O que fazer quando o céu cair
11 mas nem nunca saberá
— Eu não acredito que aquele resto de aborto teve coragem de fazer o que ele fez!— Taiti gritou com a porta do quarto fechada, trancada, quase bloqueada com o armário.
— Tai, não grita!
Ela seguiu aquela ordem ao pé da letra, fechou a boca e gritou com toda força que tinha.
— Eu juro que se encontrá-lo de novo, ele é um homem morto. Aquele vadio, viciado.
Viciado... um xingamento. Logo deu-se conta que precisava da heroína, começava a sentir-se enjoada, tonta, sedenta por mais uma dose de ópio.
— Você sabe que ele nunca foi a pessoa mais responsável desse mundo.
— Sim, mas moribundos é de mais.— ela contraía e expandia o fecho do armário tentando aliviar a raiva.— abre a janela.
Amy fez o que ela pediu, bem a tempo de tirar o vidro do caminho do que um dia já foi uma tranca que estava, agora, na velocidade de escape.
— Eu não acredito que ele teve coragem! Ser uma vergonha para ele é uma coisa, mas ser uma vergonha para o meu sobrenome, para o nosso sobrenome?
— Só não entendo como ele se rebaixou dentro da prisão...
— Quem se importa com isso?— uma lufada de ar frio voou pela janela, trazendo alguns flocos de neve teimosos. Amy apressou-se para lá, fazendo um pouco de força para fechar a parte de vidro para que o calor ficasse para dentro, já que o vento não queria que fizesse isso. Taiti não vestia um casaco, só uma camisa de manga comprida e uma calça. Estava tremendo.
— Está com frio?— ela já sabia a resposta, aproximou-se dela e a abraçou com força.— não se preocupe com ele, idiotas não merecem sua atenção.
— Ele não é um idiota, é um traidor.
— Ele não vai voltar.
Taiti negou com a cabeça, mas cansou-se daquilo. Antonie nunca foi flor que se cheire, todos duvidavam que tivesse um pingo de sangue em comum com ela. Era um covarde, fazia tudo para ele e mais ninguém. Era como se outros não existissem e, se esse fosse o caso, tinham que ter a honra de servi-lo. Pelo menos, estava longe agora, não voltaria, estava cercado de seres inúteis, vivendo sua vida inútil, com objetivos inúteis que só o dariam uma sombra de utilidade.
Sonhava a tanto tempo em estar novamente nos seus braços, que fechou seus olhos para não chorar. Apoiou o queixo no seu ombro, tendo que ficar nas pontas dos pés por causa da diferença de altura. Seu cheiro ainda não tinha voltado, em seu lugar havia um cheiro forte de fumaça. Tinha certeza que não demoraria para voltar, não vestindo roupas que tinham seu perfume incrustado no pano.
— Eu não quero sair daqui...
— Então fica.— entendeu que era no quarto.— Eu tenho eu falar algumas coisas com os meninos, volto assim que possível.
— Não!— Taiti segurou o braço dela a meio caminho da porta.
— Não vou demorar, prometo.— Amy segurou o rosto dela e deixou um beijo leve sobre sua testa.— só não destrua o quarto enquanto estiver fora.
— Amy, por favor.— ela não a soltou.— eles não vão embora, nem se preocupam com você o suficiente para sentir sua falta. Eu vou.
Taiti parecia uma criança falando aquilo, até mesmo sua face tinha um ar infantil. Exprimia um híbrido estranho entre uma ordem e um apelo, não tinha coragem o suficiente para mandar sem ter a sombra de um pedido.
Amy suavizou a expressão, olhando-a com pena. Ela não mudou nada...
— Estão me esperando, não é questão de gostar ou não.
Taiti olhou para baixo, finalmente soltando seu braço. Recusava-se a olhá-la, não só nos olhos, recusava-se a olhar para ela, qualquer coisa sua.
— Tudo bem. Estarei te esperando.
Amy sorriu para ela, beijando sua testa novamente.
Assim que fechou a porta do quarto, seu peito encheu-se de culpa. Não satisfeita com uma mentira, tinha que contar outra. Sabia que o andar de baixo estaria vazio, e que todos estariam em seus quartos se perguntando o que foi que deu na cabeça da Taiti. Era como devia ser.
