O que o destino aprontou dessa vez?

46 Capítulo 46 - Mas você não quer me contar


Notas iniciais
Olá leitores, como vão? Tenham uma boa leitura.

Era tarde, e certamente a noite ainda estaria longe de vir. Ela estava sentada no chão, escorada no sofá. Tinha uma torta de morango sobre as pernas e assistia a um filme que nunca vira antes.

– Ellen? É você? – Perguntou Luana ao ouvir o barulho da porta.

– Não, é o pato Donald. – A ruiva riu fraco. Adorava o humor matinal da amiga.

– E o que você tem aí?

– Comprei um celular novo. O meu caiu no vaso sanitário, lembra?

– E como iria esquecer? – Ambas riram. – Mas só faz dois dias. Você já comprou outro?

– Claro. Não vivo sem isso aqui. – Disse Ellen, apontando para a caixa onde estava o aparelho. – Por falar em celular... o seu está tocando. – Luana logo levantou-se do chão frio e alcançou o aparelho que estava sobre o rack. Atendeu sem ver quem era.

– Alô?

– Lua?

– Oi. – Disse surpresa, arregalando os olhos ao olhar para Ellen. A morena logo perguntou, algo que de acordo com a leitura labial de Luana, era algo como “Quem é?” – Tudo bom, Dani? – A ruiva disse ao barbixa do outro lado da linha, respondendo a outra ao mesmo tempo.

– Tudo ótimo. E como você está, hum?

– Eu? Vou bem. Muito bem.

– Queria que viesse aqui em casa. Será que tem como?

– Claro, claro.

– Posso te buscar? Aí você até economiza gasolina. Olha só como sou bonzinho.

– Estou vendo, Sr. Caridade.

– Está em casa também?

– Sim.

– Chego aí daqui a pouco.

– Vou esperar. Beijo. – Luana olhou intensamente o aparelho em suas mãos, desligou-o e o pôs de volta no lugar.

– Então era o Daniel... – Ellen observou.

– Era o Daniel.

– Ele vem te buscar agora?

– Vem.

– E o que você vai fazer?

– Vou me arrumar.

– Você sabe que não estou falando disso. – A outra respirou fundo.

– É. Eu sei. Não precisa lembrar.

– Você vai contar?

– Não sei.

– Não acha melhor fazer isso logo de uma vez, Lua?

– Não sei, já disse. Conto quando tiver coragem.

– Tudo bem. Você quem sabe.

– Agora vou tratar logo de me arrumar. Pode comer a minha torta se quiser.

– O resto de torta, né? Olha o tanto que você deixou! Se foi a torta quase toda.

– Desculpaaa. – Luana respondeu, sinalizando rendição com ambas as mãos. Ellen riu.

Durante o banho, enquanto passava o sabonete líquido pelo corpo, Luana chegou a tocar em um dos lugares, que até então ela evitava ter contato, desde que descobriu a gravidez: o próprio ventre. Não sabia bem por que, mas não gostava de lembrar ou ter qualquer contado com aquele pequeno ser que estava ali.

Após o enxague, procurou pela toalha ainda dentro do box.

Em alguns minutos, devidamente arrumada, ela já esperava por Daniel na varanda. Foi quando viu aquele carro tão familiar estacionar lá em baixo, revelando o barbixa que andava a longos passos até a portaria.

– Ele chegou, Ellen.

– Como sabe? O porteiro ainda nem ligou. – A outra respondeu enquanto assistia no sofá.

– Vi o carro dele parando lá em baixo.

– Então vai. E boa sorte.

Luana sorriu de lado, saindo do apartamento. Desceu todos os andares, até chegar na portaria, onde seu Gil olhou surpreso. Certamente não esperava que ela aparecesse antes mesmo dele a chamar. Luana o cumprimentou com um sorriso fácil, enquanto caminhava em direção ao namorado. Tudo estava muito entranho para ela. Até mesmo passara a vê-lo com outros olhos depois do ocorrido.

