— Yoongi... — ele sussurrava para minha mãe. Para ele meu nome era como uma praga. Uma maldição.

Há muito tempo... Eu tenho apagado as memórias de quem quer que meu pai ordenasse. Mesmo sabendo que aquilo machucaria outras pessoas.

Eu apaguei a memória de minha mãe. Mesmo sabendo que isso a machucaria... Por isso... As palavras de meu pai naquele dia...

— Você é tão frio quanto a neve.

☆☆☆

Eu sou um médico. Não por querer ser. Mas por que meu pai disse que este era o caminho que eu deveria seguir. Na minha família, as ordens de meu pai eram absolutas. Todavia, confesso que por mínimo que pareça, eu realmente desejei tornar-me um médico.

Minha mãe vivia doente, em casa, raramente falava alguma coisa. Seus diagnósticos eram mais e mais complicados a cada consulta; pulmões fracos, paradas respiratórias, morte de alguns rins. Esse foi o mais estímulo para que eu estudasse medicina, para cuidar dela. Para que se ela vivesse... Seria pelas minhas mãos.

Me formei aos 24 anos. No entanto, senti que de alguma forma não poderia dedicar totalmente a minha mãe. Algo dentro de mim dizia que devia ajudar outras pessoas, deveria ir além de ser um enfermeiro particular, por mais que eu amasse minha mãe. Por muito tempo tive medo dessa informação chegar aos ouvidos do senhor Min, meu pai, mantive durante uns bons anos esse desejo guardado, até que um dos meus antigos professores me recomendou a um hospital particular não muito longe da onde eu morava.

A ideia de trabalhar escondido de meu pai era assustadora, o antigo tenente, senhor Min era uma pessoa autoritária e muito complicada de lidar, mas algo dentro de mim queria ajudar mais pessoas do que apenas a minha mãe, e sinto que ela também gostaria que de ver eu fazendo mais pelos outros.

Levei um tempo analisando a rotina de meu pai para ter certeza de que ele não suspeitaria. Ele possuía um sono estranhamente regrado, toda a noite, exatamente às nove horas, ele dormia, levantava as três da manhã para ir ao banheiro, e depois despertava às dez horas.

Quando soube que o plantão seria noturno, sendo das dez da noite até as nove da manhã eu tive um êxtase imenso, não havia como ser melhor.

Apesar de que, por muitas das vezes eu voltei do plantão um pouco depois de meu pai já ter acordado e quase fui desmascarado, com receio de que isso repetisse novamente passei a ir ao hospital com uma bolsa esportiva velha que usei durante meus anos de ensino médio, colocava nela uma muda de roupas esportivas justificando estar chegando da academia ou de alguma caminhada. Meu pai nunca suspeitou disso, grande parte é pelo meu porte físico a outra parte é que um de seus bordões era "exercício refresca a mente".

Eu jamais poderia permitir que meu pai soubesse de meu emprego.

Em uma noite eu aguardava meu pai ir para a cama, faltava poucos minutos para as nove horas mas ele continuava perambulando pela sala, dando voltas e voltas como se esperasse algo, levemente estranhei, mas assim que a campainha de casa tocou meu corpo gelou por um breve momento e eu compreendi o porque dele ainda estar acordado.

Na porta tinha uma garota, seus olhos demonstrava uma tristeza imensa, um choro contido, uma angústia que fazia minhas inseguranças serem nada perto das que ela sofria.

Meu pai, cordial como sempre com desconhecidos a convidou para entrar e a levou até o enorme sofá, ele estava prestes a me chamar mas quando nossos olhos se encontraram no meio da escada ele sorriu, e eu não retribui.

Depois da moça tomar um gole de água em palavras baixas e com muito choro elas nos contou que havia dado a luz à uma criança, uma menina, no entanto, o pai daquela menina não as queriam, cuspiu-lhe palavras horrorosas, falou que ela não poderia ter engravidado dele e a humilhou completamente. Como ela era muito jovem e ser uma mãe solteira em sua idade era muito complicado seus pais a convenceram a entregar a criança para a adoção e muito a contra gosto ela o fez. Mas o sentimento de impotência, a humilhação que passou, todos esses traumas não passaram mesmo depois de dois anos do ocorrido e muitas noites se pegava pensando no ex namorado e na filha.

— Como soube sobre nós? — meu pai indagou baixo após a garota terminar seu monólogo deprimente.

Ela nos contou que um conhecido dela usou de nossos serviços e ele os indicou, tal como se isso fosse algo muito simples e usual.

Meu pai sorriu gananciosamente e com seu tom galanteador e manipulador falou em palavras bonitas e complexas os valores para realizar o serviço.

Para minha surpresa ela não se importou, grande parte desses clientes se assustam, barganham e muitas vezes imploram por um preço ameno para realizar tal ato, mas ela não se importou. Acredito que seu coração estava tão dolorido que ela pagaria qualquer coisa para tirar essa dor de lá.

Ela transferiu instantaneamente o dinheiro para a conta de meu pai, utilizei o smartphone para confirmar que estava tudo certo, já que meu pai se recusava a mexer com essas "modernidades".

A garota ficou na minha frente logo após, nos encarramos e eu coloquei a palma da minha mão direita sobre os olhos dela, os fechei e pedi que ela detalhadamente me contasse o que aconteceu naquela dia e o que a traumatizou nos anos seguintes. Sua voz, carregada por soluços, falava com muito pesar o que havia acabado de contar para o meu pai, só que bem mais aprofundado. Não levou muito tempo para que sua voz ficasse mais neutra e vazia, como se tudo aquilo não tivesse acontecido com ela, como se aqueles acontecimentos fossem uma memória distante de outra vida, e não levou muito tempo para que ela desmaiasse.

Geralmente elas não desmaiavam. Tinham sonolência e ficavam meio zonzas, mas poucas pessoas realmente desmaiavam logo após. Eu aprendi a decodificar que quando desmaiavam é porque o trauma era muito mais profundo.

Eu não sei quando ganhei esse dom, mas me arrependo amargamente de ter deixado meu pai saber sobre.

