O que fazer quando o céu cair
13 Não significaram nada, não é?
— Tina, pelo amor de deus, manda eles trazerem o meu celular.— só faltava Alex se ajoelhar na frente da Dynamo, agarrar-se a sua saia moribunda de tweed. O caminho para aquilo era curto, já que fazia que morreria sem sua tão sonhada ligação com a internet.
— Eles já saíram, Alex.— ela riu desviando o olhar da névoa sobre seu colo por alguns segundos.
— Eu preciso de tecnologia!!— ele passou as mãos no rosto, puxando a pele das bochechas para baixo.
— Chega de drama, amigo A.— Nelly mandou metendo-se na conversa entre René, o Dynamo que sustentava o outro lado da linha, e Tina. Estavam em um carro, a paisagem branca passando rápida atrás deles.
— Muito fácil para você falar. Está com todo o seu arsenal de computadores aí e eu estou preso no século passado.— Tina chutou a perna dele ao falar isso, preocupada com a possibilidade de os meninos terem-no ouvido.
— Para falar a verdade...— ela sentou-se no colo de René para que pudesse falar com a amiga.— chegaram uns aí de Hessen que se apaixonaram pela tecnologia e não saem mais da sala de multimídia. Não estou podendo usar nada além do meu celular.
— Pelo menos você pode usar o seu celular.
— O que é um celular?— Leandro perguntou enquanto descia as escadas. As poucas coisas que tinha estavam dobradas sem uma ponta fora do lugar dentro da sua bolsa masculina. Surpreendeu-se com o quão pouco tempo demorou para que começasse a falar como eles, sem se preocupar com interrupções e pronomes sem honoríficos.
— É como um teatro animado dentro de um livro de bolso, mas dá para mandar cartas para quem você quiser sem depender do correio, ler livros e gravar pinturas.
— Isso também é um talento?
Nelly riu do outro lado da linha, recebendo um tapa nas têmporas dado por René.
— Não, Leandro, é um aparelho.
Ele franziu o cenho tentando construir essa imagem. Um teatro dentro de um livro de bolso, de onde era possível mandar cartas? Mas não se mandavam cartas por teatros e não se devia escrever em livros, nem mesmo era possível diminuir atores e atrizes no tamanho de um livro de bolso.
Até mesmo Tina teve que rir com sua confusão. Parecia um cachorro com a cabeça tendendo para o lado e o olhar perdido, já que ver tiraria a concentração.
— Vocês são todos de Berlim e região, certo?— Nelly perguntou quando finalmente se recompôs. Tina só assentiu.— o próximo trem para lá sai em quatro dias, o último chegou com ótimas notícias.
— Como se o seu tão querido René já está aí?— Amy perguntou enquanto segurava a parte de baixo de uma mala gigante. Taiti segurava a parte de cima torcendo o pescoço para que pudesse ver onde pisava.
— Amiga A!— Nelly gritou animada.— Essa é para você, adivinha!
—Deixa eu ver...— ela aterrissou a mala cheia de roupas sujas e coisas para o cabelo perto do armário com produtos de limpeza e apoiou-se nela..—Chegou um carregamento de rocambole de amora só para mim?
— Não.— respondeu travessa.
— Uma guitarra nova?
— Também não.
— Como não? As crianças rabiscaram a minha toda!
— São cicatrizes de guerra, mas não é isso, adivinha!
René a empurrou para longe na falha tentativa de conseguir falar com Tina.
— Seus pais vieram para passar o natal com você aqui Eisenach com você.
Ela arregalou os olhos, deixando que sua bolsa de ombro caísse com desleixo no chão.
— Gustav e Ivone...— ela fez uma pausa, o coração na mão como se tivesse zerado a prova mais importante e não quisesse acreditar.— Gustav e Ivone Geodhertz?
— Esses mesmo, não é de mais?
— Manda eles embora!— disse fazendo com que Tina virasse a névoa para que pudesse olhar na cara da amiga.— eu não volto enquanto eles estiverem aí.
— Amy, eles são os seus pais. Foi quase dois dias de viajem para que eles chegassem aqui.
— Não me importo, mande eles de volta!
— O que ela tem?— Leandro perguntou baixinho para Taiti, longe o suficiente da Dynamo e de Amy para que não o ouvissem.
Ela abriu a boca para responder, mas não saiu nada que pudesse falar para ele que não fosse falar de mais. Estragar um casamento, incentivar um defeito. Seriam coisas que ele não entenderia nem poderia entender.
