— Amy, acorda!— Taiti a sacudiu na cama insistente.

— Não…— sua voz saiu rouca por causa das horas sem uso. Tentando fugir para seu mundo privado, afundou-se na cama, esperando que Taiti só desistisse.

— Já tá tarde! Anda logo!— ela abriu as janelas deixando a luz azulada da manhã encher o quarto.

— Tarde?— Amy já estava semi acordada.

— Você tem que trabalhar, querida, as férias acabaram.

— Não!— ela apertou o espertador que deixava na cabeceira da cama. Doze de dezembro, oito da manhã.— mentirosa!

Taiti desviou-se de um travesseiro, rindo da cara ela.

— É, Tai, vou trabalhar pro Papai Noel.— agora não teria como voltar a dormir, ela já estava completamente acordada.— oito da manhã? Era isso o que você queria? Oito da manhã em plenas férias de Dezembro?

— Isso que eu acordei as sete! Você não pode ficar dormindo que nem uma porca todo dia!

— Ok, tudo bem.— Amy voltou para de baixo dos cobertores, fechando os olhos só por conforto. Estava tão quentinho…

— Sai daí!— Taiti puxou-a pelo braço, não fazendo força por um motivo que Amy não sabia qual era.

— Eu não tô dormindo!

— Vai mesmo me deixar sozinha nesse mundo hostil? Nesse mundo onde é matar ou morrer? Nesse mundo frio-

— Tai, cala a boca, o aquecedor tá ligado.

— Achei que você me amasse.

— Como eu poderia amar alguém que me acordou as oito da manhã em plenas férias?— alguma coisa clicou na cabeça dela. Algo muito vago, turvo, como tentasse se lembrar de um sonho. Do sonho que acabou de viver. — agora não férias, não é? Doze de Dezembro.

— Uhun.— Taiti sentou-se na cama ao seu lado. Amy ajeitou sua postura. Colocou a mão na parede. Nada. Era para ele estar lá.— por que você está procurando aquela coisa?

— Não era para a gente estar no bolsão?— Taiti tirou a mão dela da parede com um toque delicado.— onde está o Noah?

— No reformatório. Ele acabou ficando com o talento que você deu. De zero para cinco… até eu estou com inveja dele…

— Não, não, não, não, não, espera um pouco. Que talento?— seus pensamentos estavam muito rápidos para alguém que tinha acabado de acordar.— a gente mora longe de lá. Quatro horas de trem. Como que eu não lembro disso?

Taiti olhou-a confusa, visivelmente tomando um tempo para calcular o que devia falar. Não demorou muito tempo para que ela forjasse um sorriso nervoso.

— Eu estava até feliz que você não se lembrava do que aconteceu… foi difícil, sabe? Te trazer de volta…

— De volta da onde?

— Não se preocupe com isso.— toda a expressão séria que ela um dia teve, esvaiu-se como fumaça.— Você só bateu a cabeça forte de mais, até o Mathias achou que você estava em coma. Desastrada como sempre.

— Sério?—Amy tocou sua nuca, só então sentindo a ferida.

— O Alexandre trouxe alguns teleportas quando foi nos buscar. Pedi para que a Tina o avisasse disso, sabia que você estava com saudade de casa…

Anda logo. Acorda.

— Eu já acordei.

— Eu não falei nada.— Taiti rui para ela, oferecendo seu ombro de apoio.— planos para hoje?

— Eu tô um pouco enjoada…

— Tudo bem, um filme então?

— Para quê toda esse pressa?— Amy riu da cara dela, dando-a um empurrão amigável.— conversa um pouco comigo.

— Não dá pra dizer não pra essa carinha…chora coração, o que te aflige?

— Eu tive um sonho muito estranho…

— Uhn?— Taiti brincava com o cabelo dela, colocando o dedo no meio dos cachos.

— O prédio estava caindo e eu tinha que tirar os pugs de lá.

— Certo…— aquilo era rotina, Amy só tinha sonhos estranhos.

— Só que eu estava fugindo do meu fantasma. Ele me pegou. Só que a coleira dos pugs parecia um pé de Ski com zipper e eu não conseguia achar uma para o meu, porque sempre que eu abria tinha um pug dentro.

— Meu deus, Amy… você precisa acordar.

— Mas eu já tô acordada.

—De vez agora. Acorda!— era como se ela não escolhesse direito o que falava, não era como se tivesse qualquer controle sobre isso.

