O que fazer quando o céu cair
2 Ou Talvez nem tanto
Inspire, respire, você está fazendo mais bem do que mal.
— O que você está fazendo aqui?- o segurança da prisão o perguntou, fazendo o mínimo de esforço para olhar para ele enquanto tentava terminar o que estava fazendo antes de ser interrompido.
— Preciso ir na delegacia.
— Para…?
— Um conhecido meu tem um talento, quero visitá-lo.
— Não se fazem visitas na delegacia, as celas estão na primeira curva à esquerda. Quando você sair, terá que prestar depoimento sobre o que fez lá, tudo o que falar poderá e será usado contra você.- o jeito como ele falou aquilo denunciou sua vontade contagiante de estar trabalhando naquele momento e sua irritação com a ignorância do visitante a sua frente, mas pelo código de conduta para o qual jurou lealdade, era obrigado a ajudá-lo.
— Obrigado.- em outra situação, Noah não agradeceria um comportamento como aquele, mas já não estava passando por um dia normal, qualquer coisa que lhe fosse minimamente familiar seria bem vinda.
Ele seguiu pelo caminho de mármore e calcário polido que o segurança falou que devia ser seguido. Aquele braço do imperador se estendia muita além da capital com pequenas construções como aquela, essas só serviam para mostrar uma mínima parte do poder que o estado tinha, como seu próprio monarca disse. Se aquilo era uma amostra, Noah pagaria para ver como seria o castelo na capital, mas não conseguia concentrar-se nisso. A conversa de antes recusava-se a dá-lo trégua, nem parecia que daria em pouco tempo. Não queria pensar em como seu irmão o olhou, todo aquele medo… era como se sua alma tivesse saído do seu corpo, ido para o dele e voltado para seu lugar original, trazendo consigo todo seu medo de ser traído, traído pelo seu próprio irmão. Seus ombros ficaram mais pesados com esse pensamento, como podia fazer aquilo? Tinha que fazer, não podia parar agora.
Quando chegou perto da curva, Noah pôde ouvir uma mulher chorando, não sabia se tinha alguém para ampará-la, mas essa pessoa não poderia ser ele, um completo estranho. Infelizmente essa mesma mulher estava onde ele precisava ir. Ela estava apoiada na mesa do outro guardião da porta, murmurando alguma coisa para ele, mas não recebia resposta nenhuma, então o que quer que fosse, era inútil. Seria irracional continuar lá, mas ela continuava, pedindo por alguma coisa que Noah não conseguia entender.
— Senhora, eu sinto muito pelo que aconteceu, mas preciso que você entenda que, mesmo que isso não tenha vindo de você, seu filho ainda é muito perigoso para continuar solto.
— Besteira!- a mulher gritou, mas achou que o volume da sua voz estava alto o suficiente, então aumentou-o antes de gritar novamente.- Besteira! Me devolve o meu filho! Eu quero o meu filho…- ela caiu da mesa, cobrindo o rosto com as mãos, quando viu que Noah a assistia, pensou em pedi-lo ajuda, mas lembrou-se de como o guarda falava, era inútil, seria inútil.- eu só quero o meu filho, por favor, ele está sozinho, ele precisa de mim.
Noah fechou os olhos e virou a cara, não queria ver nada como aquilo, mas pior ainda, não conseguiria ser a causa daquilo.
Depois de um tempo, o guarda conseguiu convencer a mãe a deixar a porta da prisão, só depois conseguiu falar com Noah.
— Para quem é a visita?
— Eu não sei o nome, foi alguém que me deu meteu em problemas alguns dias atrás.- era difícil mentir para um policial, mas depois do que viu… não conseguiria ver sua mãe naquele estado, não sabendo que a culpa seria sua. Ele cruzou os braços, cravando as unhas na pele na falha esperança de acalmar-se.
— Você está com metal, água, sementes ou alguma coisa do tipo?
— Não, nada.
— A agulha é esterilizada e descartável, relaxa o braço.- o policial tirou uma seringa cheia de algo roxo claro da gaveta da sua mesa e injetou seu conteúdo no braço de Noah, colocando um cronometro para funcionar logo depois. Claro que eles tinham que checar se não era uma aberração, se fosse, o esforço para conter uma fuga seria muito maior do que o feito para sua prevenção.