Quando muito criança eu descobri que podia apagar a memória de outras pessoas. É quase como se fosse algum truque do hipnotismo, em que você bloqueia os pensamentos ou lembranças de uma determinada situação, mas no meu caso é diferente, eu apago definitivamente toda a memória que a pessoa quer que eu apague.

A primeira vez que eu tive consciência sobre isso eu estava no fundamental, estava brincando com alguns amigos quando eu acidentalmente machuquei um dos meus colegas e fui tentar limpar suas lágrimas, ele falou claramente que "queria esquecer dessa dor", e não demorou muito para que não se lembrasse de nada que aconteceu segundos atrás. As marcas ainda estavam ali, o machucado estava cicatrizando, mas ele não se lembrava de nada do acontecido.

Muito assustado, e ingênuo, eu contei para meu pai sobre aquilo, e obviamente ele não acreditou.

Levei muito tempo tentando convencê-lo de que era verdade, e uma vez, ele, para zombar de mim, enquanto bebia em casa com um de seus colegas ex militares, que chorava a traição de sua antiga esposa falou:

"Meu filho pode apagar essa mulher de sua cabeça, vai Yoongi, faça!"

A contra gosto fiz, e para a surpresa de meu pai realmente deu certo, por alguns dias ele até suspeitou que seu amigo estivesse tirando sarro de sua cara, mas com o passar dos meses ele percebeu que aquela mulher desapareceu das memórias dele.

E assim meu pai soube da galinha dos ovos de ouro que tinha nas mãos...

Ele passou a usar meu dom para fins mesquinhos e gananciosos. Muito clandestinamente ele espalhava que se você pagasse muito alto poderia esquecer o seu maior trauma. Foi óbvio que ele foi chamado de pilantra por muitos, mas quando os mais desesperados começaram a vir e souberam que era fato muitos "clientes" chegavam e meu pai começou a cobrar quantias cada vez mais exorbitantes.

E as pessoas pagavam.

Algumas pagavam o que era necessário para esquecer seu sofrimento.

Com o passar dos anos eu parei de me afetar com isso, antes eu sempre questionava se elas não iam se arrepender deste ato, se isso era mesmo necessário e a resposta sempre era o que eu mais temia.

"Sim."

E com isso fui ficando apático as dores dessas pessoas, nunca me afetou diretamente e de acordo com meu pai "isso era apenas negócio".

☆☆☆

Só recordo de ser chamado pelo alto falante do hospital diversas vezes, encontrei com o enfermeiro Park Ji-Min que me avisou muito eufórico que uma paciente deu entrada por parada cardiorrespiratória, ela estava na sala de cirurgia dez e que eu era o único naquele plantão que poderia ajudá-la.

Corri para lá, mas eu jamais estaria preparado para quem eu teria que atender.

Foi muito difícil ver minha mãe numa maca com sua pulsação quase nula, seu fraco pulmão parece que não resistiu durante a madrugada e ela acabou tendo uma crise mais séria do que o normal. A voz de Park parecia muito distante, falando que a ambulância chegou lá um pouco tarde, e que precisava correr para fazer algo para salvá-la.

Minhas pernas não conseguiam se mexer. Quanto tempo a ambulância demorou para buscá-la? Se estivesse em casa eu poderia tê-la acudida antes? E se tivesse estado em casa para cuidar dela, ela precisaria entrar aqui neste estado de emergência?

Eram muitas perguntas e nenhuma resposta.

Busquei dentro de mim alguma força e nem sei como, mas consegui ocultar que aquela era uma parente de primeiro grau (uma das muitas regras neste hospital é que médicos com ligações diretas não poderiam operar, nem sequer cuidar destes pacientes). Não houve questionamentos. E eu também não abriria a boca para falar isso.

Foram longas horas naquela sala tentando fazer de tudo, mas sua pulsação estava muito baixa, seus pulmões bombardeavam o ar fracos até demais. Não tinha mais o que poderíamos, não havia mais nada que eu pudesse fazer.

Observei com pesar minha mãe naquela maca, o aparelho cardiorrespiratório ao seu lado era a única prova para mim mesmo de que ela ainda estava viva, já que aquilo era o que realmente a mantinha viva.

Segurei sua mão gelada por um breve momento e não consegui esconder meu choque ao ver seus olhos abrirem vagarosamente, sorrindo amarelo ao me reconhecer.

— Eu já suspeitava... — ela falou fraca.

— Mãe...

Ela fez um sinal para que eu me calasse e a escutasse.

— Eu não te culpo, Yoongi... Eu fico encantada ao saber que o meu menino virou um grande médico, eu estou orgulhosa de você. Sempre soube que você deveria fazer coisas maiores do que cuidar desta mulher com os dias contados... — sua voz era fraca e num sussurro.

Tentei falar mais alguma coisa só que ela me interrompeu novamente.

— Me estendi demais por aqui, meu filho. Foi uma vida difícil e de muitas dores. Mas eu quero partir, preciso partir. — seus olhos me olhavam e durante algumas palavras ela encarava os aparelhos ao seu lado, como se em seu íntimo ela soubesse que aquilo a estivesse mantendo viva.

Meus olhos lacrimejavam.

— Quero que pedir uma única coisa, e espero que você realize esse meu desejo. — sua mão encontrou meu rosto e limpou algumas lágrimas rebeldes que já escorriam sem eu perceber. — Apague a minha memória, Yoongi... Eu quero partir esquecendo todos esses sofrimentos que tive durante minha doença, quero me focar apenas mas memórias boas que tive, com você. Até mesmo com seu pai... — ela pareceu engolir em seco. — Quero partir sem... lembrar de nada de ruim.

— Eu estive com você nos seus momentos ruins, você sabe que se eu apagar o que está me pedindo eu...

— Eu sei... — ela começou a chorar. — Eu sei, mas por favor, este é o meu único pedido mesquinho a você. Quero lembrar de quando éramos felizes antes disso...

