O que o destino aprontou dessa vez?
57 Capítulo 57 - Sangue
Notas iniciais
Sentados naquela mesa, o casal jantava. Riam intensamente, trocavam olhares e sorrisos sinceros.
— Não gosta de espaguete à francesa? – Perguntou o barbixa ao ver que a companheira não comia quase nada do que estava em seu prato.
— Pelo contrário, eu adoro.
— Então por que não está comendo?
— Perdi a fome, mas não ligue pra isso.
— Bem, se perdeu a fome, deve ter um motivo, não?
— É que... estou com um pressentimento ruim. Mas isso não vem ao caso. Esqueça.
— Muitas vezes nem há de acontecer nada, mas quando realmente esperamos que aconteça, acaba acontecendo.
— O que quer dizer com isso?
— Que se continuar pessimista, algo ruim tem mais chances de acontecer.
— Acho que faz sentido. – Disse ela enquanto enrolava o macarrão com o garfo. Seus cabelos estavam presos num alto rabo de cavalo, o que realçava seu rosto, e consequentemente, suas discretas sardas que agora tornavam-se mais aparentes. Seus olhos verdes iam e encontro aos dele, fazendo-o desconcentrar-se por alguns instantes. Aquele seu olhar era o mais puro atrativo. – Vai me encarar assim por quanto tempo?
— É que não dá pra olhar pros seus olhos por apenas milésimos de segundo.
— E por quê? – Ela sorriu.
— Pelo simples fato de serem do jeito que são. Com esse verde tão incomum, com esse negro que contorna, e enfim. Parece até que penetram na alma de quem vê. – Ele parou por um instante. Fez careta. Nunca imaginaria que palavras tão belas como essas sairiam de sua boca. – Fui eu mesmo quem disse isso? Estranho, não? – Ela voltou a rir.
— Você não tem jeito mesmo. Fala algo tão bonito pra no final soltar uma dessas.
— Pelo menos me sinto menos culpado.
— Pelo que?
— Por não ter te deixado tão sem graça. Tenho certeza de que se eu não tivesse brincado, você estaria vermelha que nem tomate agora.
— Será que sou tão previsível assim?
— Às vezes. Mas muitas delas você deixa de transparecer as coisas. Fica pensativa. Parece até que nem liga pro resto do mundo.
— Pois é. Mas você sabia que eu era assim. E me aturou até agora. Cada um tem consciência de onde está se metendo. – Ela tinha ar de comicidade. O barbixa soltou uma leve risada, e pegou em sua mão. Passou a acariciar sua pele macia, enquanto fitava o belo anel que ela carregava em seu dedo anular. O presente de namoro, que a ruiva tratava com tanto zelo e carinho.
Nesse instante, ambos foram surpreendidos por um rapaz, de aparentemente 20 e poucos anos, que aproximou-se da mesa com um largo sorriso no rosto.
— Você não é o Daniel? Dos Barbixas?
— Sim, sou eu. – Ele respondeu simpaticamente, soltando a mão de Luana.
— Podemos tirar uma selfie juntos? O pessoal da faculdade não vai acreditar se eu disser, então preciso de provas. – O jovem brincou.
— Claro. – Rapidamente levantou-se na mesa e ambos tiraram a foto, sorridentes.
— Caramba, obrigado mesmo! Ah, e desculpem por atrapalhar o jantar de vocês. – Ele disse simpatizante, enquanto lançava um olhar para Luana.
— Sem problema. – Disse Daniel.
— Boa noite pra vocês, então.
— Boa noite. – O casal respondeu quase em sincronia, enquanto o rapaz se retirava. Daniel sentou-se novamente.
— Mais um que se vai, feliz da vida. – Brincou o barbixa.
— Ele pareceu surpreso em lhe ver acompanhado.
— Não vejo por quê. Tenho os mesmos direitos de todo mundo.
— Claro. Mas seja lá quantas vezes isso ainda tenha de acontecer, em todas elas eu vou ficar meio desconfortável.
— Por qual motivo?
— Fama não é pra mim.
— O famoso aqui sou eu, e não você, querida. – Daniel disse afeminado, fazendo-a rir.
— Mas eu estou acompanhada de você, e isso significa que por um lado, a fama também vem pra mim.
Já era tarde quando ambos saíram do restaurante. As ruas estavam desertas. Por certo eles ainda teriam que caminhar alguns poucos quarteirões até chegar ao carro do barbixa, visto que haviam vários outros estacionados próximo ao estabelecimento. Vez ou outra, sentiam uma brisa gelada quando algum veículo passava em alta velocidade.
— Esse lugar é meio estranho a essa hora da noite, não acha? – Ela observou, enquanto entrelaçava sua mão a dele.
— Nem tanto. Você se acostuma.
Ao longe, avistaram alguém parado na porta de uma loja, já fechada. O sujeito estava apoiado no muro, distraído, e parecia não ligar para as coisas ao seu redor. Quando o casal passou por ele, o mesmo logo os parou e disse com firmeza, enquanto sacava uma arma da cintura:
— É um assalto.
