Notas iniciais
Há meses essa história estava guardada no meu notebook, criando teias de aranha virtuais, então resolvi compartilhá-la com vocês. Espero que gostem. Boa leitura, with love and ehtiros.

- Zoe, querida, faltou esta! – gritou a Sra. Kunis em meio aos tropeços enquanto atravessava o jardim, e com um empurrão colocamos a ultima caixa dentro do caminhão de mudanças.

- Obrigada pela ajuda, vou sentir sua falta.- disse a abraçando.

Martha Lawrence Kunis. 68 anos, um metro e sessenta de altura, cabelos cor de mel e grisalhos. Minha segunda mãe. Vizinha da nossa família desde o principio do casamento dos meus pais, ajudou minha mãe com seu primeiro filho, e quatro anos depois, com o meu nascimento, passou a cuidar de nós dois diariamente. E lá se vai mais uma coisa importante para mim...

- Prometa que vai vir me visitar nas férias? – disse ela se desvencilhando do abraço e enxugando finas lagrimas que escorriam em volta do seu rosto.

- Todas, sem exceção. Agora é melhor eu ir, antes que meu pai se estresse mais uma vez. – disse dando um beijo em sua bochecha e entrando no longo carro preto estacionado do outro lado da rua.

O voo até New Jersey foi turbulento, e o tempo não ajudou muito. Não foi difícil encontrar Bryan quando saímos do aeroporto, o Catalina 1969 vermelho estava parado logo à frente, mas isso não impediu de chegarmos até ele encharcados. Havia dias que não parava de chover. A clássica chuva de verão.

- Obrigado pela gentileza, Bryan. – agradeceu meu pai sentando-se no banco do passageiro.

- Sem problemas tio, sempre que precisar. – disse meu primo me ajudando com a bagagem. — Conversei com o Dustin ontem, ele disse que por esses dias não vai poder tirar os pés do campus, provas práticas e todas essas coisas de “como fazer respiração boca-a-boca”.

— Dustin é um médico, garoto, não um salva-vidas. – retrucou meu pai enquanto entravamos no carro.

— Bom, ele não se formou ainda... – respondeu Bryan dando a partida no carro.

E assim se passaram os minutos seguintes: em um pleno e constrangedor silencio, algo raro e difícil de ver na presença de Bryan, que não consegue se manter calado um minuto sequer. Quando pequena me lembro da minha tia sempre o xingando por levar para casa advertências, em que todas tinham como justificativa “conversa excessiva em horário inapropriado”. Engraçado como, em questão de alguns dias, tudo pode mudar. Em um dia, a filha de um renomado advogado, uma garota talentosa e carismática, no outro, aquela quem as pessoas desviam o olhar, mudam de calçada para não ter que cumprimenta-la, aquela quem todos olham com pena. Seja por dó, por constrangimento, ou apenas por não saber o que dizer, muitos tem me ignorado por completo ultimamente, e não tem uma pena que me faça sofrer mais pelo meu crime do que esta.

- Bom, e você, pequena Zoe? Como você tá? — perguntou Bryan, tentando soar brincalhão, mas logo se arrependeu ao me olhar pelo retrovisor do carro, definitivamente eu não estava com a aparência de alguém que esteja bem, e ele sabia.

- Bem. – foi a única coisa que consegui responder. Pensei em perguntar a ele como é a NY High School, já que em menos de um mês eu estaria estudando na mesma escola que ele, mas algo me fez recuar, na verdade, alguém. Uma voz fina e robótica, popularmente conhecida como GPS, avisou que havíamos chegado ao nosso destino. Um prédio alto, preto e com janelas espelhadas, com cerca de 20 andares. Bryan entrou com o longo carro branco no estacionamento, retiramos as bagagens do porta-malas, subimos o que me pareceu centenas de andares, mas ao que tudo indicava (e com tudo quero dizer o elevador) foram apenas 16.

Meu pai destrancou a porta do apartamento de número 173 para que eu e Bryan empurrássemos para dentro todas aquelas malas e mais malas, e quando terminamos pudemos observar o que havia em volta. Eu quase senti como se estivesse em uma casa, o apartamento era realmente muito espaçoso, um pequeno sofá de dois lugares, duas poltronas e uma mesa de centro decoravam a sala de visitas, a esquerda, a três degraus mais altos, havia uma sala com grandes sofás e uma televisão maior ainda, à direita, também três degraus mais altos, podíamos ver uma enorme cozinha e sala de jantar, e logo após a sala de visitas, bem a nossa frente, uma escada que levava ao segundo andar do apartamento, onde estavam os quartos, banheiros e cômodos vazios.

— Uou, você realmente soube escolher o apartamento, tio. – disse Bryan se sentando confortavelmente em uma das grandes poltronas vermelhas.

— Elogie minha secretária, foi ela quem escolheu. Se me dão licença, crianças, tenho um almoço importante agora. – respondeu meu pai, ríspido, largando sob a outra poltrona a maleta que carregava e se dirigindo a porta.