Toda minha vida eu apaguei as memórias de quem meu pai queria que eu apagasse, no entanto, este seria meu primeiro e único ato sem a sua autorização. Eu coloquei ambas as mãos sobre os olhos de minha mãe, e pedi que ela mais uma vez me contasse o que eu queria que ela esquecesse. Em nenhum momento eu segurei meu choro, ouvi toda sua vida de doença, tristeza e abusos deixando que minha alma absorvesse pela primeira vez os sentimentos mais tristes e traumas de outra pessoa.

Não demorou muito para que sua voz sumisse e ela ficasse inerte na maca.

Oficialmente morta.

Hora da morte: quatro e cinquenta e dois da manhã.

Tirei o crachá de meu paletó e fiquei ali durante muito tempo, tanto tempo que eu só percebi isso quando me avisaram que eu precisava informar o acompanhante dela sobre o ocorrido.

Eu estava tão em choque pelo ocorrido que não consegui raciocinar, só lembro de me erguer com calma e andar até o corredor, mas assim que ergui meus olhos eu não tive tempo para compreender o que aconteceu, recebi um soco na maçã direita do rosto, e só voltei a órbita quando encontrei o chão. Meu pai estava ali em pé, nervoso, com raiva, irado. Lembro de que foi preciso três enfermeiros para segurá-lo para que ele não avançasse em cima de mim.

— A CULPA É SUA QUE ELA MORREU! — gritava em plenos pulmões. — A CULPA É SUA PORQUE VOCÊ NÃO ESTAVA EM CASA PARA AJUDÁ-LA! A CULPA É SUA PORQUE VOCÊ ME DESOBEDECEU!

Os enfermeiros tentavam acalma-lo, enquanto a segurança era chamada.

— EU NUNCA MAIS QUERO VER SEU ROSTO! NUNCA MAIS! SAIA DA MINHA CASA! NUNCA MAIS VOLTE PARA LÁ ESTÁ ME OUVINDO? NÃO VOLTE!

Os seguranças o escoltaram para fora enquanto ainda berrava em alto e bom som de que eu não deveria tocar os pés em casa, e obviamente aquele comentário fez com que outros burburinhos corressem pelos corredores do hospital.

De alguma forma, chegou aos ouvidos dos meus supervisores que aquela mulher morta no alto de meu plantão era a minha mãe, em palavras duras me contaram que eu estava ciente da regra de que nenhum funcionário poderia cuidar de um paciente que ele tivesse contato direto, e infelizmente acabei sendo demitido.

Meus dias apenas esfriaram depois. Voltei em casa para pegar minhas coisas mais importantes, sendo vigiado pelos olhos raivosos de meu pai que continuava gritando que eu não deveria voltar mais lá, que eu era um assassino e que ele nunca teve um filho.

Com o dinheiro da minha recisão aluguei um apartamento pequeno muito próximo a área comercial de Hanan, muito próximo a Seul. E com uma carta de recomendação de meu antigo professor consegui um estágio como enfermeiro numa clínica justamente em Seul, era um longo caminho de casa para o trabalho e do trabalho para casa, mas ainda assim eu me sentia... aliviado. Eu sempre detestei a autoridade de meu pai, sempre detestei viver sobre o mesmo teto que ele, e pela primeira vez na minha vida eu estava longe dele e eu estava aliviado sobre isso.

Entretanto, eu ainda não conseguia demonstrar nenhuma emoção sobre isso. Eu fiquei frio depois da morte da minha mãe, depois de apagar de suas memórias.

Seria esse meu castigo por apagar a memória das pessoas? Seria essa minha maldição por ter tirado da mente de tantas pessoas outras que talvez se importassem com elas?

Eu nunca analisei as consequências de meus atos até então, e desde aquele momento eu decidi que nunca mais apagaria a memória de ninguém.

☆☆☆

Dois anos se passaram desde então, nesse tempo meu atual supervisor viu meus esforços e referências e isso rendeu um cargo como médico chefe no plantão da manhã. E a isso eu reagi da mesma forma: frio e cordial.

Essa acabou se tornando a minha fama naquele hospital dentre os internos, todos me chamam de Chubda, doutor Chubda como uma piada interna quando não estou próximo ou "não posso ouví-los".

Frio.

Meu pai também falava que eu era frio, e ele estava mais que certo.

— Doutor Min! — ouvi uma voz alta atrás de mim, fazendo eu virar para encontrar o doutor Kim Tae-Hyung, que andava com certa pressa carregando uma prancheta nas mãos. — Ainda bem que consegui te encontrar. — arfou.

— Aconteceu alguma coisa?

— Ah, não necessariamente. Mas lembra quando fomos informados que agora nós teríamos assistentes? Isso foi na semana passada se não me engano.

Suas palavras puxaram a memória da última reunião em que fomos informados que os três médicos chefes de cada período teríamos um assistente pessoal. Nos foi falado também que não teríamos contato com eles, afinal, o processo de seleção era feito por outro departamento, o que eu lembro de ter sido arduamente contra.

— O que você quer chegar com esse assunto?

Ele me entregou a prancheta, que só agora eu percebi que tinha uma única folha onde no topo estava escrito um nome: Jung Hoseok.

— Seu assistente o está esperando na sua sala. — falou sorrindo levemente.

☆☆☆

Abri a porta do meu consultório com passos leves, sendo recebido pela figura de um rapaz que não parecia ser muito mais novo do que eu, na realidade, ele parecia bem mais do jovem do que sua ficha descrevia.

— Muito boa tarde. — ele se curvou prontamente. — Me chamo Jung Hoseok, é um enorme prazer conhecê-lo pessoalmente senhor Min. — seu sorriso preenchia o rosto e sua voz parecia mais entusiasmada do que o normal. — Seu nome é bem famoso na universidade de Seul, o professor Park fala muito do senhor, ainda mais porque você foi um de seus alunos mais a novos a conseguir morada como médico chefe e...

— Eu gostaria que você começasse agora. — interrompi sua apresentação que já estava ficando extensa. Andei vagarosamente até uma das prateleiras que ficavam no canto de meu consultório, retirei de lá alguns prontuários e os estendi sem mirar para Jung, revirando o fundo de uma outra gaveta a procura de mais alguma coisa. — Esses relatórios precisam ser ajustados por datas se você pudesse...