— Eles estão preocupados com você, amiga A.— a expressão de Nelly se suavizou, quase como se daria de tudo para poder dá-la um abraço forte.— A Tina contou para o Alexandre o que aconteceu aí e ele teve que contar para os seus pais.
— A culpa é deles! Esperei muito para ter mais de vinte e não precisar mais dessas coisas, não preciso deles.
— Eles precisam de você. Dá uma chance.
— Não e chega. Não vou voltar até que você os mande para fora.
— Eles não merecem isso.
— Então por que eu mereci? Não, não, não, não, não, já sei-
— Já falou de mais.— Tina fechou as mãos cortando a ligação. Sabia que René não demoraria pra ligar de volta, mas se ela continuasse, ninguém daquele grupo seria julgado apto para voltar a fazer resgates.— Você não tem o mínimo de bom censo?
— Você sabe o que eles fizeram.
— Sei também que os meninos não merecem ouvir isso. Se tem mais de vinte, haja como tal.
Taiti cruzou os braços e se apoiou na parede. Sabia que não devia se intrometer nas discussões que a esposa tinha com Tina. Daria no que deu três dias atras: uma Amy ainda mais irritada e ela com o rosto ardendo.
— Leandro.— chamou baixinho enquanto Amy só bufou e saiu para tomar um pouco de ar fresco.— Você ainda ama os seus pais?
— Claro!— olhar para ela sem encarar seu cabelo curto ainda era um desafio.
— Seria muito mas fácil se não. Sempre é mais fácil não amar ninguém.
— Não fale assim... eles foram os únicos que não te abandonaram em toda a sua vida.
— Te abandonariam se tivessem a chance.— disse de braços cruzados, balançando os pés como se não se importasse, mas nunca pareceu mais difícil seguir o roteiro.— já vi muitas histórias como a sua para saber o que fariam.
— Isso é mentira.
— Leandro! Estão mortos para você agora, não tem mais pais.
Ele a olhou com terror, não querendo acreditar no que falava.
— Vocês não podem fazer isso! Não podem!
— Não torne isso mais difícil.
— Mas eu não posso ficar sozinho! Meu irmão é tudo o que eu tenho e ele ainda era sustentado pelos pais e...
— Vá chamá-lo e desça assim que possível. Mantenha a mente limpa.
Taiti deu-o um leve empurrão para que subisse as escadas e gritou para que Mathias viesse para sala com Nícolas, chamando Amy só com a cabeça para fora da cabana por causa da neve que caía sem piedade.
Sentaram-se todos os seis humanos na mesa de jantar circular, deixando duas cadeiras consecutivas vazias para os meninos. O lugar de Antonie ao lado de Taiti estava vazio.
Noah descia as escadas com pés de bailarina, esticava toda sua perna antes de por o peso no degrau seguinte. Não queria ver Amy de novo. Desde o que aconteceu três dias atras, recusava-se a olhá-la nos olhos e ela sabia disso. Ele nem mesmo apareceu nas pequenas aulas que ela dava sobre como usar seu talento. Comia muito antes ou muito depois de ela descer do banho, estava sempre com o cabelo encharcado para que o cheiro de fumaça fosse tomado pelo de perfumes e cremes complicados para manter os cachos no lugar.
Ele se vestia como se vestiria em casa: uma camisa de linho azul escuro de maga longa dobrada sobre os cotovelos e uma calça de algodão preta presa a cintura por um cinto de couro. Ainda tinha o cheiro de casa.
Pelo menos Amy não usava nada com um decote grande de mais, mas ainda se vestia como um homem. Nícolas esteve com muito calor nos últimos dias, então Mathias diminuiu o tanto de lenha que colocava na caldeira. A casa só estava um pouco mais quente do que o vento lá fora. Seria imprudente andar sem pelo menos uma camada de casaco.
— Estavam ansiosos para ver o reformatório? A carruagem está a caminho.
— Acho que seria uma viagem muito complicada a de carruagem...— Leandro disse olhando para baixo.
— Vamos de carro.— Tina disse impaciente.— um modelo um pouco diferente do que estão acostumados, mas de carro. Já que seus pais são os dois moribundos, precisamos convocar essa reunião. Sentem-se.