Depois de ter feito tudo aquilo, o guarda sentou-se novamente atrás de um monte de papeis e apoiou a cabeça nas mãos.
— Dia complicado?
— Coloca complicado nisso, três aberrações rebeldes e um cara da nobreza. Aquela era a mãe dele, parece que nem mesmo o dinheiro consegue comprar o silencio.
— As paredes sempre tiveram ouvidos.
— Mas nenhuma boca. O que você vai fazer nessa visita?- aquilo não era parte de nenhuma anotação, mas ele sempre se interessou em ouvir as histórias de quem entrava por aquela porta. Noivos, noivas, pais, mães e, de vez em quando, pessoas que só queriam tirar satisfação com aquelas pessoas tão odiadas. Algumas estavam bêbadas, mas eles tinham que deixá-los entrar de qualquer jeito, os prisioneiros tinham que saber que as defesas deles eram boas o suficiente para liberar sempre a entrada de visitas.
— Eu quero saber por que ela me atacou.- que essa história seja convincente.
— Serem o que são já os tornam animais.
— De qualquer jeito…- Noah não conseguiu mais falar depois de ouvir aquilo. Animais? Se as aberrações fossem como animais, o que seria seu irmão? Ele não era um animal, com certeza não era. Ele pensava, amava e conseguiu controlar seu medo quando Noah o pegou brincando com fogo. Um animal não conseguiria fazer aquilo. Leandro era tudo, menos um animal.
Muito pouco tempo depois disso, o cronometro tocou, o soro não o matou, Noah estava limpo.
— Você tem vinte minutos.- o guarda destrancou a porta, fechando-a a chave logo depois dele entrar.- Mais que isso eu chamo os guardas
A prisão era completamente diferente de como ele achou que fosse, achava que veria algo parecido com as prisões para criminosos "normais", talvez ligeiramente pior, mas aquele lugar parecia uma cova por si só. O ambiente era escuro e o simples ato de respirar já era difícil, o ar parecia tão rarefeito quanto no topo da montanha mais alta do mundo, na fronteira entre a terra e o espaço. Noah teve medo de que fosse impossível de respirar dentro das celas. Ele não queria imaginar que pessoas como o seu irmão esperariam para serem julgadas em um lugar como aquele aquele. Deuses, pessoas como Seu irmão…
Não! Esse é um pensamento inútil! Isso era a última coisa que ele precisava. Foco, Noah, você só tem vinte minutos.
Acima das maçanetas de mão única havia fotos e dados de quem estava dentro das celas. Nome, mesmo que ele achasse que esse fosse negligenciado, idade, caso tivesse mais que dezoito, o emprego e de onde veio. Quase todos tinham nomes de cidades dentro do estado, mas alguns, muito poucos, tinham indefinido. Indefinido… de onde seria isso? Pessoas que renegaram a pátria por conta própria para que sua prisão não manchasse no nome? Não, essa seria a solução mais óbvia, portanto a menos provável. Mesmo se tivessem feito isso, sua vontade seria a última coisa a ser ouvida. Isso significava que nem mesmo o império tinha o registro dessas pessoas? Mas como? Será que os pais viram sinais da possível mutação logo após do parto e decidiram esconder a criança? Ou talvez…
Noah chegou no final do corredor antes de decidir em que porta entrar. Não tinha muito tempo para escolher, tinha que ser rápido. A porta ao seu lado esquerdo tinha a foto de uma mulher morena com olhos de quem estava pronto para matar ou morrer.
Amy Königskraft
Idade aparente: 26
Ocupação: Desconhecida.
Local de origem: Desconhecido.
Classe: Ainda em estudo.
Ainda em estudo?
Última porta. Ela tinha que saber de alguma coisa.
O mais estranho de tudo não foi o pensamento de ver uma aberração, mas sim, ter que reunir coragem para abrir a porta, para incomodá-la.
A cela estava cheia de seringas vazias e restos de cigarros amontoados em um canto. O quarto não tinha mais que uma espécie de maca improvisada com retalhos de pano em cima e quatro paredes que se fechavam em um quadrado irregular minúsculo. A prisioneira estava reclusa em uma concha feita com as pernas e braços, quando Noah entrou, ela só levantou a cabeça para ver quem era e bufou, voltando a encarar suas coxas.