— Ah! Neve!

Levantei o olhar, apenas para ver que Jung Hoseok não estava mais na minha frente como antes, agora ele mirava a grande janela de vidro onde atrás dessa começava a primeira chuva de neve desse inverno.

Bufei levemente. Eu não esperava muita coisa ao ter um assistente, mas como nem sequer tive a chance de entrevistá-lo eu sabia internamente que isso poderia resultar em algum problema. De tantas pessoas que poderiam me mandar eu fiquei logo com alguém que nem sequer prestava atenção ao trabalho.

Pigarreei.

Ele voltou seu olhar para mim e com um sorriso constrangido andou lentamente retirando de minhas mãos os prontuários.

— Permita-me fazer lhe uma pergunta? — indagou do nada, ainda sorrindo. Não respondi, mas parece que ele compreendeu aquilo como um sim. — O que acontece depois que a neve derrete?

Pisquei os olhos por alguns segundos, questionando o quão desligado aquele garoto poderia ser. Era uma questão óbvia e só existia uma resposta para aquilo.

— Transforma-se em água. — disse. — Se não se importa eu tenho pressa, eu preciso ver um paciente, pode usar esse consultório para organizar os prontuários. — ele assentiu com a cabeça, olhando vagamente para as folhas em suas mãos. Andei vagarosamente até a porta, mas antes de abri-la eu fui surpreendido por sua voz, estranhamente mais suave e madura do que o seu tom animado de poucos minutos.

— Chega a primavera. — eu o encarei apenas para encontrar seus olhos me fitando e um sorriso inocente em seus lábios. — Quando a neve derrete chega a primavera, e eu adoro a primavera. Você não?

Dizem que o ser humano é capaz de embelezar as coisas por puro sentimentalismo. Eu nunca fui de crer em positividade, a minha vida sempre foi dura e regrada, nunca tive tempo e muito menos vontade de ser sentimentalista. Passei minha vida inteira ouvindo que eu era como neve. Frio, gelado e sem vida. Depois que minha mãe faleceu e meu pai me deserdou eu passei a adotar ainda mais esse estereótipo.

Frio.

Neve.

Gelo.

Inverno.

Tantos sinônimos que as pessoas me davam. Nunca pude ver além da razão, mesmo com um poder estranhamente mágico, eu ainda acredita que tudo o que acontecia era por alguma lógica.

Todavia...

Aquele foi o momento em que o sentimentalismo de outra pessoa me cativou. Era uma resposta tão infantil e ao mesmo tempo tão... verdadeira.

— Senhor Min...?

Voltei para a realidade ao ouvir meu nome ser chamado por Jung, suspirei e só lembro de ter respondido um "comece a trabalhar" antes de me retirar da sala.

☆☆☆

As semanas foram se passando, tão rápidas quanto os dias quentes de verão. Estávamos no ápice do inverno, mas ironicamente o frio que antes me assolava começava a se dispersar graças ao ar quente da primavera que era Hoseok. Ele acabou se mostrando mais útil do que parecia no começo, passando a me ajudar em atendimentos mais severos como pacientes em leitos e periodicamente algumas cirurgias. Era inevitável que com tanto tempo juntos eu não conhecesse mais sobre ele, descobri que gostava disso, eu nunca fui de me abrir ou falar nada além do necessário com as pessoas ao meu redor, e Hoseok não era assim. Seu carisma e gentileza contagiava tudo a todos, e consecutivamente até me fazia entrar em rodas de conversas que eu nunca cogitei em participar.

Tanto que cheguei a sair para alguns restaurantes e happy hours com a equipe pós expediente, Hoseok sempre bebia um pouco demais, e numa dessas noites após levá-lo para casa ele me contou um pouco mais sobre sua vida.

Descobri que ele era filho único, seu pai, era dono de uma empresa de advocacia que sempre quis que o primogênito continuasse com os negócios da família, porém Hoseok nunca quis se envolver nesse ramo e sempre dizia ao pai "existem outras formas mais sinceras de ajudar as pessoas". Essa foi sua motivação para cursar enfermagem e futuramente fazer medicina.

Eu sentia que o que ele fazia era mais verdadeiro do que a minha razão. Lembro de ter começado medicina única e exclusivamente para cuidar de minha mãe, e mesmo minha teimosia de querer fazer o altruísmo fora de minha família eu nunca consegui realizar minha primeira e maior ambição...

Também descobri que ele dividia o apartamento que alugava com outros dois estudantes de medicina, um pouco distante do hospital mas ainda mais próximo do que eu.

Logo, meses se passaram.

E em mim, tudo parecia diferente graças a Hoseok. Ele era a minha primavera, se por toda minha vida eu fui o inverno frio e sem vida ele foi o quente ar da primavera que derretia todo esse gelo que ali havia.

Ele foi a minha fresca e vívida primavera.

E como se fosse a coisa mais natural do mundo... eu passei a amá-lo.

No entanto, eu tinha medo. Passei muito tempo me questionando do quê. Seria de perder esse seu frescor de primavera que ele espalhava? Seria de quebrar mais uma regra de um hospital?

Mas a resposta era outra.

Eu temia a rejeição.

Jung Hoseok acabou se tornando uma peça importante da minha vida, não enxergava fazendo nada sem a sua companhia ao meu lado, se ele me rejeitasse eu não saberia lidar com isso.

Com medo, passei a evitá-lo sem querer durante meus plantões no hospital, mesmo querendo estar ao seu lado em minha mente quebrada eu acreditava que se eu me distanciasse esse medo desaparecia uma hora ou outra.

E eu estava completamente enganado.

Furei diversos happy hours da equipe e consecutivamente voltei a ser chamado de Doutor Chubda. O inverno voltou a se prevalecer em meu coração.

☆☆☆

Era tarde da noite quando meu celular tocou, havia acabado de jantar quando andei até meu aparelho e vejo no visor o número de Kim Nam-Joon, o assistente de Tae-Hyung. Ele sempre participava das happy hours que rolava depois do expediente, o que aparentava ele e Hoseok estudavam na mesma classe na faculdade de Seul. Todavia, ainda estranhava ele estar me ligando.

