Notas iniciais
O que não podemos deixar para trás Resumo: Eu o amava até confessar meus sentimentos e ele rejeitá-los, ficar com outra e ainda ir embora. Agora, quatro anos depois, ele volta e quer que eu ainda sinta o mesmo de antes? Disclaimer: “Twilight” pertence a SM. Acham que eu estaria aqui escrevendo fanfictions se fosse meu? Eu estaria em Londres numa hora dessas!

Capítulo 3

A viagem até meu apartamento foi mais silenciosa que no dia que meu coração foi partido e Rosalie cuidou de mim. Naquela época, ela pedia para eu ficar calma, que tudo ia se resolver e que as coisas iam ser melhores daquele jeito, sem Edward na minha vida...

Mas agora conseguia ouvir as engrenagens movendo na cabeça dela, pensando muito para encontrar a resposta para a mesma pergunta que eu tinha: O que ele fazia de volta a Seattle?

Não trocamos uma palavra até ela praticamente me escoltar para dentro do apartamento, olhando para os lados como um daqueles guarda-costas que vemos trabalhando na televisão. Entramos e ela me fez sentar na minha poltrona favorita antes de rumar ao banheiro do meu quarto.

Não sei quanto tempo ela ficou lá, porque foi só eu piscar que vi uma mão com unhas perfeitas estendendo um pano na minha direção.

–Emmett vai chegar daqui a pouco. – ela falou – Você tem comida ou eu peço pelo telefone?

–Emmett? – murmurei e passei o pano no meu rosto, abandonando-o depois. Acho que era a primeira vez que eu falei desde que anunciei que Edward estava trabalhando no mesmo local que eu, assim como se tivesse anunciado que o apocalipse chegara.

–Ele está trazendo meu carro. – ela explicou e depois ela se acomodou no sofá próximo à minha poltrona – Bella, eu...

Quando eu a ouvi pronunciar meu nome, ergui o rosto e esperei pela opinião dela.

–Eu achei que você estivesse mais forte depois de todos esses anos.

Baixei o rosto e ergui uma das mãos.

–Por favor... – consegui articular, um pouco mais áspera – Eu não preciso de sermão agora, Rose...

–Ele não pode abater você assim, como se fosse uma maldita criptonita. – ela se exasperou, movendo os braços como se indicasse o tamanho do problema – Tudo aconteceu há quatro anos, Bella!

–Foi um pouco mais que isso. – eu consegui falar. Até nos meus ouvidos acho que pareci uma criancinha e Rose notou isso.

E ela suspirou. Muito cansada.

Ainda com o rosto voltado para o chão, ouvi Rosalie levantar-se e pegar meu telefone da base e ir em direção à cozinha.

Alguns minutos se passaram e ouvi-a conversar com alguém, falando meu endereço e alguma coisa sobre o troco.

Ah, sim, a comida.

Emmett chegaria em questão de minutos e com certeza estaria faminto.

–Pedi comida chinesa. – ela anunciou ao voltar — Pedi uma coisa com vegetais pra não ouvir suas suspeitas de comer carne de cachorro.

–Hmm. – não consegui evitar o sorriso e ela percebeu isso.

–Bella... – ela voltou a se sentar no sofá, estendendo a mão para apertar a minha – Eu já falei tantas vezes pra ser forte que virou clichê... Edward não deveria mais ter esse efeito sobre você. Ele provou centenas de vezes que ele não servia pra ter um relacionamento mais sério, com uma pessoa como você.

Apertei a mão dela de novo e deixei escapar um suspiro cansado.

–Queria saber como ele veio trabalhar no mesmo lugar. – encontrei os olhos dela ao falar – O que você acha?

Vi-a dar de ombros.

–Jasper? – foi a aposta dela.

–Não tinha pensado nele... – baixei o rosto. Claro que um amigo poderia ser uma ponte para conseguir um emprego lá e Jasper tinha que ser amigo de Edward – Quando eu cheguei hoje, uma das professoras falou que um substituto começaria a trabalhar esta semana. Quando terminei minhas aulas, fui à sala dos professores e o vi lá.

–Ele não viu você? – ela arregalou os olhos.

–Não dei tempo pra isso... corri de lá antes de ele me ver. O resto você já sabe.

Rosalie apertou os lábios como se estivesse reprimindo alguma coisa.

–Pode falar, eu aguento. – falei com toda a segurança.

–Você percebe que vai ter que dividir o espaço com ele a partir de agora, né?

Minha segurança foi toda para o espaço. Senti de novo as lágrimas se formarem nos olhos e os braços de Rose me envolvendo.

–Ah, Bella... – ela me balançava como uma criancinha – Você vai superar tudo... de vez... e pra sempre.