Por um azar que Noah não sabia que tinha, Amy estava na frete da sua linha de visão, encarando-o com tédio. Nícolas quase não estava acordado. Estava pálido, se é que tinha alguma coisa mais branca do que a pele dele já era, o cabelo preto não via uma escova a semanas e sua barba estava por fazer. As asas que um dia teve estavam muito bem guardadas em uma tatuagem que, como a de Amy, cobria toda suas costas, mas, diferente das dela, seus desenhos eram belos, nem um pouco confusos de entender com todos aqueles rabiscos, ou, como ela gostava de chamar, representação artística das suas copias: cicatrizes de guerra.
— O que aconteceu?
— Ainda são menores.— Mathias colocou os cotovelos sobre a mesa. Parecia cansado, até mesmo Leandro pôde perceber que ele perdeu um bom tanto de peso.— Como seus pais são os dois moribundos, precisam escolher um padrinho.
Tina ajeitou as costas, sentando-se como um verdadeira Lady, as mãos no colo e o cabelo ruivo devidamente preso em um coque.
— Serei a madrinha de vocês.—disse sem consultar os outros.— tenho uma filha de nove anos, mas ainda tem bastante espaço na minha casa em Eisenach.
— Sem chance!— Amy protestou.— como um Dynamo vai tutelar um Elementar?
— Você estará recebendo seus pais. Não é uma boa ideia.— Tina fez o possível para esconder a raiva que tinha pelas brigas constantes em um conselho amigável.
— Meus pais vão embora, mas a marca de uma educação ruim fica para sempre.
— Eles estarão no reformatório. Terão toda a ajuda que precisarem
— O ambiente em casa também conta muito. Se quiser que eles saiam de lá do melhor jeito possível, devem ter uma madrinha que tivesse pelo menos um talento parecido! O objetivo do reformatório não é fazer com que eles sejam o mais parecido possível com os que nasceram lá fora? Um Ilusionista nunca teria um filho elementar.
— Mas temos todos que concordar que a sua casa não é a mais estável de todas. Não só por você não ter filhos e não saber cuidar de um, mas você também tem um defeito!
— Não sei você, mas eu dou aulas no reformatório, não deve ser muito diferente de ter um aluno vinte e quatro horas. Quanto ao meu defeito, está muito bem preso, obrigada pela preocupação.
— Amy, eu sou professora e mãe.— só agora Tina notou que os meninos viravam a cabeça de Amy para ela como em uma partida de tênis decisiva.— é bem diferente e você terá também que ajudá-los com o que viram aqui.
— Não deve dar a palavra para os meninos? Vamos começar com o caçula. Leandro, você é quem mais vai precisar de um padrinho, quem escolhe?— Amy apoiou os cotovelos na mesa, fazendo um tripé para seu queixo.
Ele passou a mão no cabelo tentando tirá-lo do rosto e sem querer encostou o punho na lente. Tirou os óculos e limpou-os nervoso, olhando para todos na mesa redonda sem saber o que falar.
— Eu e o Nícolas somos muito novos para isso.— Alex começou.— nós inclua fora dessa.
— Meu alemão deu uma morrida rápida aqui. Incluir fora?— Mathias segurou o peito, fingindo agonizar.
— Quantos anos você tem, Taiti?
— Vinte e três.
Leandro mordeu o lábio, olhando para Tina. Colocou os óculos de volta no rosto.
— Eu não escolheria elas,— virou-se para as meninas com o falso olhar de pena.— você sabe quem nem todos reagem muito bem a... vocês.— ela apontou para as duas como se fosse óbvio para todos menos os meninos.— não vão lidar bem.
— Ah é?— o que sobrou de paciência com a Dynamo foi-se com aquelas palavras.— E me explica como eles vão lidar com uma madrinha que é mãe solteira?— Amy disse quase que prevendo o que Tina falaria depois. Taiti segurou a mão dela com força, como se quisesse lembra-la que tinha que manter a calma, que gritar com um humano de classe mais baixa não daria em nada.— se está tão preocupada em como vão reagir nós, devia se preocupar em como reagiriam com você.