— O senhor quer que eu arrume suas coisas? — perguntei, apontando para as caixas deixadas hoje mais cedo no apartamento.

— Não, pode só deixar cada caixa no seu devido cômodo, mais tarde eu organizo. Não quero você mexendo nas minhas coisas. – respondeu, se virando apenas para agradecer mais uma vez a Bryan pela carona e por recepcionar a entrega das dezenas de caixas. Esperamos até ouvir o som do elevador se esvair para dizermos alguma coisa, mas nós dois nos mantivemos em silêncio.

— Ahm, bom, obrigada pela ajuda, você deve ter outras coisas pra fazer, então... – disse começando a empilhar as caixas rotuladas por “John”.

— Deixa de ser besta, não vou te deixar carregar tudo isso sozinha. Desastrada do jeito que você é... – exclamou ele acrescentando mais uma caixa na pilha e dando uma risada.

— Senti sua falta. – disse o abraçando e soltando uma risada fraca e abafada.

— Também senti sua falta, esmeralda. – respondeu ele bagunçando meus cabelos. Tinha mesmo muito tempo que eu não ouvia tal apelido, era como nossa avó costumava me chamar quando eu era pequena, referente à cor dos meus olhos. – Você deve estar morrendo de fome! – disse ele pegando um grosso casaco preto e jogando para mim, ao mesmo tempo em que abria a porta. – Bom, ao menos eu estou.

— E onde você pretende me levar?

— Não muito longe, duas quadras daqui. Vamos almoçar com a sua tão querida tia. Ela tá doida pra te ver.

— Bryan, você sabe que eu ia adorar, mas agora não dá. Tá vendo esse tanto de caixa? – disse apontando pras dezenas de caixas espalhadas pela sala. – Pois é, eu que tenho que arrumar.

— Ah, qual é! A gente vai lá, almoça, minha mãe te empanturra de torta de morango, e depois a gente volta pra cá e organiza tudo, eu e você! – retrucou ele, me empurrando para fora do apartamento e trancando a porta, sem ao menos me dar um escolha. Não que eu fosse recusar, já que eu amo as tortas que a minha tia faz, e ele sabe disso.

...

— Caramba, tem muito tempo que eu não venho aqui! – disse surpresa, admirando a entrada da casa.

- Cinco anos... – retrucou Bryan.

Eu lembrava como se fosse ontem. Em um dos verões mais quentes que já vi, eu, Bryan, meu irmão Dustin e meu primo Ian correndo feito loucos pelo jardim e enlouquecendo minha tia ao entrar em casa e sujar todo o piso de terra e grama. E pelo visto eu era a única que sentia falta de tudo isso. Ian, com seus 22 anos, já cursava o terceiro ano da faculdade de direito. Bryan, embora sempre mante-se contato, passa a maior parte do tempo com os colegas do time de futebol americano. Meu irmão cursa o segundo ano dele na faculdade de medicina, aqui em Nova York, e desde o “incidente”, há dez meses, ele raramente tem aparecido, ou pior, falado comigo.

— Aí estão vocês! – gritou minha tia ao entrarmos. – Ainda bem que chegaram, o almoço já estava esfriando. — ela foi logo me abraçando e me enchendo de beijos, coisa que não acontecia há algum tempo, pelo contrário. Todos estavam me tratando de forma bem fria nos últimos meses.

Logo estávamos todos quase explodindo de tanto comer. Minha tia Hanna era a Cheff do restaurante que ela e meu tio (marido dela) tinham no Brooklyn. O restaurante era todo tematizado da década de 80, e era um dos meus lugares preferidos na cidade.

— E então, o que vocês pretendem fazer nessas duas semanas e meia de férias que ainda restam? – perguntou Hanna pra mim e Bryan.

— O que Lady Zoe quiser. – disse ele com um largo sorriso no rosto, embora o tom de deboche.

- Bom, eu estava pensando da gente visitar a vovó, já tem um tempo que não vejo ela, desde... Bom, você sabe... – mas quando ergui os olhos do meu prato de sobremesa, minha tia tinha um olhar reprovador para Bryan, que ignorou a opinião de sua mãe sobre o assunto e logo concordou comigo.

É claro que ela iria discordar... Há anos minha tia não conversava com nossa avó. Elas nunca se deram muito bem, e a briga que tiveram no funeral do meu avó foi a gota d’água que faltava pro copo de tensão da relação delas transbordar. Desde então ela evita ao máximo ir visitá-la na Florida, e faz o mesmo com Bryan. Mal ela sabe o tamanho do erro que está cometendo...

Notas finais
Espero que tenham gostado! Sugestões são sempre bem vindas. Deixem seus comentários gentis logo abaixo. Caso tenha algum erro de coerência e/ou coesão por gentileza me sinalizem. Muito obrigada...
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.