— Min Yoongi falando. — atendi tentando parecer o mais natural possível.

— Senhor Min, desculpe estar te incomodando nessa hora... Nós tínhamos combinado de sair hoje após o expediente, mas o senhor não apareceu... — ele parecia envergonhado de estar falando comigo ou parecia envergonhado de entrar no verdadeiro assunto daquela ligação. — O Hoseok está aqui com a gente... Ele... Bebeu demais e nenhum de nós aqui tem carro ou teria como levá-lo para casa... Nós nem sequer sabemos onde ele mora. Mas parece que o senhor já cuidou dele algumas vezes... Será que poderia...? — ouvi um som ao fundo, era o eco de alguém regurgitando.

Suspirei pesadamente e só lembro de pegar as chaves do meu carro e falar algo como "onde vocês estão?" antes de descer as escadas do prédio até o estacionamento.

Levei mais tempo do que eu gostaria para chegar até o restaurante que ficava bem no centro de Seul, na porta do estabelecimento encontrei um Namjoon preocupado e um Hoseok bêbado.

Namjoon me ajudou a colocar o outro no banco de trás do meu carro, perguntei cordialmente se ele não gostaria de uma carona o que ele negou prontamente. "Moro perto daqui, não é nem 5 minutos andando, não se preocupe. Apenas cuide dele.".

E assim o fiz.

Estávamos não muito longe do prédio onde ele morava quando Hoseok acordou exasperado.

— Não me leve pra casa. — suplicou.

— Por quê?

— Não quero... não quero que meus colegas me vejam assim. Eu... eu sei que já cheguei mal algumas outras vezes, mas... só desta vez...

— Aonde quer ir então?

— Me leve pra sua casa.

Assustei.

Eu parei o carro num sinal vermelho, olhando através do espelho retrovisor e vendo seus olhos pesados e... tristes? Desde que conheci Hoseok ele sempre se mostrou uma pessoa alegre e carismática, mesmo sabendo de sua vida difícil e sem regalias do pai ele nunca se mostrou pra baixo ou sequer pareceu esconder algum tipo de tristeza. Era assustador e um pouco deprimente vê-lo com esse olhar sem vida.

Não questionei.

Só fiz um retorno a caminho de meu apartamento.

☆☆☆

O mais complicado foi carregá-lo pelos andares, adentramos e o guiei ao banheiro, banhando-o ainda com suas roupas na água fria, ele não relutou muito devido ao seu estado de embriaguez, ergui-me para deixar um roupão e algumas roupas minhas no banheiro para que ele se trocasse o mais rápido possível. Não levou muito tempo para que ele saísse de lá com o cheiro de meu shampoo em seus cabelos, e as roupas vindas da lavanderia também possuíam o aroma suave de primavera do amaciante. Aquele cheiro combinava tanto com ele.

— Pode ficar no meu quarto essa noite, eu preciso fazer algumas coisas então ficarei na sala mesmo...

— Yoongi!

Exclamou meu primeiro nome pela primeira vez, aquilo me assustou e ao mesmo tempo fez com que meu coração falhasse uma batida.

Com passos leves ele andou até mim e em seus olhos eu podia ver já pequenas lágrimas se formando.

— Por quê...? — questionou. — O que eu te fiz? — ele me afrontou mais perto, só que ainda devido ao álcool ele cambaleou, quase atingindo o chão mas se escorando em um da móveis da sala.

Por instinto, tentei ajudá-lo, mas seu olhar pareceu repelir o meu toque.

— Você tem me ignorado essas semanas todas. Você não troca uma palavra comigo. Você nem sequer fala do trabalho. O que eu te fiz? — ele chorava.

— Jung...

— Eu... eu pensei que estávamos tendo uma boa relação, que você estava se soltando não só comigo mas com os outros. Eu não suporto ouvir os comentários que fazem sobre você, eu não suporto as piadinhas e as brincadeiras que escuto sobre você. Ainda mais agora... ainda mais agora que eu te conheço melhor! — seu rosto ficava vermelho a cada frase, não sabia decifrar se era devido ao efeito do álcool ou se ele estava constrangido sobre o assunto.

— Jung...

— Yoongi! Eu... eu amo tanto de você!

Meus olhos se arregalaram com suas palavras. Fiquei paralisado, nem sabia como ou sequer se eu conseguiria reagir.

— Eu quis negar isso no começo, afinal você é um médico respeitável, uma pessoa de nome e fama, enquanto eu... Mas eu me sento tão feliz estando ao seu lado, passando o tempo com você. — suas palavras soavam tão verdadeiras ao mesmo tempo em que eram dolorosas. — Mas você me ignorou. Sumiu completamente. O que eu te fiz Yoongi? Só me responda!

Não houve uma resposta verbalizada por mim naquele momento. Não existia nada para falar, então resolvi apenas agir.

Quebrei os poucos passos que nos separavam e o puxei para um forte abraço. Ele pareceu relutar, agarrei seu corpo esguio com mais força, sentindo não só o aroma de seus cabelos mas também o fresco de primavera que exalava das roupas que ele usava.

Hoseok era perfeito.

E era por isso que eu o amava.

— Eu te amo, Jung Hoseok.

Outra atitude que deve tê-lo assustado tanto quanto a mim, eu não sei de onde eu tirei forças para me confessar, ainda mais da forma com que tudo aconteceu naquela noite. Seu corpo parou de tentar repelir meu abraço, seus braços prenderam sobre meus ombros, apertando ainda mais aquele contato entre nós.

Ficamos ali por tanto tempo que quando nos encaramos nossos olhos estavam inchados. Os dele por chorar de raiva, seguido por tristeza e agora, felicidade. Eu, exclusivamente só por alegria.

Seus dedos tocaram meu rosto, encostando em meus cabelos, puxando-me para um beijo. Seus lábios eram tão suaves que não consegui negar, nossas línguas se encontraram e eu só fui me cedendo cada vez mais aquele ato. O beijo era exatamente como eu enxergava Hoseok, doce, romântico, suave e acima de tudo, apaixonado.