— Vocês são um caso a parte.— no reformatório aprenderam a falar um alemão rebuscado, com uma pronuncia e velocidade tão diferentes que seria impossível entender sem ouvir muitas e muitas vezes. Aprenderam para momentos como aqueles, onde retirar-se do cômodo para falar algo que pessoas de fora não podiam entender seria rude de mais.— es ist für dein selber sicherheit, Amy, bitte, versteht das! Du musst das nicht alle sagen, es wird besser für ihm so! (É para a sua própria segurança, Amy, por favor, entenda! Você não precisa falar isso para todo mundo, será melhor para eles assim)
— Ach so... ? (ah é mesmo?)— continuou recostando-se na cadeira, os braços e as pernas cruzados com um olhar de incredulidade.— Ich entschuldige mich für meinen belgin, aber glaubst du von wircklichkeit, dass es für MEIN Sicherheit ist? ( Me perdoe por minha petulância, mas acredita mesmo que isso é para minha segurança?)— ela riu, uma risada seca e sarcástica.— los gehts, sehen wir jetzt, ob das irgendwann gefärlich war! Sag ihm. Sag ihm wer ich bin und ich werde sein Reaktion sehen, wir alle werden. (Vamos ver, vamos todos ver agora, se isso foi mesmo perigoso! Fala para eles, fala para eles quem eu sou e eu vou julgar, todos vamos, sua reação.) — agora me responda Tina, se se preocupa tanto com seus anjinhos de porcelana, não acha que eles reagiriam mal a uma mãe solteira?
Taiti a beliscou por de baixo da mesa, querendo dá-la um tapa pela teimosia, mas se conteve. Por algum motivo, não estava brava. Amy só olhou para ela com um sorriso travesso, como quando armava uma bombinha de grampos na cadeira da professora.
Tina segurava com força a barra do seu vestido que usava para deixar os meninos com um ponto de referencia em moda. O espartilho a apertava, proibindo suas respirações longas para manter a calma. Ela não manteve.
Sem nem mesmo ter que usar sua cópia de um Dynamo, soube o que Tina falaria.
— Reagiriam pior ainda a uma mãe sapata!
Amy cobriu a boca surpresa, com uma teatricidade distinta de criança que ouvia seus pais falarem um palavrão. Arregalou os olhos, a íris marrom destacando-se na esclera branca.
— Ai meu deus, Tina, achei que você quisesse proteger os meninos desse fato horrendo a todo custo.
O rosto dela ficou vermelho enquanto respirava fundo, sentindo todos os sete pares de olhos sobre si. Passou a tensão para as mãos, segurando a saia com toda força que tinha. Inspirou, expirou e virou-se para os meninos com o melhor sorriso que pôde forjar.
— Agora que sabem, podem escolher melhor.
Noah olhou para Amy, depois para Tina, depois para Amy de novo e depois para Mathias, que fez uma cara estranha de quem não queria se meter naquilo, mas também que não dispensaria o teatro, depois para Amy, a cabeça para o lado e o cenho franzido como se fosse arrancar a pele para poder juntá-los mais. E lá se foram o resto das esperanças que tinha de que ele fosse o príncipe encantado que o salvaria do vicio, que a mostraria o lado bom da vida.
— Como?— perguntou para Amy que se recostou na cadeira e enrolava o cabelo nos dedos como se fosse um fio de telefone antigo.
— Noah!— Leandro o repreendeu com um puxão nas costas da sua camisa. Imaginava como seria se fosse ele, na sua casa, no lugar de Amy e sentiu uma pena repentina por ela, mas essa parecia não dar a mínima.— Perdoe o comportamento dele, senhorita- senhora Königskraft. Ele-
— Só estou falando que um Dynamo seria a pior escolha que podem fazer.— uma drogada não estava muito melhor, Noah pensou.—Independente de estarem ou não no Reformatório , o ambiente na casa importa muito. Mesmo que eu seja uma arcana, já copiei diversos talentos elementares e minha esposa também é um elementar, será muito mais fácil do que se forem morar com um Dynamo.
Os homens só estavam lá por estar. Alex ainda era muito novo para apadrinhar alguém e Nícolas estava mais que ciente que sua condição médica não ajudaria em nada. Mathias recusava-se a ter filhos pela vida miserável que os daria com plantões nas altas horas na noite e cirurgias de emergência. Apadrinhar um dos dois seria cruel.
— Jura pela sua vida tratá-los como sangue do seu sangue,— Tina assumiu derrota.— ficar ao seu lado não importa o que fizerem, guiá-los por onde precisarem e dá-los a vida no novo mundo?
— Juro.— disse, um blá blá blá formigando nos seus lábios.
— Meninos...?— Tina virou-se para eles, as fibras nos seus olhos pedindo para que não fizessem aquilo.
— O que um padrinho faz?
— O mesmo que um padrinho de casamento faria caso os pais morressem: Dariam roupas, ensinariam como o mundo é, os levaria para passear.— exatamente como cachorros.— esse tipo de coisa.
— Sendo assim.— Noah endireitou a coluna e estralou os dedos das mãos como já viu Tina fazer diversas vezes.— aceito.
