O que é um talento?

1 Um ato a ser julgado


Notas iniciais
Tentei fazer um diálogo com aspas para expandir mais as coisas que já consigo colocar em meus textos. Li algumas coisas para diálogos desse tipo, mas talvez eu tenha errado alguma pontuação então, por favor, me avisem.
Se você não gosta de textos do gênero melancólico e subjetivo, sugiro nem ler -q
Obrigada!

Sou jovem o suficiente para classificar-me do jeito que penso. Às vezes julgo-me experiente no que faço, ou apenas sou mais um nesse simples cargo. Deixa-me feliz quando recebo dúvidas sobre minhas artes, as melhoras perguntas são formadas pela curiosidade, e não do modo de acumular informações intelectuais. Infelizmente, não é sempre que consigo tudo isso que quero, mas quando acontece, recebo com toda a felicidade de dentro de mim. Não sou um velho para ficar dando sermões e lições de vida para poder explicar e mostrar o quão feliz estou pelo o que faço, pois é muito pelo contrário, mas jogar a verdade na cara dura nem sempre é a primeira opção.

Minha mente é mais velha que minha própria idade, nela carrego tantos sentimentos que não sei quais são do presente e do passado, me confundo no momento da felicidade e tristeza, pois não sei se estou sendo rancoroso. É uma droga, na verdade, uma doença. Se eu pudesse furar minha cabeça para esvazia-la, assim teria feito.

Escrevo isto como qualquer iludido escreveria em seu diário antes de dormir, mas vejam tudo que está aqui de uma forma informal. Hoje houve uma exposição qualquer para o público, uma forma de entretenimento barata. Recebi uma ligação para expor três ou quatro dos meus melhores quadros que haviam restado em casa. O pagamento, um valor ridículo de baixo. Como não iria me custar nada para apenas dar os quadros por uns dias, resolvi aceitar, visto que alguém poderia ver e se interessar, e com esse dinheiro poderia fazer umas apostas nos jogos de cartas com amigos.

Não perguntei o número de visitantes e como andou a exposição nos quatro dias em que estava aberto ao público. Quando deu o prazo, bem no final do último dia do evento, fui até lá para buscar meus quadros. Não recebi ligações e nenhum e-mail de interessados, provavelmente ninguém se quer leu o nome do criador das pinturas. Foi apenas qualquer alguém, no caso. Quando estava juntando cada um em uma caixa, pronto para ajeitar o último e já ir para o caro, uma garota chegou perto de mim. Ela estava sozinha, aparentava ter dez ou onze anos, mesmo que pelo seu tamanho aparentava ter menos. Apenas chutei sua idade pela voz e palavras que sabia encaixar em suas frases ditas.

“Moço.” ela disse cutucando meu ombro. Estava agachado, pude vê-la perfeitamente em minha frente. “Por que o senhor está levando essas pinturas? São tão bonitas, você não pode leva-las...”

“São minhas.” dei um sorriso forçado.

“Por que são suas? Posso dizer que são minhas também só porque gostei?” ela cruzou os braços um pouco revoltada com minha resposta.

“Eu que pintei esses quadros, por isso são meus.” sorri mais gentilmente. “Quando você criar algo, então isso também será seu.”

“Oh, então você é o artista!” ela tornou-se surpresa, pronunciando suas palavras em um tom de entusiasmo. “Que belos quadros, moço. Não sabia que eram seus! Desculpe-me.”

“Não há de se desculpar. Agradeço seu elogio, fico muito feliz em saber que alguém gostou deles. A exposição em todo foi boa?” olhei diretamente para ela, tentando me socializar mais.

“Foi sim! Esses quadros foram os melhores, tenho certeza que muita gente gostou, assim como eu.” ela olhou para dentro da caixa disfarçadamente.

Aquela garota parecia ser inteligente e um tanto curiosa, foi esse o principal motivo de já não ter virado as costas de uma vez e a ignorado. O principal fato de estar escrevendo isto não é porque gostei daquela garotinha, ou porque havia recebido um elogio, não sou do tipo que derrete de amores quando recebe um elogio e já acha que isso motivará para um futuro melhor. Minha ilusão tem seus limites, sinceramente essas coisas entram e saem da cabeça rápido.

“Ei, você”, a voz da garota ressurgiu do silêncio e interrompeu meus passos, “como é ter um talento tão belo?”