Neste momento... eu havia dado o meu primeiro beijo.

Suas mãos encostaram sobre meu peito, senti seu toque quente tentar quebrar o contato da camisa que eu usava, todavia segurei seu pulso, finalmente quebrando nosso beijo. Nossos olhos se encontraram, estávamos arfando.

— Eu... Eu quero fazer isso com você sóbrio.

Ele pareceu compreender e sorriu para mim, ficamos naquela posição por alguns segundos até resolvermos deitarmos.

E naquela noite de fim de primavera, o seu calor voltou a derreter toda a neve que restava em mim.

☆☆☆

Depois dessa noite eu e Hoseok conversamos sobre tudo, contei das minhas inseguranças, contei-lhe sobre o meu passado e até me abri sobre meu dom e a morte de minha mãe. Inesperadamente ele acreditou em tudo, seu sorriso voltou a me aquecer, seu apoio era o que trazia alegria aos dias que se passavam, estar ao lado de Hoseok nunca foi tão gratificante desde que nos confessamos.

Infelizmente tivemos que manter as aparências defronte aos nossos colegas de trabalho. Uma das regras do ambiente de trabalho em hospitais é que relacionamentos amorosos entre os funcionários é estritamente proibido, e também, eu não consigo imaginar como eles reagiriam ao saber que logo eu estaria comprometido, ainda mais com Jung Hoseok.

Assim, mais meses se passaram. Outonos, verões, primaveras e sem mais longos invernos.

Não demorou muito para que já fizesse dois anos que estávamos juntos. A graduação de Hoseok estava muito perto, e obviamente isso o deixava mais extasiado e eufórico que o comum. Ele não falava de outra coisa além de que "espero conseguir ser um médico tão bom quanto você", e era gratificante saber que eu o inspirava, que mesmo com todo esse tempo junto ele continuava sendo o mesmo.

Já eu, não era mais o mesmo há muito tempo.

Aprendi a me socializar mais com as pessoas, apesar de ainda ser bastante na minha. Falo mais abertamente com ele sobre meu dia. E consecutivamente aprendi a amá-lo mais.

A verdade é que ele não era o único ansioso para sua formatura. Durante os últimos meses que se passaram eu estive visitando várias imobiliárias, pesquisando preços de apartamentos, eu desejava de todo meu coração construir uma vida, uma família com Hoseok. Estava mais que ansioso que o fim de sua formatura para lhe contar esse desejo. Um lugar apenas nosso, um local onde nós dois poderíamos ficar juntos sem empecilhos de estudos, residência e muito menos olhares de terceiros.

Faltava apenas dois meses para sua formatura e nós estávamos comemorando isso em um de seus restaurantes favoritos, Hoseok não falava outra coisa sem ser sobre o quanto ele adorava a comida dali e como eu também passaria a frequentar. Naquela noite de final de outono o comércio estava bem movimentado, as garçonetes andavam de lá para cá, muita conversa era trocada e todos comemoravam algo em voz alta. Hoseok me encarava com seus brilhantes olhos, contando sobre as oportunidades de começar um plantão ainda no próximo semestre, eu apenas o admirava com um sorriso bobo nos lábios, era mais que notório sua animação, até mesmo as garçonetes que vinham trazer os pedidos eram contagiadas pelo seu jeito espontâneo.

Era tudo como num lindo sonho.

E como em todo sonho... eu acordei.

Eu não soube reagir ou contar em detalhes como aconteceu, eu só lembro de algo entrar em contato com o meu rosto, me ferindo severamente. Houve um som alto de algo se estraçalhando. Um copo? Um prato? Eu nunca soube o que era.

— COMO VOCÊ SE ATREVE A SORRIR?

Meu corpo todo gelou. Mesmo que séculos tivessem se passado, eu nunca iria esquecer a voz severa e raivosa com que o tenente Min sempre se dirigiu a mim.

— COMO VOCÊ CONSEGUE SORRIR DEPOIS DE TODOS ESSES ANOS SABENDO QUE VOCÊ CAUSOU A MORTE DE SUA MÃE?

Não soube decifrar, mas parecia que o ambiente foi absorvido por um estranho silêncio. Os sons que antes ecoavam pelo salão sumiram e agora era apenas a voz imponente de meu pai que o preenchia.

Era fácil perceber que o rancor de meu pai nunca desapareceu, muito pelo contrário, só aumentou.

Eu não conseguia enxergar direito, havia tanto sangue em meus rosto que minha visão se limitava ao que estava muito próximo de mim. E a única coisa que eu conseguia ver era o braço de Hoseok em meu ombro, apesar de não conseguir ver seu rosto eu sabia que ele estava muito preocupado.

— VOCÊ! — ele gritou mais uma vez, mas desta vez não parecia ser dirigido a mim. — VOCÊ É O RESPONSÁVEL POR ESSE MONSTRO NÃO SENTIR CULPA? VOCÊ É TÃO MONSTRO QUANTO ELE! ESTA VENDO ESSE OLHO DELE! SE ELE FICAR CEGO A CULPA VAI SER SUA! PORQUE VOCÊ DEIXOU ESSE ASSASSINO ANDAR POR AI COMO SE ELE FOSSE NORMAL E ELE NUNCA SERÁ NORMAL! VOCÊ DEVERIA SENTIR VERGONHA POR ANDAR COM ELE!

Lembro de que pareceu levar muito tempo para que a polícia chegasse e conseguissem prender o meu pai, todavia, ele havia um sido um ex militar com bastante influência e jaz a isso, conseguiu se safar das alegações mesmo com diversas testemunhas.

Descobri que aquele machucado foi muito pior do que parecia, meu olho esquerdo foi severamente danificado e agora eu tinha apenas 20% de visão nessa córnea. Isso passou a influenciar muito no meu trabalho, já que agora devido a essa deficiência eu poderia cometer mais erros do que o normal para um médico em boas condições.

Quanto a Hoseok...

Ele adoeceu.

O tenente Min tinha um estranho poder sobre as pessoas, suas palavras carregadas de ódio conseguiram de alguma forma quebrar toda a defesa altruísta e gentil de meu amado Hoseok, e ele ficou tão mal depois daquele acontecimento.

