O que o destino aprontou dessa vez?
6 Capítulo 6 - Só amigos
Notas iniciais
A turbulência causava um certo medo nos passageiros a bordo do avião, mas logo ela passara e o clima de tensão transformava-se em alivio. A ruiva sentada na poltrona ao lado dos dois amigos, decidiu ouvir um pouco de música, para quem sabe, fazer passar o tempo até a chegada em São Paulo.
“Swallowed by a vicious, vengeful sea
Darker days are raining over me
In the deepest depths I lost myself
I see myself through someone else
The strange silence
Surrounding me
Grows closer
Feels colder
But I'm ready
To suffer the sea
Black water
Take over”
Estava tão distraída que quase não notou a insistência de Lucas, que agora dava pequenos tapas em seu braço para lhe chamar a atenção. Só então ela virou-se e olhou para o lado.
– Não é todo dia que se ouve esse tipo de voz. – O amigo elogiou.
– Hã? – Ela tirou um dos lados do fone de ouvido, mesmo que o volume não estivesse alto e ela pudesse ouvi-lo com perfeição.
– Eu disse que não é todo dia que ouvimos esse tipo de voz.
– Eu ouvi o que você disse, mas não entendi por quê. – Até que ela congelou o olhar por um segundo e pensou um pouco, finalmente chegando à resposta obvia. – Ah espera, eu estava cantando?!
– E muito bem por sinal. – Ele sorriu e pode vê-la gemer de vergonha enquanto punha as mãos no rosto. – Ei. Por que você tem tanta vergonha de cantar em público? Você canta maravilhosamente bem. – Lucas tentou deixá-la a vontade.
– Na verdade tenho vergonha do que as pessoas vão achar.
– Então pode parar de esconder essa voz quando estiver comigo, por que eu sempre vou gostar de ouvir você.
– Talvez o problema seja maior do que eu pensava.
– Por quê?
– Por que eu não consigo! – Ela disse espremendo as mãos entreabertas e com uma expressão cômica, fazendo o outro rir.
Depois dos risos, eles mantiveram o silêncio, assim como os demais passageiros. Um silêncio tranquilizador e soberano, como algo satisfatório, que lhes trouxesse paz.
Apenas mais alguns minutos depois e fim de voo. Já estavam em São Paulo. Luana, junto de Ellen e Lucas, deixaram o avião e o aeroporto. De taxi, passaram por uma volta repleta de congestionamentos. Até que depois de vários e vários minutos dentro do carro, eles finalmente chegaram ao prédio em que moravam. Quanta saudade sentiam daquele apartamento. Saudade também de Sampa, dos amigos e até mesmo do trabalho. Ao entrarem no ap, puderam reencontrar suas coisas, tudo exatamente do jeito que haviam deixado.
– Ah... meus filhos! – Ellen disse sorridente depois de rever seus tão importantes e valiosos livros na prateleira. Ou,“filhos”, segundo ela. Da sala, ambas puderam ouvir Lucas dizer de seu quarto.
– Meu amor! Que saudade dessa cama!
– É. – Luana assentiu. – Parece que só eu não pirei. – Ela declarou ponto as mãos no quadril até se deparar com o sofá azulado. – Espera! O sofá! Quanto tempo! – Contradizeu-se, enquanto Ellen revirava os olhos com sua atitude. Sempre assim.
Na parte da noite, depois de uma boa faxina no local, Ellen decidiu sair com amigas para um bar, onde tocavam algumas bandas cover, e chegou a convidar Lucas e Luana, porém os mesmos não aceitaram, talvez simplesmente por cansaço.
Assistindo a filmes de ficção na TV da sala, Lucas hora ou outra olhava para Luana, então olhava para a tela, para o teto, e voltava a olhar para Luana novamente. O tédio parecia vencer o rapaz, que rendeu-se ao filme, mesmo sem interessar-se por ele. Já Luana, estava em outra dimensão como sempre, pensando e repensado. “O que será que ela imagina tanto?” se perguntava.
– Você está assistindo o filme, Lua?
– Hã? Ah estou, claro.
– Ah é? Então me diz o que aquele cara acabou de dizer.
– Aquele? – Ela disse apontando para um homem barbado no televisor. – É...
– Tudo bem. Eu também não estou dando a mínima pro filme.
– Não?
– Não. Não estou gostando muito dele.
– Pra falar a verdade eu só assisti até a parte que ele chega no laboratório. – Ela disse referindo-se ao local onde começam as primeiras cenas do filme. Ambos riram simultaneamente.
– Quer sair? – Ele disse de inesperado.
– Sair?
– É.
– Pra onde?
– Não sei. Você quem manda.
– Hum... que tal se a gente fosse na praça que fica aqui perto? Está tendo apresentação de peças lá.
– É, pode ser. Melhor que ficar em casa sem fazer nada. – Lucas a viu se levantar e arrumar delicadamente suas mechas de cabelo alaranjadas. – Vamos? – Ele disse levantando-se também.
– Não, ainda tenho que me arrumar. – Ela interrompeu-o indo para seu quarto.
– Mulheres... – Sussurrou.
– Eu ouvi isso!