— Tai, você tá bem?— Amy tirou as cobertas de si, mostrando as pernas vestidas somente com o minúsculo shorts de pijama que usava. Ela ajoelhou-se na cama. Olhando confusa para Taiti.

— Acorda, Amy!

Nada.

Nada podia ser visto.

Nada podia ser ouvido.

Nada podia ser sentido.

Era como se ela estivesse flutuando, sem saber o que era seu corpo, o que não era.

Estava quente, macio…

— Amy, acorda.— Taiti sorriu para ela, tirando as cobertas.— você não pode ficar aqui para sempre.

Ela sentou-se no colchão com a sensação de ter tido o sonho mais estranho.

O quarto estava escuro, a pouca luz que entrava pelas frestas da janela era de um laranja quente, era de tarde.

— Deus… quanto que eu dormi?

— Doze horas, são só duas da tarde, relaxa, não passou sua vida inteira dormindo.

Antes mesmo que Taiti abrisse as janelas, Amy pulou para fora da cama, saindo do quarto. Tudo estava em seu devido lugar, seu apartamento estava estranhamente arrumado, limpo, até mesmo as bugigangas DIY estavam belas, não era como se tivessem sido feitas por mãos humanas. Pelo menos, não por suas mãos.

— Você fez tudo isso sozinha?

— Cortesia da casa.— Taiti riu, apoiando-se preguiçosa no ombro dela.— não vou mais ter que fazer limpeza por anos, feito?

— Por que você fez isso?

— Não posso mais querer te agradar?

— Você nunca faria isso! Tai, o que tá acontecendo?

— Você tem que acordar Amy!

Nada

Nada podia ser visto, nada podia ser sentido, nada -

— Você é mesmo uma vadia insistente…— era como se o escuro falasse. Aquela voz, idêntica à dela, vinha de todos os lugares e lugar nenhum ao mesmo tempo. Amy sabia que era a dele, mas não parecia, era como se um amigo de longa data a chamasse, como se esse amigo pedisse com uma voz tão gentil para que ela se matasse, que não tinha outra opção, se não fazê-lo. — tem ideia de quantos cenários diferentes eu tive que criar? Mais de cinquenta! Foi você quem quebrou as correntes, devia saber que isso aconteceria!

— Covarde!— mesmo que ela não usasse suas cordas vocais, gritou com toda força que tinha. De algum jeito, sua voz ecoou por toda sua mente, voltando quase que como um insulto.

— Você sabe que vai precisar das drogas quando voltar, não é? Sabe que vão estranhar que um classe cinco não possa usar talento algum. Quer saber o que vai acontecer?

Sem que ela respondesse, uma névoa foi criada bem na sua frente, mostrando-a passando mal, assustando os outros durante sua crise de abstinência.

— Eu sou melhor que isso.

— Não é não! Você precisa das drogas. Eu posso dar um jeito nisso.

O fantasma pegou um guarda moribundo pelo pescoço, extraindo informações dele. Quando soube onde os cigarros e as seringas estavam, soltou-o e passou veloz pelo corpo de outro, dando-o ordens de encontrá-la na entrada da floresta, na noite daquele mesmo dia.

Se ele a tratava como uma criança ingênua, Amy devia fazer o mesmo.

— Você não tem ideia do que vai acontecer se te pegarem.

— Esmeralda, querida…— o fantasma jogou sua fantasia fora, assumindo sua forma verdadeira para falar com ela.— eu estou dentro da sua mente, tenho acesso aos seus pensamentos mais íntimos. Não pense que vou cair nos seus truques, qualquer que sejam. E quanto aos Dynamos. Eu tenho um plano para eles, não se preocupe. Só dance comigo…

— Você é doente!— ela investiu naquela imagem, tentando para-la com força bruta, mas seu corpo esvaiu-se como fumaça.

— Não, minha querida. Eu sou a doença.

Aquela coisa sorriu.

O sorriso mais asqueroso que podia.

Sorriu por causa da sua dor. Por causa do seu desespero.

Era quase como música para seus ouvidos. Uma ópera agradável.

Seus pulsos estavam ligados aos dele pelas correntes que pediu para Taiti colocar. Estavam firmes, sem sinal algum de ferrugem, se ela só conseguisse cortá-las, cortar sua conexão com aquele demônio.

Ele voltou para o mundo real.

