Notas iniciais
Espero que gostem, logo logo atualizo. Boa leitura.

Emma

Eu e os Lobos chegamos naquela pousada meia-boca era por volta das quatro e meia da tarde e o bar já estava aberto. O estabelecimento não era lá as cinco estrelas, mas não vou negar que já ficamos em lugares piores, acredito que aquilo é um haras reformado com banheiros improvisados, haviam camas de casal estreitas espalhadas por onde deveriam ser as baias e uma enorme porta de madeira estilo celeiro se dava como entrada principal. Logo ao lado se encontrava uma igreja já fechada. Do outro estava o bar, este tinha uma casa logo atrás com uma cerca supostamente para animais, imagino ser onde o dono daqui mora. Tudo muito simples, claro. Mas o ar de interior e de histórias antigas era o suficiente para me encantar.

Deitei com o intuito de descansar meia hora, mas acabei perdendo a noção do tempo e quando acordei o céu já havia escurecido e estava pintado de nuvens esparsas e uma lua cheia gritante entrando pela janela aberta do “quarto”. Escutei as risadas altas no bar e presumi que eles já estavam bebendo fazia tempo. Passei as mãos nos meus braços arrepiados do frio, já que quando dormi estava muito calor e deitei sem blusa. Me vesti com qualquer regata branca que encontrei, uma calça jeans e bota de couro preto, peguei minha escova de dentes e fui rumo ao banheiro. Depois de lavar meu rosto amaçado e checar meus dentes, passei a mão no cabelo e voltei para onde eu estava dormindo, retocando o perfume forte e colocando minha jaqueta.

Tirei meu cigarro de palha junto ao isqueiro da calça já usada, acendi rápido e me direcionei ao bar. Abri a porta sem muita atenção e procurei pela única mesa com gente e bebida no lugar, além de uma moça sentada de costas no balcão. Cumprimentei meus garotos e sentei em um dos lugares vagos, tomando um gole direto da garrafa quente.

Oh Leo, arruma um desses pra mim, aponto para o copo com gelo e o vejo assoviando com os dedos por entre a barba volumosa, meu Deus eu amo essa música

Coloquei só porque você chegou mana, Rafael levanta o celular conectado ao som mostrando o nome “Blues do Velcro” estampado no visor e eu tiro o cigarro dos dentes para mandar um beijo manso e uma piscadela para o loiro enquanto bebo no copo que Leo encheu para mim

Rafinha, seu celular ta no wifi daqui? pergunto já tirando o meu aparelho do bolso da jaqueta, ele assente com a cabeça, passa aí então

Gustavo, chamo o moreno do meu lado, qual é a daquela moça ali? aponto para uma morena de roupa executiva sentada no balcão

Quem vai descobrir é você lobinha, não eu, ele me lança um sorriso cafajeste e eu dou risada analisando a mulher

Tem cara de truqueira disfarçada, o que acha? o cigarro de palha permanecia entre meus dentes, mesmo já apagado

Emma, todo mundo aqui é truqueiro, tamo na terra do seu pai

Que que tem eu aí? papai grita

Nada não velhinho, pode ficar na paz que a orelha não esquenta, levanto o copo e sorrio para ele, vou esperar a menina sair dali e dou meu jeito, Gustavo solta uma risada e pisco acendendo a palha entre meus dentes

Você não toma jeito mesmo

Prestando atenção, percebo que a morena já havia virado algumas boas doses e espero a oportunidade certa. Vejo a menina saindo pelo fundo e assim que a porta se fecha atrás dela, mando Victor preparar a mesa de truco. Levanto e chego fazendo barulho atrás da moça sentada

Não tem ninguém aqui não?! bato fraco com a mão direita no balcão enquanto murmuro, chamando atenção

Ela só foi ao banheiro, a morena de cabelos curtos e olhos expressivos se volta para mim sem dar muita moral

Porra, preciso da senha do wifi, minto sem muito sucesso, animada ein? viro meu corpo em sua direção

Acho que hoje eu to, sorrio e me aproximo um pouco mais, mas ela se afasta

Já que é só hoje, bora jogar um truco ali com o pessoal

Truco? percebo que acertei

Com essa carinha aí, certeza que joga, ela me lança um sorriso sem precedentes, vamo lá, a não ser que esteja chapada o suficiente para não jogar

Eu nunca estou chapada o suficiente para não jogar truco, com quem eu jogo?

Pode escolher, aponto para a mesa lançando um sorriso cafajeste, pode apostar nesses fracassados ou ganhar comigo, os meninos começam a zoar e Gustavo me olha desconfiado

Sabe sinal de mão?

Sei tudo que você quiser, querida, volto para a mesa enquanto retorno o cigarro para minha boca, me sentando, apontando o banco vazio para ela, o baralho é meu

A primeira partida vai para mão de ouro e a gente faz a primeira jogada com um 3 da minha parceira em cima de dois 2 adversários, na segunda ela joga valete e Gustavo vem com um 2, ela fala para eu apertar

Certeza parceira? Acho arriscado

Só confia, responde séria

É melhor você ter duas manilhas na manga padrinho, jogo meu sete ouros na mesa e ele vem com o zap desapontado, tornando um ais para a terceira

Duvido você subir nesse três Gustavo, a morena manda a carta na mesa

Subir eu não subo não, ele volta um três

Pena que a primeira é nossa, grito socando a mesa e batendo na mão da morena

Gustavo e Leo saem da mesa xingando alto dando lugar pra David e Rafael, que sentam confiantes, mas dessa vez foi nossa vez de sair, perdendo de dez para meu irmão e pai. Em meio ao jogo, a moça acabou bebendo mais um pouco, assim como eu.

Anima ir fumar lá de fora? aponto para o maço no bolso da calça dela e ela assente me seguindo pela porta lateral do banheiro

Que alívio um pouco de silêncio, escuto seu suspiro

Quer sentar em algum lugar? acendo meu cigarro e o dela

Pode ser, tem uns bancos atrás da igreja, ela sai na frente dessa vez

Cada passo que ela dava, seu corpo executava um movimento perfeito fazendo sua cintura rebolar enquanto a fumaça de seu cigarro deixava um rastro até mim. Mordo meu lábio inferior com aquela visão e distraio tanto que quase não vejo ela parando em frente a alguns bancos. Se senta calada, me tirando do transe acentuado pela bebida. Sento-me no banco em frente a ela e enquanto ela encara o céu, eu encaro sua boca.

Achei que um lobo iria preferir olhar a lua, fala sem me dirigir o olhar, me fazendo engolir em seco quando cruza suas pernas de maneira provocante

Parece que alguém é observadora, retomo minha concentração, capturando sua atenção, a encarando firme nos olhos e trago meu cigarro

Me lança um sorriso perigoso e eu percebo uma cicatriz iluminada pela lua no canto superior dos seus lábios, ela descruza as pernas sem pressa e vem lentamente em minha direção, se abaixando no meu ouvido direito, o que faz arrepiar meus pelos da nuca.

Você não tem noção do quanto, o sussurro sai num tom rouco e ela se levanta, virando de costas e contornando o banco que eu estava sentada, se encostando na parte de traz do mesmo enquanto fita o céu sem estrelas e a fumaça de dispersa em cima de sua cabeça.

Eu não sei se era a lua cheia ou a quantidade de álcool passeando pelas minhas veias, mas por alguns momentos eu me perdi em meio a respiração pesada da morena e meu coração batendo forte demais para ser ignorado. Dava pra jurar que ela estava brilhando mais do que o céu.

Quem é você?

Notas finais
Me avisem se acharem erros ortográficos. Obrigada por estar acompanhando. Feliz 2018