Acendeu uma pequena chama na sua mão, como uma vela, andava na ponta dos pés, os tacos de madeira rangendo sob seu peso. O fogo tingia aquele ambiente de um laranja escuro, tendendo para o vermelho, iluminava nada mais do que alguns passos à sua frente, o resto esta oculto nas sombras.
Fechava os olhos para aliviar a dor de cabeça, quando os abria, via as correntes do seu fantasma, voando por entre as paredes enquanto Amy se esgueirava até o andar de baixo. Algum idiota tinha deixado a janela aberta, era sempre ela que as fechava de qualquer jeito. Quando seu pé tocou o piso do andar de baixo, uma rajada de vento invadiu a sala, apagando sua vela improvisada. Ela bufou, andando até a parede para fechá-la. Estralou os dedos para acender a chama novamente e seu coração pulou uma batida.
Se fantasma a encarava pelas costas.
Vá pegar as drogas. Sussurrava no seu ouvido. Vá, se não, sabe o que vai acontecer.
Fez o possível para ignorá-lo enquanto calçava as botas que deixava na saída. Vestiu o casaco que Alex deixou na cabidela perto da porta, fechando os botões sobre seu peito. Que aquele guarda não se importasse sobre as calças de pijama floridas que usava.
Segurou a maçaneta fria da porta, usando sua cópia do Talento elementar para destrancá-la.
O ar frio do inverno a engoliu como se pulasse em uma piscina fria. Deixou o ar sair do seu peito criando uma nuvem perto da boca. Fechou a porta atrás de si, seguindo a trilha para fronteira. Tudo que podia ouvir eram os galhos se quebrando sob seus pés, a própria respiração, o sangue correndo pelas suas orelhas e o vento zunindo pelas árvores que, iluminadas pela lua, se fechavam como esqueletos sobre ela.
Amy abaixou a cabeça, trazendo o fogo para perto do rosto. Queria voltar para o calor da casa, para o conforto de estar de baixo dos cobertores, para estar com os pés, orelhas e nariz quentes, mas sabia que não duraria muito lá antes que chamassem Alexandre por causa das suas crises. Ele fez de mais para que sua imagem acabasse assim, como a de uma viciada. Teria que esconder aquilo com a sua vida, mesmo quando voltasse para cidade, tinha que dar um jeito de não ir parar em clínica nenhuma. Sabia o que acontecia lá, te prendiam como um animal, não te deixariam sair até que te julgassem apto para voltar para sua vida normal, mas, mesmo assim, não tiravam os olhos de você. A última coisa que queriam para sua raça eram marginais, pessoas como ela.
Fechou os olhos com força, esperando que a cegueira temporária inibisse seus pensamentos.
Caminhou como um zumbi até a cidade, assistindo a grama do bosque ser tomada por ladrilhos de argila, depois pelo concreto do pátio da igreja. Olhou para cima, para o eterno abismo do espaço no qual não caía só por causa da gravidade da terra e soltou o ar novamente, criando outra nuvem. Não tinha tantas estrelas assim onde morava, dava até mesmo para ver o roxo da galáxia cortando o céu, dando sua beleza só para aqueles que tinham a sensatez de não jogar suas luzes para ele na falha tentativa de fazer da Terra uma estrela. Deixou sua cabeça cair, vendo o moribundo controlado pela fumaça dos Dynamos perto de uma placa escrito: Se quiser morrer, cruze essa linha.
— Trouxe o que te pedi?— ele tirou uma trouxa das costas, cheia de seringas carregadas e cigarros. Abriu-a sobre o chão com a avidez de um viciado, colocando um cigarro entre os lábios. Acendeu-o com seu talento que agora não poderia mais usar.— Isso era tudo que tinham?
— Sim.— seu olhar estava vazio, seus olhos tomados por um preto como o de petróleo. O verdadeiro homem estava lá dentro em algum lugar, incapaz de ser o dono do próprio corpo.
— Trará mais daqui três dias, o suficiente para um mês.
— Não temos isso.
— Peguem de outras cidades então.— disse irritada por ter que tirar o cigarro da boca.— não me importo de onde venha, isso é problema seu, mas me traga.