Taiti estava em guarda, tinha todo o arco-íris de cores de metal nas suas chapas. O cobre da fiação rudimentar, o estanho reluzente dos brasões e até mesmo o ouro das colunas. O salão que um dia foi belo, estava em pedaços. Parte do teto havia caído, algumas colunas sucumbiram com impacto de rochas, metal, água e até ele mesmo.

E claro, lá estava Noah. Um idiota com poder de deus.

Seria essa a hora? Ninguém parecia exausto, mas ele sabia que a sensação de estar quase acabando revigorava qualquer ânimo.

Não… ele queria brincar mais um pouco.

Não sobraram moribundos naquele complexo, ele já tinha matado todos. As escolhas o dariam combustível de sonho por uma eternidade, fechando as paredes, baixando o teto em chamas… bem devagar, mas sabia que os humanos mereciam um espetáculo maior. Quem sabe jogar com suas mentes, com essa ideia que tinham de moral…

— Esmeralda, o que me diz sobre…— o fantasma estava com sua forma mais uma vez.— me ajudar a brincar um pouco com eles?

Ele fez um movimento rápido, prendendo seus braços com as correntes, fazendo uma trava forte. Foi rápido de mais para que ela pudesse ter qualquer tipo de reação.

Era como poder respirar respirar de novo. Como tirar uma mochila pesada das costas. A definição de alívio. o mundo estava claro demais para seus olhos que estavam acostumados com a escuridão, foi doloroso voltar a ver, tanto que tudo foi tingido do mais puro branco por um tempo. Quando conseguiu, viu uma cópia de si mesma aproximar-se de Taiti, Alex e Noah, órbitas vazias.

Aquela coisa ainda a mantinha sobre sua mão de ferro, ainda controlava o que falava, o que fazia, ignorando sua vontade.

— Não ataquem!

Taiti não se deu ao luxo de baixar a guarda. Só olhou para ela, perguntando-se se aquilo era mesmo de verdade.

— Ah, querida Taiti…— ele aproximou-se demais dela, ultrapassando uma barreira invisível que pouquíssimas pessoas tinham acesso.— não há ninguém nesse mundo que eu goste mais que você, sério, do fundo do coração.— ele fechou a mão no peito, sorrindo convencido para ela e Noah.— então vim propor um trato. Você é a única que pode falar que sim ou que não.

O fantasma não continuaria até que tivesse uma resposta. Ela cruzou os braços, olhando eventualmente paras correntes que ele usou para prender Amy. Tinha que tirá-la de lá. Só com sua cooperação que Noah poderia fazer alguma coisa.

— Anda logo.— não tinha como ela colocar mais ódio em uma única fala.

— É mais simples do que pensa…— ele andou até Amy, passando os dedos leves pela sua cabeça.— saio dela, cem por cento. Paz. Mas sabe, isso significaria que eu ficaria sem corpo algum… sabe onde eu quero chegar…

Ele subia e descia as sobrancelhas, os pontinhos brancos no meio das suas órbitas encarando-a no fundo da sua alma.

Se realmente há um deus sobre as nuvens, que ele a ouvisse, só aquela vez.

Taiti olhou para Alex, esperando que, por alguma mutação, desenvolvesse telepatia para que pudesse mandá-lo devolver pelo menos os talentos elementares para Amy. Ele nem mesmo retribuiu seu olhar. Então virou-se para Amy, ela suplicava para que aquela oferta fosse recusada, sabia o que aquele demônio faria, sabia que Taiti não aguentaria uma coisa como aquelas. Nem ela mesma aguentava.

Bem. Um por todos e todos por um.

Taiti soltou as correntes que prendiam Amy, as que a deixavam imóvel. O fantasma olhou para elas, os pontinhos brancos tinham o formato de pequenas chamas. Ele investiu contra Amy. Precisava voltar. Se perdesse sua hospedeira, seria seu fim.

Ela teve que tirar forças de algum último lugar que ela não sabia que tinha pra usar os metais da corrente para bloquear seu caminho. Empurrou-o para longe com aquela chapa de metal. Olhando para Noah que não tinha ideia do que fazer.

— Você não passou nada?— ela perguntou para Alex.

— Eu não sabia o que passar!

— É inútil, Esmeralda. Você sabe que é.— o fantasma jogou sua fantasia fora, assumindo sua forma verdadeira.— mesmo se conseguir me prender de novo, vou fazer com que me solte. Vou fazer com que se mate!