— Eu já disse que eu não vou falar nada, nem se dê ao trabalho.
— Eu não sou como eles.
— Se conseguiu entrar é porque é.
— Talvez eu seja…- Aquelas falas foram acompanhadas com certa dose de contentamento.- mas meu irmão não é, eu preciso de ajuda.
— Ha, muito boa ideia mandarem um interrogador disfarçado de civil, muito esperto mesmo.- ela riu sem levantar a cabeça. Noah não abaixou-se não devia fazer aquilo, se quisesse qualquer informação teria que mostrar autoridade.
— Eu posso ajudar vocês.
— Eu não preciso de ajuda, pode sair agora.
— Eu abro as portas.
Talvez ele realmente não fosse da guarda, guarda nenhum falaria uma coisa assim, mas mesmo com isso, talvez fosse ensaiado, talvez ele só estivesse usando uma estratégia barata para faze-la falar. Amy era muito boa para cair nessa.
— Nos deram drogas. Eu não sou nada mais útil do que moribundos agora.- ela parou alguns segundos, apoiando o queixo no braço e encarando o chão.- como eu posso saber que eu posso confiar em você?
— Já disse que eu abro as portas, todas elas. Você não é daqui, não é?
Amy negou com a cabeça, se esforçando para levantar. Quando ela conseguiu, apoiou-se na parede e ficou encarando-o de braços cruzados, sondando-o dos pés a cabeça. Só quando viu-a de pé que Noah conseguiu notar que estava ferida, sua perna esquerda estava enfaixada desde um pouco abaixo da virilha até acima do joelho, as bandagens estavam sujas de plantas, as quais não pareciam ter vindo de lugar nenhum, e sangue. Ele nem queria imaginar o que podia ter acontecido com ela.
— Nasci e fui criada lá fora, vim ajudar a minha gente, só que me pegaram. O problema é que sabem que eu não sou daqui, então querem saber onde estão os outros. Já tentaram de tudo, mas essa é a primeira vez que me mandam alguém com essa conversa mole. O que vai fazer comigo se eu não falar? Vai me matar? Contar para os seus superiores, que vão mandar me torturarem até eu abrir a boca? Fazer ameaças falsas para meus colegas? Saiba que eu não me importo mais, nunca me importei com ninguém que veio nesse fim de mundo comigo, nem pense que eu vou contar onde quem eu me preocupo está. Seria um investimento melhor se vocês só parassem de gastar seu dinheiro com opióides.
— O que você quer que eu faça?
— Não tem nada útil que você possa fazer.
— Que seja inútil então, eu faço.
Amy ficou de braços cruzados por um tempo, a cabeça apoiada nos tijolos úmidos da cela e os olhos caídos para o chão. Ela esperava de verdade que uma resposta caísse do céu, já que ela não conseguia pensar. Ele não tinha nada, era um ser completamente inútil, tão tolo…
— Você não tem nada não é?
— Não que eu saiba.
— Então o seu irmão não é tão irmão assim. O que ele faz?
— Fogo.
— Se o seu objetivo é acender uma vela de aniversário, pode fazer isso, boa sorte.
— Por favor.- Noah não sabia mais o que fazer para que ela falasse e não teria tempo de chegar tão longe com outra pessoa, então surpreende-la não seria uma ideia ruim. Ele se pôs de joelhos na frente dela e, por mais difícil que fosse, não desviou o olhar dos seus olhos, suas mãos estavam juntas e fechadas servindo de apoio para cabeça. Nunca, em mil anos, imaginou-se em uma situação como aquela.
— O que?!- não era como se ela não tivesse gostado, mas aquilo era a última coisa que esperava.
— Eu não quero que ele acabe aqui.
— Para de mentir para mim, seu humano sujo! Eu sei que você só quer que eu fale para poder nos perseguir como faz na sua cidade estúpida.- Amy apontou o dedo para ele, mexendo os braços com força tentando aliviar a raiva.- para de perder o seu tempo e faça alguma coisa sozinho de vez em quando!