Hoseok entrou em uma depressão tão profunda.

Ele se martirizava sobre aquele dia em todos os detalhes. Ele se culpou pelo meu machucado. Ele se culpou por ter querido sair naquele dia. Ele se culpou por escolher aquele restaurante. Ele se culpou pelo meu pai ter aparecido. Ele se culpou por eu ter que ouvir aquelas palavras duras. E ele se culpou por eu não conseguir manter o padrão de medicina que eu sempre mantive.

Soube por terceiros que Hoseok pediu uma licença para se afastar do hospital, alegando transtornos mentais. Se fosse só o trabalho eu compreenderia, só que ele não saía mais de casa, Hoseok não respondia as ligações de ninguém, nem de Namjoon, nem de seus pais e muito menos as minhas.

Era difícil imaginar que uma pessoas que me aqueceu, que sempre trouxe alegria por onde passava, que mostrou que a primavera existia, que sempre esteve ali para todos os seus amigos agora estava se atormentando por algo que ele nem sequer era culpado.

Passei a tentar visitá-lo, todos os dias, mas ele se recusava a me ver. Seus colegas de apartamento me contaram em mensagens e através do interfone que Hoseok não saía de seu quarto, nem pra comer.

Eu fiquei ainda mais preocupado quando se aproximava não só de sua formatura como também de suas provas finais. Se ele não melhorasse haveria grandes chances dele reprovar, e eu não suportaria ver todo o seu esforço sendo jogado fora por alguém que nem merecia ter empatia.

Estava desesperado. Não sabia mais o que fazer e muito menos o que pensar. Tudo o que eu mais queria era salvar aquele que um dia me salvou.

Dizem que medidas extremas exigem ações extremas.

Não sei como ou de onde me veio a coragem para voltar aquele casa depois de quase cinco anos. A fechadura ainda era a mesma, minha antiga chave abriu aquela porta, fazendo-me ver a grande sala onde eu ali havia ceifado as memórias de tantas pessoas. E naquele mesmo sofá, sentado estava meu pai, uma garrafa de uísque velho estava sob a mesa de centro, seus olhos se ergueram e ele sorriu ao me ver.

— O filho pródigo retorna.

— Hoseok...

— Hm... — resmungou de desinteresse.

— Hoseok não quer mais viver depois das palavras que você desferiu a ele... Você usou essa sua truculência para ceifar a inocência de uma pessoa que eu amo... Você sabe sobre esse poder que tem sobre as pessoas? Você sabe o quanto suas palavras as machucam?

— Eu não falei nenhuma mentira! — ele elevou a voz, batendo o copo de vidro na mesa, com tanta força que o rachou na borda. — Você assassinou sua mãe, você me desobedeceu, você foi um ingrato! Se tivesse feito o que eu mandasse ela estaria viva, você estaria nessa casa e tudo seria como deveria ter sido!

— Deveria ter sido? — sussurrei com raiva, fechando os punhos, sentindo o metal da chave machucar levemente a palma de minha mão. — Você apenas me usou! — gritei em plenos pulmões. — Você acha que eu não sei que pra você eu nunca fui nada além de um mero fantoche? Você me usou para ser o que você queria. Usou meu dom para extorquir dinheiro de pessoas inocentes. Me usou apenas para seus fins mesquinhos.

— E você nunca retrucou isso Yoongi! — exclamou em retorno. — Você viveu uma vida mansa graças as minhas custas, você só é o que é por minha causa!

— Engano seu, pai! Eu sou o que sou por meus méritos. Se dependesse de você eu estaria nessa casa definhando até os fins de meus dias, não é mesmo? Apagando as memórias de outras pessoas, com você me manipulando a minha vida inteira! — eu gritava de raiva.

Percebi que apesar dele também estar com raiva seu olhar ainda era triunfante, como se tudo o que eu tivesse falado não o afetasse.

Entretanto, eu sabia que existia algo que o afetava. E eu tive que voltar a ser muito frio para falar sobre esse assunto sem mágoas.

— Você apenas me domou a minha inteira, igual fez com a mamãe mãe...

Pude notar que seu olhar exasperou-se, ele finalmente largou o copo de uísque, o colocando na mesa de centro com uma calma que era perceptível que não passar de fingimento.

— Cale a boca. — disse entredentes.

— Você sabia que ela pediu para eu apagar as memórias delas antes dela morrer?

— Cale a boca.

— Sabe porque ela pediu isso?

Aquilo também me afetava, mas eu não podia voltar atrás agora, meu pai precisava ouvir, receber de volta as palavras duras e as verdades que ele sempre ocultou em sua mente.

— Eu falei...

— Porque ela preferia morrer sem as recordações do porco que você é!

— PARA CALAR A BOCA!

Meu pai avançou para cima de mim, foi tão inesperado que nós dois caímos no chão, senti o atrito de minhas costas na madeira maciça, suas mãos fortes tentavam segurar meu pescoço, ao ver que isso não estava sendo possível tentou me desferir um soco, mas consegui agarrar seu pulso o impedindo de realizar tal ato. Usando uma força que nem eu mesmo sabia que tinha eu consegui inverter nossas posições. Agora eram as minhas mãos que estavam ao redor de seu pescoço, e eu, sendo consumido pela raiva apertava sua traqueia com uma violência absurda.

— Por quê...? — falou ofegante.

Minha consciência retornou. Percebi o que eu estava fazendo, soltei as mãos do pescoço de meu pau, ergui-me rapidamente do chão observando-o, tossindo. Recuperando o ar.

— Você tem noção do quão sozinho eu fiquei esses anos? Você tem noção do que eu passei? — seus olhos começaram a lacrimejar, eu só não sabia decifrar se era de tristeza ou raiva. — Porque você apaga minha memória de uma vez? Assim eu evito de pensar nisso todos os dias.

Algo despertou em minha cabeça. Eu havia prometido não apagar as memórias de ninguém, todavia, se Hoseok permitisse eu poderia fazê-lo esquecer de todos os momentos que se seguiram aquele dia. E quem sabe ele poderia voltar a sorrir...

