Notas iniciais
Oláaaaaa! Então, eu tentei fazer uma história amorzinho, embora não seja o que costumo escrever. Particularmente, eu gostei dela :3 Você vai notar (ou não, né) que não fiz uso de descrição de aparências ou nomes, apenas gêneros e laços, isso é porque quis dar a você a liberdade de colocar quem quiser no lugar desses dois personagens que criei com tanto carinho. Talvez tenha causado alguma repetição de termos por esse motivo, mas tentei ao máximo minimizar tal fato... enfim, foi uma ideia que me veio à mente quando comecei a escrever, e espero que goste dessa variação *-*

O sol nasceu lá fora, trazendo consigo o som de um despertador. A garota ergueu o corpo de súbito da cama, com um olhar decidido.

— Certo! É hoje! — proferiu, batendo as mãos contra o rosto.

— Agora pare de falar sozinha que eu quero dormir — emitiu a voz raivosa de sua irmã ao seu lado, lhe tacando um travesseiro.

A vítima do ataque deu pouca importância. Levantou-se, fez todo o procedimento para estar como uma pessoa civilizada, e então saiu com sua canga amarrada na cintura sobre o bíquini, a bolsa de praia pendurada ao ombro.

Atravessou algumas ruas a pé, olhando ao redor sem enxergar nada que lhe chamasse a atenção. As casinhas pequeninas e amontoadas de sua cidade davam um charme natural ao lugar, e as pessoas pareciam sempre bem humoradas, como se brilhassem tanto quanto o sol a lhes dizer bom dia.

Mal notou e já pisava na areia da praia, aquecida e fofa, o informe de que estava na hora de retirar os chinelos. A garota correu animada, até alcançar a borda do mar, onde as marolas quebravam e alcançavam com suavidade seus dedos afundados no chão movediço pela umidade.

Girou em trezentos e sessenta graus, certa de que encontraria os olhos certos ali, mas não encontrou nada além de olhares pacatos e distantes, ou apaixonados trocados entre casais, ou ainda alegres e já preenchidos de vida. Nada do que buscava.

Seu amor claramente não estava ali.

Ela começou a caminhar em uma direção, passando por rostos e aparências, algumas chamativas e outras nem tanto, mas nada capaz de fazer o coração em seu peito saltar. Até ouvir seu nome ser chamado.

Ergueu a cabeça e viu logo ali o amigo de sua vida, aquele com quem sempre pudera contar e que jamais ousava arredar o pé de seu lado. Seu sorriso espelhava o dele, que estava junto da imagem de um emaranhado cabelo suado, peito desprovido de camisa e pernas a correr para o gol. A bola passou ainda longe da trave, com a distração por ver a melhor amiga. Esta riu, ao observá-lo ser implicado pelos companheiros de time, e continuou direto dali: tinha uma busca a terminar.

Andou, buscou, andou, procurou, e continuou a andar. Havia separado aquele dia para encontrar o seu amor, já não se aguentava de manter o peito vazio, então daria tudo de si, até que não lhe restassem mais forças.

Quando à sua frente restou nada mais que o barulho do mar e a presença de pássaros, acabou dando meia volta sentindo as pernas arderem, a fome lhe corroer o interior e o desânimo ameaçar sua força de vontade. Não permitiu! Não! Ela o encontraria, apenas a praia não havia sido o lugar.

Retornou para casa, onde mais uma vez teve de retomar sua aparência civilizada. Estava decidida a almoçar no shopping, pois lá encontraria o seu amor, e então poderiam comer uma sobremesa juntos. Quem sabe dividir a mesma colher do açaí, ou o canudo de um milk shake. Sorria sozinha a imaginar.

Saiu de casa corajosamente debaixo do sol quente. O bom dia feliz já havia virado um boa tarde apelativo. Ela torceu para que não acabasse completamente suada, ou mesmo o seu amor sairia correndo para longe, em vez de para perto, ao encontrá-la.

Seguiu para o ponto de ônibus, e desandou a correr quando viu que perderia o transporte retangular de um tom verde árvore, já que este começava a sair da parada. Nem pensou que acabaria desarrumada e suada no fim, só lhe veio à cabeça que seria mais meia hora sem colocar nada no estômago, e não valia a pena tanto por um amor.