Ela inspirou, expirou, estralou a juntas do pescoço e olhou para ele com o ódio que recebia.

— Pode vir.

Ele gritou com toda força que tinha, uma passagem por ela era tudo que precisava. Só uma. Só uma para acabar com aquela vida miserável da feiticeira arcana. Quando a tivesse sobre seu controle, não pensaria duas vezes. A mataria. A transformaria em um demônio.

Amy fechou os punhos, pegando o metal das correntes e o de Taiti. Não chegou tão longe para morrer na praia, tinha que para-lo. Por mais que Taiti quisesse, Noah e ela mesma eram os únicos que podiam fazer alguma coisa.

E ele vinha.

Vinha sedento por seu sangue.

Alguma coisa parou o fantasma no meio do caminho. Correntes com um brilho branco, quase angelical. Ele olhou para trás. Noah… aquele idiota, moribundo, não entendia o porquê de terem dado o poder de um deus para um ser tão pífio, tão inútil.

Com força, fez com que elas se quebrassem. Como imaginou, ele era fraco, não conseguia nem mesmo criar uma corrente resistente o suficiente para contê-lo.

— E você, falso domador de bestas, não meta-se nos assuntos que você não entende nada!

Sem sua hospedeira, ele não tinha talento algum. Toda aquela sensação de invencibilidade tinha ido embora, mas não podia mostrar isso. Seria como dar sua possível vitória de bandeja. Ele avançou para Noah com as correntes nas mãos, pronto para desferir o golpe de misericórdia. Mesmo que tivesse falado que não, mais algumas tentativas e ele seria uma ameaça. Não podia esperar que aquilo acontecesse, Amy sozinha já seria um problema dos grandes, o qual ele duvidava que, agora, conseguisse resolver. Antes que ele chegasse perto de Noah, ela o parou, usou as chapas de metal para bloquear seu golpe.

Amy quase não estava mais firme nas suas bases, os narcóticos ainda corriam pelas suas veias, um debilitante sedutor, drenando o resto das forças que tinha. Estava drogada. Nunca sentiu-se tão enjoada com um único pensamento. Estava mesmo drogada. Tinha que terminar com aquilo. Se caísse agora, estaria condenada. Não aguentaria por muito mais tempo, sabia disso. Suas pernas não estavam mais sólidas que macarrão cozido. A ideia de ainda ter que lutar, mesmo que só por mais um tempo, acabava com ela.

Um último tiro. Se não conseguisse, só podia rezar para que Noah a ajudasse, só mais uma vez.

Seu fantasma voava para perto dela como uma bala. Tinha pouco tempo.

Que aquelas malditas aulas forçadas que teve sobre runas servissem para alguma coisa.

Amy desviou-se dele, piscando forte no processo. Via sua aura, um buraco negro naquele tecido roxo escuro. Era tudo o que via. Com força, cravou as mãos no chão, fazendo um círculo cheio de desenhos estranhos em baixo relevo. Aquilo brilhou, quase que como um holofote, cegando a besta, fazendo com que gritasse. Sua pele queimava com o mesmo som de metal quente sendo colocado em água fria. Ela não queria nem mesmo imaginar sua dor. Noah não precisou de instrução. Criou outras correntes, brilhantes como aquele círculo. Passou-as pelo corpo do fantasma, fazendo uma trava firme. Uma, duas, três voltas, nó de marinheiro ou talvez só fios emaranhados. Ele não conseguiria mais se mexer.

Noah não sabia mais o que fazer. Aquela coisa já estava presa, mas de algum jeito, sabia que ainda não tinha vencido, sabia que, se aquilo quisesse muito, poderia soltar-se.

— Corta essa droga!— Amy estava de joelhos, forçando-se a manter o círculo ativo. Não parecia que era mais sangue que corria por suas veias, era um líquido branco que brilhava prateado por debaixo da sua pele. Noah teria combustível de pesadelos para uma vida inteira com aquilo. Ela quase não parecia mais um ser humano, mas sim, algo além.

Taiti não esperou que ele fizesse alguma coisa. Pegou o metal que Amy tinha deixado cair e bateu com toda força que podia colocar no fim daquela corrente.

— Eu nunca vou te deixar em paz, Esmeralda. Nunca!— o fantasma estava corcunda novamente, olhando-a no fundo da alma quase como se a almejasse.

Ela não ouviu aquilo, só usou o resto da força que tinha para tirar a mão do círculo, desativando-o.