— Vá em frente! — a voz de meu pai tirou-me de meus pensamentos. — Apague minha memória como você fez com sua mãe!

Meu pai parecia tão pequeno naquele momento. Era como se naquele único instante ele não fosse o tenente Min, a pessoa mais autoritária que eu tive o desprazer de conhecer. Ali, ele era o triste e sozinho senhor Min.

— Não.

Ele me encarou, seus olhos estavam marejados, vermelhos, começara a chorar.

— Você vai passar o resto da sua vida com essas suas memórias, se atormentando nelas, você vai passar o resto de sua vida sozinho... meu pai — falei, pela primeira vez de uma forma autoritária copiando seu tom severo e sem remorço. Ajeitei minhas roupas e indo até a porta.

— Você não pode fazer isso comigo!

Parei, encarando-o uma última vez. Peguei as chaves antigas de casa do bolso, joguei no chão e o encarei uma última vez.

— Você fez isso com você.

☆☆☆

Fui correndo ao apartamento de Hoseok, não sei alegar se foi por sorte ou destino, cheguei na frente da porta de seu andar quando dois de seus colegas de quarto saiam de lá. Kim Seok-Jin e Jeon Jung-Kook se entreolharam, em meus olhos era claro que eu estava mais que determinado a entrar naquele local e arrancar de seu quarto Hoseok custe o que custasse.

Os dois cochicharam entre si antes de se dirigem até mim:

— Você pode salvá-lo?

— Eu não tenho certeza... Mas se ele permitir, eu quero tentar.

Mais uma vez eles se encararam e como se lessem os pensamentos um do outro deram passagem para que eu entrasse.

Ironicamente, só estive naquele apartamento duas vezes nesses anos em que conheci Hoseok, apesar de ser um local pequeno, tal qual as republicas de estudantes são, existiam diversas portas e eu não sabia qual destas era de seu quarto, até em uma existia uma pequena placa de madeira "aqui dorme o príncipe", brega, mas combinava perfeitamente Hoseok e com certeza ali era o seu quarto.

Encostei na maçaneta e para minha surpresa a porta estava destrancada. Ali dentro a escuridão era eminente, as janelas estavam fechadas, e apesar de ser meio de tarde não existia nenhuma brecha pra claridade desse verão. Tive problemas para encontrar o interruptor, mas assim o achei e o cômodo se iluminou, encontrei Hoseok com a cabeça sob seus joelhos, ele estava encolhido no canto da cama. Dei um único passo, fazendo com que meu pé fizesse um baque surdo no chão de madeira, Hoseok ergueu sua mão, num gesto para que eu ficasse parado.

— Eu sei que é você Yoongi. — sua voz era baixa e sem ânimo. — E eu não quero ver você... Não quero... que você me veja. Não assim... — ele falou tudo isso sem nem levantar seu rosto.

— Hoseok... Você não quer esquecer isso?

Seus olhos finalmente encontraram os meus. Meu Deus, eu sentia meu coração partir só de vê-lo dessa forma.

Sinceramente, não sei de onde eu tirei coragem para lhe sugerir isso (Hoseok sempre foi meu confidente quando lhe contei das memórias que destruí de outras pessoas e como fingi durante anos que aquilo não me afetava, claramente me afetando). Todavia, eu não podia permitir que a pessoa que eu mais amava se consumisse em dor, ainda mais daquela forma.

— Você falou que...

— Eu sei... Mas é por você. Eu não... Não suporto te ver assim...

Nós começamos a chorar.

Deus, eu o amava demais.

Hoseok beijou a palma de minhas mãos, me encarando com seus olhos vermelhos, regido sob as enormes olheiras, sussurrando um "estou pronto".

Pedi para que ele fechasse os olho e se concentrasse nas memórias daquele dia, em todas as palavras tristes e pesadas que meu pai lhe falou e que também se concentrasse nas dores que seguirem os dias até agora.

Hoseok assim como eu se debulhava em lágrimas a cada palavra e a cada lembrança que ainda estava fresca na sua memória e na minha.

Eu não me recordo exatamente do que aconteceu, lembro de no exato momento em que fui sequer as lágrimas de meus olhos ainda com a outra mão sob os seus, nós dois desmaiamos.

☆☆☆

A grande universidade de Seul estava em festa, muitos estudantes com suas becas impecáveis e os diplomas em mãos corriam de lá para cá encontrando seus familiares, amigos, ente-queridos e namorados. A turma de medicina havia se formado com grande honras naquele ano.

Uma figura alta erguia seu pescoço, rodando pelas diversas pessoas, procurando com seu olhar uma figura em especial. E não foi nenhuma surpresa que quem ele mais esperava pulou sobre suas costas, fazendo com que os dessem uma gargalhada divertida. Yoongi observava o amado Hoseok dar uma volta, exibindo a beca e depois exibir um tubo pequeno onde ali dentro estava seu tão sonhado e aguardado diploma de medicina.

— Aposto que vai ser um médico tão bom quanto um tal de Min Yoongi. — brincou.

— Dizem que esse aí é um dos melhores, vou precisar me esforçar para chegar aos pés dele. — brincou em resposta.

Era óbvio que os dois adorariam ter um contato mais íntimo, só que em público eles precisavam manter as aparências.

Em um gesto calmo Yoongi tirou de dentro do paletó que usava uma caixinha de veludo, que obviamente surpreendeu Hoseok que deu dois passos para trás. O sorriso de Yoongi era de orelha a orelha, abrindo a caixinha, revelando ali uma única e pequena chave, e pela cara de interrogação no rosto de Hoseok ele notou que o outro não perceberá.

— Jung Hoseok, você aceita morar comigo?

Hoseok ficou boquiaberto, e dando as favas com as aparências e com as pessoas ao redor se jogou nos braços de seu amado Yoongi, beijando-lhe num misto de volúpia, felicidade e acima de tudo, amor.

O beijo foi claramente correspondido.

E ali, ambos começaram o primeiro passo para uma nova vida, não se recordando dos antigos inversos que passaram, porque para frente, só seria primavera.

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