–Eu queria poder... nunca ter conhecido Edward na minha vida... – falei, sentindo as lágrimas escorrerem.

Ficamos juntas naquele abraço até Rose me sentir mais calma e ela erguer meu rosto.

–Até qual temporada de House você viu?

–Hmm... – mordi o lábio. Se não fossem esses DVDs ela nem teria aparecido na faculdade para tirar satisfações por conta da minha demora – Eu ia começar a quinta temporada...

Rosalie fez uma careta.

–Eu odeio o começo dessa temporada, os episódios são muito ruins, mas o Hugh Laurie é tão...

Acho que ela tinha algo bombástico para revelar sobre o ator principal, mas esqueceu e ficou apenas com a boca aberta por um ou dois minutos, até alguém bateu na porta e ela correu para atender.

Segundos depois, ouvi a voz estridente de Emmett e mais um barulho de sacolas. Acho que a comida chegou com ele.

–PORRA, BELLS! – ele, como sempre, usou a interjeição favorita para me saudar – ‘CÊ VAI COMER MATO DE NOVO, MENINA? – depois se virou para Rosalie e entregou a comida para ela e beijar-lhe nos lábios – Já paguei, amor. O entregador subiu comigo.

–Eu ainda não confio neles. Tenho certeza que eles pegaram algum cachorro abandonado, mataram e fizeram isso aí que vocês vão comer.

Emmett deu uma risada estrondosa. Aposto que o vizinho do penúltimo andar ouviu.

–Agora que já estou aqui... – ele se largou sobre o sofá mais largo – O que foi que aconteceu?

–Bella viu Edward hoje. – Rosalie anunciou, rumando para a cozinha – Ela entrou em choque.

–PORRA, BELLS! – a interjeição foi mais forte e acabei dando um pulo da poltrona tamanho o susto que levei – DEPOIS DE QUATRO ANOS, MENINA?

–Eu falei a mesma coisa! – Rose gritou da cozinha, remexendo os pratos e talheres e voltando para a sala, ajeitando tudo na minha mesinha de centro – Mas você sabe como é o efeito Edward.

Na verdade, Emmett só ouviu falar de Edward. Ele não chegou a conhecê-lo e só sabe as histórias que Rose e eu dividimos nesse tempo.

–Rapaz, eu tô faminto. – ele esfregou a barriga – Acho que não como há dias.

Rose e eu erguemos uma sobrancelha para ele.

–Ok, ok. Eu me enchi na Subway há três horas. Isso já é uma eternidade pra mim.

E então ele pegou um prato e indicou uma das caixas de comida.

–Vira-lata com pimenta sichuan pra você, Bells? – ele ofereceu, forçando o prato na minha direção enquanto eu fazia cara de nojo.

o-o-o-

Organizar aulas. Arrumar roupa de trabalho. Cabelo. Maquiagem. Material. Livros.

Confere. Confere. Confere. Confere. Confere. Confere.

Podiam dizer que é uma desculpa, mas pensei muito antes de sair do apartamento para ir trabalhar, temendo encontrar Edward pelos corredores. Mas depois racionalizei como Rosalie: ele provavelmente não falaria comigo, não trabalharia hoje e nem teria tempo de estar na sala dos professores no mesmo instante que eu.

Mesmo assim, ainda pensei várias vezes eu ligar para avisar que não daria aula por estar doente, com alguma intoxicação alimentar depois de comer uma suspeita comida chinesa.

Mas Rose falou que eu tinha que ser corajosa e enfrentar a situação. Que a cada dia que eu dividisse mais e mais o espaço com Edward, os poderes dele se enfraqueceriam e então eu ficaria mais forte, sem espaço mais para a insegurança que ele provocou em mim.

Foi por isso que eu decidi ir mesmo trabalhar. Principalmente depois que Rose tomou meus DVDs e prometeu devolvê-los se eu completasse a semana sem faltar.

Cheguei ao trabalho mais cedo que o normal e fui direto para a sala de aula, onde me instalei e esperei por meus alunos.

O primeiro a chegar, como sempre, foi Felix Daniels, um estudantes dos mais assíduos das minhas aulas. Ele era sempre o primeiro a chegar, mas nunca ficava para conversar no final das aulas, como alguns faziam.

E ele pareceu... constrangido de me ver ali.

–Boa tarde, senhorita Swan. – ele falou num tom cordial antes de atestar – Chegou mais cedo hoje.

–Ah, sim. – forcei um sorriso – Nenhum trânsito hoje.

–Mas você nunca chega atrasada também.

–Que bom, não é mesmo? – o sorriso forçado começava a doer.

Felix sentou-se e abriu um livro. Era um de Steinbeck, mas só consegui ver as letras garrafais do nome do autor e não do título.

