: Quando tiver um tempo, vem aqui no ap.
Daniel Nascimento: Posso aparecer aí ainda hoje?
Poucos minutos depois, ela respondeu.
Luana Bell: Mas hoje não tem Improvável?
Daniel Nascimento: Lógico que tem. Mas posso ir quando o espetáculo acabar. Ou não posso?
Luana Bell: Pode! Lógico que pode.
Daniel Nascimento: Ótimo. Me aguarde, mocinha. Agora tenho que ir. Vou entrar em oito minutos.
Luana Bell: Bom espetáculo.
Daniel nem teve como esconder o sorriso bobo que se formou em seus lábios. Faziam dias que ambos não se viam, e sem dúvidas agora ele teria uma motivação a mais para realizar o espetáculo aquela noite.
...
O próximo jogo seria o Estilos. E como de costume, dois dos improvisadores foram até a plateia para ouvir sugestões. Anderson e Daniel foram os voluntários da vez. Porém ao lado esquerdo do público, logo à frente, Nascimento viu sentada uma jovem que conhecia bem: Anastácia. Surpreso em tê-la ali, ele apontou para ela como se não a conhecesse, num gesto para que a mesma lhe dissesse alguma proposta de estilo para realizar a próxima cena. Entrando no seu jogo de disfarce, ela sugeriu-lhe:
– Ficção científica. – Falou alto o suficiente para que ele pudesse ouvir.
– Falaram ficção científica aqui! – Daniel exclamou ao MC, que logo anotou a sugestão no papel.
– Tudo bem, já temos estilos suficientes. Podem voltar para o palco, Dani e Andy. – Os dois barbixas obedeceram e logo os demais deram início à cena.
Durante o restante do espetáculo, Daniel hora ou outra olhava de relance para a morena, que ria demasiadamente, e notavelmente, parecia se divertir.
...
Já depois do espetáculo, o sexteto tirava fotos com os fãs. Foi quando Anastácia entrou acompanhada de outra mulher, de aparentemente a mesma idade. Ana tinha uma trança lateral feita entre seus curtos fios escuros, e sorridente como sempre, cumprimentou todos assim como sua acompanhante.
– O que faz aqui, querida? – Daniel brincou.
– Vocês já se conhecem? – Perguntou Marianna.
– Na verdade nem tanto. Ela é enfermeira do hospital em que fiquei.
– Por isso eu tive a impressão de conhecer você de algum lugar assim que entrou. – Anderson disse-lhe tão sorridente quanto o amigo ao vê-la.
– Ah, deixe eu apresentar Lúcia Helena. Ela é uma velha amiga. – Disse a morena. Lúcia Helena era bem magra, tinha os cabelos loiros ao natural e olhos cor de mel. Mais uma beleza rara de se encontrar.
– Ana, você deu a entender que sou velha, e não que tem uma longa amizade comigo. Então seria bom constar que só tenho 27 anos. – Helena disse fazendo todos rirem.
– Não me disse que conhecia o Improvável. – Daniel dirigiu-se a Anastácia.
– Deveras, eu não conhecia. Helena quem me convidou pra vir e com toda aquela insistência, não tive como recusar.
– Nem queiram saber a cara de surpresa que ela teve quando viu que o Daniel fazia parte do espetáculo. – Disse Helena, deixando a amiga envergonhada. Porém Anastácia também sabia disfarçar.
– Eu devia ter sido mais específico ao ter me apresentado. Assim não causaria essa surpresa. – Daniel retrucou.
– Acho até bom que não tenha sido específico. Surpresas são sempre bem vindas. – A mulher de sorriso encantador disse sem tirar os olhos dele por sequer um segundo.
Indiscreto, Jeff, que observava tudo de longe, tossiu propositalmente, indicando que aquela conversa já havia durado tempo de mais. Enfim todos juntaram-se para tirar a tão esperada foto e em seguida as amigas despediram-se de todos com poucas palavras e rápidos acenos de mão.
Após a sessão de fotos, no camarim, Elídio observou que Daniel juntava suas coisas com pressa.
– Já vai?
– Sim.
– Não vem jantar com a gente hoje?
– Não. – Com malícia e um sorriso nos lábios, ele disse ao pôr a mochila nas costas. – Uma certa ruiva está a minha espera.
Fale com o autor