— Amy!— Taiti ajoelhou-se na frente dela, segurando seus ombros.— Amy, fala comigo!

— Ela morreu.— o fantasma ainda pairava por cima dela, tal como a sombra da morte.

— Alex, chama o Mathias!

— Ele está cuidando dos moribundos.

— Eles vão ter outros filhos. Ela não vai nascer de novo.— ela sabia que não devia ter falado aquilo, sabia que foi mal-visto, mas era o que pensava de verdade e o filtro do politicamente correto tinha caído em algum lugar da batalha.— Amy, respira, pelo amor de deus!

— Já te disse, Tai, ela morreu.— se ele pudesse cruzar os braços e pairar sobre o ar, como em uma piscina, faria.— aceita que é mais fácil. Você está segurando um cadáver.

— Cala a sua boca! Volta pro inferno!— não queria que os outros a vissem chorando, mas não sobrou muito auto-controle para que conseguisse fazer alguma coisa.

— Deita ela. Ele está vindo.— Alex gritou só com sua cabeça visível pela curva do corredor.

Taiti fez o que ele mandou, tomando todo cuidado para não descê-la rápido de mais. Pelo menos seus olhos não estavam abertos, sem movimento, estavam fechados, o que a dava a mínima esperança de que ela estivesse só inconsciente, dormindo de exaustão.

— Tai, ela morreu. Olha. O coração não está mais batendo, ela não está mais respirando…

— Faça um favor para você mesmo e se mata!— Taiti segurou a mão dela, curvando-se sobre seu peito.— Desculpa eu não ter chegado antes, me perdoa, Amy… eu juro que eu procurei, quase foi para capital. A Tina não tinha conseguido te achar, eu não sabia para onde ir!

— Ela não vai te perdoar. Você cortou o braço dela fora, o dela ou o meu…? Não sei, acho que o dela. Você não tem ideia do quanto doeu…

— Fica comigo, ok?— seus joelhos estavam em carne viva no chão, cacos de vidro machucavam sua pele, mas ela não conseguiria levantar.— não tem nada do outro lado, nada que valha a pena. Amy, por favor…

— Tai, sai de perto.— Mathias a empurrou para longe, o que quer que tivesse que fazer, tinha que ser rápido. Tudo o que aconteceu com o fantasma enquanto eles lutavam, passava pra ela, mesmo com o a resistência do demônio com seu corpo de fumaça, ele ainda tinha ossos, talvez alguma coisa dentro dos ossos e, principalmente, tinha usado o sangue dela quando Taiti tinha cortado seu braço fora.

— É tudo culpa sua, Tai…— ela não sabia se era a única que ouvia aquilo. Se não, os outros fingiam muito bem.— o único motivo por ela estar assim é porque você a abandonou, a machucou como faria comigo… a culpa é sua por ela estar morta.

— Já que você encarnou em mim agora, não sabe como ela está. Está só mentindo.

— Silêncio, por favor!— Mathias olhou-a irritado, as mãos sobre o peito de Amy.

— Você não precisa falar para que eu te ouça. Quando ela estiver melhor, se melhorar, volto para lá, você era só a pessoa mais próxima. Não se sinta especial.

Quando aceitou aquele trabalho, não achou que seria tão arriscado. Claro que estava ciente de que não seria um passeio no parque, mas aquilo…? Aquilo não estava nem nos seus pesadelos, muito menos no contrato. Quando se encontrasse com Alexandre, ele seria um homem morto.

— Ele está perdendo-a…— Taiti encarava Mathias sem realmente vê-lo. Suas mãos brilhavam e passavam pelo corpo dela, levando sangue, consertando ossos, talvez.— ele não vai conseguir, Tai.

Noah aproximou-se dela, sentando-se ao seu lado. Seu cabelo e ombros estavam sujo de pó de concreto, ele parecia destruído, exausto.

— Noah…— era quase como se ela estivesse aprendendo a falar seu nome.

— O que foi?

— Obrigada.— ele olhou-a confuso. Fazia poucas horas que ela quase o matou.— eu sei que eu te pedi muito, mas mesmo assim, você fez… obrigada.

Ele não respondeu. Só encarou o suposto corpo a sua frente. O vestido azul marinho que usava estava ainda mais rasgado do que antes, seu cabelo estava esparramado pelo chão, quase que como sangue marrom. Ela estava morta. Parecia morta. Não tinha como alguém ter sobrevivido a uma coisa daquelas. Seria besteira ainda colocarem o mínimo de esperança que ela estivesse viva.