— Você não tem família?- Noah perguntou no mesmo tom que ela.- se o meu irmão vier parar aqui porque você não teve coragem de me ajudar, eu que vou fazer questão de fazer com que você se arrependa.
— Rá! Você acha mesmo que eu tô com medo?- aproveitando que ele ainda estava de joelhos, Amy apoiou um pé no ombro dele, olhando-o de um jeito que gelou sua espinha.- Depois de tudo o que vocês me fizeram passar, você acha mesmo que eu estou com medo?
— Vocês não são os melhores?- ele duvidava que alguém já tivesse brincado com o ego deles.- que chance nós teríamos contra vocês? Se você falasse, só daria as coordenadas de uma missão suicida.
— Uhm… nunca pensei nisso.- Amy tirou o pé dele esfregando a sola na sua roupa, depois agachou-se no mesmo nível dele.- mas o problema é que eu continuaria aqui.
— Se eu souber para onde ir, eu chamo ajuda.
— Achei que você estivesse planejando uma missão suicida.
— Eu estou aqui pelo meu irmão.
— Bela desculpa. O que mais vai me falar? Que estão nos massacrando pelo avanço científico? Que é tudo pela própria segurança?
— Eu não tenho muito tempo, se eu sair e você não tiver me falado nada, eu dou meu jeito sozinho.
O sangue de Amy gelou com aquilo. Ele estava falando sério, se saísse de mãos vazias, ele não voltaria mais, a deixaria lá para apodrecer.
— Siga para trás da igreja, linha reta. Se você está aqui mesmo pelo seu irmão, quando chegar lá, mande ajuda. Nem tente levar uma marcha até lá, como você disse, vocês todos sabem que não tem chance. Será uma chacina, mas não do jeito que estão acostumados.- ela cuspiu essas palavras com o ódio de uma doutrina.
— Você fez a escolha certa.- ele nem acreditava que conseguiu, parecia que Amy não falaria nunca, mas falou, falou mesmo que fosse com ódio.
Noah estava para sair quando ela segurou seu braço fazendo o possível para ignorar o nojo.
— Se você fizer alguma coisa errada com isso, nós saberemos antes mesmo de você convocar a sua armada- era mentira, ela já tentou milhares de vezes chamar ajuda, mas sem sucesso.- nossas defesas são mais fortes que o seu ataque. Nossos civis não são tolos como os seus. Nossas armas são mais avançadas e teremos a vantagem de lutar em casa.- Amy o olhava fundo na alma, como se conseguisse puxá-la para fora se quisesse.- Se está mesmo aqui pelo seu irmão, você vai achar uma cabana depois de algum tempo de caminhada, fala para eles onde nós estamos. Um anjo, um elementar e um espelho. Não me deixe na mão, eu não te deixei.
O guarda de antes bateu na porta, gritando que os vinte minutos já tinham se passado. Noah não pensou duas vezes antes de soltar seu braço e bater a porta da cela com o máximo de força que tinha só para continuar com o papel de alguém que ia para lá com o único intuito de tirar satisfação. Ele andou de volta pelo corredor nem tão luxuoso quanto o resto do complexo. Suas mãos tremiam de nervosismo, nunca achou que chegaria tão perto de uma aberração antes, nem mesmo achou que elas conseguiam falar de outra coisa além de pedir por misericórdia. Foi uma estupidez ajoelhar-se. Por que fez aquilo? Talvez devesse falar para os guardas onde o Ponto de Encontro deles era, talvez eles tomassem o bom senso de não investigar o estado… não, não poderia fazer aquilo, ela confiou nele, mesmo que não tenha falado nada de bom coração, falou o que ele queria, o ajudou, em uma situação daquelas um gesto assim não devia ser ignorado. Noah não sabia se seus estereótipos sobre as aberrações acabaram de ser confirmados ou negados, ele os viam como pessoas maltrapilhas, incapazes de sentir qualquer tipo de coisa além de ódio por humanos de raça pura, mas aquela menina, qual o nome dela mesmo, Amy? Ela tinha todos os motivos do mundo para estar daquele jeito. Ele não tinha ideia a quanto tempo ela esteve presa em um cubículo que parecia ser quase desprovido de ar, sendo ameaçada e talvez até mesmo torturada por saber onde outras pessoas como ela estavam, só para que elas tivessem um destino semelhante ao seu. Aqueles pareciam ser motivos mais que suficientes para gerar ódio no mais puro dos anjos.