— Amy,— Mathias chamou odiando quebrar o clima leve que podia ser muito, mas muito mais pesado.— só um Voluntário não pode ter mais de um afilhado e você sabe como Alexandre vai ficar se souber que você e a Taiti tomaram os dois juntas.
— Dois caras, duas moças, a conta bate muito bem para mim.— Taiti falou esticando o corpo como um gato.— Leandro, juro pela minha vida que o tratarei como sangue do meu sangue, que ficarei ao seu lado não importa o que faça, te guiarei por onde precisar e darei a melhor vida que posso no novo mundo.— sentiu-se estranhamente... maternal. Já tinha aceitado a ideia que nunca teria um filho legitimo, de que precisaria de alguém de fora do casamento, mas assim que calou-se e olhou para o afilhado ele pareceu frágil, como uma criança.
— Bem.— Tina levantou-se e bateu nas saias do vestido por hábito.— não a nada mais a ser discutido. Foi um prazer ter trabalhado com todos vocês.
Amy deu uma risada contida, mas alta o suficiente para que ela a ouvisse. Claro que não foi um prazer ter trabalhado com ela, Amy sabia disso, mas se perguntava o porquê de Tina ainda querer soar formal.
Noah e Leandro só sorriram para elas antes de se levantarem e deixarem as cadeiras no lugar. Jogaram-se no sofá perto da moldura da lareira que estava apagada e se entreolharam com raiva.
—Leandro Evelyn...— Noah começou.— você tem ideia do problema que você me deu?
— O que? Por quê?
— Das três pessoas que podiam me apadrinhar, eu fico com a pior porque a mais ou menos escolheu você e você insistiu que eu não poderia ficar com a melhor!
— Não sei por que você está assim, irmão, nem o que tem com ela.— Leandro olhou-o do mesmo jeito que seu pai o olharia, a cabeça tendendo para direita, o tronco um pouco para frente e o óculos caindo no nariz. Aproximou-se um pouco dele para que pudesse sussurrar no seu ouvido.— não sei porque vi como olhou para ela no primeiro jantar.
Noah puxou os lábios para dentro e ajeitou a postura. A realidade ficou, por algum motivo, mais real que nunca e ele mais pesado.
— No que você estava pensando? A esposa dela estava do lado dela!
— Estava tão óbvio assim?
— Imagina.— disse irritado.— você só estava olhando para ela de olhos esbugalhados, mas isso não responde a minha pergunta.— Leandro cruzou os braços.— O que você tem com ela?
— Nada, acredite.— seus pais haviam lhe ensinado muito bem que qualquer homem que se preze tinha que manter sua palavra.— Na manha do primeiro dia vi que ela era casada, mas não achei que era com ela. Mencionou isso, mas estava delirando. Foi por isso que me afastei
— Delirando? Com o que?
— Ela perdeu a consciência com o esforço.— disse rápido.— demorou muito para que voltasse. Chamou pela esposa, mas achei que era alguma coisa do dialeto ou sei lá. Já li que algumas línguas da fantasia a diferença entre amigo, namorado e marido é só uma letra.
Leandro recostou-se na cadeira, acendendo e apagando uma pequena chama nos seus dedos como se fosse um isqueiro. Nunca viu seu irmão usar o próprio talento. Julgava que era por medo, mas ele sempre teve um certo fascínio por fogo. Olhou para Noah. Ele tinha aberto as pernas e apoiado os cotovelos nos joelhos, com isso o tecido da camisa subiu, expondo o desenho nas costas.
— Pelo menos você ganhou uma tatuagem estilosa.
Noah virou o rosto para o irmão por um segundo, se perguntando sobre o que diabos ele falava, depois riu voltando a encarar o chão.
— Parece um carimbo de carta.
Leandro soltou uma risada pelo nariz, cobrindo a boca com as mãos. Diferente de como seria em um café, ninguém o olhou torto.
— Para onde vai essa linda cartinha de amor?— começou se lembrando da cantiga que o ensinou a ler. ( Nach wo geht’s diese schöne Lebensbrief? Na ja, mein Herr, zofort zum Hauptstadt. Zofort nach meiner beliebten Prinzezin Hertz, die ich den Gesicht nicht vergaß)
— Para o clã do fogo, meu senhor.— Noah fez questão de acentuar todos os “e” para que seu sotaque caipira ficasse mais caipira ainda.— visitar aquela princesa, qual o nome dela?
— Theophania.
— Coitada. Imagina como seria para o coitado do marido dela? Têm alguns nomes bonitos para se falar de manhã, Emily, Érika, Minna, mas Teophania? Eu preferiria ficar calado.