— Você reza?— Noah tirou uma pequena cruz do peito, estava presa em um cordão quase invisível. Todos que conhecia rezavam, mas aquelas pessoas era exceções a todas as regras que podia imaginar.

— Não sei rezar.— nunca aprendeu para ser sincera. Não havia igrejas fora do bolsão. Religião era algo irracional, coisa dos moribundos.

— Acha que vai ajudar? Se quiser, te ensino.— não faria diferença para ela, mas talvez ajudasse Noah a não ter combustível de pesadelo por uma eternidade. Ele pegou sua mão e segurou a cruz com força, fechando os olhos.—Pai Santo, nós vos pedimos por aqueles a quem chamastes deste mundo. Dai-lhes a felicidade, a luz e a paz. Que eles, tendo passado pela morte-

— Ela não morreu!— ela gritou chorando.— para de falar isso! Ela não está morta.

— Tai, cala a boca!— Mathias gritou irritado sem tirar os olhos de Amy.— ainda não, mas não dá pra ter certeza... droga, sem pulso!

— Você é um médico, faça a coisa!

— Segura a cabeça dela para cima.

Ela fez o que ele mandou, tomando todo cuidado para que ela não sentisse dor nenhuma, mesmo inconsciente. Mathias focou no seu peito, a luz quase o cegava. Se estivesse em uma sala de cirurgia, colocaria um pano por cima, mas lá... lá ele ficaria feliz se ela saísse viva. Como no fantasma, suas costelas estavam quebradas, ele teria que cuidar daquilo antes de ressuscitá-la. Por mais que tivesse estudado, não podia fazer com que seu coração voltasse a bater só com seu talento. Se pelo menos tivesse um desfibrilador... metade dos seus problemas estariam resolvidos.

— Ela está morta, Tai, eu a matei.

Não podia falar coisas como: Só agora, me deixa em paz, porque era só agora que estava com ela. Era só agora que tirava seu sossego.

O rosto do de Amy não estava frio, mas também não estaria com tão pouco tempo passado depois da sua morte. Ele estava molhado, pontilhado como gotas de chuva. Ela não se movia, nem se preocupava em secar as lágrimas alheias, só deixou sua cabeça cair nos joelhos dela, respirando menos do que devia.

Quando Mathias terminou de consertar o mínimo para que pudesse fazer qualquer coisa, soltou os braços rápido, fechando as mãos juntas como um coração sobre seu peito. A última vez que tentou ressuscitar alguém, não deu muito certo. Era um soldado, do mesmo jeito que Amy, lutando em uma guerra distante, o coração batia pela nação. Era triste que tivesse parado por ela. Era tanto sangue... tinha que tirar aquilo da cabeça. Não havia sangue algum, Amy precisava dele, lá, com a cabeça no lugar.

Assim que Mathias começou a comprimir seu peito, Taiti descobriu o porquê de ter que segurar a cabeça. Já que seus músculos já não exerciam mais força nenhuma, ela bateria no chão.

A última coisa que Mathias queria era perder mais alguém nas suas mãos. Era a pior sensação do mundo.

— Vamos lá, Amy, faça uma forcinha— sua voz estava cotada pelos pulsos que fazia com os braços. Ele estava quase sem fôlego, mas precisava continuar. Era sua obrigação. Não podia desistir. Por ela.

Ele conseguiu. Ela tinha pulso!

Mathias suspirou aliviado, colocou os dedos sobre seu pescoço. Amy estava respirando, seu coração estava batendo... fazia tempo que não sentia-se tão aliviado.

— Você conseguiu!— Taiti não sabia para quem falou aquilo, mas esperava que os dois tivessem ouvido.— Mathias, nem sei como te agradecer!

— Ainda faltam algumas coisas. Continua aqui, senhora amuleto da sorte.

— Claro!— ela sorria boba. Aquele rosto parecia um pouco menos pálido.

Ele continuou passando a luz pelo seu corpo, jogando todo o pudor fora. Se algum dia ela reclamasse por ele ter segurado seu ventre para para sangramentos, ela que teria problemas.

— Tai, coloca ela em uma maca. Ela vai viver. Do resto eu dou conta na cabana.

— Como é que não seremos barrados por moribundos? Eu estou nua para eles.