Quando voltou para o começo daquele corredor que parecia não ter fim, o guarda abriu a porta para Noah, que respirou fundo, sorrindo por ter ar puro em seus pulmões novamente.
— É horrível ficar lá, eu sei. Só me fala o que você fez lá que pode ir embora.
— Alguém já morreu de asfixia lá dentro?- ele tinha medo de uma resposta positiva, mas aquela dúvida o consumia por dentro.
— Não duvido, mas o mais comum são mortes por efeitos colaterais do ópio, não que isso seja importante. Sente-se, acho que nós dois temos um pouco de tempo para gastar.
Noah surpreendeu-se com a simpatia daquele guarda, então não teve como recusar. Seu irmão ainda não estava na lista de suspeitos e não havia trabalho para ser feito, já que era domingo.
— Verdade.- ele sorriu.- por pura curiosidade, o que mata nessas drogas?
— Overdoses, alguns se desidratam durante as crises de abstinência, outros acabam ficando viciados. Um trabalho a menos, assim não temos que imobilizá-los para inibir o talento, eles pedem por isso.- a cara dele não era das melhores quando falou aquilo, mas sua voz também não apresentava remorso algum.- já que enquanto eles estão consumindo não podem usar seus talentos, se tornam inofensivos.
— E vocês os matam de qualquer jeito?- ele esperava do fundo do coração que a resposta fosse não, não sabia por que, mas esperava aquilo.
— Na maioria das vezes, sim. Essas aberrações são mestres do disfarce.- o guarda sorriu como se aquilo fosse algum tipo de piada e tirou uma ficha da gaveta mais próxima ao chão entregando-a para Noah.
Ele queria calá-lo dizendo que entre matar, mentiu, ou resistir ao vício, mentir parecia a opção mais fácil. Eles precisavam fazer aquilo, mesmo se não quisessem, só para voltar para casa, e mesmo assim eram mortos. Essa sensação de desesperança devia ser horrível, a pior do mundo. Nadar tanto para morrer na praia.
Na ficha era pedido que ele informasse seu nome, endereço e todas essas besteiras de qualquer registro e o que fez enquanto estava dentro da prisão. Tudo que queria era que sua história fosse convincente o suficiente, ou que fosse esquecida, jogada fora. Para ele, toda essa política poderia acabar se isso significasse que não teria que passar por toda essa loucura que previa.
Depois de ter terminado toda aquela burocracia, Noah voltou pra rua. Parecia que todos o olhavam, julgando-o da cabeça aos pés, prontas para gritar para o mundo que ele era um traidor da coroa, que estava cooperando com aberrações sem nenhum motivo aparente, só para causar o caos. Um verdadeiro fora da lei, renegado, alguém que tinha tudo, mas escolheu rebaixar-se ao nível de uma aberração. Aquilo era verdade, alguém já devia ter falado alguma coisa para um outro alguém, esse já deve ter passado para frente, sua traição já deve estar nos jornais… Não. Ele podia se concentrar em tudo menos naquilo agora. Tinha que tirar o irmão da cidade, precisava fazer aquilo o mais rápido possível, se não…
Seria difícil convencer Leandro a sair, mas mais difícil ainda fazer com que ele fosse sozinho, as aberrações pareciam odiá-los tanto como eram odiadas, não seria a melhor ideia do mundo apresentar-se como alguém que estava do lado da coroa, pelo menos não para pessoas assim. Tinha medo que quando chegasse na cabana, seria morto como as aberrações eram quando sua anomalia era descoberta. Imaginava se seria em praça pública ou em uma cadeira elétrica, se doeria, em como seu irmão ficaria sozinho. Não conseguiria deixá-lo assim. Não deixaria.
Noah nunca achou que sentiria-se grato por não ter reunido coragem o suficiente pra virar um herói do império, mas lá estava ele, sorrindo por ter feito uma coisa boa na vida.