— Mas e se ela fosse bonita?
— Então sentiria como se acordasse todos os dias de uma ressaca invertida.— comentou achando-se esperto— ao invés de achar que dormi com uma modelo e acordar ao lado da filha de um trol, acho que foi com a filha de um trol que me deitei, mas acordo ao lado de uma modelo.
Logo deu-se conta de quão ridícula aquela situação era. Estavam prestes a ser levados para um lugar estranho de onde nunca mais poderiam voltar, Noah estava marcado como gado e até mesmo a língua de fora era diferente, por mais que ainda fosse alemão, nenhum dos dois entendeu o suficiente do que Tina e Amy falaram para construir frases, mas eles estavam lá discutindo sobre nomes e beleza feminina, não dando a mínima para nada. Leandro se recostou no sofá, fazendo força para que o estofamento o consumisse. Não poderia voltar. Não veria mais as pessoas que julgava sem valor na sua escola, não teria mais os mesmos livros, nem as mesmas louças que tinha em casa, muito menos sua caneca que protegia com toda alma, falando que só ele era digno de possuí-la. As memórias que pareciam inexistentes na noite passada voltaram como se nunca tivessem saído. A arquitetura da sua escola, da sua casa. O cheiro da torta de amora que sua mãe fazia e o cheiro doce que a padaria emanava toda santa manhã.
— Ahm...— começou.— Sra. Königskraft?
Amy e Taiti se entreolharam e Amy olhou para os meninos, que não tinham ideia do porquê parecia segurar um sorriso, depois não aguentou mais é começou a rir até ficar sem ar. Não era uma risada como na das drogas, era legítima.
— Qual das?— Taiti perguntou por ser a única que tinha fôlego. Se fosse outra situação, no dia anterior, antes da reunião que fosse, aquela reação daria um grande problema. Seu rosto doía de manter um sorriso tão grande, mas ele não sairia.
— Você.— disse sem jeito.— desculpa é hábito e eu não estava acostumado a estar perto de duas senhoras com o mesmo sobrenome. Senhoritas talvez, mas teria como falar primeira filha ou segunda... de qualquer jeito, me perdoe.
— Não é preocupe. Pode me chamar de Taiti. Taitiana é muito estranho, meus pais não deviam gostar muito de mim. Acho que nasci um bebê feio. O que foi?— ela virou-se na cadeira para olhá-lo.
— Vamos morar com vocês?
— Não.— disse despreocupada.— estarão sob nossa tutela enquanto estiverem no Reformatório. As casas para aluguel em Eisenach estavam muito caras. Era melhor passar o natal na casa do Alexandre.
— Não queremos incomodar...
— Não se preocupem. Escolhemos vocês.
— E eu ainda estou te devendo algumas, Noah.— Amy jogou a cadeira um pouco para trás.
Ele só sorriu sem saber mais o que falar. Não queria imaginar como ela pagaria. Amy piscou para ele e Noah já abria a boca para perguntar se ter quase se matado para dá-lo uma tatuagem não tinha sido o suficiente, se ela já não podia deixá-lo em paz, mas suas palavras foram cortadas pelo som de uma buzina e uma Tina doida pelo barulho.
— Você perdeu a cabeça?!— gritou para o motorista.— Não era para ter uma alma viva nesse boque e você me buzina?!
— Nelly!
— Amyga! — A menina de cabelo preto pulou do carro e correu para dá-la um abraço. Estava sem casaco, já que o aquecedor da vã estava ligado e se arrependeu com sua vida por isso. O frio gelou suas narinas e fechou seus poros. Acabou que ela inalou alguns flocos de neve.— só joga as coisas no porta-mala e vamos sair desse fim de mundo.
Taiti arrastava a mala de um pouco mais da metade do seu tamanho para fora da cabana antes mesmo que Amy pudesse entrar na casa. Ela abriu o porta-mala e deixou que a bolsa caísse dentro, trazendo um pouco de neve junto.
— E quem são os novatos?
— Os únicos que você não conhece.
— E...— Nelly olhou em volta, faltava um clone de Taiti com traços masculinos.—Onde está Antonie?
— Morto.—disse sem expressão.— morreu no acidente no complexo.
— Ah, Tai...— Nelly saltou da vã outra vez para tentar dar um abraço, mas ela recuou esfregando os braços por cima do casaco para se esquentar.
— Vou ajudar os meninos, Amy, se eu fosse você também viria ou a Tina não vai te deixar em paz.