— Sim.
— Melhor assim. Dispensado.
Ele saiu com uma reverencia, perdendo-se não muito tempo depois no emaranhado de ruas.
Ela se perguntava como alguém podia viver no campo. Todas as casas eram iguais, geminadas, aglomeradas todas em uma grande praça que se estendia por duas ou três colinas com o que um dia foi o complexo real no meio. A estação de trem estava longe de tudo, do outro lado de uma das colinas para que nem os trilhos nem o barulho atrapalhassem a vila. Além de ser uma cidade pequena a coisa mais tecnológica que dispunham era o trilho do bondinho que precisava de graxa a séculos, estavam presos no tempo, achavam que aquilo era o melhor que podiam ter.
Sentiu-se leve quando sentou-se para terminar o cigarro, como se a vida não possuísse problemas, como se aquela cidade fosse tudo o que existisse. O frio esvaiu-se como se nunca tivesse estado lá e Amy procurou por seu fantasma. Deixou a mão sobre o chão para que pudesse sentir as correntes e...
Ele não apareceu.
Deixou-a em paz. Algumas lágrimas teimosas forçaram seu caminho à liberdade, saindo com uma risada histérica. Ele não esta lá, ele não estava lá, ele nunca mais estaria lá. Tinha desistido dela, deixado que vivesse sua vida em paz, que fosse feliz de verdade. Riu de novo, curvando eu peito para frente. Examinou o cigarro como se fosse uma peça única, preciosa, depois colocou-o entre os lábios, puxando mais fumaça para dentro de si, tomando cuidado para que não chegasse muito fundo. Deixou que ela saísse de si com uma risada, engasgando no processo.
Paz.
Tinha conseguido um único momento da mais pura euforia.
Era como se nem mesmo seu Fantasma pudesse para-la, era invencível, a poderosa Amy, primeiro espelho em séculos.
— Ah, sim, claro, Alexandre.— disse tirando as cinzas sobressalentes.— não me importaria em ir na missão para capital. Quem é que são aqueles putos perto de mim?— riu boba, sem motivo.— Quem são eles perto de mim? Não é mesmo, meu querido demônio? Quem é que é você perto de mim? Da próxima vez vou usar essas correntes para te enforcar, marque minhas palavras, seu vadio, da próxima vez está morto na minha mão.
O vento correu por entre as janelas e portas abertas da igreja, fazendo o mesmo som de risadas maliciosas, como de quem acredita em uma mentira sabendo de toda verdade. Amy riu com ele, deixando-se cair na grama úmida pela neve. As estrelas pareciam buracos em um cobertor, tão confortável…
Se fosse dormir tinha que voltar para casa.
Por que devia fazer aquilo. Ninguém lá a amava tanto quanto a droga, ninguém lá a deixava tão feliz, ninguém lá conseguiu fazer seu Fantasma correr como fez agora.
Só terminaria o cigarro.
Consumiu-o como se fosse o último da sua vida, deixando o resto na grama perto da igreja. Fez certeza que não havia uma mínima brasa acesa. A última coisa que quereria tomar conta era de um incêndio, por mais que fosse fascinada pelo fogo.
— Ah, não.— disse negando com a cabeça.
Um não era mais o suficiente.
Tentou acender outra chama antes que a droga fizesse efeito, não deu certo, era quase instantâneo. Amy bufou revirando os olhos, depois chutou uma árvore com toda força que tinha. Talento inútil, não servia para nada além de falar que estava lá! Seria assim, teria que segurar-se o máximo possível para que não notassem que estava no mesmo nível de um moribundo, mas parecia que não conseguiria. Precisava de outro, só um não parecia mais suficiente e lá estava tudo que precisava: os cigarros, as agulhas. As agulhas.
Odiava aquilo, ter um corpo estranho dentro de si, mas precisava. Precisava de mais daquilo, daquela felicidade que só a heroína a dava.