Quando chegou em casa, deixou toda a formalidade de não correr em público para trás e subiu as escadas em velocidade recorde. Seus pais já tinham saído para o trabalho, mas não haveria tempo para explicar o que estava acontecendo, muito menos para esperar seu retorno.
— Lê.- Noah não conseguia falar mais que isso, usou a maçaneta da porta aberta como apoio enquanto tentava recuperar o fôlego.
— O que foi?- ele abaixou o livro morrendo de medo da resposta que receberia.
— Eu fui para o complexo.- ele fez uma pausa para recuperar o fôlego, mas Leandro achou que sua fala acabava lá.
— Você me denunciou?!- seu rosto perdeu a cor enquanto olhava aterrorizado para o irmão. Como ele pôde?
— Não, mas me botei na lista de suspeitos com aquela história ridícula.- mais uma pausa para recuperar o fôlego.- Temos que sair daqui, eu sei para onde ir.
— Eles estão vindo?- seu pior medo foi confirmado, seria morto.
— Acho que não. Anda logo.
Leandro trocou os pijamas o mais rápido possível e enfiou algumas mudas de roupa na primeira bolsa que viu, claro que só as favoritas, duvidava que algum dia voltaria para aquele quarto. As decorações da escrivaninha, os cobertores que tinham seu cheiro impregnado a décadas, sua caneca favorita… pareciam coisas tão idiotas, mas não quando tiveram que ser deixadas para trás por tempo suficiente para perderem sua graça. Ele não queria, não queria sair de casa, se ficasse quieto, se fosse um bom menino, talvez ninguém notasse, mas, se algum dia notasse, ele teria pedido para que seu eu do passado não tivesse recusado a oferta do irmão. Por quê? Por que não podia se separar em dois, sua parte aberração sairia da cidade, mas o resto continuaria lendo o livro que deixou de lado. Por que só não fazer isso? Parecia tão simples… era porque era impossível, só por isso, ele sabia que era, mas queria acreditar que não.
Seja rápido.
Leandro focou-se nisso, já que não tinha mais nada que devesse levar, desceu as escadas com medo de que não acharia seu irmão lá, mas sim guardas do império. Por sorte Noah continuava lá, esperando que ele descesse, mas ainda assim seu peito doía por sair de casa para um para sempre mais definitivo do que qualquer um que o antecedeu.
— E os pais?
— Eu deixei um bilhete para eles, vamos.
— Você também está levando alguma coisa?
— Mudas de roupa e algumas barrinhas. Vamos pegar o bonde até a igreja. Aja naturalmente.
Noah trancou a porta quando saiu, colocando a chave de casa de volta na bolsa que estava pendurada pelo ombro.
— Quando vamos voltar?
— Eu não sei…- aquela foi a pior coisa que poderia ter falado para Leandro e para si mesmo, mas ele realmente não tinha ideia, não sabia se algum dia voltaria a ver aquela fachada azul-bebe com as janelas que a muito tempo imploravam para que o vento e o sol as dessem uma trégua. Aquilo parecia cada vez mais distante, cada vez mais inalcançável.
Eles não tiveram que esperar muito antes que o bonde parasse no ponto mais próximo, mesmo que muitas pessoas sorrissem, olhassem para o relógio preocupadas e se ocupassem com besteiras do cotidiano, os dois nunca sentiram-se mais afastados daquilo, era como se fosse um mundo completamente diferente. Todas aquelas coisas pareciam tão sem sentindo quando tudo com o que você se preocupa é não ser pego pelo império. Por sorte o barulho que o veículo fazia em atrito com os trilhos de metal era de certo modo um embalo, uma distração de tudo o que não acontecia em sua volta, mas que não durou quase nada. Quando o motorista puxou o freio na estação em frente a igreja, aquele som acabou, sendo substituído por sua versão alta e estridente. De volta ao mundo real, ao mundo onde sua cabeça está sendo caçada.
Não demorou muito para que chegassem na igreja, era muito… estranho sair sem que seus pais tivessem ideia para onde estavam indo, Leandro não queria imaginar como eles ficariam quando descobrissem que foram abandonados pelos filhos que criaram com tanto amor… deuses, ele não queria ter pensado nisso, não queria ter filhotes de lágrimas nos olhos, não queria que ninguém o visse assim.