— Aí é com a Tina, me dá um tempo que eu tô quebrado!— Mathias deixou-se cair no chão de concreto enquanto Taiti colocava algumas chapas de metal por baixo do corpo de Amy. Claro que ele merecia aquilo. Incontáveis moribundos queimados e uma classe cinco espelho com um demônio de sobrecarga. Aquilo não era para qualquer um.

Ele riu olhando para o teto. Todo seu corpo doía, seus braços ardiam por causa do esforço e quando ele fechava os olhos, tudo o que ele podia ver eram aquelas feridas feitas a fogo, pedaços de roupa fumegantes e a indecisão dos moribundos ao verem que uma aberração os ajudava. Aquilo não estava em acordo nenhum. Em nenhum contrato que assinou. Ele não precisava tê-los ajudado, mas ajudou. Pensava que talvez assim eles facilitassem um pouco seu trabalho, que era só tirar humanos de lá. Talvez... sonhar não custava nada, nem nunca custaria.

Tina tinha entrado na sala, ocupada em embeber o salão em uma névoa cinza espessa, marcas de queimado surgiram nas paredes, simulando um acidente a gás. Não é que aquela menininha era inteligente? Se os soldados foram queimados, seria lógico fazer a mídia achar que houve um incêndio no lugar.

Ela abaixou-se perto de Taiti que subia a maca improvisada de Amy com os máximo de cuidado possível.

— E ela?

— Vai viver. Você consegue me cobrir?

— Me paga depois?

— Pago.—Tina riu dela, soprando as mãos e abrindo-as na sua frente. Na próxima piscada que Noah deu, não havia mais ninguém onde as duas deviam estar, nem mesmo uma sombra.— eu estou cega!

— E também invisível. Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades. Segura em mim até a floresta, daí tiro a névoa.

—Por que eu tenho quase certeza de que você vai me deixar assim para sempre?—era como se o ar falasse, mas, ainda assim, era a voz dela.

Como Noah previu, as ruas estavam um caos. Moradores próximos ao complexo amontoavam-se perto dos trilhos do bonde para saber o que acontecia. Era triste que nunca teriam a mínima ideia de que foi um demônio, não uma explosão a gás qualquer, criada por tolo que fumava ao lado de um vazamento. Deus, um demônio... não podia acreditar que uma menina tão bela pudesse transformar-se em alguma coisa como aquilo, Seria aquele seu talento? Destruição? Por isso os moribundos não sabiam sua classe? Ele não queria pensar que Amy era como os demônios que aprendeu na igreja, enviados pelo próprio satã. Principalmente porque eles eram pessoas pagãs, não poderia ajudá-los nem se quisesse muito. Mas ajudou, não é mesmo? Acorrentou aquela besta com um talento emprestado, então aquilo talvez não fosse o que achou que era. Todavia, aquele ainda podia ser seu talento, transformar-se em uma besta.

Por sorte, ninguém os parou por nada, nem chegaram perto o suficiente para esbarrar em Taiti ou em Amy. Pelo menos no caminho de volta tiveram um pouco de paz. Mathias ainda estava um caco, quando chegasse, pegaria qualquer coisa que encontrasse na geladeira e só colocaria para dentro, sem preocupar-se com seu antigo dono, depois, se o dessem um pouco de sossego, dormiria até segunda ordem. Sabia que acordaria com o corpo doendo e que não poderia usar seu talento para concertar aquilo, mas sonhava com cobertores e uma cama fofa, quentinha, com o quarto sendo aquecido pela chaminé de latão que levava o calor da lareira para cima... era tudo o que queria.

— Já que a Taiti não pode falar agora, Noah, eu agradeço por ela.— Tina sorriu para ele com as mãos nos bolsos tentando justificar a marca fantasma no vestido.

— Sem problemas!— ele forçava-se a manter a formalidade. Só conhecia aquelas pessoas a um dia. Só não os chamava por senhor ou senhora alguma coisa, porque não tinha ideia de seus sobrenomes, além disso, seria indelicadeza perguntar. Elas deviam se apresentar ou serem apresentadas. Bem, sabia o de Amy, Königskraft, força do rei? Ele não deu atenção para aquele detalhe, sobrenomes eram as primeiras coisas a serem estranhas, ele mesmo tinha um sem sentido: Evelyn. Conhecia pessoas que tinham Benzin como segundo nome, Rüstung também era comum. Saiam de onde seus bisavós trabalhavam, não tinham conexão nenhuma com seu usuário atual.