–A Leste do Éden. – escutei-o falar.

Encontrei os olhos azuis dele. Acho que ele percebeu que eu queria ver o título.

–Já adiantado, senhor Daniels? – perguntei, dando um sorriso mais genuíno desta vez – Steinbeck é só no próximo semestre.

–Eu sei. Olhei suas recomendações dos outros semestres.

Ah, como eu queria que todos meus alunos fossem assim...

–Não sabe o quanto fico feliz por vê-lo se preparando assim.

Aquilo pareceu ter efeito nele. Um sorriso mais largo apareceu no rosto.

–Obrigado, senhorita Swan.

Resolvi deixá-lo concentrado na leitura e organizar minhas notas para a aula. Até que não seria tão ruim assim passar direto pela sala dos professores se fosse para conhecer um pouquinho mais meus alunos.

Mas não passou nem cinco minutos de silêncio e ouvi a voz dele de novo:

–Se... S-Senhorita Swan?

Ergui o rosto para ver Felix hesitante e muito próximo da minha mesa. Nem percebi quando ele se levantou.

–Sim?

–Eu... hmm... – ele tinha uma das mãos no bolso da calça jeans – Um dia...

–Sim? – tentei de novo, tentando persuadi-lo a falar.

Daniels limpou a garganta e ajeitou os ombros, endireitando também a coluna.

–Um dia eu escrevi algo... para a senhorita. – finalmente ele falou, tirando um pedaço de papel dobrado do bolso.

Pisquei duas vezes e estendi a mão para pegar o que ele me oferecia.

No entanto, no momento em que ia tocar, uma onda de náusea me atacou e me fez hesitar. Olhei de novo nos profundos olhos azuis dele e engoli o enjoo, tentando esquecer um mau pressentimento.

–O... Obrigada... senhor Daniels. – forcei um sorriso e peguei o papel.

–É... É um poema. – ele se apressou em dizer, provavelmente porque minha expressão de dúvida dizia tudo – Eu gosto de escrever, e suas aulas me inspiram muito. – deu um sorriso antes de continuar – Escrevi esse poema logo na sua primeira aula, quando você leu um poema de Emily Dickinson. Por favor... – o sorriso morreu – Não leia agora, eu vou me sentir envergonhado se não gostar.

–Oh... – não pude deixar de sorrir – Além de excepcionalmente estudioso, ainda é poeta?

–Tento ser. – ele esfregou a nuca como sinal de modéstia – Espero que não se importe com o meu pedido.

–Não, claro que não. – guardei o papel na minha agenda pessoal – Obrigado, senhor Daniels.

–Espero que goste, senhorita Swan. – ele falou, afastando-se da mesa e voltando para a cadeira e o livro.

Apesar de esclarecido, meu pressentimento ruim não havia cessado. Enquanto ele lia, tirei discretamente o papel dobrado da agenda e “murei” minha mesa com os livros e material para que ele não percebesse o que eu lia.

O relógio parou o ponteiro no momento

Em que os gloriosos lábios pronunciaram o nome

Da poetisa que morreu pela beleza.

Provavelmente porque quem

Agora pronuncia os versos

Foi a causa da mais be(l)la morte.

Sem entender, senti minhas mãos começarem a suar com os próximos versos.

A voz da be(l)la morte

Atacou minha pele, meu sangue, meu coração

Ela continuou proferindo sem parar

Desatenta ao próprio destino

Que minha mente traçou.

Despindo-a, sugando-a, gritando-a

Ah! Como eu queria passear por aquele be(l)lo corpo

Fazendo com que cada nervo do meu ser

Quisesse também morrer pela beleza

Abaixo do último verso, ele escreveu La Bella Mort, F. Daniels e a data da nossa primeira aula: 25/07.

Poesia nunca havia sido meu forte e sempre precisei de ajuda de teóricos para compreender muitos dos melhores poemas da literatura. Mas eu sabia ver quando eles eram ruins, claros, explícitos e excepcionais. Achei o poema bem simples, com toda a transparência de uma alma jovem que queria mostrar admiração pela professora de literatura.

Sim, era isso.

Felix Daniels era um poeta que pode ter um futuro brilhante se continuar com a prática. Fez uma bonita homenagem para mim, tentando disfarçar a paixonite que sentia. Só isso.

Então, se é só isso, por que esse pressentimento ruim não passava?

Notas finais
Olha só, os comentários estão aumentando :) obrigada a quem comentou no capítulo passado! Infelizmente não haverá atualização no próximo domingo. Postarei um capítulo novo dia 28/10! Só uma dica: duas pessoas vão se encontrar e não será nada agradável... :) O que acharam do aluno de Bella? Será que ele dará problemas? Perguntas, perguntas. Um beijo, Marie.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.