O que o destino aprontou dessa vez?

12 Capítulo 12 - Nove dígitos


Notas iniciais
Olá leitores, como vão? Sabiam que, na América do Norte, 30% da água da torneira é utilizada para preparar café? E sabem o que isso tem a ver com o capítulo de hoje? Absolutamente nada! Sintam-se a vontade e boa leitura a todos.

– Planeta terra chamando Daniel, repito, planeta terra chamando Daniel, cambio e desligo. – Anderson imitou um chiado de rádio.

– Que foi Anderson?

– Não, nada. Mas ainda bem que sou eu quem tá dirigindo o carro agora, porque se fosse você, a gente já teria batido a muito tempo. Você está todo desligado hoje, hein? Aconteceu alguma coisa? – Ele não obteve resposta. – Daniel? Caramba se eu te xingasse agora você nem ia notar. Ô DANI!

– Ai Anderson! Que susto cara!

– Que susto? Que susto?! Eu tava falando com você, sabia?

– Ah, desculpa. O que foi que você disse mesmo?

– Isso só pode ser por causa de mulher.

– Ah qual é Andy! Para de encher o saco.

– Calma, estressado. Só estou tentando te entender. Isso tudo é por causa daquela garota ruiva?

– Ela tem nome.

– É... Luene, Luane... como é mesmo?

– Luana.

– Isso. Luana. Então é por causa dela? Hm... É, hoje em dia não tem mais idade pra se apaixonar.

– E quem disse que eu tô apaixonado?

– Eu disse, o Lico disse, o Marcão disse, o Edu disse... quer que eu continue a lista?

– Não, já pode parar. – Daniel envergonhou-se e ficou quieto por alguns segundos mas logo quebrou o silêncio. – Só acho meio cedo pra isso.

– Cedo como? Você tem mais de 30.

– Não é isso. É que eu conheço ela a pouco tempo. É estranho.

– Não tem essa de “cedo”. Ninguém escolhe.

– Aliás, está tão na cara assim? Quase todo mundo fala a mesma coisa.

– Se falam é por que sim. Você pode esconder isso de quem quiser, menos da gente. Seus amigos são como verdadeiros agentes do FBI. – Anderson piscou o olho para o amigo sentado no banco do carona. Daniel riu sem graça. Não costumava falar sobre essas coisas nem com seus melhores amigos. Por mais que confiasse plenamente neles, preferia deixar esses assuntos apenas para ele e mais ninguém.

Depois de mais alguns minutos chegaram ao destino final. Entraram no shopping, estacionaram o carro e saíram do térreo.

– Pra que isso? – Anderson perguntou ao ver Daniel pondo um boné escuro.

– Você sabe muito bem pra que. – Anderson o fitou por longo tempo, este que ao notar, indagou irônico. – Que foi? Quer um beijo?

– Sai pra lá, Dani! – Respondeu fazendo o outro rir.

Depois de quase meia hora entrando de loja em loja, finalmente compraram tudo que precisavam para a gravação de alguns esquetes.

– Falta alguma coisa? – Daniel perguntou.

– Não, acho que não. – Ele respondeu conferindo nas sacolas. – Próxima semana compramos o que falta.

– Ok. Vem me ajudar a comprar alguma coisa pra mim e depois lanchamos na praça de alimentação, estou morrendo de fome.

– Quando é que você não está com fome né, cara. Mas não posso, tenho que resolver umas coisas minhas.

– Ah. Tudo bem eu vou sozinho.

– Mas quem vai te levar pra casa?

– Eu pego um táxi.

– Tem certeza?

– Tenho.

– Então está bem, já vou. – Ele bateu nas costas do outro, despedindo-se. – Se cuida.

– Pode deixar, mamãe. – Anderson riu e por fim foi embora. Daniel então passou a olhar vitrine por vitrine e decidiu comprar uma jaqueta. Depois subiu para o andar onde ficava a praça de alimentação.

Realmente era ótima a sensação de poder ao menos passear pelo shopping sem ser parado por fãs. Claro que vez ou outra alguém o reconhecia mesmo de óculos e boné, mas ele sempre agia discretamente, sendo facilmente confundido com qualquer outra pessoa. Já com o lanche posto sobre uma bandeja, ele procurou uma mesa que estivesse vaga, porém não encontrou, já que o lugar estava muito cheio aquele dia. Procurou mais um pouco, e mais e mais, até que esbarrou em alguém, este alguém que acidentalmente sujou de refrigerante a blusa que ele vestia.

– Ai, moço! Desculpa, eu... – A jovem paralisou ao ver de quem se tratava, e com Daniel não foi diferente, afinal, ele a reconheceria aqui, no Japão e em qualquer outro lugar. Isso mesmo: era Luana. – Daniel?!

– Luana? – Ele olhou surpreso. Não esperava encontrá-la ali naquela situação e ela muito menos.

– Ai Dani, a sua roupa. Perdão, eu não queria...

– Tudo bem, não precisa se desculpar. – Ele a interrompeu, até que notou que era observado por todos que presenciaram o pequeno incidente. – Vem comigo. Acho que já chamei atenção demais. – E levou-a até uma mesa ao canto, que passava quase despercebida.

– Eu te ajudo a limpar. – Luana sentou-se ao lado dele, pegou um guardanapo e começou a limpar a blusa suja. As únicas coisas que sentiam ali eram vergonha e nervosismo. Enquanto limpava, ela praticamente tremia o tempo todo. Queria sair correndo dali depois daquele desastre.

