O príncipe perdido

12 Capítulo 12 – A conversa por detrás da porta


Depois de um bom banho quente, roupas limpas e uma refeição completa, a Rainha nos deixou com o resto da tarde livre de treinamentos. Havia sido suficiente para “guerreiros principiantes”, como ela havia nos chamado.

Ela permitiu que nós fizéssemos o que queríamos. Bondino, claro, foi dormir. Era a atividade preferida dele. Eu e Matthew decidimos dar uma volta pelo castelo. Não havia muito que fazer por lá.

Enquanto andávamos reparei no quanto Matthew estava sorridente. Todo seu mau humor daquela manhã parecia ter ido embora.

– Por que está sorrindo tanto? – perguntei.

– E-eu não sei. Só não consigo parar de sorrir! Você viu aquilo que eu fiz com a espada? Não foi o máximo?

– Sim, foi bem legal... – falei um pouco desapontada, me lembrando do desastre que eu havia sido.

– Legal? Aquilo foi incrível! Eu nem acredito que era eu fazendo aquilo! – Ele falou se empolgando ainda mais.

– Está bom Matthew, mas será que dá pra parar de tacar na minha cara o quão incrível você é? – gritei e sai andando para longe dele.

Eu estava irritada, mas me arrependi muito mais tarde por ter gritado com ele daquele jeito. A culpa não era dele se ele era ótimo e eu era um fiasco. Ele havia nascido sendo bom com a espada e eu devia ficar feliz por ele!

Enquanto andava, tentando me afastar de Matthew, vi um garoto de costas. O cabelo laranja e curto me fez saber na hora quem era.

– Jake? – chamei, mas ele não escutou. Estava longe demais.

Ele andava depressa. Pela sua expressão e suas mãos tensas, fechadas tão forte que suas veias saltavam da pele, era óbvio de que não estava indo receber boas notícias.

Decidi segui-lo. Eu sei que é errado invadir a privacidade das pessoas, mas eu estava extremamente curiosa para saber o que deixava um tenente como ele tão tenso.

Ele passou por umas cinco ou seis portas até chegar à última porta do corredor. Esta estava trancada e de pendurada nela estava um placa escrito “Escritório Real”.

Jake bateu na porta.

– Quem é? – ouvi a voz de Claire vindo do outro lado da porta.

– Sou eu, Jake, vossa Majestade.

– Entre! A porta está aberta.

Jake entrou e fechou a porta atrás de si.

Corri até lá e coloquei meu ouvido sobre ela. Queria muito saber o que Claire iria dizer à ele.

– Sente-se querido. – ouvi a voz dela.

O barulho da cadeira sendo arrastada era alto e claro, porém Jake nada disse.

– Strech veio me contar o que você e Sarah fizeram...

– E-e-e-eu posso explicar minha Senhora!

– Por que fizeram isso? Eu simplesmente não entendo...

Isso o quê?, pensei comigo mesma.

– Majestade, o que foi exatamente o que Strech lhe disse?

– Ele me disse que vocês andam chantageando os outros tenentes. Dizendo que vão contar seus “segredos” para os outros, ou que vão ferir a família de algum deles... Eu só não entendo o por que...

– Então ele não te contou tudo, não foi Majestade?

– Bom, isso foi o que ele me dis...

– Rainha Claire, eu e Sarah ameaçamos os outros tenentes para que recusassem a sua oferta de treinar os guerreiros da profecia. Nós queríamos nos destacar e mostrar para a Senhora do que nós somos capazes!

– Mas vocês são tão...

– Jovens! Sim, estão sempre nos dizendo isso! Mas vocês no subestimam por causa da nossa idade! Podemos mostrar para vocês que somos os melhores no que fazemos!

A Rainha suspirou.

– Eu sei que são bons! Mas são novos demais para perder a vida inteira indo para a guerra!

– Claire, nós já temos dezenove anos! Os reis Edmundo e Pedro e as rainhas Susana e Lúcia não eram crianças e adolescentes quando começaram a governar este Reino?