Suspirou quando tirou a trouxa das costas para pegar uma seringa. Examinou-a com desgosto, passando os dedos na tosca proteção de couro firme antes de tirá-la, só estava lá para não furar nada além da pele de quem devia furar. Esticou o braço esquerdo, despindo o casaco sem se dar conta que só sentia-se quente. Com a mão do braço esticado, segurou seus pés para que não se mexesse e ajeitou o êmbolo nos dedos. Não pensava, nem mesmo no soro que esteve tomando na noite. Se precisasse se daria mais, merecia depois de tudo o que aconteceu. Passou o indicador na sua veia para saber onde estava, fechou os olhos para que não visse a agulha entrar e injetou a droga.
Sua consciência pesou por alguns instantes enquanto ela tampava a seringa. Quase nada vencia seu ódio por agulhas, nem mesmo as enfermeiras da escola em dias de vacinação, nem Taiti brava com o atraso dos seus exames de sangue de rotina e aquelas duas coisas eram assustadoras.
Esmeralda… vão estranhar que você não possa usar seu talento. Se você me ajudar, te ajudo.
— Você nunca está em pé de me ajudar.
Isso é mentira. Na prisão te disse que te tiraria de lá e deixaria seu corpo quando estivesse segura, aconteceu alguma coisa fora da minha promessa?
— Vai arranjar coisa para fazer.— ela colocou o indicador na veia do braço, subindo-o junto com a circulação tentado fazer com que o efeito fosse mais rápido.
Não é assim que se fala com alguém que não te fez nada além de bem… façamos um trato: Você continua se drogando que eu dou um jeito de fazer com que ainda possa usar suas cópias, por mais irregulares que sejam.
Estava viciada, não era como se pudesse parar. Fechou os olhos deixando que seu tronco caísse de novo no pátio da igreja. Não sabia por que ele não a deixava em paz, por que não seguia sua própria vida e a deixava viver a dela, mas aquilo não importava. Não poder usar seu talento meses depois dos efeitos das drogas terem passado a colocaria em uma clínica. Não queria nem ver o que Alexandre falaria para ela, o que as notícias falariam dela.
— Fechado.
Muito bem.
Seu corpo passou por dentro do dela, deixando uma nuvem de maldade lá dentro.
Tente.
Amy fechou as mãos em punho, sentindo um calor confortável e as abriu. Uma chama tímida brilhava entre seus dedos, amarela por causa da irregularidade.
Quem ele achava que era para ameaçá-la daquele jeito? Jogaria o jogo dele, conquistaria sua confiança para que, depois, pudesse esfaquea-lo pelas costas. Riu com aquele pensamento, quem ele achava que era? Ficou sem ar por causa das gargalhadas, não conseguia parar. Logo esqueceu do porque ria, concentrando-se só em rir. Seria uma pena se alguma boa família que morava por perto se preocupasse com sua histeria e viesse checar o que estava acontecendo só para vê-la drogada, jogada sobre o pátio da igreja de um Deus pagão. Riu daquilo, imaginando o que os pais teriam que explicar para os filhos, pagaria para ver como colocariam que seu Deus não pode ajudá-la, que deixou-a apodrecer na prisão em nome do bem comum. Colocando-se de pé com a trouxa nas costas, olhou para as poucas luzes acesas na cidade. Cuspiu no chão, irritada com tamanha ignorância, não atreviam-se nem mesmo a cruzar a fronteira de algumas Berlins de extensão, não atreviam-se nem mesmo a nadar alguns minutos dentro do bosque para ver o acampamento humano, nem mesmo isso.
Amy voltou pelo caminho que veio, dessa vez sem frio nenhum, sem medo, procurando por um bom lugar onde pudesse esconder as drogas. Na clareira perto da cabana seria uma boa ideia, só ela ia lá, ninguém saía da trilha para a fronteira.
A cabana parecia vazia demais quando voltou. Perdera toda aquela aura sinistra criada pelo seu fantasma com seu corpo de fumaça, parecia mesmo uma casa. Lavou as mãos na pia como se quisesse arrancar a pele para tirar o cheiro de ópio, mas sabia que nem mesmo um banho de imersão em soda cáustica a deixaria com cheiro de rosas, para falar a verdade, a deixaria sem cheiro algum, já que não sobraria nada dela. Secou os dedos no pano de prato mais próximo, jogando-o com desleixo sobre a pilha de pratos do jantar e bateu na roupa para tirar qualquer resíduo de neve ou grama que grudasse no pano. Só lembrou-se de pendurar o casaco de volta e só lembrou-se de deixar os sapatos ao lado da porta quando seus passos fizeram com que o chão de tacos rangesse. Subiu as escadas com pés de algodão, tomando todo cuidado para não alertar ninguém e abriu a porta do quarto para ver que Taiti não se preocupou nem mesmo em fechar as janelas antes de ir dormir, só estava jogada entre os cobertores e o colchão.
