Notas iniciais
Olá leitores, como vão? Sejam bem vindos, sintam-se a vontade e boa leitura.

A curtos passos, Luana caminhava pelo longo corredor do hospital. Parou em frente ao quarto 232. Era onde Daniel estava. Abriu a porta silenciosamente e entrou devagar.

Logo o avistou acamado, no estado mais profundo do sono e conectado a todos aqueles aparelhos. Levou a mão à nuca, numa tentativa estúpida de tranquilizar-se. Rondou o olhar por todo o lugar, onde o branco e a melancolia predominavam. Aproximou-se ainda mais dele e sentou-se ao seu lado.

Começou a fitá-lo, em silêncio. Passou por sua testa até alcançar seus cabelos castanhos. Enquanto dormia, mais parecia um anjo. Parecia tão inocente, como se não fizesse parte da humanidade impura. Ele não merecia aquilo. Sempre foi uma pessoa tão justa, tão radiante. Luana não disfarçou as lágrimas. Afinal não haviam motivos para tal. Estavam apenas os dois no quarto, sozinhos. Baixo, ela começou a cantar uma canção. Para que só ele ouvisse, se é que poderia ouvir.

Why am I so emotional?
No it's not a good look, gain some self control
And deep down I know this never works
But you can lay with me so it doesn't hurt

Oh, won't you stay with me?
'Cause you're all I need
This ain't love it's clear to see
But darling, stay with me

Nesse instante, Luana ouviu alguém bater na porta.

— Entra. – Disse enquanto tentava disfarçar os vestígios do choro. Fungou rapidamente e secou as fracas lágrimas que ainda caiam sobre sua face.

— Oi, Lua. – Mesmo sem se virar, ela reconheceu aquela voz. E reconheceria em qualquer lugar.

— Elídio. – Involuntariamente, Luana abriu um sorriso e levantou-se. Abraçaram-se forte, ato esse que a fez lembrar dos espetáculos em que já foi, quando recebia o mesmo abraço, sempre tão quente e acolhedor.

— Pelo visto ele ainda não acordou.

— O médico disse que é normal. É a anestesia.

— Você falou com o médico?

— Há alguns minutos.

— O que mais ele disse? – Sanna perguntou enquanto arqueava as sobrancelhas, um gesto que Luana conhecia bem.

— Que ainda não sabe quando ele vai receber alta. Tudo depende da recuperação. E que por muito pouco, o pulmão ou o coração não foram atingidos. – Elídio ia dizer algo, mas as palavras pareceram travar em sua garganta. “Penteou” os cabelos com os dedos e fez sua voz soar solenemente.

— Lua, se depender desse cara, tudo vai se resolver o quanto antes possível. Ele é forte.

— Mas e no Tuca? E nas turnês?

— Isso a gente resolve depois. Colocamos alguém no lugar dele até que ele possa voltar.

— Sendo assim, tudo bem. Tenho que ir embora agora. – Disse ela indo até a poltrona do outro lado do quarto, onde estava sua bolsa. Mas antes não deixou de acariciar os cabelos de Daniel. Passou a mão por entre eles e desceu-a até a lateral de sua face, como uma despedida.

— Tudo bem. Eu vou ficar mais um pouco.

— Então tchau, Lico.

— Tchau. – Seus olhares foram de encontro um ao outro. Sorriram. Luana se retirou e por fim, Elídio ficou só com o amigo.

Foi até tal poltrona e sentou-se. Era confortável. Um tanto relaxante. Olhou para Daniel novamente, que ainda dormia. Concentrou-se nele. Ao fitar seu rosto, lembrou-se de quando eram mais jovens. Foram bons tempos e a saudade era muita. Se quando eram adolescentes a vida era difícil, imagine agora, com trinta e poucos anos. Muita coisa mudou de lá para cá.

Sanna lembrou-se das histórias, das festas do colégio, das primeiras peças que lá apresentou e que anos mais tarde se tornariam sua fonte de renda. Trabalho “sério”, que tanto temeu certa vez, mas que não era lá esse monstro de sete cabeças, visto que não há nada melhor que trabalhar com o que se gosta. Dessa forma o cansaço no final do dia sempre vale a pena.

Foi com os pensamentos longe que ele viu o amigo mover-se sobre a cama. Pequenos movimentos que já davam indícios de sua breve lucidez. Levantou-se da poltrona acinzentada e andou em direção a ele. Por certo, seria bom que Daniel visse um rosto amigo logo que acordasse.

— Dan? – Disse-lhe em seu tom mais suave e agradável. O outro que antes observava fixamente o teto, passou a fitá-lo, com um olhar cansado e lagrimejante. – Já está tudo bem agora. Está tudo bem. – Ele usava um fino tubo de oxigênio, que por certo o ajudava a respirar. Ainda assim, nada dizia. Apenas fitava-o intensamente. Sanna já não sabia como agir. – Lembra do que aconteceu? – Daniel permaneceu imóvel. – Lembra? – Ao insistir, o outro afirmou com a cabeça. – Não se preocupe mais. Você vai ficar bom. E creio que logo vai poder sair dessa cama e voltar pra casa. – Simpatizante, Elídio tentou confortá-lo, embora não costumasse fazer isso.

Assim dito, Daniel voltou a olhar para o nada. Sabe-se lá o que ele estava pensando. Foi então que com a voz frágil, pediu simplesmente:

— Minha mãe.

— Sua mãe? Quer ver ela? – Ele acenou novamente. – Sorte a sua, ela disse que viria. Vou ver se já chegou. Espera um pouco, sim? – Elídio saiu calmamente em direção à saída.

Pouco tempo depois, uma senhora surgiu na porta e entrou no quarto na ânsia de vê-lo bem. Ela tinha alguns fios brancos, porém outros ainda castanhos, assim como os do filho. Sua pele clara e seus olhos deixavam claro a quem Daniel havia puxado.

— Daniel. – Doce, ela exclamou seu nome.

Foi até ele, e com lágrimas nos olhos acariciou seus cabelos e sua face, assim como Luana fizera minutos atrás. O abraçou, ainda que estivesse acamado.

Um dos abraços mais acolhedores que ele poderia receber por hoje e ao longo da vida, seria esse. Há quanto tempo não a via. Ele tinha uma rotina muito agitada. Corrida demais para que pudesse vê-la, conversar com ela com frequência. O mesmo podia se dizer do resto de sua família. Mas agora via como tudo nela e neles lhe fazia falta.

— Ah meu filho... eu fiquei tão apreensiva quando soube. Com tanto medo de que algo ainda mais grave pudesse ter acontecido. Mas ainda bem que não. Agora você está aqui com a gente. – Ela abriu um sorriso. O mais sincero.

— Desculpa. – Sussurrou.

— Pelo que, querido?

— Por tudo. – Ele forçou dizer mais alguma coisa, mas as palavras não queriam sair e o silêncio parecia ter que prevalecer naquele instante.

E como se soubesse do que se tratava, como se lesse seus pensamentos, a mãe sinalizou como um “sim”. Sua mão foi de encontro a dele, e a apertou forte.

E a saudade? A saudade é a inconfortável esperança de um reencontro.

Notas finais
Música: Stay with me - Sam Smith. Obrigada por lerem e até o próximo capítulo.