– Oooooi. – Daniel foi o primeiro a se manifestar, selando seus lábios nos dela.

– Oooooi pra você também.

– Vamos?

– Vamos.

Durante todo o percurso, Luana quase não falou. Toda vez que o barbixa buscava puxar assunto, ela apenas concordava ou fazia algum gesto qualquer como resposta. Dessa forma a conversa nunca prosseguia. Em pouco tempo, Daniel notou essa falta de interatividade, porém nada comentou. Chegaram em sua casa pouco tempo depois.

– Não posso ficar até a noite. Como você sabe, hoje tem Improvável. – Observou ele ao entrarem na casa.

– Claro.

– E cá entre nós, eu estou até bem cansado.

– Você não deveria ter me trago. Poderia ter tirado esse tempo que lhe restava para descansar.

– Mas não liga pra isso. Gosto da sua companhia. – Ela silenciou-se. O outro, não conteve-se, e teve que perguntar:

– Aconteceu alguma coisa?

– Que mania é essa de todo mundo me perguntar se aconteceu alguma coisa? – Ela forçou um riso.

– E não aconteceu?

– Não. – Mentiu descaradamente. – Por que acha isso?

– Está tão calada. Tão... quieta.

– Nem todos os dias são flores. Alguns são piores que outros e muitas vezes nem sabemos o por quê.

– Bem... tem razão, acontece com todos. Mas então, como está o bebê?

– QUE? – Luana assustou-se. “Como ele sabe?”

– O Ozzy. Como ele está?

– Ah! O Ozzy. Claro. Está muito bem. – Na euforia, ela sentiu-se aliviada. Era como se tirassem um fardo de suas costas.

– Por que o espanto?

– Ah é que você chamando ele de bebê é um pouco incomum. – Procurou disfarçar da maneira mais convincente.

– Todos ficamos ao menos um pouquinho idiotas quando se trata de animais, ainda mais se tratando um cachorro meigo como ele é.

– Faz sentido. No fundo todos somos idiotas.

– Também faz sentido o que você disse.

– Meio poético, não?

– Sim. Faz sentido.

– Sim, faz.

– Muito sentido mesmo.

– Quanto “sentido” nesse nosso diálogo. – Ambos riram. Sem que ela esperasse, Daniel a puxou, dando-lhe um carinhoso beijo na boca. Subiu sua mão pelo braço da outra, até alcançar sua nuca. – Dan.

– Hum? – Ele gemeu sem deixar de dançar suas mãos sobre seu corpo.

– Eu não estou muito a fim hoje.

– Ah qual é, Lua... – Ele parou por um segundo, passando a encará-la.

– Eu só... não estou a fim. Só isso.

– Agora eu tenho certeza. Aconteceu alguma coisa, mas você não quer me contar.

– Não aconteceu nada.

– Então por que está assim?

– Assim como?

– Está estranha. Você mal fala, mal sorri, está me negando e me evitando toda hora. – Ele disse com aquela cara que ela conhecia bem. Uma expressão meio triste e ao mesmo tempo tão fria.

– Pare de me pressionar contra a parede. Não está acontecendo nada. Está bem? NADA. – Mentiu novamente. Lhe doía ter que mentir dessa forma, porém ela ainda não tinha coragem para lhe contar o que de fato estava acontecendo.

– Se você diz... – Ambos ficaram totalmente quietos por alguns segundos, até ela se manifestar.

– Veja, já são cinco e meia. – Disse olhando no discreto relógio de pulso. Ele respirou fundo. Sabia bem o que aquilo significava.

– Tudo bem. Vou te deixar em casa e de lá vou pro Tuca. – Ela forçou mais um sorriso.

Na volta, aquele silêncio constrangedor. Luana não se sentia confortável com aquela situação. Tão pouco sabia por quanto tempo conseguiria esconder isso.

Notas finais
Vontade de dar uns tapas na Lua, né? Bom, eu sim. Me julguem. E olha que fui eu quem escrevi, hein? Imagine se não fosse. Obrigada por lerem e até a próxima!