— O que, por que não?— Nelly perguntou seguindo a amiga para perto de um menino alto, com a mesma cor de cabelo que ela, um preto profundo.
— Apadrinhamos os dois.
Amy recebeu um tapa na nuca e um olhar que perguntava por si só se ela estava doida, mas estavam perto de mais de Noah para falar qualquer coisa.
— Nelly, muito prazer.— disse estendendo a mão fria.
— Noah.— eles se encararam um tempo sem saber o que fazer até que Amy apontasse para o carro e pegasse a bolsa dele para jogá-la no porta-mala da vã.
Ela sentou-se no banco de trás, ao lado da janela direita, grudada na parede para ocupar o mínimo de espaço possível. Olhou para fora do vidro embaçado procurando por Leandro. Ele estava parado perto da porta, segurando a alça da bolsa com força. Seu peito subia e descia em um ritmo alarmante. Taiti falava com ele quase como se falasse com Amy quando estava ansiosa por qualquer besteira, os olhos preocupados analisando cada detalhe que pudesse dar uma pista sobre o que falar, sobre se o que estava fazendo era certo. Deixou as mãos perto da saída de ar quente, deixando-as sobre o rosto e o nariz para esquentá-los. Pela primeira vez em dias viu-se sozinha com Noah.
— A Tina só estava desesperada porque achou que seriam mal educados ou além.— começou sem olhá-lo.
— Não espere que meu irmão seja mal educado.— era estranho e até de um jeito belo, que ainda se chamassem de irmãos.— ele consegue se por no lugar de uma pedra jogada no lago para quicar.
— Então pelo jeito que ele perdeu a cor não deve ter achado que fosse bom.— comentou apoiando o queixo na mão.
— Todas as pessoas lá fora são como você?
Amy virou-se para ele, quase que atraída pelas suas palavras. Não conseguia decidir se estava contente ou irritada por ele pegá-la como ponto de referencia.
— O que quer dizer?
— As mulheres se veste como homens? Todos falam como marginais?
— Acha que falamos como marginais?
O tom com o qual ela falou aquilo ressaltou a falta de educação na pergunta.
— Só eles chamam estranhos pelo primeiro nome.
— Se assim que classifica marginais. Sim, todos.
Amy não olhava para ele, ainda encarava a conversa entre Taiti e Leandro quase que como uma desculpa para não se virar.
— E...— Noah começou retribuindo o gesto.— têm outras pessoas como você?
— Como?
— Aqui você é a única classe cinco. Tina é classe quatro pelo que meu irmão me falou, Mathias também, Alex me disse que está tentando chegar na sua classe e, pelo que Taiti falou, é classe três.
— Quatro.— corrigiu0-o como uma professora.
— De qualquer jeito. Têm outros espelhos classe cinco?
Amy olhou para ele. Seus olhos estavam frios, mas ainda assim não conseguiu lê-los. Não sabia se estava se divertindo com aquela conversa ou se aquela pergunta a ofendeu de um jeito que ele não entenderia, mas logo ajeitou-se de volta no banco.
— Não.— disse por fim.— para falar a verdade, não há ninguém como eu.
Ela fez o possível para sorrir, cruzando as pernas para parede logo depois.
— Ninguém?
— Há milhares de leitores de auras, de elementares como você e Taiti, de curandeiros, Dynamos nem se fala, alguns dizem que estamos entrando na era deles, mas só tem um de mim.— ela não olhava para Noah. Seu olhar estava perdido na neve, como se quisesse contar os flocos e perdesse a conta sem ter nem começado.
— Só um espelho?
Ela assentiu.
— Deve imaginar o Caos que foi quando descobriram esse talento em uma mulher. Achavam que estava extinto junto com outros dos arcanos, mas essa não é uma boa hora para nascer assim.
— Por quê?— a lábia dela fez com que ele se esquecesse de como a viu três dias atrás e com que sua imagem fosse substituída pela nova de uma menina não muito diferente de algumas no bolsão, atlética por obrigação e o cabelo mais que bem cuidado por luxo.
— Já imaginou como seria o bebê Amy?— sorriu.— Não teria chegado a idade adulta se já pudesse copiar os grandes magos de nascença, demora um pouco para o talento aparecer, mas o meu demorou muito. Cinco anos a mais que a média e já que isso era um terço da minha vida cogitaram até me jogar no bolsão, fazer uma eutanásia.— seus lábios se contraíram e seus olhos se fecharam com força, mas não durou mais que um segundo.—. Já imaginou como seria me ter como vizinha?