– É o que diz a lenda, Jake... Mas me diga, porque você se importa tanto assim com a guerra? Por que quer tanto assim lutar? Poderia ser um simples plebeu, sem ter preocupações além de encontrar alguém para amar e ter uma família, simples e feliz!

– Eu quero proteger o meu país, Majestade! É o meu dever, eu nasci para isso!

Pude ouvir outro suspiro.

– Você tem paixão demais por esse estúpido pedaço de terra! Devia ter mais amor por Aslam! Deixe que ele conduza sua vida meu jovem!

– Aslam! – Jake bufou. – Há quanto tempo que ele não aparece? Cem? Talvez duzentos anos? Não há pessoas vivas para contar quando foi à última vez que ele apareceu! Apenas histórias e mais histórias...

– Ele apareceu para mim quando eu era criança, Jake!

– Esta sua história outra vez... Já não lhe disseram que estava delirando quando você era mais nova?

– Jake, não falte com respeito comigo! Sou sua amiga, mas também não se esqueça de que sou sua Rainha e de que mereço o devido respeito!

– Perdão Majestade, eu só estava tentando ser lógico! Se me permite sair... Eu não quero mais discutir com você e agora que já sabe o por que de que nós fizemos aquilo...

– Tem a minha permissão. Mas escute, o que eu digo Jake! Você tem que deixar Aslam entrar em sua vida! Mesmo que ele não esteja fisicamente presente, eu sei que a alma dele está em toda parte... Foi o que ele me disse quando me encon...

Ouvi passos vindos do corredor e saí de trás da porta para me esconder atrás de alguma pilastra.

De uma das várias portas, pude ver um garoto saindo dela. Era alto e moreno, os olhos cinzas bem como o céu estava naquela manhã. Nunca o havia visto antes no castelo.

Jake também saia da sala da Rainha no mesmo momento.

– Jake? – perguntou o menino com certa alegria em seu tom de voz.

– Pensei que fosse meu amigo Strech! – disse Jake parando em frente a ele.

– E eu sou! Por que diz isso cabeça vermelha?

– Não se faça de tonto, seu idiota! Você me dedurou para a Rainha!

– Eu não chamaria de dedurar! Eu estava preocupado com o comportamento violento que você anda apresentando.

– É claro que estava... Aliás, como foi que você descobriu o que eu e Sarah estávamos fazendo? – perguntou Jake empurrando o garoto contra a parede. – Anda nos espionando?

– E-e-eu...

Jake levantou o punho para lhe dar um belo soco na cara, mas eu não podia deixar que acontecesse... Não parecia certo que Jake batesse no garoto assim.

– Para! – gritei, saindo de trás da pilastra.

Jake olhou na minha direção, ainda com o punho levantado para Strech.

– Mikayla? – ele perguntou confuso. – O que está fazendo aqui?

– Eu estava passando por aqui agora e vi você quase socando este pobre coitado. – menti, com medo de que Jake ficasse ressentido por eu estar “espiando” ele e acabasse descontando no meu treinamento.

– Mikayla, saia daqui, isso não é assunto da sua conta.

– Eu sei que não devo me intrometer, mas você não vai bater nesse menino! Não na minha frente!

Jake soltou o garoto e abaixou o punho. Ele estava extremamente parecido com os valentões da minha escola naquele momento.

– Hoje foi seu dia de sorte Strech... – ele disse e saiu andando.

– Você está bem? – perguntei ao garoto.

– Sim, estou... – ele disse esfregando as mãos aonde Jake o havia empurrado.- Obrigado.

– Não foi nada... Jake não tem o direito de sair batendo nas pessoas assim!

– Mas ele é sempre assim... Estamos acostumados à isso... Afinal, qual seu nome? Mikayla? Foi isso que Jake disse?

– Sim, Mikayla. Muito prazer... Strech, não é? – eu disse estendendo as mãos e em troca recebi algo que não esperava.

Strech beijou a parte de cima da minha mão.

– Muito prazer, Mikayla. – ele disse sorrindo. – Agora se não se importa, tenho que ir. Espero te encontrar mais vezes por aí.