Depois de alguns minutos esperando na sala, o moreno enfim deparou-se com ela novamente, linda aos seus olhos, e que de um jeito simples sabia vestir-se bem. Seus cabelos lisos e feitos numa trança simples, caiam por um de seus ombros. Usava uma saia evasê azul-marinho e uma blusa regata preta, que combinavam perfeitamente com as sapatilhas da mesma cor. Lucas, admirado com tamanha beleza, apenas elogiou:
– Você está perfeita! – Ele pôde ver suas bochechas sardentas avermelharem.
– Vamos?
– Vamos.
Chegando na praça, repleta de ipês amarelos e roxos, Luana encantou-se em como o lugar ficava bonito naquele período do ano. Sentaram-se em um dos bancos, onde puderam ter uma visão privilegiada de todo o local. Uma das primeiras sessões da peça havia acabado de começar. Ela era de gênero romântico, gratuita e aberta a todo tipo de público. Falava de uma jovem que ainda não havia descoberto o amor. Até que tal protagonista apaixonou-se por um rapaz, e eles tiveram que passar por diversos sacrifícios para ficarem juntos. Infelizmente depois de algum tempo ele acabou por falecer e deixou-a sozinha, sem nem mesmo ter tido tempo para descobrir o que era amar.
– Final triste, né? – Ele comentou.
– É. Mas é até bom que tenha sido assim. Precisamos nos contentar que nem toda história termina com um final feliz.
– Você quer comer alguma coisa?
– Claro. – Confirmou a outra, com um sorriso nos lábios.
– Então vamos naquele restaurante ali. – Ele disse acenando com a cabeça para o outro lado da praça onde ficava um pequeno restaurante. Ambos levantaram-se e foram até lá. Um local bem organizado, com preços favoráveis e de boa aparência. Talvez esse fosse o motivo que fizesse o lugar estar sempre cheio. Logo na entrada avistaram uma mesa vazia no canto. Sentaram-se a espera de um dos garçons, que em pouco tempo foi até a mesa onde estavam acomodados. Após fazerem seus respectivos pedidos, ambos voltaram a conversar.
– Você gosta daqui? – Perguntou Luana.
– Pra falar a verdade nunca vim aqui.
– Garanto que não vai se arrepender. O lugar é ótimo.
– Bom, espero que sim.
Apenas alguns minutos depois falando de assuntos muito aleatórios, a comida foi servida. Dois copos de suco de laranja foram postos sobre a mesa, junto de uma porção de lasanha de bacalhau para Lucas e um prato de gnocci para Luana. O garçom se retirou novamente e eles puderam saborear a vontade.
– Você pode até não ser uma Bizzocchi, mas curte comida italiana que é uma beleza.
– Anderson curtiu isso. – Ela referiu-se a um dos ídolos, o qual tinha família italiana.
– Por falar nisso, eu queria ver o Improvável um dia desses. Faz tempo que não os vemos. Quer dizer... menos você. – Ele corrigiu ao lembrar do acaso.
– Pois é. Também estou com saudade.
– Quando vamos de novo? – Ele viu um sorriso formar-se no rosto da outra.
– Quer ir na estreia?
– Ué, lógico!
– UHU! – Ela falou relativamente alto, chamando a atenção dos demais clientes do restaurante. – Eita. – Riu, ao perceber que chamou atenção demais, contagiando Lucas e algumas poucas pessoas das mesas ao redor. Depois de quase meia hora, eles finalmente pediram a conta ao garçom que havia atendido-os anteriormente.
– Perdão, mas vocês são um casal? – O funcionário perguntou surpreendendo os dois. Enquanto Lucas disfarçava o riso, Luana apenas procurava algum lugar para esconder seu rosto, mas permaneceu imóvel e vermelha de tanta vergonha.
– Por que está perguntando isso? – Indagou o moreno.
– Perdão, é que aos sábados oferecemos um desconto de 10% na conta aos casais.
– Ah é? Bom, é claro que somos um casal. – Ele respondeu seriamente, sendo que Luana ficou mais vermelha ainda e arregalou os olhos para ele como quem dissesse: “Que papo é esse?!”.
– Bem, então tudo ok. Vou mandar que descontem. – Ele concedeu mesmo desconfiado depois daquela situação. – Com licença.
– Lucas, o que foi isso?!
– Isso se chama: como ganhar desconto na conta do restaurante. Eu não sou idiota de perder uma oferta né, Lua?
– Está bem então.
– Por quê? Você não gostaria de ser minha namorada?
– Lucas?!
– Brincadeirinha. – Ele disse sorrindo sem graça.
Eles então retiraram-se de lá e voltaram para o prédio. Enquanto faziam o percurso, um silêncio surgiu. Mas dessa vez não era o silêncio de que estavam acostumados. Dessa vez era um silêncio constrangedor e perturbador, talvez em consequência da situação que acabou de ocorrer.
– Por que está tão calada? Desculpa se te constrangi.
– Tudo bem. É que as vezes eu tenho vergonha alheia. Mas já que somos só amigos mesmo, não tem problema algum, não é?
– É.– Ele levantou a cabeça sorrindo. – Só amigos.
E saíram andando abraçados pela rua noturna e movimentada, sob um céu negro e estonteante.
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