— Não vou viver na sua casa?
— Não é bem minha, mas sim.— Amy abriu um sorriso quente. Noah não sabia por que, mas seu interior derreteu com aquilo.— tem horas que eu tenho inveja de vocês, que não tiveram que se preocupar com isso, que nasceram elementares ou no sexo certo para seu talento.
— O que quer dizer?
— Minha mãe é um Quartzo, não se esquece de nada e entende tudo sobre os talentos, tanto que foi ela que me educou depois do meu aparecer. Não precisa de força, não importa se ela tem um corpo frágil. Meu pai é um tatuador, como viu na clareira isso demanda um grande esforço físico, mas já que ele é um homem, um pouco de treino ajudou. Mas eu nasci um espelho, consigo copiar tanto talentos de combate como de diplomacia, mas o ato de copiar em si já é difícil, já que exige a força de um tatuador e o armazenamento de um quartzo. Quando descobri isso quis ter nascido homem.
Nelly entrou como um trovão na vã e sentou-se grudada a Amy, já que ela estava mais quente que a neve e vestiu os casacos que deixou em cima do banco. Tão rápido que nem mesmo puderam vê-la chegando.
— Desculpa o atraso.— disse colocando as mãos perto do aquecedor.— a Taiti quis que eu ajudasse o Nícolas a pegar as coisas dele.
— Não sabia que ela se preocupava com ele.
— Só o Alex o faz para ser bem sincera, mas não é bom conquistar sua inimizade.— Nelly virou-se para Noah e sorriu, mostrando os dentes brancos.— Já te disseram que tem cara de cientista, Noah?
— Nunca ouvi isso. Tudo que sei sobre ciência é que o imperador a boicota, mas que tem sempre um magnata ou outro para financiar uma pesquisa. Doidos.— ficou de um jeito feliz por discutir sobre algo tão trivial como notícias com ela, que, Noah tinha que admitir, não conversava mal.— ninguém entende nada do que falam.
— Agradeça por não ser um arcano e ter que aprender magia.— riu.— se não entende nem de ciência. Não que eu julgue um dos dois interessante. Cogitaram até mesmo criar a sexta classe quando a bonita aqui terminou os estudos, sabia?
— Que benção.— comentou perdendo o interesse. Não queria falar com Nelly, mesmo que conhecesse Amy a só quatro dias, parecia anos, parecia que finalmente achou seu estranho familiar.
— A linha entre uma benção e uma maldição é muito fina.— o espelho começou, mas logo calou-se quando o resto entrou na vã com Leandro.
Taiti colocou-o sentado o lado do irmão, tomando o tempo necessário para se assegurar que estava bem. Ele encolheu-se minimamente, quase que fugindo da cobertura de couro dos bancos. Por mais que a vã fosse modificada para se parecer com um carro deles, sempre teria uma aura humana, estrangeira, de algum jeito perigosa e incomum. Ela segurou seus ombros e perguntou se ele queria dar uma volta na cidade antes de ir, mas viu de canto de olho como Noah o olhava, como o covarde que ele era. Calou-se. Relaxou os braços que seguravam a bolsa, fazendo o possível para sorrir para madrinha.
— Estou bem, juro. É quanto tempo de viajem?
— Da última vez foi quatro horas.— Taiti disse dando um beijo na sua testa..—Sinta-se a vontade para tirar um cochilo ou me chamar. De vez em quando é um saco..
O motorista deu a partida logo depois de René sentar-se e manobrou seguindo por uma trilha no bosque, a vã cabia tão bem que parecia que o caminho fora aberto para ela.
Pelo espelho do retrovisor Leandro encarou a pequena luz que vinha de Hessen, seguindo-a com o olhar até que se perdesse. Fechou os olhos por um segundo, esperando um tiro por sair de casa ou algo assim, passar por um portal, mas tudo que pode ouvir foram sussurros das conversas entre Nelly e Amy, Nícolas e Alex e René com o motorista. Noah, que estava ao seu lado, não faria falta nenhuma, já que só estava parado como uma pedra, mudo.
Leandro apoiou a cabeça na janela, fazendo que algum dia conseguiria dormir, mas sair do estado de alerta significa deixar sua parte podre, seu demônio, degolar o motorista e correr de volta para os braços da mãe. Falaria que sentia muito, que a ajudaria, que se drogaria se isso significasse viver com ela e deixaria Noah para trás como ele devia ter feito com o irmão.
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