Amy fechou a porta atrás de si, tomando cuidado para que não a batesse e deixou a parte de madeira aberta de qualquer jeito, sentando-se na cama ao lado da esposa. Seus olhos estavam muito abertos para quem estava dormindo, mexiam-se rápido, lutando contra o impulso de abri-los.
— Tai.— chamou passando as costas dos dedos sobre seu rosto.— Falei que não demoraria.
— Só dorme.— ela disse cansada, virando-se na cama para parede.
Amy tirou a mão dela como quando um gato reclama ao receber carinho. Não esperava aquilo, não depois de todos seus pedidos para que ficasse ao seu lado, para que deixasse os meninos a própria sorte e não saísse. Que Taiti não soubesse que Amy não tinha nem mesmo visto o rosto de Noah no andar de baixo, que só saiu para continuar com sua mentira, para que pudesse se drogar em paz. Puxou os lábios para dentro, o que restou do seu sangue caiu para seus pés com o peso da culpa. Não estava mais confiada naquele cubículo, não precisava mais mentir para comer, mas porque não conseguia parar? Por que não só aceitava ajuda para livrar-se do vício?
— Quer que eu durma fora?
— Amy?— Taiti tirou as cobertas de inverno de cima de si para poder olhá-la. O pouco cabelo preto que tinha estava bagunçado por causa do atrito com o travesseiro, seu rosto fino estava amassado e seus olhos inchados por causa do curto cochilo que se permitiu.
— Oi.
— Você está com um cheiro estranho.
Era algo como grama e fumaça, um cheiro forte de ópio.
Ela fez o possível para rir, quase rezando para que não fosse possível deduzir que estava fumando com essa mínima evidencia.
— Fiquei semanas sem um banho decente e a caldeira do complexo ficava perto da prisão, subia muita fuligem.
— O que você falou com eles?— não conseguiu mais esconder seu ciúme, Amy não tinha nem mesmo voltado para segurança que tinha que ter certeza que estranhos estavam bem, tinha coragem o suficiente para esquecer a única pessoa naquele mundo que a amaria de qualquer jeito.
— O que faríamos amanhã.— parecia estranho ela não apresentar preocupação nenhuma com sua prisão.— quer que eu durma fora?
— Fica um pouco comigo de manhã, só até eu conseguir coragem para sair da cama...— Taiti segurou seu pulso, agora podendo olhar para Amy direto nos olhos, ela não conseguia ver por causa da escassez de luz, mas estavam tingidos de um vermelho vivo.
— Você sabe o que o Alexandre vai falar se os meninos-
— Se os meninos tiverem alguma coisa com isso, devolvo eles para o inferno de onde vieram.
— Tai...
— O que é?— Amy sentou-se na cama e colocou a cabeça dela sobre suas coxas.
— Você não é tão má assim.— Taiti deixou sua mão sobre o pijama da esposa, tirando logo depois assustada. Sua pele quase queimava ao toque.
— Você está quente!
— Deve ser uma febre...
— Fervendo!
— Você que está fria.
— Eu estou com calor! Você está bem?
— Estou.— Amy sorriu com sua preocupação, com o jeito que levantou-se para examiná-la sem ter ideia alguma do que fazia, procurando por coisas óbvias como algum machucado ou manchas de catapora.— Mas sempre fui assim, lembra? Eu sou um aquecedor.
— Não nesse nível.— ela já se levantava para pegar o copo de água que deixava em cima da escrivaninha, mas Amy a segurou lá, sem usar muita força.
— Não se preocupa, não deve ser nada.
— Ah não, querida, desculpa. Você está falando para eu, Taitiana Königskraft, não me preocupar?
Amy fez como que ela se deitasse de novo, um sorriso quase permanente no rosto.
— Sim.