— Não, tem sim um problema...— ela, de algum jeito, seguia as regras de educação com as quais Noah cresceu. Cruzava as mãos delicadamente sobre o colo, com a coluna reta e o queixo erguido, exibindo seu chapéu para todos que quisessem ver.

— Se a Amy não aguentar, não terá ninguém para te dar um talento. Alex está pensando em passar o dela para você.

Taiti não disse nada, só puxou a saia a outra, medindo a força para não rasgá-la.

— Você está bem, querida?— Alex perguntou tomando-a pelo braço.

— Sim, acho que foi só meu problema de coluna.— moribundos passavam perto, tinham que encenar bem. Seria inaceitável ver uma mulher solteira andando sozinha por aí.

— Você precisa tratar-se...— ele fingiu estar preocupado.

— Farei assim que possível.—Tina parou subitamente, fazendo com que Taiti esbarrasse com força nela. — de vez em quando não acredito que a juventude tenha tão pouco controle sobre suas palavras.

Taiti sabia que não podia falar nada, que seria pior se descobrissem que Tina era uma Dynamo do que se ela ficasse quieta até chegarem na floresta. Tinha que fazer aquilo, por Amy.

— Enfim, senhor...— Tina olhou para ele esperando uma resposta.

— Evelyn.

— Enfim, senhor Evelyn, já que já aguentou um classe cinco, não há motivos para não aguentar outro.

— São todos iguais?— ele perguntou confuso.

— Em sua essência...

Eles já estavam chegando na floresta. Tomaram todo cuidado para que ninguém os vissem cruzar a fronteira proibida. Tina até mesmo deixou uma nuvenzinha singela pronta para encobri-los em caso de emergencia. Quando estavam seguros cercados pelo mar de pinheiros e eucaliptos, ela desfez todas as ilusões que criou, descobrindo Taiti e a maca de Amy.

— O mundo é lindo!— ela gritou olhando para o céu.— nunca me cegue novamente!

— Eu criei uma ilusão para que você ficasse invisível. Isso significa que nenhuma luz entra nos seus olhos, porque ela tem que passar pelo seu corpo todo, então não reclama, ainda não sei como quebrar as leis da física.

Taiti mostrou a língua para ela, puxando a maca de volta para cabana. Quando chegara, Leandro já estava à espera, contemplando a placa que ficava ao lado da porta.

"Um lugar seguro para aberrações, todas serão bem vindas" em baixo, com uma cor um pouco desbotada e com uma letra diferente " a não ser que você queira tirar com a gente, então é melhor correr."

Ele suspirou quando os viu, olhando para Noah com uma mistura de pena, preocupação e inveja, depois para Alex, que estava ao lado de Taiti e deixou os ombros caírem.

— Vocês acertaram. Sou filho do leiteiro.— ele fez o possível para rir daquilo.

Noah olhou para ele confuso, inclinando a cabeça para o lado.

Alex só estendeu a mão para Taiti, que foi forçada a bater nela, como se desse dinheiro.

— Não tem jeito de um elementar ser irmão de um arcano sem que a mãe tenha pulado o muro.— ela admitiu derrota.

— Arcano?

— Ou alguma coisa assim, não acho que seja um arcano.

— Não tem como ele ser um arcano, demente! Não têm arcanos abaixo de classe quatro e ele é um classe um! Menos até.— Alex e Taiti discutiam aquilo como se fosse uma questão de vida ou morte.

— Como?

— Ele não é um animal para ser classificado.— Tina falou rápido, olhando para baixo e baixando as mãos junto.— só vamos colocar todos para dentro, depois falamos do que quisermos.

Nícolas continuava quieto, os olhos castanho-claros fixos no piso de chão batido, não os levantava por nada e mordia os lábios até sagrarem. Alex prometeu-se que falaria com ele depois, sobre o que quer que o incomodasse, mas não lá, não com tantas pessoas por perto. Só queria que o anjo se sentisse bem, mesmo depois de ver o inferno na terra.

Mesmo depois de saber de onde vinha, Leandro não conseguia parar de pensar em quem que tinha escrito as últimas linhas naquela placa. Ele entrou logo atras de Amy, vendo algo estranhos nos seus dedos, marcas de carvão queimado, modelado, bem na ponta de seus dedos, como garras afiadas. Então aquela era a famosa Amy, um demônio.