Alcançou o ônibus, entrando afobada, e agradeceu ao motorista, que apontou o polegar para trás.

— Agradeça ao seu amigo, ele pediu para esperar.

A garota ergueu os olhos, e viu novamente o melhor amigo acenando além da roleta. Sorria, fazendo menção para o espaço vazio ao seu lado. Ela espelhou a expressão dele mais uma vez.

Pagou a passagem e foi sentar-se onde o garoto apontara, um dos vários assentos duros e desconfortáveis, mas facilmente disputados em horários de pico nos trajetos mais comuns.

— Onde vai a essa hora? — o outro indagou.

— É da sua conta? — rebateu, olhando para a janela lá fora, já que ele havia ficado no corredor para dar aquele lugar à ela, conhecendo perfeitamente a preferência da garota.

— Shopping, eu aposto. Também estou indo para lá. — O amigo não se abalou, bagunçando os cabelos dela. — E o que vai fazer?

Afastou a mão dele com exasperação, ajeitando os fios revirados em seguida, olhando-o com a expressão irritada.

— Encontrar o lugar mais distante de você. — Revirou os olhos, contendo um sorriso pela reação patética, mas não diria a verdade para ele, jamais! Seria implicada para o resto da vida.

— Hum? Mal humorada assim não vai encontrar um namorado nunca. — E cutucou as costelas da menina, rindo de sua infantilidade imediata e comum jogada contra ele.

Lançou as mãos para o alto a desistir de levar o amigo a sério, cedendo às risadas e esquecendo-se por aquele momento da tensão de acabar não encontrando aquilo que buscava.

O shopping era uma construção de aparência tecnológica coberta de vidros espelhados preenchida de vários andares circulares. Se aproveitaria do fato da praça de alimentação ficar no nível mais alto, pois poderia esbarrar em alguém por todos os outros nove. A fome talvez pudesse esperar um pouquinho mais.

Despediu-se de seu melhor amigo e seguiu caminhando pelo andar sem pressa, volta e meia lançando olhares por cima do ombro para ter certeza de que ele não a seguia para descobrir o que fazia. Não teria nada a ver, de qualquer forma.

Apertou a alça da bolsa tiracolo de forma nervosa, não gostava de andar sozinha por lugares cheios, essas situações deixavam-na insegura. E por um momento imaginou se o seu amor gostasse de garotas mais frágeis, acabando por concluir que não poderia, ou então ele seria em verdade a metade de outra pessoa.

Passeou pelas lojinhas em todos os andares, se balançando sobre os pés nas escadas rolantes. Havia de tudo um pouco, e ela se maravilhava com os jogos de tabuleiros nas brinquedotecas, as pelúcias e almofadas naqueles lugares mais fofos, e nos sapatos de salto alto e tênis das sapatarias. Sua definição de padrão era aleatório.

Quando finalmente chegou à praça de alimentação, sentiu que poderia comer um boi inteiro. Comprou um espaguete onde se vendia comida italiana, e foi se sentar próximo às grandes janelas panorâmicas que davam visão ao rio que cortava a cidade, o qual era rodeado de árvores.

Encarou o prato à sua frente, remexendo o garfo nele e pensando por um momento na cena da Dama e o Vagabundo, em que os cãezinhos sugavam o macarrão até se beijarem. Sorriu, levantando os olhos e procurando o que buscava na multidão. Era o mesmo que na praia.

Seu amor ainda não estava ali.

Começou a comer devagar, se perdendo na paisagem lá fora e deixando a mente vagar para tantas outras coisas. Sua família, seus amigos, trabalhos e provas da escola, qualquer coisa que lhe surgisse.

Uma cadeira foi arrastada, e então a garota teve seu garfo roubado. Virou o corpo num ímpeto, e encarou seu amigo a sugar um espaguete comprido com os lábios. Ela estreitou os olhos, tomando de volta o que era seu e devorando com vontade dobrada.

— É sério, ninguém vai querer se aproximar de um animal faminto assim. Você vai ficar até mesmo sem amigos. — E riu, o cotovelo apoiado na mesa e o rosto na mão a observá-la.

— Você ainda está aqui, não é? Isso não afasta os amigos, mas é o que eu desejaria neste momento — declarou com petulância, arqueando as sobrancelhas sem fitá-lo.