— Eu queria falar com a Mami.- ele murmurou quase que para si mesmo.
— Eu também. Vamos- Noah deu um tapinha nas costas deles e tomou a frente na caminhada.- Força mini migo, o pior já passou.
O caminho de terra batida na floresta era extremamente tênue, quase invisível, mas eles teriam que dar um jeito de seguí-lo, caso contrário, estariam perdidos entre as árvores. Sempre parecia tão fácil fazer caminhadas na mata, nenhum do dois jamais imaginou que fosse ser tão complicado como estava sendo. Seus pés prendiam em barro e em galhos, tudo o que eles queriam era voltar para casa, mas aquela era só uma das muitas coisas que estavam fora de consideração. A marcha não durou muito quanto Noah achou que duraria, depois de alguns minutos sua mente divagou para algum lugar distante daquele, uma música talvez, mas não lá, fazendo com que o movimento ritmado dos pés e a análise do caminho tornassem-se tão naturais quanto respirar.
— Tem alguém nos esperando?
— Acho que não.- Noah queria chorar de nervosismo, mas não se permitiu fazer isso, não era fraco assim.
— Sabe quem vai estar lá?
— Pessoas melhores.- espero...
Noah tinha a ligeira sensação de ter um par de olhos fixos nele, mas achava que era só um efeito colateral da floresta, já leu e ouviu diversas histórias sobre pessoas que sucumbiam a loucura enquanto divagavam entre as árvores. Ele se recusaria a ser mais um número nessa estatística, mas essa sensação levou a um pensamento ainda pior. O que aconteceria se forem pegos? Os dois seriam levados para interrogatório, passariam pelo teste para verem se eram aberrações e só Leandro cairia… seria horrível, ele não queria pensar em nada como aquilo, não queria imaginar como seriam os efeitos do soro em pessoas como ele.
Um passo mais pesado foi ouvido bem atras deles. Não era uma alucinação, era mais que verdadeiro, era um maldito guarda da fronteira.
— Auto! Vocês estão entrando em uma área restrita.
— Auto você, guarda meia boca!- metal bateu no metal, fazendo mesmo som de uma armadura. A voz que mandou que o guarda parasse era desconhecida e parecia vir de todos os lugares e, ao mesmo tempo, de lugar nenhum.
Ele sacou a arma, estava carregada com uma munição alterada, as balas tinham sido deixadas para secar no mesmo soro feito para matar aberrações, estavam carregadas com isso. Uma engenhoca extremamente esperta para um objetivo tão fútil.
— Mostra a sua cara! Aberração!
A voz bufou e foi possível ouvir o mesmo som de antes.
— Eu não tenho o dia todo, se você puder acelerar seu expurgo… e deixar os pirralhos em paz, emprego de férias conta para reputação, sabe?- ele continuou com a arma pronta, o dedo no gatilho fazendo com que os meninos ficassem rendidos enquanto aquela moça brincava de esconde esconde.- sai daqui em paz ou eu te tiro nem tão em paz assim.
— Mostra a sua cara, vadia!
— Vadia a sua mãe! Minha carinha linda é um privilégio para poucos.- ela rui, as folhas da árvore acima deles caíram enquanto o som da armadura denunciava que ela se mexia. Ela não queria, mas já que sair do seu esconderijo parecia o único jeito que o guarda voltaria para o dele, foi o que fez, desceu dos galhos usando o metal da armadura para fazer com que a sua queda não fosse tão rápida quanto a gravidade ditava.- pronto, aqui estou eu, você gostaria de fazer o favor de voltar para o zoológico?
— Volta para o inferno!- O guarda mirou nela, não pensando duas vezes antes de apertar o gatilho.
Leandro fechou os olhos, não com medo de que o tiro fosse para ele, mas porque perdeu sua última chance de chegar até o próximo mês vivo. Não queria olhar para trás e ver um cadáver, a primeira vez que devia ver um corpo seria em uma aula de medicina, depois que passasse em uma boa faculdade na capital, não de um jeito como aquele, não com esse corpo sendo o de sua salvadora. Não atreveria-se a olhar, ficou lá parado pelo o que parecia ser uma eternidade que não durou mais que um minuto.
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