Meu corpo virou-se rapidamente e olhei surpreso para ela. Foi como se havia acabado de escutar a pergunta mais construtiva de todas. Nós interpretamos uma pergunta inteligente quando não sabemos responder, então fingimos que entendemos. No primeiro minuto ia lançar apenas qualquer adjetivo como resposta, mas meus lábios pararam e minha língua travou. Isso cravou meu coração. Nunca achei nada belo.

“Um... Talento? O meu, você diz? Para que exatamente refere-se?” avancei um pouco para frente.

“Ao ato de pintar. Você mistura as cores, cria, forma figuras, combina a paisagem com cada detalhe mínimo, isso chama talento. Você é feliz assim? Visto que nasceu diferente.”

“Infelizmente, não. Tudo o que eu faço outro alguém pode fazer, talvez sendo mais perfeccionista. Talvez isso não seja um talento e ou dom. Se você treinar poderá pintar o que eu pinto, que tal?” sorri de lado.

“É talento sim, moço. Fico muito tempo olhando para sua obra e não só porque a figura ou as cores me chamaram atenção, mas porque eu vejo para tentar entender. Você coloca mais uma coisa nelas, né?” ela se aproximou de mim. “Quando escuto uma música, também penso nela. Quando leio alguma coisa... Também penso. A beleza está no ato de pensar e imaginar, não há talento mais puro que isso.”

Olhei-a de relance, mudando minhas expressões. Franzi as sobrancelhas e respirei um tanto de oxigênio para tirar a dúvida pesada do meu peito. Foi algo surpreendente que ouvi e nunca imaginei que iria vir de alguém jovem, que mal conhece o mundo. Exato, ela mal conhece o mundo. Não conheceu ainda o jeito podre que somos deixados aqui, então a lógica ainda contorna a mente dela um tanto subjetiva.

Fiquei minutos em silêncio, repensando. Acho que um clarão veio em minha mente, porém ela poderia me corrigir. Não existia superioridade nas suas palavras, e nem egocentrismo.

“Você enxerga minhas obras, e não apenas vê? Isso é ótimo, sabia? O toque que coloco pode ser chamado de vários nomes; sentimento, pessimismo, rancor, ódio. O nome não importa, não preciso dar nome naquilo que espero vir da criatividade. Cada mente é diferente, cada coração sente de um modo. Que nome você daria?”

“Tragédia, talvez. Mas, se um próprio criador não gosta do que faz, então o que ele considera talento?”

Sorri ao perceber que ela tinha entendido o jeito horrível de um ser humano. Infelizmente, não gostava do que fazia.

“Um talento significa sentir e pensar de formas variadas. Seria inventar sentimentos, sentir algo surreal e conseguir transmitir. Por isso, é algo infeliz. Para criar, você tem que se machucar, porque o belo só vem das coisas profundas e não há nada mais complexo do que o ódio e a tristeza. Seria como criar algo não material e depois jogar tudo da sua cabeça para fora. Depois vem o costume e se torna impossível saber se você está inventando a tristeza para as obras ou para sua vida” terminei em um suspiro e engoli um seco na minha garganta, estava um tanto desesperado por ter dito aquilo para uma simples criança.

Ela sorriu e andou até mim, e surpreendentemente, abraçou minha cintura.

“Eu só estava brincando, moço. Sei muito bem como tudo isso é difícil. A gente sente com o coração e não com a mente, por isso tudo se torna um peso. Já entendi tudo o que disse na primeira vez que olhei suas obras! Dizem que a obra é a entrada para o coração do criador.” ela levantou a cabeça e me fitou nos olhos como se quisesse me abrir e conhecer minha alma.

Com uma mão livre, passei-a em seus cabelos, porém um pouco depois ela me soltou, mas não tirou o sorriso do rosto. O final não é importante, fui embora nesse mesmo momento e me despedi da minha jovem fã. Prometi que algum outro dia iria pintar um quadro novo bem bonito e expor novamente. Ela se animou e falou que com certeza seria a primeira a ver.

De um lado, nada é fácil de criar. As obras de arte, mesmo música ou pinturas, são difíceis de fazer. A arte e o talento, tanto do criador como do telespectador, é muito perfeita. Ela tem o dom de unir pessoas que aparentemente são tão diferentes e que a sociedade deve haver julgamentos de pré-conceito. Porém, o modo de unir a mente e coração é ainda mais belo do que uni-los um de cada vez. Todos nós somos talentosos.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!