— Calma, cara. – Pediu Daniel, com expressão pávida. Lhe entregou a carteira, o celular e tudo o que tivesse de valor consigo.
— A mocinha também. – Ordenou enquanto apontava a arma em sua direção. Claramente assustada, ela também o fez. Mas enquanto procurava pelo celular e pelo dinheiro dentro da bolsa, algo mais valioso chamou a atenção do bandido. – E esse anel que você tem no dedo? É de brilhante?
— Não. – Mentiu.
— Deixa eu ver isso aqui. – O marginal pegou em sua mão, no entanto, ela negou. – Deixa eu ver logo isso aqui! – Com brutalidade, ele fez o mesmo gesto, e analisou o anel. – É de brilhante sim! Tá me achando com cara de otário? Eu entendo de joia também. Agora, dá pra mim.
— Moço, por favor...
— DÁ PRA MIM! – Exaltado, e apontando a arma em sua direção pela segunda vez, ele exigiu.
— Aponta isso pra lá e não grita assim com ela. – Daniel disse como se estivesse a mando da situação.
— Eu falo com ela do jeito que eu quiser! E escuta aqui, dona, se você não me der essa droga de anel, eu atiro em tu até dizer “chega”. Tá entendendo? – Luana já estava apavorada. Gelou. Não conseguia mover um músculo. Visto que não obteve palavras, e tão pouco o objeto que queria, o ladrão se mantinha ainda mais exaltado. Seu rosto era expressivo, suas mãos tremiam, e junto delas, a arma. Ninguém ali mais sabia se tamanha tremedeira era pela ansiedade, ou pelo ódio que estava presente em seu olhar. – Ouviu o que eu disse, dona?! Deu pra entender? Hein?! Eu te mato, vadia! – O barbixa não pensou mais. Foi para cima dele, e tentou de todas as formas tirar o revólver de suas mãos.
— Daniel! O que está fazendo?! – Espantada, Luana clamou.
Os homens brigavam duramente, empurrando um ao outro a todo instante e dando cotoveladas e socos sem direção certa. A luta não durou muito. Logo um som ensurdecedor acabou-a por ali.
Sim, o gatilho foi disparado. E por sinal, algum dos dois havia sido atingindo. Em choque, o que Luana queria, era somente que o tiro houvesse acertado o próprio assaltante. No entanto, suas esperanças esgotaram-se quando viu o sujeito soltar um riso amargo. Sem dizer mais nada, ele arrancou o anel de seu dedo abruptamente, e foi embora às pressas, levando este e seus demais pertences.
Não podia ser. Ela sentiu seu coração partir em mil pedaços quando viu Daniel virar-se, com a mão no peito e as vestes sujas de sangue.
— Desgraçado... – Ele sussurrou.
— Ah não... – Aos prantos, Luana dizia tão baixo quanto, com a voz embargada, que mais parecia travar em sua garganta.
— Luana.
— O que, Dan? O que?!
— Por favor... vai pedir ajuda. – Ela não sabia o que fazer. Não podia levá-lo até o carro, pois não suportaria. Não podia pedir socorro a ninguém, pois a rua estava vazia. Não podia sequer ligar para o pronto socorro, pois o maldito havia levado seus celulares. Mas como dizia o velho ditado, sempre há uma luz no fim do túnel. Sua saída foi um telefone público a poucos metros dali. Imediatamente, ela correu até ele e discou os números que por sinal, achou que nunca iria precisar.
— Alô?! Uma ambulância! Por favor, uma ambulância! – Enquanto informava o endereço ao atendente, sentiu algo ruim. Péssimo. Era como se turbilhões de sensações tomassem conta de seu corpo. Agonia incessante.
Logo encerrou a ligação e olhou na direção em que Daniel se encontrava. O viu apoiado em um dos muros, visto que já não lhe restavam forças para continuar de pé. Voltou até ele, sem saber ao certo como agir.
— Me escuta, Daniel, dá pra esperar mais um pouco? A ambulância já vai chegar. – Ele não respondeu. Ao menos, não com palavras. Apenas sinalizou algo como um “não”. Ofegante, e expressando dor, caía aos poucos. – Dá sim! Tem que dar! – Ela não tinha como conter as lágrimas. Definitivamente, não tinha. Temia o pior e jamais sentira tamanho medo. Sentia-se uma covarde.
No chão, ambos esperavam pelo socorro. Ela passava a mão por seus cabelos úmidos, molhados em suor, e por seu peito ferido, sem saber como acalma-lo, como amenizar seu sofrimento, e se perguntava a todo instante por que isso estava acontecendo com ele. Sua pele gélida, suas reações ausentes, seu gemidos agoniantes que agora clamavam em silêncio, e as escuras gotas de sangue que escorriam de seu peito e caíam ao solo, a deixavam desolada.
Definitivamente, as cenas de filme em que a jovem moça acode o bravo cavalheiro, não eram tão belas assim.
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