– Certo... é... eu compro outra depois... – Ele disse sem jeito, tirando a mão dela de cima de si.

– Tudo bem. – Ela abaixou a cabeça. Pensou que tivesse feito algo errado.

– Então, vamos comer, não é? – Ele disse com animação, tentando conter o clima inquietante. – Eu não esperava te encontrar aqui.

– Eu também não.

– Vim com o Andy comprar umas coisas, mas ele já foi embora.

– Eu vim sozinha. Estava precisando comprar umas roupas e uns sapatos.

– Tenho quase certeza que você tem várias roupas e sapatos, e que só veio aqui por que gosta de comprar. – Ele sorriu.

– Como boa capitalista que sou, a resposta é sim. – Ela retribuiu o sorriso.

Depois de comerem e de vários minutos conversando, juntos eles foram comprar uma blusa nova para que o barbixa pudesse vestir e entraram em uma das lojas.

– Ham... deixa eu ver... – Ele foi passando peça por peça. – Gostou dessa? – Pegou uma das cruzetas onde havia uma blusa social, listrada com diferentes tons de cinza.

– Claro. É bem bonita.

– Então vou levar esta. – Foi para o provador e depois pagou por ela. Enquanto isso, Luana esperava sentada em um dos sofás que havia na loja. Ao vê-lo em sua direção, vestindo tal peça, dobrada até a altura dos cotovelos, hipnotizou-se. Ele estava realmente muito bonito.

– Tá um gato, hein? – Eles riram. – Só precisa tirar esse boné, vai ficar melhor.

– Mas é meu disfarce. – Eles riram ainda mais.

– A moda não quer saber de disfarces. E outra, você já está de óculos, não precisa mais disso.

– Tudo bem. Me convenceu. – Ele tirou o boné, pôs entre as outras sacolas e arrumou os cabelos castanhos. Andaram de bobeira pelo shopping, olhando as vitrines e entrando em lojas, conversando como velhos amigos.

– Acho que é melhor irmos agora. Está ficando meio tarde. – A ruiva olhou no relógio de pulso.

– Também acho. Você veio de carro?

– Vim.

– Pode parecer meio atrevido da minha parte mas será que você pode me dar uma carona até em casa?

– O Anderson te deixou sozinho aqui, não é? Tudo bem, eu te levo.

– Obrigado. Então, vamos?

– Sim, vamos. Só tem um probleminha.

– Qual?

– Não sei onde você mora.

– Não se preocupe quanto a isso. Vou ser seu cão guia. – Ela riu, e até ele mesmo estranhou a comparação que fez.

No estacionamento encontraram um trio de pessoas, aparentavam ser amigos: duas moças e um rapaz. Eles reconheceram Daniel e logicamente pediram para tirar fotos. Enquanto isso, a ruiva ficou de lado. Eles apenas a observaram de relance, talvez perguntando-se quem seria aquela mulher que estava com o barbixa. Mesmo querendo saber quem era ela, não perguntaram. Quem sabe por vergonha, educação, ou apenas pelo fato de saberem que o ídolo precisava de privacidade. Depois que o trio foi embora, Daniel disse baixo ao pé de seu ouvido, o que a fez arrepiar-se:

– Viu? É pra isso que serve o boné.

Em pouco tempo saíram do shopping, e enquanto voltavam, tocavam algumas músicas no rádio. Até que ouvir “Tempo perdido”, o barbixa se fez criar uma vontade um tanto excêntrica.

– Posso fazer uma coisa? – Ele perguntou apontando para o rádio.

– Pode. – Luana respondeu indiferente, pensando que ele aumentaria o volume, mas para sua surpresa, ele começou a cantar. Ela riu com aquilo. Mas ele de fato tinha uma boa voz, afinal treinava muito para atingir esse feito. Já Luana, estava para não conseguir mais conter-se. Queria tanto cantar com ele, mas a vergonha a reprimia. “Anda sua idiota! É só uma música!”.

E a vontade falou mais alto que tudo. Deixou a timidez de lado e juntou-se a ele. Suas vozes entravam em perfeita sincronia ao som da melodia. Se os vidros do carro estivessem abertos, por certo muitas pessoas os julgariam completos idiotas.

Foi quando enfim chegaram em frente a casa do barbixa.

– Então, é aqui. Obrigado pela carona. – Ele agradeceu praticamente sem fôlego.

– Disponha.

– Ah. Mais uma coisa. – Ele lhe entregou um pequeno papel dobrado e meio amassado. – Só abra ao chegar em casa. – E fez o famoso gesto de arquear uma das sobrancelhas.

– Pode deixar. – Incerta, ela recebeu o papel e guardou-o em seu bolso. Despediram-se com um beijo no rosto e ele enfim deixou seu carro.

Luana quase não conseguiu conter a curiosidade durante o caminho de volta, mas queria ser fiel a só abri-lo quando chegasse.

Ao abrir a porta de seu apartamento e entrar, a primeira coisa que fez foi ir para seu quarto. Sentou-se sobre a cama, e com um sorriso bobo, tirou o papel do bolso: eram números. Nove dígitos. Sim, era o número do seu telefone. É preciso dizer como ela ficou depois disso? Provavelmente não.

Notas finais
Música: Tempo Perdido - Legião Urbana, um verdadeiro clássico! Espero que tenham curtido o capítulo de hoje, e aguardem pois terça tem mais! Obrigada por lerem e até a próxima.