— Achei que você me conhecesse...
— Claro que te conheço. Só eu sei que foi você, não a filha da Tina, que comeu todos meus docinhos favoritos no meu casamento.
— Em minha defesa, aquele casamento também era meu.
— E você culpou uma criancinha pelos seus pecados, Taitiana, você acha isso bonito?
— Amy...
Taiti sorriu para ela, tendo que olhar para cima já que Amy estava sentada. Ajeitou sua cabeça sobre suas pernas cruzadas e cobriu-se de novo, só então se dando conta de a quanto tempo não fazia aquilo. Não só quando estava presa, não só quando Alexandre mandava que nada ficasse explicito no reformatório, mas até mesmo em casa, onde regra nenhuma devia existir. Não atreveu-se a se mexer com medo de que Amy mudasse de ideia. Deixou que as mãos dela apertassem seu rosto, brincando com o pouco cabelo que tinha. Taiti fechou os olhos, fazendo que ia dormir, mas estava alerta, fazendo certeza que sentia cada fibra do seu copo, aproveitando ao máximo seu toque, já que não tinha ideia de quando Amy concordaria em ficar de besteira na cama.
Sentiu sua respiração sobre seu rosto e seu peito tocar sua cabeça de leve. Atreveu-se a abrir um sorriso largo, jogando seus braços por cima do pescoço dela, que estava só um pouco acima da sua cabeça. Todo seu cabelo estava jogado para frente, fechando como uma cortina ao lado do seu rosto.
— Fica me devendo aqueles doces.— Amy deixou que aquelas palavras saíssem baixas por causa da proximidade. Suas costas a castigavam por estarem curvadas em um ângulo tão estranhos, por sua dona inconsequente forçá-la naquela posição, então apoiou sua testa na dela, fechando os olhos para que seu cabelo não roçasse neles.
— Faz três anos...
— Faz três anos que estou esperando ansiosamente por esses lindos docinhos que você comeu sem nem me oferecer um.
— Dramática? Imagina...
— Você me ama assim.
— Não posso negar.— riu usando o apoio do seu pescoço para ajeitar-se no seu colo.— te amo assim.
Amy deixou um beijo na sua testa, pressionando as costas dela contra seu peito.
— Tudo o que eu pensava na prisão era em você, meu anjinho.
— É só por isso que fala que não sou má?— Taiti já estava sentada sobre as pernas dela, seus ombros no mesmo nível. Amy segurava suas mãos pela frente do seu corpo, escondendo o rosto na sua curva do pescoço.— eu não sou um anjinho.— falou aquilo só porque algo dentro de si a obrigava, a impedia de ficar quieta. Tinha que dizer tudo o que não podia enquanto esteve longe, tudo que falou para ela em sonhos.— o Nícolas é.
— Ele é o anjo de todos, você é o meu...— Amy envolveu-a em seus braços com força, como se nunca mais fosse deixá-la sair. Inalou seu cheiro, familiar e entrelaçou seus dedos no dela, acariciando-os como podia. Continuavam aquela mistura bela de calos e dedos finos, delicados como se um pouco mais de força que um toque suave pudesse quebrá-los, aproximou-os dos seus lábios, deixando um beijo singelo, a marca da sua boca nela.
Taiti puxou as cobertas que tinham caído para suas pernas e cobriu-se até o pescoço, aninhou-se no seu peito para aquecer-se. Era como se fechasse os olhos com uma boa dose de querer estaria de volta em casa, como se nunca tivesse achado que teria que dar sua esposa como morta sem ter nem mesmo a aliança para enterrar.
Não demorou muito tempo para que dormisse, alheia a quebra dos votos de honestidade enquanto e evidencia corria nas veias de Amy. Seu peito pesou quando deu-se conta de que nunca poderia contar alguma coisa assim para Taiti. Ela a mataria. Não só por ter mentido para ela, a única para quem nunca devia mentir, mas por ter medo do que faria. Se soubesse o porquê seria ainda pior do que se soubesse que estava viciada. Tinha medo de ficar sozinha, de, que se Taiti descobrisse, não teria mais para onde voltara, nem para quem voltar. Seria exatamente como alguns anos atras, mas dessa vez, sem um final feliz.
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