— De fato, ainda estou — ele respondeu, distante, como se houvesse um grande significado por trás daquela frase. Ela não entendeu.

Terminou de comer enquanto cedia à presença dele, conversando sobre qualquer banalidade que os fizesse se empolgar. Um aviso lhe dizia que talvez sua companhia afastasse dela o amor que estava procurando, mas ignorou-o, apreciando que o amigo estivesse com ela.

Saíram a andar, e acabaram numa livraria. Ela passeou entre as estantes, e escolheu algum romance qualquer para ler, sentando em uma das poltronas na área de leitura do lugar. Decidiu que seu amor definitivamente seria um leitor, isso fazia sentido.

O melhor amigo apareceu com o livro de algum jogo, sentando-se por perto em silêncio. Sentiu-se imediatamente confortada, sorrindo involuntariamente para o livro ao qual lia, sem que as palavras fizessem realmente sentido em sua mente, completamente dispersa sem que se desse conta.

Desistiu, resolvendo que não encontraria ali o que procurava. Despediu-se uma outra vez do garoto, e então passou novamente por todos os andares do shopping.

Caminhou devagar pela cidade, correndo os olhos por todas as pessoas ao seu redor como raramente costumava fazer. Seria mentira dizer que não recebia olhares provocadores ou incisivos, mas não eram os certos, nenhum deles.

Seguiu até a Praça Comum, para onde quase todos os jovens se direcionavam. Tinha parquinho para as crianças, quadra para os esportistas, gazebos para os mais quietos, estátuas e árvores.

Ela foi até um banco de madeira, sentando-se nele e observando os skatistas que faziam manobras perigosas. Algum que caía e então tentava novamente, sem desistir, colocando-se a rir da própria queda. Havia certa magia em observar as pessoas viverem ao redor, e a fazia sentir como se algo estivesse passando despercebido a si.

Batucou os dedos no banco de forma inquieta, sentindo o cansaço da ida à praia ameaçar colocá-la em um cochilo ali mesmo. Pensava o que havia feito de errado. Por que não poderia encontrar assim o seu amor? Em uma busca num dia comum, em vez de esperar que simplesmente caísse do céu à sua frente?

Desejou que ao menos seu amigo estivesse ali, ele a distrairia daquela frustração. Levantou-se, indo pegar o transporte de volta para casa.

Seu amor também não estava ali.

Adormeceu de cansaço no ônibus, quase passando direto de onde devia saltar. Dessa vez seguia mais desanimada, sentindo uma dor incômoda no pescoço que dizia que ela deveria ter esperado chegar em casa. Imagine se houvesse encontrado seu amor enquanto babava sentada? Riu com a ideia.

No céu, o sol já se despedia, deixando o tom azul comum misturar-se a um laranja rosado quase mágico, o prelúdio do boa noite gelado que vinha com o nascer da lua.

De cabeça baixa, a garota apanhou a direção automática, e chegou à conclusão que não queria ainda lidar entre quatro paredes com a sua derrota. Se deixou cair na calçada e encostou-se contra o muro de casa, fechando os olhos e suspirando.

— Você parece cansada — uma voz grave se fez ouvir. — Eu estive esperando você.

Ela virou para o lado, fitando-o. Encarou a face sorridente de seu melhor amigo com surpresa, e então um sorriso lentamente se desenhou em seu rosto, seguido de uma crise de riso, como tantas vezes mais cedo ao vê-lo por onde ia.

A obviedade daquilo que estivera à sua frente todo aquele tempo, de repente, aquecendo seu peito com uma alegria pura e completa. A inquietação que sentiu fora em apenas um lugar, naquele o qual não havia encontrado seu amigo.

Deslizou pelo chão, abrindo espaço entre as pernas dele para se aconchegar com as costas contra seu peito, e apoiou a cabeça no ombro familiar. O garoto hesitou, surpreso, e então passou os braços em torno da cintura dela enquanto era embalado pela risada feminina. A garota encontrou, naquilo que estivera ao seu lado o tempo todo, o que procurara durante o dia inteiro.

Seu amor estava ali.

Notas finais
Críticas, elogios e sugestões via review, MP ou Facebook :3 Beijinhos ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!